O marxismo de Juan B. Justo

Médico, jornalista, político e escritor militante, foi o primeiro tradutor direto do clássico O capital de Marx ao espanhol, fundou o Partido Socialista Argentino e se destacou como defensor do cooperativismo e do movimento operário argentino Por Yodenis Guirola [Tradução: Yuri Martins-Fontes L. e Renato César Ferreira Fernandes] JUSTO, Juan Bautista (argentino; Buenos Aires, 1865 — Los Cardales/Argentina, 1928) 1 – Vida e práxis política Juan Bautista Justo nasceu na capital argentina, filho de pais de classe média que se dedicavam a trabalhos agrícolas. Sua mãe, Aurora Castro, tinha ascendência mestiça, e seu pai, Juan Felipe Justo, era descendente de genoveses. Inicialmente, sua família desfrutava de certo conforto econômico, o que depois se deterioraria. Sua educação inicial se deu em sua cidade natal, primeiro em uma escola particular, e logo, entre 1877 e 1881, no Colegio Nacional. Em 1882 começou seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidad de Buenos Aires, e paralelamente trabalhou como jornalista no diário La Prensa, o que contribuiu para financiar a universidade. A partir do quarto ano do curso de medicina, fez residência no Hospital de Clínicas. Em 1888, formou-se em Medicina, obtendo seu título com honras – sendo seu trabalho de conclusão sobre aneurismas arteriais cirúrgicos. Após graduar-se, viajou para a Europa, onde continuou sua formação clínica em Paris, Berna e Viena. Ao retornar, em 1889, trabalhou no Hospital de Crónicos de Buenos Aires, no qual foi nomeado chefe de cirurgia. Em 1890, como cirurgião, aplicou com sucesso o método da ressecção osteoplástica do crânio, sendo reconhecido e designado como presidente do Círculo Médico Argentino. No âmbito militante, junto com Germán Avé Lallemant (agrimensor e marxista alemão-argentino), convocou a celebração do Primeiro de Maio. Também neste ano, incorporou-se à Unión Cívica de la Juventud, na qual militou brevemente, e atendeu a feridos do Parque de Artillería, no contexto da Revolução de 18901. Em 1892, paralelamente às suas funções como médico, Justo colaborou com o periódico El Obrero, de orientação marxista; e em 1893, meses após a refundação da Agrupación Socialista, Justo aderiu à organização2, tendo desempenhado um papel relevante em seu desenvolvimento. Em agosto deste mesmo ano Justo compareceu a uma reunião em Buenos Aires convocada pelo jornal La Prensa para discutir a formação de uma federação política e a criação de um jornal que defendesse os interesses da classe trabalhadora. A partir desta reunião, comprometeu-se com a elaboração de um órgão de imprensa – um “jornal socialista científico defensor da classe trabalhadora”. Em abril de 1894, com a edição do primeiro número do periódico, foi oficialmente fundado La Vanguardia, no qual Justo publicou um extenso artigo de apresentação, tratando do tema da transformação social na Argentina3. Por estes anos, dedicou-se a ler diversos pensadores, tais como Spencer, Rousseau, Ricardo, Smith e Marx, a fim de conhecer mais dos problemas sociais de seu tempo. Em 1895 viajou para os Estados Unidos e logo Europa, visitando cidades como Paris, Berna e Madri. Entre seus objetivos estava contactar militantes socialistas e conhecer a realidade daqueles países. Como parte disso, escreveu diferentes notas ou breves artigos que foram publicados no periódico La Vanguardia. Durante a viagem pela Europa, começou a planejar a tradução do primeiro tomo de O capital de Marx, que seria publicado três anos mais tarde, em Madri. No início de junho de 1896, sob o pseudônimo de “Cittadino”, Justo enviou ao jornal conservador La Nación, de Buenos Aires, o texto “La mejor confraternidad es la nacionalización”, no qual defendia a incorporação, enquanto cidadãos plenos, dos imigrantes italianos por meio de sua naturalização como argentinos. O artigo foi bem recebido, levando a que Justo fosse convidado a se apresentar na imprensa e a colaborar com o periódico. Assim, entre junho e agosto deste ano, escreveu uma série de textos publicados em forma de coluna em La Nación, nos quais tratava questões de política, economia, livre-comércio, salários, socialismo ou situação da classe operária. Em 28 de junho de 1896, junto com Augusto Kühn, Isidoro Salomó e Esteban Jiménez, Juan Justo fundou o Partido Socialista Argentino (PSA); o periódico La Vanguardia tornou-se o órgão oficial do partido. Neste ano, Justo apresentou-se como candidato a deputado, obtendo apenas 138 votos que, embora insuficientes para conseguir uma cadeira, dariam início a sua relevante carreira parlamentar. Em 29 de agosto de 1897, foi inaugurada a nova sede da Agrupación Socialista em Buenos Aires, em que discursaram, além de Justo: Carlos Мalagarriga (advogado, jornalista e político espanhol) e Alejandro Mantecón (operário encadernador), além de alguns reconhecidos personagens do pensamento latino-americano, como José Ingenieros e Leopoldo Lugones. Nesta nova sede, ficavam os escritórios do jornal La Vanguardia, o Comité Ejecutivo del Partido, a Biblioteca Obrera, a Asociación Obrera de Socorros Mutuos, o Circolo Socialista Italiano e várias sociedades sindicais. Em 1898, publicou em Madri sua tradução, diretamente do alemão para o espanhol, do primeiro tomo de O Capital de Marx (a primeira nesse idioma). A seguir, proferiu no Ateneo de Buenos Aires a conferência intitulada “La teoría científica de la historia y la política argentina”4, publicada no mesmo ano pela livraria Lajouane. No ano seguinte, impulsionou a edição de El Diario del Pueblo, e se casou com Mariana Chertkoff (Odessa, 1876 – Buenos Aires, 1912), com quem teve seis filhos: Andrés, Daniel, Leticia, Aurora, Miguel e Sara. Em 1900, mudou-se para Junín, província a noroeste de Buenos Aires, para trabalhar como médico e, ao mesmo tempo, estudar a situação da agricultura e pecuária na região. Em 1901, proferiu a conferência “El programa socialista en el campo”, em que expôs questões-chave de sua doutrina sobre a questão agrária, reivindicando a relevância do problema rural na Argentina. Nos anos seguintes, faria várias palestras sobre temas políticos, econômicos e sociais, que ganhariam destaque editorial e político. Em 1904, Justo foi nomeado professor titular da cátedra de Cirurgia. E em 1905, fundou a cooperativa El Hogar Obrero, que cinco anos mais tarde seria admitida na Aliança Cooperativa Internacional. Ainda neste ano reassumiu a direção de La Vanguardia e o periódico começou a ser publicado diariamente,Continuar lendo “O marxismo de Juan B. Justo”

O marxismo de Liborio Justo

Político, escritor, viajante, foi um dos introdutores do trotskismo na Argentina, aderiu ao movimento reformista, criticou a estrutura latifundiária e defendeu a luta dos povos originários e a integração continental Por Cristina Mateu * [Tradução de Yuri Martins-Fontes e Carlos Serrano] [PDF] JUSTO, Liborio; “Quebracho”; “Lobodón Garra” (argentino; Buenos Aires, 1902 – Buenos Aires, 2003) 1 – Vida e práxis política Liborio Justo nasceu no seio da oligarquia argentina, na virada do século XX. Em precoce autobiografia (Prontuario, 1940), apresenta as raízes, os enredos e vínculos políticos que marcaram sua vida, descrevendo como gerações de sua família estiveram ligadas a processos e a personagens da história nacional. Um de seus bisavós chegou à Argentina em 1829, nos tempos da guerra entre Unitários e Federais (entre 1820 e 1853), tornando-se proprietário de terras. Seu avô paterno, natural de Corrientes, foi deputado, poeta, historiador, maçom, autor do primeiro Código Rural correntino e, brevemente, governador desta província (1871). Seu avô materno, filho de espanhóis, integrou o Corpo de Caçadores, como encarregado da luta contra os indígenas araucanos na fronteira Sul, tendo posteriormente participado da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, em 1865. Seus pais pertenciam a antigas famílias de proprietários de terras “decadentes”, mas orgulhosas de sua posição social e desejosas de recuperá-la. Seu pai era capitão do exército, motivo pelo qual a família veio a se instalar nas proximidades de Campo de Mayo (zona militar próxima à capital federal) – período que ele recordaria como anos de isolamento social. O jovem Justo viveu ainda sob excessivos cuidados de familiares e empregados, em uma atmosfera de forte sentimento religioso, que o sufocava. Em 1911, entrou no colégio La Salle, em Buenos Aires – tendo detestado tanto a escola como a cidade. Seu interesse pela literatura e suas atitudes extravagantes foram sua resposta a uma educação que considerava “livresca e indigesta”, afrontando os privilégios sociais de um ambiente aristocrático e religioso que rejeitava. Suas preocupações recaíam sobre a origem da vida, do mundo, o destino do homem e seu próprio destino, as expressões americanistas que descobria – rejeitando as inclinações europeístas de sua família. Nessa época, dedicou-se com seriedade à leitura de autores russos, como Dostoiévski, e de latino-americanos, como Horacio Quiroga, além de participar de competições esportivas. O conhecimento escasso e confuso do jovem Justo sobre a situação mundial, na época de início da I Guerra Mundial, o levou a admirar a força da Alemanha e a desconhecer os acontecimentos sociais que abalavam a Rússia czarista. Em 1918, ingressou na faculdade de Medicina, impelido pela família. Estes foram os tempos da luta estudantil pela Reforma Universitária, com a ocupação da Universidad Nacional de Córdoba, e da intensificação das lutas operárias que explodiriam na greve insurrecional conhecida como Semana Trágica. A agitação universitária e a confraternização com jovens de diferentes setores sociais abriram nova perspectiva para suas preocupações e buscas. Foi candidato a delegado, o que lhe permitiu estreitar laços com estudantes de direita e de esquerda. Durante este tempo, dedicou-se à fotografia e escreveu seus primeiros artigos – sobre questões universitárias. Avançou nos estudos de Medicina, continuando com sua militância junto ao centro acadêmico; tornou-se assistente de vacinação e ajudante de laboratório. A agitação universitária da Reforma, que propunha a destruição da velha universidade e a construção de um mundo novo, o aproximou da chamada Nueva Generación – que questionou a I Guerra e saudou a Revolução Socialista na Rússia. Em meio ao movimento estudantil, viajou com seu pai ao Chile, aproximando-se das pegadas indígenas do Caminho Inca e se comovendo com a imponente paisagem montanhosa do Aconcágua e da Patagônia. Esta foi uma das vezes em que se afastou da Faculdade, pela qual não se interessava. Apesar da abertura a novos horizontes políticos e sociais, entre 1921 e 1924 ele permaneceu preso a um ambiente social que desprezava. Os sentimentos contraditórios gerados por sua condição de intelectual burguês o faziam agir de maneira frívola, embora suas reflexões se fortalecessem por meio da leitura de escritores como Jack London, Kipling, Joseph Conrad (interessando-se pela cultura anglo-saxônica e pela arte renascentista italiana). O retorno ao curso de Medicina o colocou novamente em contato com a Nueva Generación e o movimento reformista – em cujos debates se denunciava a expansão imperialista dos Estados Unidos sobre o México e a América Central. Isto o levaria a estudar a história da América do Sul e começar a considerar a possibilidade de uma revolução continental como solução para os problemas sociais. A nomeação de seu pai como ministro da guerra, em 1922, fez com que este jovem rebelde se retraísse. Seu refúgio foi o estudo da história da Argentina e da América Latina, cujos países estavam submetidos aos interesses expansionistas dos EUA e de sua Doutrina Monroe. Em 1924, por ocasião do centenário da Batalha de Ayacucho, viajou com seu pai ao Peru, junto à delegação oficial, participando de opulentas celebrações. Neste país, constatou a miséria e a opressão das massas indígenas e mestiças, comprovando a má condição imposta pelo domínio colonial e imperialista a esses territórios – que haviam sido o centro do grande Império Inca e onde ainda permaneciam vestígios dos antigos ayllus originários (forma de organização social comunitária). Em 1925, zarpou do porto de La Plata para a Terra do Fogo, percorrendo as províncias de Santa Cruz e Chubut, visitando o campo petrolífero da empresa estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales. Partiu novamente para o Norte da Argentina, cruzando Entre Ríos, Corrientes e Misiones. Neste novo itinerário, escutou a língua guarani e descobriu a natureza exuberante da selva. Seguindo pelo Alto Paraná até as cataratas do Iguaçu, conheceu os mensús – trabalhadores contratados para serviços em moinhos e plantações de erva-mate, tratados como “verdadeiro gado humano” –, ouvindo relatos de exploração e escravidão. No trajeto, cruzou com os tenentistas brasileiros rebelados, vindos da Revolta Paulista de 1924, por meio de quem tomou conhecimento do general Isidoro Dias Lopes e da Coluna de Luiz Carlos Prestes. Sem recursos para prosseguir com suas aventuras, inscreveu-se como eletricistaContinuar lendo “O marxismo de Liborio Justo”