Por Maurício Orestes Parisi*
Resumo
Em 1789, explode a Revolução Francesa como resultado das contradições próprias do Antigo Regime francês. Em dez longos e violentos anos, o processo revolucionário porá abaixo o edifício do absolutismo monárquico francês e criará condições propícias ao desenvolvimento sem peias do capitalismo. Vivenciada como uma vitória dos princípios da Ilustração e da Modernidade a Revolução extravasou as fronteiras da história francesa e tornou-se um evento de caráter europeu e mundial. A Queda da Bastilha e a execução de Luís XVI tornaram-se senhas para os interessados em substituir a Velha Ordem, substituindo absolutismos por monarquias constitucionais ou repúblicas. De qualquer modo, emerge o novo soberano, o povo. Princípios de fundo iluminista guiarão a entrada dos europeus na Modernidade (quer no sentido weberiano como marxista). Nesta perspectiva, a Revolução é o marco de uma nova era histórica.
Palavras-chave: Revolução; Monarquia; República; Povo.
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Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm (1986), o mundo contemporâneo é resultante de uma dupla revolução, os efeitos combinados da Revolução Francesae da Revolução Industrial. Em relação a primeira, teríamos o advento e desenvolvimento do vocabulário político moderno (direita e esquerda), a linguagem e prática da cidadania, da política de massas, da constituição do campo dos direitos civis, enfim, o mundo das ideologias e, principalmente, o desenvolvimento da idealização/realização da Nação e do Nacionalismo. Entendida como momento histórico do fortalecimento e expansão do Estado Nacional Moderno, a Revolução Francesa transforma todos os antigos súditos em “filhos da pátria” (como expresso nos versos da Marselhesa, o verdadeiro hino do longo século XIX). Desponta, o Nacionalismo militante, que para virar beligerante não necessita mais do que poucos passos de marcha acelerada.
Quanto à Revolução Industrial, temos finalmente o coroamento do longo processo de transição de feudalismo para o capitalismo. Mais que isto, o modo de produção capitalista aparece com o seu perfil específico de produção e circulação, bem com é garantido seu processo de reprodução ampliada. Formas anteriores de produção e grupos sociais a elas ligados tendem ao desaparecimento e fica nítido o papel que o crescimento exponencial da tecnologia passa a ter no crescimento econômico do novo modo de produção que tende para o triunfo histórico. Como assinalaram testemunhas da própria época, o capitalismo tende a revolucionar constantemente as bases materiais de sustentação da sociedade. Entramos, portanto, na Era das Massas, da tecnologia e da Economia.
Neste processo de constituição, do mundo contemporâneo, não pode ser esquecida a Revolução Estadunidense. A independência da Treze Colônias britânicas constituiu acontecimento tão expressivo para o dito mundo atlântico ou ocidental quanto as duas outras revoluções. Também calcada em princípios iluministas e numa vigorosa prática econômica capitalista, os colonos da América do Norte derrotaram a maior potência militar do século XVIII. Não ignorando a ajuda recebida pelos colonos das potências inimigas da Grã-Bretanha, é claro o papel desempenhado pelo radicalismo popular e o extremismo ideológico nesta guerra revolucionária.Verdadeira arma-surpresa, para qual os “casacos-vermelhos” – hábeis na guerra codificada por manuais – não estavam preparados. Cavalheiros derrotados por milicianos, isto é, granjeiros e fazendeiros ideologicamente motivados. Se lenda ou não, é ilustrativo que na rendição do general britânico Lorde Cornwallis1, em Yorktown em 1781, a banda militar tocasse “The world turned upside down”(“O mundo virado de cabeça para baixo”).
Portanto, para a Velha Ordem as coisas estavam de “cabeça para baixo” e tudo que era sólido estava se desmanchado no ar. Mas, os gentlemen do Antigo Regime não aceitariam tão gentilmente sua derrocada. Partiriam para destruir manu militari as ameaças revolucionárias. O que não se esperava é que o próprio modo de fazer a guerra acabou revolucionado.
A guerra “revolucionária”
“A experiência prova que os exércitos nem sempre bastam para salvar uma nação; uma nação defendida pelo povo é sempre invencível”. [Napoleão Bonaparte, 1996]2
Em 1792, uma coalizão de monarquias absolutistas ataca a França revolucionária. O objetivo é que Luís XVI reassuma suas prerrogativas de soberano de direito divino e por fim a exasperação políticas das exaltadas patuleias. Esperava-se uma vitória fácil, visto que parte substancial do exército francês era de aristocratas que não compactuavam com a Revolução. Muitos desertaram ou entregaram vitais praças-fortes. Sem o comando aristocrático, supunha-se que um decapitado exército sucumbisse e com ele a Revolução.
O contrário ocorreu. Fortalecido pelo entrelaçamento com a Garde Nationale e pelo afluxo de milhares de voluntários, o exército francês segura as fronteiras e contra-ataca. Papel destacado coube a um grupo de novos oficiais, jovens de origem burguesa ou pequeno-burguesa, especialmente das armas da artilharia e engenharia. Alçados às posições de comando, estes homens – entre eles, um jovem oficial de artilharia da Córsega – representavam a mobilidade social e consequente meritocracia, colocadas em prática pela ascensão de uma sociedade baseada em valores do indivíduo e da nação.
Associados a eles, milhares de camponeses e citadinos passaram a usar o uniforme do exército nacional(não mais real) e prestar serviço militar tornou-se sinônimo de servir à Pátria. Com as convocações de 1794-95, os governos revolucionários instituem os levée en masse, ou seja, o recrutamento obrigatório. Nascia a conscrição moderna, um exército de cidadãos-soldados. Diferente da convocação feudal vigente nos exércitos austríaco ou russo, a conscrição moderna passa pela lealdade à Nação e seus valores e torna o soldado um indivíduo – mesmo que submetido a disciplina – que precisa ser motivado e estimulado a lutar, não mais uma engrenagem acéfala das coreografias militares do século XVIII. Paralelo à substituição no plano cultural do Mecanicismo iluminista pelo Romantismo, os exércitos transmutaram-se em máquinas de passionalidade política e seu comando necessitava de oficias providos de um carisma marcado pela simultaneamente pela eficácia técnica e liderança política, não mais a simples prerrogativa do nascimento. O exército da França revolucionária passou a ser a encarnação deste novo titã bélico. Nas palavras de Jean-Paul Bertaud:
Esse exército, que passou de 150000 homens em 1789 para quase 400000 em 1792 e mais de 800000 em 1793, recebeu missões diversas, conforme as épocas. Sob a Convenção girondina, a guerra foi uma guerra de expansão e libertação dos povos. Sob a Convenção Montagnarde3, “os missionários da Revolução” foram inicialmente convidados à defesa da pátria. Sob o Diretório, a “libertação dos povos” foi pretexto para uma guerra de conquistas, que devia permitir, em larga medida, que a Grande Nação vivesse dela.
Da defesa das fronteiras francesas, a Armada revolucionária atravessa o Reno, os Pirineus e os Alpes, cruza o Mediterrâneo. As águias republicanas francesas varrem os estandartes monárquicos. A derrota cala fundo as monarquias, especialmente, a Prússia, destronada na liderança militar do continente. Nos anos subsequentes, a França amplia suas vantagens militares com a ascensão de Napoleão Bonaparte, o herdeiro da guerra revolucionária.
Quais seriam as bases da genialidade militar de Bonaparte? Descontado o seu carisma político – um governante burguês que sabia ser popular e também fomentar o crescimento do capitalismo. Bonaparte organizou a máquina militar francesa na combinação de um hardware alimentado cada vez mais pelos frutos da Revolução Industrial e um software inspirado pela ideologia revolucionária, se esta foi perdendo seu caráter popular e radical e virando um patriotismo de cunho conservador, não importa para os propósitos da análise.
A arte da guerra napoleônica consistia em ignorar soberbamente as regras clássicas de guerra, ampliando teatro de operações, valendo-se da velocidade e maneabilidade das tropas, da combinação das diversas armas, padronizando e homogeneizando recrutamento, treinamento, equipamentos e logística4. Tudo isto sendo condensado na revolução da arte militar que foi a instituição do corpo de exército. Uma combinação singular das diferentes armas (cavalaria, artilharia, infantaria, engenharia e intendência), garantindo a autonomia de uma fração do exército combatente e, ao mesmo tempo, sua combinação com outros corpos para criar exércitos com maiores raios de operação. A organização de um exército em corpos e suas subdivisões (divisões e brigadas) implicava num golpe potente no Antigo Regime militar, pressupondo uma burocracia nacional organizando a logísticas e reservas deste grande exército e, principalmente, um corpo de oficiais profissional, em ação no campo em estados-maiores que produziriam a estratégia adequada de uso para esta máquina de guerra. Mais que isto, o Estado-Maior como interface entre o Exército e a Nação.
Os caducos conselhos de guerra (não estados – maiores reais), Guardas pessoais, destacamentos de mercenários, regimentos recrutados por aristocratas, disposições geométricas de tropas são varridos do mapa em Valmy, Jena e Austerlitz. Qual o caminho de sobrevivência para as velhas monarquias?
O nacionalismo foi uma herança contraditória da Revolução Francesa. Contraditória no sentido de que voltou-se contra os próprios franceses. No período do Diretório e Napoleônico era nítido que a expansão da Revolução era apenas o pretexto para a França ampliar o seu poder de potência capitalista emergente disposta a disputar a hegemonia mundial coma pérfida Albion. Coroas – e seus respectivos súditos eram entregues a parentes de Napoleão. Contudo, estes súditos aprenderam com a própria França, que eles eram cidadãos providos de direitos e que viviam em Nações.
A face oculta da história militar do período napoleônico é o enfrentamento do exército francês com forças irregulares e guerrilheiras nas Penínsulas Ibéricas e Itálica, no Tiro austríaco, em territórios da Confederação Germânica. Estas forças populares lutavam por sua Nação ultrajada, por tabela, acabavam defendendo reis depostos. Reacionário ou radical, o nacionalismo voltou-se contra o Grand Armée da Revolução e do Império. E os mais abalados – os prussianos – trataram de agir.
Uma nova arte da guerra
No seio dos oficiais do exército prussiano – herdeiro das tradições de Frederico, o Grande – preparava-se a reação. O primeiro passo seria canalizar as massas populares agora ideologizadas pelo nacionalismo e canalizá-las para a ação militar, mais que isso, organizar a mobilização da Nação prussiana. Portanto criar uma interface que igualasse ou superasse o congênere francês. Para isto surgiu o Estado-Maior Geral prussiano (posteriormente alemão), encabeçando outros estados-maiores em nível de exército, corpo, divisão, etc. Estas organizações reuniam a nata dos alunos das academias militares, principalmente, os capazes de compreender o novo caráter. Os fundadores e aprimoradores foram Gerhardt Johann Scharnhorst e August Wilhelm von Gneisenau (6), artífices da participação prussiana no processo de derrota de Napoleão de 1812 a 1815. Homens de planejamento e ação – Scharnhorst morreu de ferimentos de combate – coube ao discípulo de ambos codificar a experiência bélica prussiana, Carl von Clausewitz.
Como resultado, quando Karl von Clausewitz, discípulo e colega de Scharnhorst e Gneisenau, veio a formular as lições bélicas em sua obra Vom Krieg (“Da Guerra”), reconheceu que a Revolução Francesa e Napoleão haviam iniciado uma nova era, era que exigia uma forma de guerra mais implacável. A política dinástica, a diplomacia do equilíbrio de poderes e a estratégia tipo tabuleiro de xadrez já eram coisas ultrapassadas. A grande questão prendia-se à sobrevivência dos estados-nação. Como seu contemporâneo, Hegel, o filósofo da Corte prussiana, Clausewitz via no Estado a corporificação da suprema realização do Homem na terra. Ele acreditava que somente através do Estado é que o indivíduo conseguiria a verdadeira liberdade e que só a serviço do Estado é que o cidadão afirmaria individualmente o seu valor. E como a defesa do Estado era o seu dever precípuo, o exército corporificava o que havia de melhor e mais verdadeiro no Estado. Clausewitz defendia a tese de que a existência do exército tinha precedência sobre a do Estado, porque o Estado não sobrevive indefeso. Esses pontos de vista constituíram a base da filosofia que orientou a formação dos Corpos de Estado-Maior-Geral prussiano (e depois alemão) nos séculos XIX e XX. É essencial que nos lembremos disto se quisermos compreender o comportamento dos líderes do Exército Alemão nos tempos da República de Weimar e do Terceiro Reich, para quem os interesses do exército eram mais importantes do que os do Estado ou dos seus cidadãos5.
Portanto, Clausewitz sistematiza toda a experiência referente a herança napoleônica e da mobilização prussiana, constituindo-se no melhor teórico da guerra do século XIX, pois sua teoria é expressão da consciência das transformações materiais e ideológicas por quais passou a sociedade europeia. Não um filósofo da guerra – como corretamente apontam Domício Proença et all – pois não busca explicações ou determinantes para uma “guerra em geral”, cujas leis e princípios podem ser registrados desde a Antigüidade.
Como síntese das principais formulações de Clausewitz, poderíamos arrolar:
A guerra é a continuação da política por outros meios (especificamente, os meios de força)
A guerra é a província da incerteza e do acaso.
A guerra é dominada pela presença dos fatores morais.
A guerra é constituída por uma trindade paradoxal, composta por governo, forças armadas e povo.
O combate, mesmo “virtual” é a atividade essencial da guerra..
A defesa é a forma mais forte da guerra.
A onipresença do fenômeno da fricção.
O ponto culminante do ataque.
As guerras podem ser limitadas ou ilimitadas.
Porém Clausewitz só encontrará prestígio no último terço do século XIX. O autor militar mais valorizado na primeira parte do século foi o suíço Antoine-Henri Jomini, que ganhou notoriedade ao supostamente explicar os segredos das vitórias napoleônicas e codificar a nova arte militar em princípos de validade perene e universal.
Jomini se manteve fiel ao mundo militar tradicional, aos escritos e práticas do final do século XVIII […] Mais do que isso, o mundo bélico em Jomini era marcado por uma grande continuidade de valores tradicionais, em que um grande líder inspirava os valores locais de um povo e os fazia transcender sua rotina bélica num grande pulso heroico.
Jomini não tinha realmente interesse pelas questões mais mundanas do abastecimento, da produção de armamentos ou treinamento das tropas. As forças Armadas de Jomini surgiam prontas e aprestadas para serem utilizadas nas guerras. Treinamento, suprimento e armamento eram expressões menores, inteiramente sujeitas à vontade, desígnios e persistência do camandante-em-chefe. Jomini entendia que todo o mundo militar era expressão de uma vontade articulada de um grande líder, aplicada num mundo militar distante e separado do mundo em geral. A vitória era possível a qualquer um com esta grandeza, desde que suas ações fossem consistentemente apoiadas nos princípios universais da guerra.Este enfoque determinava uma preeminência absoluta da estratégia nas guerras e nos seus resultados.
O que explicaria o prestígio de Jomini, se claramente o autor não conseguia fazer a leitura das transformações econômicas e tecnológicas que o capitalismo impunha à sociedade europeia. Tradicionalmente, a historiografia marxista retrata o século XIX como século do triunfo do capitalismo e da classe burguesa. Esta visão não é errônea, mas merece reparos. O século XIX é o século da burguesia enquanto resultado de uma complexa soma vetorial de forças antagônicas. Arno Mayer – no registro marxista – sustenta a persistência do Antigo Regime na sociedade europeia.
Para o autor, a aristocracia continua a ser o elemento básico dasociedadepolíticae a principal fornecedora de quadro para a elite dirigente,enfim se a sociedade e a economia movem-se ao ritmo (lentamente) de 1789. O Estado, enquadra-se no plano das políticas restauradoras da Tradição, do Sangue e da Religião, do qual o Congresso de Viena e a Santa Aliança são momentos exemplares. A valorização da liderança a valorização da liderança aristocrática propugnada por Jomini encontra nesta sociedade o caldo de cultura ideal para vicejar.
Contudo, se Clausewitz possuía a melhor weltschaung (visão de mundo) sobre a guerra numa sociedade capitalista em expansão, como a liderança inconteste de Jomini no plano militar foi superada.
Novas tecnologias e um parêntesis (a Guerra Civil dos EUA)
Assim como a Revolução Estadunidense é subestimada na constituição do mundo contemporâneo. Os EUA são ignorados como elemento essencial para desvelar a trajetória da sociedade burguesa e capitalista ocidental. Para muitos aparece na história mundial apenas com a Primeira Guerra Mundial. Contudo, haveria muito mais esclarecimento sobre o capitalismo do século XXI e sobre o Liberalismo presente com um exame atento dos processos históricos da América do Norte. E foram nos EUA, que as teorias da guerra do século XIX puderam ser “testadas”.
A Guerra Civil Estadunidense (1861-1865) foi o maior confronto bélico do século XIX, superando em número de combatentes e baixas, qualquer guerra anterior. Os exércitos foram liderados por oficiais profundamente embebidos nas teorias jominianas. Esperava-se a vitória por intermédio de batalhas decisivas. Pelo menos, esta era a esperança do Sul, possuía os melhores generais (Robert,Lee, “Stonewall” Jackson, Jeb Stuart, Albert Johnstone outros mais), seus soldados possuíam o espírito de homens da fronteira, ao contrário dos “materialistas ianques”, etc. Contudo vitória após vitória – decisivas segundo os princípios jominianos – dos sulistas, o Norte não demonstrava a honrada conduta de aceitar a derrota no campo de batalha. Porém, os nortistas se fortaleciam nos mesmos princípios desprezados por Jomini – treinamento, suprimento e armamento – perdiam no campo de batalha, mas não na mobilização. Quanto ao Sul caminhava para a exaustão dos seus recursos econômicos. O Norte captou a essência de uma guerra marcada pelo crescimento exponencial da tecnologia. Como assinala Charles Messenger:
O desenvolvimento do fuzil Minié e do cartucho auto vedador, que dava à bala maior propulsão e, portanto, maior alcance, alterou radicalmente as táticas até então adotadas no campo de batalha. Logo se evidenciou, na Guerra Civil Estadunidense, que o tradicional ataque frontal perdera o seu significado. O maior alcance do fuzil indicava que era possível dar combate aos atacantes num alcance muito maior e, por conseguinte, infligir-lhes maiores baixas. Ao mesmo tempo, o canhão tornou-se estriado, o que também aumentou seu alcance, e tudo isto combinou-se para levar à compreensão de que, muito mais que anteriormente, era mais fácil defender do que atacar. A defesa também se tornava ainda mais fácil se cavassem trincheiras protetoras para impedir baixas provocadas pelo fogo do inimigo. O Coronel Theodore Lyman, oficial do Estado-Maior do General Meade, escreveu: ‘ Coloque um homem num buraco e uma boa bateria numa colina atrás dele, e ele repelirá três vezes o seu número mesmo que não seja um soldado muito bom.’ Isto, combinado com a introdução de metralhadoras, a de Requa e a Gatling, bem como o fuzil Spencer alimentado pela culatra com estojo, além do uso de observação aérea por meio de balões, a utilização de trens blindados, sinalização luminosa e com bandeirolas, bem como do telégrafo de campanha, fizeram da Guerra Civil Estadunidense, a primeira das Guerras Modernas.
Em 1863, Robert Lee atacou o exército nortista em Gettysburg, Pensilvânia. Foi uma batalha de atrito que resultou numa fragorosa derrota para a Confederação sulista. Lee aplicou corretamente o princípio jominiano de concentração de forças no ataque ao ponto decisivo, mas certo vagar na reunião de suas tropas, a resistência inesperada de certas tropas federais; seu maior poder de fogo e o fato da União vislumbrar o teatro de operações como algo maior que o campo de batalha, ou seja, fatores apontados pela obra de Clausewitz levaram a sua derrota e selaram o destino da Confederação.
Outra guerra deu ressonância ao pensamento clausewitiano – a Guerra Franco- Prussiana de 1878-71 – depois do rápido esmagamento dos franceses, o chefe do Estado-Maior Geral General Moltke, o Velho comentou seus débitos com a obra de Clausewitz. Não era à toa, a Alemanha que então se unificava, passava a ser a potência européia de crescimento econômico acelerado, um dos epicentros da Segunda Revolução Industrial. O Estado prussiano – agora alemão – atingia ao seu ápice. O Império Alemão passou a ter plenas condições de mobilização como foram preconizadas pelos fundadores do Estado-Maior-Geral.
No último quartel do século XIX, a industrialização até então um fenômeno franco- britânico espraia-se pelo continente. Surgem poderosos exércitos baseados no serviço militar obrigatório, usando dezenas de milhares de conscritos e formando centenas de milhares de reservistas. Linhas férreas incorporam-se à logística militar, indústrias adaptam-se a produção de armamentos e suprimentos. Nacionalismos belicosos excitam as populações civis. Quartéis enraízam-se na vida citadina. Surge uma nova cultura militar ou vida social militar. Clausewitz incorpora-se a este patrimônio6.
Todos esperavam uma nova guerra que daria o veredicto sobre as disputas imperialistas e contendas nacionalistas. Só que desta vez – ao contrário de 1789 – os exércitos seriam muito parecidos na sua estruturação e motivação, clauswitzianamente tenderiam ao empate e impasse. Armava-se o cenário da carnificina futura. No dizer de Hobsbawm (1988):
O momento os surpreenderá, mas não mais pelo fato da guerra, ao qual a Europa se habituaria, como alguém que vê uma tempestade se aproximando. De certo modo sua chegada foi amplamente sentida como uma libertação e um alívio, sobretudo pelos jovens da classe média – homens, muito mais que mulheres –embora menos pelos operários e menos ainda pelos camponeses.
Uma crítica a John Keegan e algumas hipóteses à guisa de conclusão
O britânico John Keegan é um dos principais historiadores militares da atualidade. Dono de uma vasta obra destaca-se por introduzir nos estudos dos fatos e fenômenos militares a discussão de valores e análise dos homens em guerra. Valoriza o contexto sócio-político e introduz instrumentais sociológicos e antropológicos. Estuda a “cultura” da guerra.
No seu portentoso livro “Uma história da Guerra” (1995), Keegan procura fundamentar uma teoria cultural da guerra, muito próxima de uma filosofia da guerra e elege como alvo de suas principais críticas, o pensamento de Clausewitz. Nas suas próprias palavras:
A guerra não é a continuação da política por outros meios. O mundo seria mais fácil de compreender se esta frase de Clausewitz fosse verdade. Clausewitz […] na verdade escreveu que a guerra era a ‘continuação das relações políticas’ (despolitischenVerkehrs) ‘com entremistura de outros meios’ (mitEinmischungandererMittel). O original alemão expressa uma idéia mais complexa e sutil que a tradução mais freqüentemente citada. Nas duas formas, no entanto, o pensamento de Clausewitz está incompleto. Ele implica a existência de Estados, de interesses de Estados e de cálculos racionais sobre como eles podem ser atingidos. Contudo, a guerra é quase tão antiga quanto o próprio homem e atinge os lugares mais secretos do coração humano, lugares em que o ego dissolve os propósitos racionais, onde reina o orgulho, onde a emoção é suprema, onde o instinto é rei. ‘O homem é um animal político’, disse Aristóteles. Clausewitz, herdeiro de Aristóteles, disse apenas que um animal político é um animal que guerreia. Nenhum dos dois ousou enfrentar o pensamento de que o homem é um animal que pensa, em quem o intelecto dirige o impulso de caçar e a capacidade de matar.
Mais ainda, Clausewitz é criticado por ser o criador de um paradigma que o aproxima de Karl Marx, também considerado um redutor da realidade, pois ambos defendiam visões simplificadas do processo social. Ambos são considerados progenitores de catástrofes, o militar prussiano da Primeira Guerra Mundial; o filósofo renano da Revolução Russa. Tragédias para os espíritos liberais.
Contudo, acredito que Keegan se equivoca e confunde diferentes pensamentos apenas pela essência. Seu discurso rememora o historicismo liberal de fundo empiricista predominante nos ambientes acadêmicos britânicos do século XIX. Ao optar pelo “cultural” como eixo de análise do fenômeno guerra, constrói uma Guerra que é uma extensão dos instintos humanos, uma Guerra atemporal e por isto mesmo, a-histórica. Beligerâncias ocorreram em diversas fases da história da Humanidade, mas será que significaram a mesma coisa? Havia mercado na Roma Imperial, bem como nos burgos medievais e os mercados são onipresentes na nossa sociedade neoliberal, são a mesma coisa? Não, o que são dependem das articulações concretasdos homens entre si, gerando configurações sociais específicas. Por isto, não existe o Mercado, entidade abstrata.
A Guerra de Keegan é um universal abstrato — a guerra em geral — e só existe numa narrativa histórica que desconhece a práxis humana. Se Keegan se incomoda com os efeitos da teorização clausewitziana, deveria também se incomoda com o capitalismo do “longo século XIX”. Capitalismo este que talvez gostasse de expressar seus antagonismos através da Guerra culturalizada de Keegan, cuja ritualização impediria os excessos, e não a superação de suas contradições.
Nesta perspectiva, Clausewitz emerge não como um teórico da Guerra em geral, mas como o teórico da guerra capitalista ou mais propriamente da guerra entre Estados capitalistas. Este aristocrata prussiano, pertencente a um Antigo Regime que se modernizava pelo impacto da Revolução Francesa, exteriorizou a consciência possível do que seria o poder militar na nova ordem capitalista emergente.
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ROBERTS, Andrew. A Batalha de Waterloo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
1 O episódio da rendição de Cornwallis é citado em LINEBAUGH, Peter. “Todas as montanhas atlânticas estremeceram”, Revista Brasileira de História, n. 6, 1987. O fato é criticado como um dos mitos da Revolução Estadunidense por RAPHAEL, Ray. Mitos sobre a Fundação dos Estados Unidos. R. J: Civilização Brasileira, 2006.O mesmo autor aponta para um fato bastante ignorado, o caráter de guerra civil presente na Revolução dos EUA, principalmente nas colônias do Sul. RAPHAEL, Ray. Op. cit..
2 Para a descrição da Grande Bateria de Napoleão (concentração excepcional de fogo de artilharia com o objetivos de desarmonizar as manobras do exército adversário), ver ROBERTS, Andrew. A Batalha de Waterloo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. Como curiosidade Roberts aponta os feitos napoleônicos como criador de um mito de uma suposta superioridade do exército francês que seria posta a prova no século XX com resultados negativos.
3 É importante lembrar que a dissolução do Estado-Maior-Geral alemão foi imposto pelo Tratado de Versalhes, já que seu papel na formação da colossal máquina de guerra alemã era nítido e os nazistas ganharam o apoio reticente do establishment militar a proposta de seu ressurgimento. Promessa cumprida, a OKW e OKH desempenharam papel crucial na estratégia da Segunda Guerra Mundial, embora freqüentemente se chocaram com as concepções estratégicas de Hitler.
4 MESSENGER, Charles. A Guerra de Trincheiras. França e Flandres,1914- 1918. Rio de Janeiro. Rennes.1978. Mesenger, aluno de Keegan em Sandhurst, aponta a Guerra Civil Americana como precursora explícita da Primeira Guerra Mundial, especialmente, a guerra de trincheiras.
5 Como assinala José Luís Fiori, a evolução do capitalismo não dependeu da expansão do “capital em geral” e sim foi resultado da competição de Estados capitalistas concretos. Neste sentido, Clausewitz tematiza como os Estados capitalistas devem travar suas guerras específicas, dentro de um sistema interestatal.
6 Para caracterização deste ambiente militar e sua inter-relação coma sociedade, ver KEEGAN, John. The Second World War. London: Pimlico. 1989.
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Notas
* Historiador, professor e militante político. Pesquisador-membro do Núcleo Práxis-USP.
Texto escrito em 2017.