MUDANÇA DE CENÁRIO: DA UNIPOLARIDADE À MULTIPOLARIDADE GEOPOLÍTICA

Por Yuri Martins-Fontes L.*

Resumo

O relatório Inserção Internacional Brasileira: temas de política externa (2010) do IPEA mostra vários fatores que têm impulsionado uma mudança na relação de forças geopolíticas, tais como o aumento do poderio econômico e militar de grandes nações semiperiféricas, a iniciativa de afirmação da União Europeia por meio de políticas de planejamento estratégico mais independentes e a intensa difusão de tecnologia bélica, além da fragilização da própria economia dos EUA. O estudo aponta também que alguns eventos geopolíticos ocorridos em 2008 foram os desencadeadores desse processo de transformação que levou o mundo da recente unipolaridade à nova multipolaridade, tais como: a crise financeira internacional, o fracasso da Rodada de Doha da OMC e o conflito russo-georgiano pela Ossétia do Sul (em que a Rússia demonstraria ao mundo que ainda tem muito poder bélico).

Palavras-chave: Transformação geopolítica; Multipolaridade; Crise.

*****

Como preâmbulo para analisarmos a nova configuração de multipolaridade que vem se desenhando neste novo milênio, reflitamos: o que é que Venezuela, Equador, Filipinas, Ucrânia, Síria ou Líbia têm em comum? Todos estes países têm (ou, recém-derrotados, tiveram) projetos políticos que visam uma relativa independência dos Estados Unidos e de suas imposições políticas neoliberais. Isto, apesar das acentuadas diferenças ideológicas destas nações, cujos governos vão das democracias populares latino-americanas até regimes por vezes autoritários – mas que, embora mantenham sua estrutura capitalista interna, demonstram preocupações nacionalistas (afastando-se do neoliberalismo).

Essas nações sempre foram invisíveis ao centro do sistema, em consequência de sua posição geopolítica não-alinhada. Posição que vem paulatinamente afetando a até há pouco inquestionável unipolaridade dos EUA nas relações de poder internacionais. Com isto, tais nações de repente foram lançadas no centro de uma guerra ideológica, vendo seu cotidiano nacional se tornar tema (negativo) frequente das agências corporativas de notícias – que comandam o que se fala, ouve e pensa no mundo.

Ao serem “descobertos” pela mídia conservadora global como sendo lugares realmente existentes e com história (para surpresa de Hegel e dos arcaicos modernos), alguns destes países não alinhados com o consórcio neoliberal passaram a ter seus governos sistematicamente atacados com ferocidade pela grande imprensa – que representa a oligarquia global e constrói o dia a dia dos discursos repetidos pelo mediano das classes médias e jornais e televisões, sempre a clamar por um suposto “retorno à democracia”. Veja-se que, ainda hoje, mesmo após a exposição de provas do apoio dos EUA e potências europeias ao Estado Islâmico e grupos mercenários que estão em guerra contra seu desafeto Al-Assad, presidente sírio, não é raro encontrar – inclusive dentre posições centro-humanistas ou “do bem” (como alguns se autodenominam)quem se disponha a argumentar que a Síria é uma ditadura sangrenta… e “portanto” os EUA lá estão (ao lado dos “terroristas” do Estado Islâmico) para “civilizá-los”.

***

Novos ares presidem a relação de forças políticas global. Para compreender este fenômeno, vejamos uma contextualização histórica da atual conjuntura política internacional atual. Para tanto, examinemos o denso relatório produzido em 2010 pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA), intitulado Inserção Internacional Brasileira: temas de política externa, estudo que analisa este impactante movimento geopolítico que vem conduzindo o poder político mundial a um cenário de multipolaridade – desbancando os Estados Unidos do posto solitário de superpotência, que ocuparam desde a derrota econômico-política soviética dos anos 1990.

EUA: do cume ao início da queda

O motivo da guerra ideológica mencionada no preâmbulo deste ensaio – e que sempre vem acompanhada da guerra econômica (desestruturadora das economias nacionais) – é nitidamente o desejo desesperado dos EUA de tentar retomar seu protagonismo unilateral perdido, cuja consolidação se deu com a “exportação” de suas políticas neoliberais a partir dos anos 1980 (embora em nossa América tardia, a “década perdida” tenha sido os 1990 de FHC’s e Menem’s).

Desde os 1970, os EUA em crise – pressionados de um lado pela competição de uma Europa do pós-Guerra já reerguida, e de outro por movimentos sociais (estudantis, pacifistas, negros, trabalhistas, camponeses) que se levantam mundo afora – passariam a impulsionar a financeirização da economia (da qual haviam tomado as rédeas na ocasião das crises do petróleo, ao romper unilateralmente a conversibilidade dólar-ouro)1. Daí, até o fim do século XX os EUA foram se firmando como a “única” potência, movimento que teria como clímax a derrota soviética (após o cerco efetivado pela força geopolítica – econômico-militar – dos EUA e de seus aliados menores europeus-ocidentais).

***

Como já exposto em outro artigo, a eleição de Trump em 2016 mostra não uma “efetiva” ascensão da direita enquanto ideologia (pois grande parte dos estadunidenses, sujeita desde cedo a uma educação castradora e de baixa qualidade, não chega ao discernimento sobre o significado de se votar em um “Trump”)2. Sua ascensão mostra antes o pico da fragilidade vivida pelos EUA.

Se desde os citados eventos dos anos 1970, os EUA passariam a dominar gradual e amplamente o cenário geopolítico – sendo que nos 1990 alcançam a posição histórica singular de serem a única superpotência mundial –, o que ocorre agora é um movimento de fechamento diante do mundo, mostrando que já não é confortável se manter em acordos de livre-rapinagem quando não se está tão por cima na tal da “competitividade”.

Segundo o estudo “Evolução Geopolítica: cenários e perspectivas” – capítulo do amplo e crítico relatório Inserção Internacional Brasileira: temas de política externa, produzido em 2010 pelo IPEA (antes, portanto, do golpe de 2016 que lançaria o Brasil de volta à condição de capacho internacional) –, o início desta “virada” no cenário das relações dos poderes globais, nos remete a uma ação conjugada de diversos fatores.

Dentre eles, se destacam quatro, a começar pelo aumento do poderio econômico e militar de grandes nações “semiperiféricas”, as quais jamais se integraram ao sistema de segurança internacional forjado pelos EUA desde o fim da II Guerra – casos, especialmente, da Rússia e da China.

Um segundo ponto é a relativa afirmação da União Europeia através de políticas de planejamento estratégico mais independentes – mesmo que agora ameaçadas pela desunião europeia que se testemunhou no “Brexit”, ou nas graves crises na Grécia, Espanha, etc. Isto fez com que os EUA perdessem (ao menos em certa medida) seu poderio sobre os europeus-ocidentais, estas pequenas potências modernas que foram suas vassalas incondicionais desde meados do século XX.

Há também o fenômeno da forte difusão de tecnologia bélica, a que tiveram acesso mesmo atores não-estatais, empenhados em diferentes formas de guerra de resistência contra a superpotência, o que arrastaria os arrogantes (e inconsequentes) governos dos EUA para o abismo de guerras sem fim – conflitos sem possibilidade de “vitória final”, pois que sua capacidade técnica acabou por ser “neutralizada”. São os casos das invasões militares do Iraque e do Afeganistão, e de certo modo do golpe laranja de 2014, na Ucrânia;

Ademais, é importante ter em conta a fragilização da própria economia estadunidense, uma consequência de sua baixa taxa de poupança, de seus défices crônicos – aprofundados pelos conflitos que promoveu mundo afora –, e do crescimento acelerado de sua dívida.

Transformação geopolítica

As conclusões do relatório do IPEA apontam para três eventos geopolíticos que, nos últimos anos da década de 2000, foram chaves para desencadear esse processo de transformação da recente unipolaridade à nova multipolaridade (em que novos atores estatais começaram a fazer frente aos EUA, como é caso dos BRICS).

O primeiro deles é a crise financeira internacional de 2008, a primeira a atingir o coração do capitalismo desde a quebra de 1929, uma crise motivada pela intensa desregulamentação dos mercados, que se tornam vulneráveis aos ataques especulativos. Este problema teve por “receitas salvadoras” sempre soluções “pela direita”, ou seja: mais privatizações, mais abertura comercial externa, enfraquecimento de grupos econômicos nacionais e transferências maciças de ativos ao cada vez mais fortalecido capital financeiro. Tal conjunto de acontecimentos gerariam o “efeito dominó” de quebra bancária nos EUA, estancado pela salvação estatal das instituições financeiras, mediante dinheiro público e emissão de moeda, o que deixaria como saldo uma crise econômica em nível mundial. Porém, ao contrário dos 1980, quando o Japão cedeu e desvalorizou seu iene (para melhor “socializar” a recessão dos EUA), a China, potência nuclear, se negou ao mesmo gesto com seu yuan (e assim o prestígio do dólar segue em queda).

Além disso, houve o fracasso em 2008 da Rodada de Doha da OMC (sobre o comércio internacional, em especial agrícola). Isto já se desenhava desde a “intervenção espetacular dos movimentos sociais” contra a reunião de pré-negociação de Seattle, em 1999 – quando os movimentos “antiglobalização”, massificados pela pauperização rural global promovida por décadas de agronegócio e liberalismo, arrebatariam multidões e logo as páginas da mídia comercial. Tal fracasso efetivamente adquire poder de transformação política quando na reunião de Cancún (2003) acontece uma inédita articulação entre países periféricos que juntos logram fortalecer suas posições (coalizão que ganharia características de “bloco”, tornando-se semente da consolidação dos BRICS) contra o protecionismo comercial das potências capitalistas. Ressuscitava-se assim a “clivagem Norte-Sul” diluída desde a hegemonia liberal começada nos anos 1980, em uma escalada de conflitos que atingiu seu auge com a crise do preço dos alimentos de 2007-2008 – a qual lançoua à fome o número récorde de um bilhão de seres humanos.

Por fim, deu-se o conflito russo-georgiano pela Ossétia do Sul (2008). Seus antecedentes podem ser vistos no apoio estadunidense e europeu-ocidental aos golpes no Leste da Europa (vendidos pela mídia com o nome de “revoluções laranjas”), além de apoiarem o separatismo de Kosovo (ante a enfraquecida Sérvia, ex-centro da potência não-alinhada que foi a Iugoslávia). Houve ainda as tensões em torno do abastecimento de gás à Europa, e a agressão branda à Rússia, promovida pela OTAN (com seu projeto de instalar bases de defesas antimísseis da Polônia e Tchéquia). Este último foi o fator que desencadeou a incomum quebra de protocolo de Putin, ao acusar publicamente os EUA de desprezarem o direito internacional, pelo seu próprio interesse nacional –, de modo que na ocasião do avanço militar georgiano sobre a província rebelde, a Rússia reage com tal força que surpreende os analistas e militares dos EUA-UE, mostrando dispor de um aparato bélico bastante menos obsoleto de que o imaginado pela OTAN. E tal poderio somente aumentaria desde então, e não apenas na Rússia, mas na China, que na mesma época testa com sucesso sua arma antissatélites, ameaçando a integridade do sistema espacial estadunidense (até então “senhor absoluto” dos chamados “espaços comuns”).

***

Essa presente transformação do cenário de poder mundial segue a passos largos, como se pôde observar na batalha empreendida pelas forças russas para a libertação de Alepo (e pela paz na Síria), à revelia dos interesses destrutivos das potências ocidentais – mais um marco dessa mudança. Apesar de todos estes elementos, não se pode desprezar o fato de que os Estados Unidos ainda conservam parte de sua hegemonia geopolítica e um imenso poderio de destruição.

Bibliografia

INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS E APLICADAS. “Evolução Geopolítica: cenários e perspectivas”. In: IPEA. Inserção Internacional Brasileira: temas de política externa, 2010.

MARTINS-FONTES L., Yuri. “Crise capitalista, baixo nível cultural e a ignorância como ideologia”. Veias Abertas, n. 1, 2019.

MARTINS-FONTES L., Yuri. Marxismo e saberes originários. Relatório [Pós-Doutorado em Filosofia Política], FFLCH-USP, São Paulo, 2017.


Notas

1 Ver sobre o tema da crise capitalista: MARTINS-FONTES L., Yuri. Marxismo e saberes originários. (2017).

2 Examino mais detidamente este tema no artigo: “Crise capitalista, baixo nível cultural e a ignorância como ideologia”. Veias Abertas, n. 1, 2019.


* Filósofo, professor e escritor; doutor em História Econômica (USP). Coordenador do Núcleo Práxis da USP. Ensaio originalmente publicado pela revista Caros Amigos (fev. 2017).