Poeta, operário e jornalista jamaicano, boêmio e bissexual, foi militante do movimento negro, membro da Workers’ Socialist Federation (Inglaterra) e da Internacional Comunista, centrando-se em articular a questão do racismo e a luta de classes em perspectiva marxista
Por Jhonatan Uewerton Souza e Noemi Santos da Silva *
CLAUDE MCKAY; Festus Claudius McKay (jamaicano; Sunny Ville, 1889 – Chicago/EUA, 1948)
1 – Vida e práxis política
Nascido em uma família negra proprietária de terras, em uma vila rural habitada por camponeses livres nas montanhas de Claredon, Jamaica, Festus Claudius McKay foi o caçula entre onze filhos de um casal de posição social relativamente elevada para os padrões da população de pele escura do Caribe britânico.
Seu pai, Thomas Francis McKay, um trabalhador que ascendeu de classe e se tornou um próspero agricultor, pertencia à fração de 1,5% da população com direito ao voto, à época de seu nascimento. Diácono da Igreja Batista, se orgulhava da moral puritana, reprovando os costumes e o sincretismo religioso dos camponeses. A dona de casa Hannah Ann Elizabeth McKay, sua mãe, era mais tolerante com os hábitos da população rural, a quem auxiliava e por quem demonstrava admiração – atitudes que influenciaram a formação de Claude. Orgulhosos de suas raízes africanas, a família preservava as memórias de seus avós de origem axânti e malgaxe, submetidos ao jugo do escravismo.
A Jamaica de Claude McKay era um país em intensa transformação; ilha atrelada ao império britânico, do qual se libertaria apenas em 1962, passava por uma crise em sua economia açucareira, depois substituída pela banana na virada para o século XX – cujo comércio era controlado por empresas alinhadas ao imperialismo estadunidense: Boston Fruit e United Fruit Company. Com seu monopólio, estes conglomerados adquiriram terras, que arrendavam para os camponeses negros, endividando-se com latifundiários brancos ou mestiços. A dominação de classe se articulava a uma estratificação racial com hierarquia de cor, relegando famílias negras de pele retinta, como os McKay, à condição de subalternidade. Enquanto os culis [coolies] chegavam da Ásia para trabalhar no campo, os jamaicanos migravam para o Panamá ou para os EUA em busca de prosperidade. Cidades como Kingston e St. Andrew cresciam, ampliando a oferta educacional e levando à formação de um circuito cultural de onde emergiria uma pequena intelligentsia negra – a qual passaria a refletir criticamente a respeito da situação do país, em termos econômicos, políticos, culturais e étnicos. O irmão de Claude, Uriah Theodore (U’Theo) foi um dos formados no prestigiado Mico Teacher’s College, da capital do país; teve contato com o fabianismo e o agnosticismo, desenvolvendo orgulho por ser um homem negro letrado; participou de debates na esfera pública e escreveu para jornais.
Depois de aprender as primeiras letras na escola da Igreja Mt. Sião, Claude foi morar com seu irmão mais velho, Uriah Theodore (U’Theo), em Montego Bay, em 1897, para continuar sua formação. Ali, tomaria conhecimento de uma outra Jamaica, muito diferente do seu pequeno vilarejo. Neste período em que viveu com o irmão, familiarizou-se com os clássicos da literatura mundial. Aproveitando-se da boa biblioteca do irmão, iniciou-se no socialismo fabiano e rompeu com sua formação religiosa. Assumindo-se um livre pensador, teve acesso a jornais e revistas de Kingston, Londres e Nova Iorque, começando a escrever poemas – sobre temas do folclore jamaicano, seguindo o estilo clássico britânico. Em 1902, retornou para Sunny Ville junto com seu irmão, que comprara terras no vilarejo natal e assumira uma escola local, onde Claude terminaria sua formação tendo o próprio U’Theo como professor.
Em 1907, Claude foi aprovado para estudar em uma escola profissional de comércio em Kingston, mas um terremoto atingiu a cidade e ele logo teve de regressar à casa dos pais. Impossibilitado de retornar a Kingston, entre 1907 e 1909, ele foi aprendiz de um artesão em Brown’s Town. Nesse período, conheceu Walter Jekyll, cavalheiro inglês com quem desenvolveu relação de afeto e que o influenciaria[1].
Em 1909 sua mãe morreu. Claude McKay se mudou então para Kingston acompanhando Jekyll. Na cidade, trabalhou em uma fábrica de fósforos e depois se integrou à polícia, em Spanish Town, onde permaneceu até 1911. Como policial, tomou consciência da dimensão da violência das forças repressivas britânicas contra a população trabalhadora das cidades coloniais do Caribe, solidarizando-se com os marginalizados. Paralelamente, a convivência com Jekyll, crítico da industrialização e admirador da cultura popular jamaicana, do qual coletava baladas e histórias que compilaria em Jamaican song and story (1907), influenciou uma guinada estética na poesia de McKay. Ele passou a trabalhar com as especificidades da língua inglesa falada na Jamaica, abandonando a estética imperial vitoriana em busca de uma forma que dialogasse com as peculiaridades locais – o que inspiraria vários poetas jamaicanos como Louise Bennett. Por intermédio de Jekyll, seus poemas foram publicados nos principais periódicos do país, o Kingston Daily Gleaner e o Jamaica Times; conheceu o pessimismo de Schopenhauer e aderiu à Rationalist Press Association, travando contato com influentes livres-pensadores.
Nesse período McKay publicou seus dois primeiros livros de poesia, Songs of Jamaica e Constab ballads, ambos de 1912, nos quais celebra a cultura popular nacional, registra as condições de vida da população negra e reflete sobre sua experiência na polícia. Ainda este ano, em meio a uma revolta popular contra o aumento do preço das passagens de bonde em Kingston, publicou no Daily Gleaner o poema “Passive resistence”, evocando o direito à autodefesa e à luta pelos direitos “sem derramamento de sangue”. Em seguida, numa celebração da história de resistência negra, publicou poemas celebrando a Rebelião de Morant Bay (1865) – contra a miséria generalizada e a injustiça dos britânicos contra libertos, excluídos da vida política e social após a abolição da escravidão (1833).
No mesmo ano, contrariando os conselhos de Jekyll, mudou-se para o Alabama, nos Estados Unidos, para estudar agronomia no Tuskegee Institute, dirigido por Booker T. Washington e voltado à formação profissionalizante de jovens negros, conforme os princípios defendidos por seu fundador que visavam a elevação moral e econômica da população afroestadunidense e dos negros da diáspora. O racismo aberto e os linchamentos no Sul dos EUA chocaram o jovem McKay, que tampouco se adaptou à disciplina semi-militar de Tuskegee. Ainda em 1912, transferiu-se para Kansas State College, em Manhattan, onde ficou até 1914. Ali entrou em contato com os círculos socialistas estudantis, com os sindicalistas da Industrial Works of the World (IWW) e com as ideias de W. E. B. Du Bois, que o marcaram profundamente e ajudaram-no a formular crítica a B. T. Washington.
Em 1914, abandonou o curso de agronomia e partiu para Nova Iorque, onde abriu um restaurante no Brooklyn (que logo faliu). Ali, casou-se com uma antiga namorada, Eulalie Imelda Edwards, com quem teve uma filha – que ele não conheceu, pois o matrimônio se desfez em meses e Eulalie, ainda gestante, retornou à Jamaica. Seus fracassos na vida privada coincidiram com a eclosão da I Guerra Mundial. Durante o conflito, McKay ganhou a vida exercendo ofícios braçais, ocasião em que conheceu de perto as contradições da classe trabalhadora estadunidense; escreveu poemas e experimentou com sua bissexualidade as noites boêmias da cidade.
Em 1917, a eclosão da Revolução de Outubro e seus impactos na libertação dos povos encheram McKay de esperança e precipitaram sua transição do fabianismo para o bolchevismo. Nos EUA, entretanto, o clima do pós-guerra era mais ambíguo. A migração de negros do Sul e do Caribe para o Norte e o crescimento de metrópoles como Nova Iorque, Chicago e Filadélfia propiciaram um clima de efervescência cultural e circulação de ideias radicais socialistas e nacionalistas negras, que geraram movimentos como o “Renascimento do Harlem” e “Novo Negro”, dos quais McKay participou ativamente, publicando poemas em periódicos como The Seven Arts, Person’s Magazine e The Liberator, declamando em reuniões da Universal Negro Improvement Association (UNIA), de Marcus Garvey, e desenvolvendo amizade e parceria editorial com lideranças como Hubert Harrison e Max Eastman.
Por outro lado, o retorno de soldados da guerra, os conflitos raciais por postos de trabalho, a onda grevista de 1918, o pânico instaurado na sociedade pela repercussão da revolução soviética e o crescimento das organizações radicais negras levaram a uma onda de reação que resultaria na expulsão de imigrantes radicais do país (1918-1919) e no crescimento de linchamentos contra a população negra. Isto culminou com o “Verão Vermelho” de 1919 – um dos períodos de conflito racial mais agudos dos EUA. É nesse contexto, conclamando os negros a resistirem, que McKay publica If We Must Die, seu poema mais famoso, na revista socialista The Liberator. Com seus versos que simbolizavam a disposição do “novo negro” de reagir à violência racista com os meios que fossem necessários, abandonando o projeto integracionista de lideranças antigas (como B. T. Washington), McKay se tornou conhecido pelo mundo. Trabalhando como garçom ferroviário, ele passaria estes tempos andando armado junto a seus colegas negros, prontos para se defenderem. No mesmo ano, já funcionário de uma fábrica em Nova Iorque, formalizou sua filiação à IWW, tornando-se um militante orgânico desta radical central sindical estadunidense.
Ainda em 1919, mudou-se para a Inglaterra, onde conheceu Bernard Shaw e desenvolveu amizade com a líder comunista e feminista Sylvia Pankhurst, por meio de quem conseguiu integrar a equipe do jornal Workers Dreadnought, de Londres, cobrindo os conflitos raciais entre trabalhadores, greves de diversas categorias, reuniões sindicais e debates sobre a luta de independência da Irlanda, Índia e África do Sul. Tornou-se então membro da Workers’ Socialist Federation, filiada à Internacional Comunista, passando a estudar as obras de Marx[2]; viajou pela Europa e em 1920 publicou seu primeiro livro, Spring in New Hampshire. Convivendo com militantes das colônias inglesas, aprofundou suas convicções anti-imperialistas. O racismo experimentado em Londres, inclusive dentre a esquerda, desapontou McKay, que denunciou em artigos o provincianismo e reacionarismo de algumas lideranças sindicais, chegando a solicitar que Leon Trótski interviesse no Partido Comunista britânico a fim de censurar posições explicitamente racistas de alguns dirigentes.
Retornou aos EUA em 1920, para editar o Liberator. Frequentador da boemia nova-iorquina e cioso de sua liberdade estética, McKay travou debates com socialistas em defesa de suas opções artísticas e contra o conservadorismo dos costumes. Com outros militantes caribenhos, como Cyril Briggs, participou da Irmandade do Sangue Africano, organização semiclandestina posteriormente fundida com o Partido Comunista dos Estados Unidos.
Em 1922, lançou o livro de poesia Harlem shadows. No mesmo ano, viajou à União Soviética, onde fez uma conferência sobre a situação dos negros nos EUA, no IV Congresso Internacional Comunista, além de auxiliar na articulação da IC em relação à organização de quadros envolvidos na luta anticolonial, anti-imperialista e no internacionalismo negro. Na ocasião travou contato com Maiakóvski, Trótski, Zinovyev, Bukharin e Clara Zetkin; e colaborou com a imprensa soviética, analisando a situação dos negros e a questão colonial, o que redundaria na publicação do livro The negroes in America (1923).
Mudou-se para Berlim, em 1923, e circulou por várias cidades europeias no decorrer daquela década, vivendo em Paris e Marselha, onde colaborou com La Revue du Monde Noir e desenvolveu produção que influenciaria autores como Léopold Senghor e Aimé Césaire na formulação do movimento Négritude. Morou também no Marrocos. Essa época marcou sua retirada da vida partidária e a transição da poesia para a prosa – publicando alguns romances como Home to Harlem (1928). Na virada da década de 1920 para 1930, conservando suas convicções comunistas, fez críticas ao governo de Stálin em termos políticos e estéticos.
Com problemas respiratórios, desiludido com as organizações comunistas e falido, McKay retornou aos EUA, em meados da década de 1930, onde passou por dificuldades financeiras, sendo despejado em Nova Iorque e tendo de viver em um campo de trabalho do governo para desempregados. Nesse período, publicou uma autobiografia e um tratado sociológico sobre o Harlem. Tentou organizar uma associação para escritores negros, a Negro Author’s Guild, mas fracassou.
Na década de 1940, por intermédio da amiga escritora Ellen Tarry, foi acolhido pela instituição católica Friendship House. Em 1944, mudou-se para Chicago, a convite do bispo Henry Sheil, que desenvolvia um trabalho de integração racial na região, para lecionar literatura negra na Sheil School. Por conta de doença, passou algumas temporadas em tratamento no Novo México.
Claude McKay morreu de insuficiência cardíaca em 1948, em Chicago, aos 57 anos.
2 – Contribuições ao marxismo
O contato mais sistemático de Claude McKay com as obras de Karl Marx se deu durante sua passagem por Londres, aos 30 anos, nas jornadas de estudo no Museu Britânico e nas reuniões de formação organizadas pelos camaradas do International Socialist Club (ISC). Antes, porém, no período em que viveu com seu irmão, já tinha se aproximado do pensamento socialista por meio de panfletos e periódicos radicais, lendo autores fabianos, utopistas, livre pensadores e divulgadores das mais variadas tendências do movimento socialista. Seu pensamento embora tenha se modificado ao longo do tempo, manteve algumas linhas mestras.
Dado o papel de U’Theo e Walter Jekyll em sua formação, os primeiros textos, poemas e intervenções públicas de McKay foram marcados pela influência, por um lado, do socialismo fabiano, do agnosticismo e do orgulho negro; por outro, por um pessimismo de matriz schopenhaueriana e uma crítica aristocrática à urbanização e industrialização que tendia a projetar no mundo rural e no campesinato uma pureza que estaria se perdendo com o avanço do utilitarismo burguês. Essa posição algo paternalista, associada a sua experiência com os trabalhadores rurais da sua vila e com a degradação das condições de vida do subproletariado urbano com o qual lidava na época em que foi da polícia, levou McKay a desenvolver uma solidariedade com os excluídos, procurando tratar do tema dos grupos subalternizados em seus versos. Assim, rompeu com a tendência das camadas letradas das colônias de reproduzir, com temas do folclore local, a forma da poesia vitoriana. Sua primeira contribuição à reflexão anticolonial e anti-imperialista foi, portanto, no campo estético. Os debates que se seguiriam, na Jamaica e em outras colônias, a respeito da adequação do uso do idioma local para fins poéticos sempre teriam o exemplo da obra de McKay; algo que, no plano artístico-cultural, dialogava com as tendências nativistas que redundariam nos primeiros projetos independentistas.
Se o contato com a exploração dos trabalhadores, com o colonialismo inglês e o imperialismo dos conglomerados estadunidenses na Jamaica despertaram McKay para uma consciência reformista e gradualista, típica do socialismo fabiano, sua indignação com a repressão que governadores fabianos perpetravam contra revoltas da população pobre da colônia, com a segregação racial e com a violência dos linchamentos dos EUA o radicalizaram. Sua experiência nas diversas regiões jamaicanas havia demonstrado que a dominação racial e de cor se articulava com a estrutura de classes, a qual, por sua vez, se aproveitava e estimulava os conflitos raciais na base da pirâmide social – entre brancos, pardos, asiáticos e outros subgrupos –, como forma de viabilizar o controle de um pequeno núcleo de administradores coloniais brancos. Portanto, pensar racismo e classe de forma separada seria uma abstração sem sentido.
Nos EUA, a leitura das obras de Du Bois e a vivência no proletariado, enquanto sindicalista revolucionário, permitiu-o observar como a “linha de cor” e o “salário psicológico” dos trabalhadores brancos operavam no sentido de dividir e enfraquecer a classe trabalhadora e suas organizações. Por outro lado, embora fosse um defensor do fim da segregação racial, entendia que a abolição da legislação segregacionista, por si só, não resolveria o problema da imensa massa de trabalhadores negros, que não se beneficiaria de políticas integracionistas, como os membros da classe média intelectualizada que se reuniam nas palestras e publicações no Harlem. Essa posição crítica lhe gerou desentendimentos e inimizades. Para o poeta jamaicano, nem políticas de acomodação, como as defendidas por B. T. Washington, nem as iniciativas para a formação de uma elite negra próspera e intelectualizada, como o “décimo talentoso” de Du Bois ou grupos que defendiam o empreendedorismo negro, seriam o suficiente para resolver a questão da emancipação negra[3].
Nesse sentido, seu conhecimento pessoal da pigmentocracia jamaicana o advertia da necessidade de levar em conta as clivagens de classe no interior da questão racial. Não à toa, como observou Winston James, muitos dos militantes que tinham teses como as de McKay, articulando etnia e classe, foram também imigrantes caribenhos – como Cyril Briggs, Hubert Harrison, Richard B. Moore e Wilfred Domingo, ou mesmo C. L. R. James e Eric Williams, que não conviveram com McKay. Assim, era preciso pensar sobre as teias que ligavam a questão racial e de classe de uma maneira universal.
Nesse ponto, seu pensamento se assemelha ao de sua camarada inglesa, Sylvia Pankhurst, que rompeu com as sufragistas de classe média por entender que sua luta pela emancipação das mulheres não levava suficientemente em conta as especificidades da mulher trabalhadora. Na mesma direção das reflexões de McKay sobre a questão racial, ela compreendia que o patriarcado se articulava de maneira complexa e interdependente com a dominação de classe. Diante desse imbricamento entre raça e classe, o papel que McKay assumiu na imprensa socialista foi o de denunciar o racismo no interior de sindicatos e partidos de esquerda, ao mesmo tempo que apontava o caráter de classe de projetos para a emancipação negra. Se assimilação, elevação, empreendedorismo e formação de uma elite negra, capaz de representar e educar as massas pauperizadas da população, servindo-lhe de guia e exemplo, não eram o caminho para a emancipação, restava apenas a revolução socialista.
Em artigos como Socialism and the negro (Workers’ dreadnought, 1920) ou Soviet Russia and the negro (Crisis, 1923), McKay se debruça sobre os impactos da revolução de 1917 na subjugação dos eslavos pela igreja e na desarticulação do império russo. Sua esperança no socialismo, na revolução e no protagonismo da classe trabalhadora nesse processo, independentemente das divisões raciais, o colocou em rota de colisão com Du Bois que se mantinha cético tanto em relação à ideia de revolução, quanto à capacidade da classe trabalhadora branca estadunidense, seus sindicatos e partidos abdicarem da “linha de cor”, caso os trabalhadores negros ingressassem nessas organizações. A julgar pela aproximação de Du Bois com o marxismo nas décadas subsequentes, é de se supor que os argumentos de McKay, e de toda aquela geração de marxistas negros, mexeram com as convicções de seu velho guru.
Cosmopolita, McKay pensava o racismo em seu aspecto transnacional, articulado com os fenômenos do colonialismo e do imperialismo, sem desprezar as especificidades regionais. Entendia que os movimentos internacionalistas não deveriam desprezar as organizações vinculadas à libertação nacional, pois, uma vez superado o jugo colonialista, os povos tenderiam a ultrapassar a fase democrático-burguesa na direção de uma revolução socialista, como havia ocorrido em 1917 na Rússia. Em certo sentido, sua ideia de revolução global se aproximava da noção de “revolução permanente”, de Leon Trótski. Se para derrotar o racismo no nível local era necessário a construção de um movimento revolucionário que unificasse organizações negras e trabalhadores brancos, tendo o partido comunista à frente, no nível internacional era preciso unificar as organizações dos trabalhadores com os movimentos anticoloniais, anti-imperialistas e as organizações negras internacionais, que reuniam os indivíduos da diáspora. O papel de articulação desses diferentes agentes caberia à Internacional Comunista. Daí seu esforço durante o IV Congresso do Comintern e depois na defesa da criação de mecanismos de aglutinação desses grupos sob o patrocínio da URSS.
Esse chamado à unidade não representava um desprezo à diferença. Negro, bissexual, imigrante, nômade e boêmio, McKay era, ele próprio, alguém que invariavelmente causava incômodo nos espaços em que frequentava, ora sofrendo com o racismo, ora sendo alvo de objeções moralistas. Em seus romances, operários, militantes, boêmios, negros, brancos, asiáticos, homossexuais, pessoas com deficiência e toda sorte de pessoas interagem, gerando conflitos e redes de solidariedade. Suas narrativas divergentes, embora comprometidas com a causa negra e comunista, eventualmente recebiam críticas tanto de zidanovistas quanto de Du Bois, que tinha objeções a Home to Harlem por supostamente apelar a estereótipos racistas que associavam os negros à miséria, violência e sexualidade. Recentemente, tanto historiadores sociais preocupados com tema da identidade e da diferença no interior da classe trabalhadora, quanto estudiosos da literatura vinculados a ramos da teoria crítica, como a teoria queer e a teoria crítica da deficiência, têm se apropriado de suas produções em diversas chaves analíticas.
McKay tinha uma reflexão dialética, na qual local e global, identidade e diferença, particular e universal estavam em permanente interação. Sua condição de negro não era entendida numa perspectiva que reificava as identidades, aprisionando-as em blocos autorreferentes. Ao contrário, sua condição particular era uma porta de entrada, um caminho específico para a totalidade. Em um artigo publicado no The Liberator, em 1921, intitulado How Black Sees Green and Red, depois de afirmar que os negros estadunidenses guardavam certo rancor em relação aos irlandeses, ele diz que sofre “com os irlandeses”: “O fato de pertencer a uma raça subjugada me dá direito a alguma compreensão deles”.
Como Winston James notou, em parte, a longevidade do poema mais famoso de McKay, “If we must die” [“Se tivermos que morrer”], se explica por seu caráter universal. Embora tenha sido escrito em uma circunstância específica, conclamando os negros à reação contra a onda de linchamentos de 1919, o “nós” do poema não é identificado por etnia, gênero ou nacionalidade, e seu canto pôde ser entoado por prisioneiros de campos de concentração, por militantes pelos direitos civis, por sindicalistas e por soldados (na II Guerra Mundial). E mais recentemente, em 2023, após Gaza ser bombardeada por Israel, o poeta palestino Refaat Alareer, uma das vítimas então assassinadas pelo regime sionista, dias antes havia publicado nas redes aquele que seria seu último poema: “If I must die” – clara referência aos versos do marxista jamaicano. O canto de resistência – “se devemos morrer, ó vamos morrer como nobres”[4] – torna-se um canto de esperança na vitória futura –, “se devo morrer, que traga esperança”. Um século depois, os versos de McKay seguem inspirando as lutas contra o colonialismo, o imperialismo e o racismo em várias partes do mundo.
3 – Comentário sobre a obra
Claude McKay teve uma produção intensa e diversificada durante a vida. Debutou na poesia ainda na Jamaica e atingiu seu ápice nos EUA, com a publicação de “If we must die” (The Liberator, Nova Iorque, jul. 1919), poema que o tornaria conhecido no estrangeiro. Depois de uma temporada na Europa, passou a produzir romances que tematizavam o cotidiano dos trabalhadores, a condição colonial e a vida boêmia das grandes metrópoles. Contudo, foi nos artigos publicados na imprensa e nos ensaios sociológicos e autobiográficos que suas posições políticas e sua peculiar compreensão do marxismo se explicitam.
Suas duas primeiras coletâneas de poemas foram publicadas na Jamaica, em 1912. Em Songs of Jamaica (Kingston: Aston W. Gardner, 1912), livro pioneiro na mobilização poética do patois jamaicano e do vocabulário do campesinato negro, os conflitos de classe, as desigualdades raciais, o cotidiano dos trabalhadores rurais e a exploração colonial são os temas centrais.
Em Constab ballads (Londres: Watts & Co., 1912), o discurso dialetal serve à expressão poética da malfadada experiência do autor na força policial. Sua solidariedade com os marginalizados, desviantes e prostitutas, sua rejeição à disciplina e hierarquia da corporação, além de seu ódio à injustiça desembocam num sentimento de revolta, evocado na introdução da coletânea, que é canalizado para o fazer poético.
Spring in New Hampshire and other poems (Londres: Grant Richards, 1920) foi sua primeira coletânea de poemas publicada após sair da Jamaica, no período em que esteve na Inglaterra, já como o autor mundialmente conhecido de “If we must die”; é um dos símbolos da nova literatura negra que emergiu com o Renascimento do Harlem. Entre os 31 poemas reunidos no livro, em que a nostalgia da terra natal, os mundos do trabalho nas metrópoles estadunidenses, a vida noturna no Harlem e o racismo são temas recorrentes, está “The Lynching”, que saiu inicialmente na Cambridge Magazine, também em 1920, e que permanece sendo, ao lado da canção “Strange fruit” e dos macabros cartões-postais produzidos pelos sulistas deste país, uma das imagens mais impactantes dos linchamentos de negros nos Estados Unidos.
Os conflitos raciais, a vida na metrópole nova-iorquina, as condições de existência dos trabalhadores, a extenuante rotina das garotas de programa do Harlem, a sedução, o amor e a nostalgia da Jamaica voltariam a ser tematizados na coletânea Harlem shadows: poems (Nova York: Harcourt, Brace and Company, 1922), em que anunciava o alvorecer de uma modernidade negra no campo das artes e da literatura que se articulava, no plano ético-político, com uma conclamação à resistência contra todas as formas de opressão.
No ano seguinte, foi publicado em Moscou seu ensaio The negroes in America (Ogonek, 1923), encomendado pelo Partido Comunista da URSS, o qual só seria editado em inglês na década de 1970. Nele, McKay explora uma outra faceta da sua produção intelectual, já presente em seus artigos de imprensa: a análise crítica da experiência negra a partir do aporte teórico do materialismo histórico. No livro, o militante comunista historiciza essa experiência para um público distante da realidade vivida no continente americano, de uma perspectiva em que classe e etnia interagem de maneira dinâmica na estruturação dos mecanismos de dominação, entendendo a segregação racial pela ótica da luta de classes.
Os estudos necessários para a elaboração desse ensaio renderam, ainda, a publicação, em 1925, de seu primeiro experimento ficcional em prosa, Trial by lynching: stories about negro life in North America [Julgamento por linchamento] (Mysore: Centre for Commonwealth Literature and Research, 1977), escrito que foi tido como perdido, vindo a ganhar uma edição em inglês somente décadas depois. A obra traz um comentário ficcionalizado do romance Birthright (1922), de T. S. Stribling, abordando temas como a perspectiva dos brancos a respeito dos linchamentos, as diferenças étnicas entre soldados retornados da guerra, relacionamentos amorosos inter-raciais e a condição dos pardos na sociedade estadunidense.
Pouco depois, McKay publicou seu primeiro romance, Home to Harlem (Nova Iorque: Harper and Brothers, 1928), que gerou polêmica entre a intelectualidade negra de classe média. Foi acusado de mobilizar representações racistas que associavam o negro à violência, sexualidade e contravenção na construção dos personagens. O livro conta a história de um soldado negro que desertou do Exército durante a I Guerra em função de conflitos raciais; de volta à casa, se apaixonou por uma prostituta. Enquanto isso, um imigrante haitiano, seu colega de trabalho na ferrovia, com formação universitária, apresenta um contraponto ao estilo de vida das camadas subalternas do Harlem, sustentando um novo tipo de comportamento baseado no orgulho racial. O diálogo do romance com os debates travados no Renascimento do Harlem fez da obra um marco do movimento afro dos EUA.
Os dilemas existenciais dos trabalhadores negros reaparecem em Banjo (Nova Iorque/ Londres: Harper and Brothers, 1929), romance ambientado na cosmopolita Marselha, em uma comunidade pan-africana de operários e boêmios de diferentes lugares do mundo. As personagens vagam pela cidade, labutando, amando e conversando sobre o passado na África, no Caribe ou nos EUA, e debatem sobre a condição dos negros na diáspora. O protagonista da trama, Banjo, passa seus dias pedindo esmola e sonhando em montar uma banda, até que conhece um escritor, que se junta ao grupo e provoca uma redescoberta de suas raízes africanas.
Já Gingertown (Nova Iorque: Harper and Brothers, 1932), é uma coletânea de contos, com tramas que se desenrolam na Jamaica, Nova Iorque e Marrocos. Neste livro, finalizado quando o autor vivia na cidade marroquina de Xauen, temas como as formas de vida no Harlem e o mundo rural do Caribe se somam a reflexões sobre o Norte da África, ampliando seu repertório de elaborações sobre a experiência negra trabalhadora.
No ano seguinte, sai seu terceiro romance, Banana botton (Nova Iorque: Harper e Brothers, 1933), que traz uma protagonista feminina, uma garota jamaicana adotada por missionários brancos e enviada para estudar na Inglaterra. Ao retornar para sua cidade natal, ela começa a questionar sua formação protestante e metropolitana, se aproximando da cultura popular, com seus costumes, paixões e superstições. Como em outros livros, este também tem características autobiográficas.
Ainda em 1933, McKay terminou outra obra, só publicada postumamente, Romance in Marseille (Londres: Penguin, 2020). Aqui, ele retorna ao porto francês de Banjo acompanhando um grupo de estivadores, prostitutas e militantes das mais diferentes cores, nacionalidades, orientações sexuais, identidades de gênero e condições físicas que, entre conflitos e solidariedades, experienciam a vida em um polo econômico moderno, embora ainda com marcas do passado escravista – em um escrito que antecipa preocupações das novas gerações.
O papel central de McKay no Renascimento do Harlem não deve minimizar suas desavenças com alguns dos nomes mais conhecidos deste movimento e com algumas de suas tendências hegemônicas. É isso que se depreende da leitura de sua autobiografia A long way from home (Nova Iorque: Lee Furman, 1937)[5], onde analisa sua vida com uma franqueza cortante, refletindo sobre sua inserção na intelectualidade do Harlem e em diversos países. Sua condição rebelde de comunista, bissexual, imigrante em permanente deslocamento e contrário ao moralismo de lideranças negras o colocaram em choque com outras figuras do movimento New Negro. São pontos altos deste livro sua perspectiva marxista e internacional da questão do negro – preocupada em sempre articular racismo e questão de classe nas análises.
Harlem Glory: a fragment of aframerican life é do fim dos anos 1940, mas só foi publicado em 1990 (Chicago: Charles H. Kerr). A narrativa ficcionalretrata o cotidiano dos negros no período posterior ao Renascimento do Harlem, marcado pela Grande Depressão e New Deal. As festas, os debates ideológicos, as mobilizações da classe trabalhadora e o movimento negro são temas presentes.
Esses motes também são abordados no livro de não-ficção Harlem: negro metropolis (Nova Iorque: Dutton and Company, 1940), espécie de tratado sociológico sobre o bairro e a classe trabalhadora negra desta metrópole, em que trata da diversidade da população, de suas estratificações internas e diferentes interesses, mas também da linguagem comum que aí emerge, estimulando uma postura ativa de combate ao racismo.
Outro livro – escrito em 1941 mas publicado postumamente – foi Amiable with big teeth [Amável com dentes grandes] (Londres: Penguin, 2018), seu derradeiro romance. Narra a história de um grupo de militantes e intelectuais do Harlem que se organiza para dar apoio à libertação da Etiópia, dominada pelos fascistas, ao mesmo tempo em que mergulha em disputas políticas mesquinhas.
Finalmente, em 1946 o autor escreveu sua última obra, My green hills of Jamaica (Kingston: Heinemann, 1979), na qual elabora as memórias da infância e juventude, que não foram abordadas em A long way from home. A Jamaica rural, os costumes, os amores, o cotidiano de Sunny Ville, a mãe, o tempo morando com o irmão, a convivência com Jekyll, a vida em Kingston, seus anos de formação são tratados em uma linguagem lírica, em um momento de debilidade, pouco antes de sua morte.
Recentemente, com a descoberta dos manuscritos de Amiable with big teeth e Romance in Marseille, com a publicação de uma biografia sua escrita por Winston James (2022) e com o crescente interesse sobre temas relacionados à intersecção entre as questões de classe, racial, de gênero e de deficiência, houve um interesse renovado na obra do comunista jamaicano. No bojo dessa redescoberta, foi publicado The collected articles of Claude McKay (Bristol: Read and Co. Books, 2022), uma reunião de artigos de imprensa de maior impacto. Ali estão, por exemplo, “Socialism and the negro” (Workers’ Dreadnought, Londres, 1921), em que ele conclama a união entre o movimento socialista dos trabalhadores, as lutas por libertação nacional e as organizações negras; e “How black sees green and red” (The Liberator, Nova Iorque, 1921), em que desenvolve uma leitura a respeito da causa irlandesa desde sua posição de negro nascido em uma colônia inglesa caribenha.
Outros artigos importantes, entretanto, ficaram de fora dessa empreitada editorial. É o caso de duas análises suas a respeito da centralidade da União Soviética para emancipação do povo negro. “Soviet Russia and the negro” (Crisis, Nova Iorque, 1923) registra sua passagem pela URSS, com observações sobre os resultados surpreendentes da Revolução Russa no combate ao racismo – especialmente se comparado à experiência dos demais países europeus. Já “Report on the negro question” (International Press Correspondence, Berlim, 1923) é a transcrição da conferência realizada por McKay no IV Congresso da IC, na qual celebrou as conquistas revolucionárias, defendendo o desenvolvimento de mecanismos de formação de lideranças negras, em contato com militantes comunistas e anticoloniais, sob a liderança da III Internacional.
No Brasil, a obra de McKay foi pouco traduzida. Embora as primeiras menções ao poeta remetam à década de 1930, com a publicação dos poemas “Baptismo” e “Os trópicos em Nova York” na Revista Brasileira (Rio de Janeiro, 1935), foi apenas com a publicação da antologia Porque eu odeio (Londrina: Grafatório, 2019) que alguns de seus versos mais conhecidos ganharam tradução para o português.
4 – Bibliografia de referência
COOPER, Wayne F. Claude McKay, Rebel sojourner in the Harlem Renaissance: a biography. Baton Rouge (Luisiânia): LSU Press, 1987.
HOLCOMB, Gary. Claude Mckay, code name Sasha: queer black marxism and the Harlem Renaissance. Gainesville: Univ. Press of Florida, 2007.
JAMES, Winston. Claude McKay: the making of a black bolshevik. Nova Iorque: Columbia University Press, 2022.
Lima, Aruã Silva de. Comunismo contra o racismo: autodeterminação e vieses de integração de classe no Brasil e nos Estados Unidos (1919-1939). Tese [História], Universidade de São Paulo, S. Paulo, 2015.
MATTOS, Pablo de Oliveira. “A intelectualidade negra e a experiência soviética”. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 35, n. 77, 2022.
Nota editorial
* Jhonatan Uewerton Souza é professor de História no Instituto Federal do Paraná; graduado em História pela Univ. Estadual de Maringá, mestre em História (UFPR) e doutorando em História (Unicamp). Autor de, entre outras obras: Paraná insurgente: história e lutas sociais – séculos XVIII ao XXI (São Leopoldo: Casa Leiria, 2018).
* Noemi Santos da Silva é professora de História na UFPR; graduada e mestre em História (UFPR) e doutora em História Social (Unicamp). Integrante da coordenação do Grupo Emancipações e Pós-Abolição (ANPUH). Autora de, entre outras obras: Direito de aprender: a educação nas lutas negras por emancipação (IFCH/Unicamp, 2023).
* Com edição de texto de Yuri Martins-Fontes, Pedro Rocha Curado e Joana A. Coutinho, e ilustração de Felipe Santos Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis da USP, sendo um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões são bem-vindas: editoria@nucleopraxisusp.org.
[1] Cooper (1987).
[2] Holcomb (2007).
[3] Ver Cooper (1987) e Holcomb (2007).
[4] “If we must die” (1919).
[5] Edição recente: A long way from home. New Brunswick: Rutgers Univ. Press, 2007.