O marxismo de Leôncio Basbaum

Médico, editor e pensador marxista, foi organizador da Juventude Comunista e dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB), destacando-se em trabalhos de formação política e produzindo uma das primeiras aplicações do materialismo histórico à realidade brasileira Por Lincoln Secco e Paulo Alves Junior * BASBAUM, Leôncio (brasileiro; Recife, 1907 – São Paulo, 1969) 1 – Vida e práxis política Leôncio Basbaum nasceu no Recife do começo do século XX, sendo o sexto dos onze filhos de Isaac e Clara Basbaum, imigrantes originários de Kichinev, capital da então Bessarábia (hoje Chisinau, Moldávia). A família, proprietária de uma pequena joalheria na capital pernambucana, integrou-se a um meio urbano em transformação. Em suas memórias, ele registraria que uma das suas primeiras experiências políticas de importância foi a celebração da vitória dos aliados da I Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, nas ruas recifenses, episódio que marcou sua passagem da infância para a adolescência1. Basbaum teve uma boa educação. Em 1919, foi matriculado no Ginásio Ayres Gama, sendo transferido, em 1923, para o Ginásio Carneiro Leão, prestigiada instituição recifense. Concluído o ensino médio, embarcou em março de 1924 para o Rio de Janeiro, com o objetivo de cursar Medicina. No mês seguinte ingressou na Faculdade de Medicina do Rio, na qual se formaria em 19292. Nesse período, aproximou-se do universo literário e político, escrevendo contos para a Revista Número, sob o pseudônimo de Jeremias Cordeiro. De acordo com seu próprio relato, os primeiros meses no Rio de Janeiro não foram de militância imediata, mas de adaptação e vida social junto ao ambiente estudantil, além de conversas noturnas na pensão em que vivia – sobre futebol, professores, literatura e família3. No entanto, as férias de 1924 e 1925 no Recife foram decisivas. Frequentando a enfermaria do Hospital Pedro II como estudante de medicina, Basbaum mantinha laços com antigos camaradas da faculdade, entre eles Raul e Manuel Karacik, com quem discutia a respeito da “Rússia Bolchevista”. Por intermédio dos irmãos Karacik, foi apresentado a Souza Barros, que o iniciou nas discussões sobre comunismo, bolchevismo e as figuras de Lênin e Trótski. Essa cadeia de sociabilidade o levou a conhecer Cristiano Cordeiro, Astrojildo Pereira e outros militantes que haviam participado da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 25 de março de 1922, e da I Comissão Central Executiva (CCE) – núcleo político partidário. Com eles, Basbaum teve seu primeiro contato mais direto com o marxismo4. Em 1925, de volta ao Rio de Janeiro, participou de um comício de 1º de Maio na Praça Mauá, em um contexto de estado de sítio (decorrente da Revolta Paulista de 1924). Nesse momento o nome de Luiz Carlos Prestes e a experiência da chamada Coluna Prestes começaram a circular com mais intensidade em seu horizonte político. O vínculo orgânico com o PCB se consolidou no ano seguinte, quando, após nova participação nas comemorações de 1º de Maio, recebeu uma ficha de filiação de Abelardo Nogueira (um dos primeiros militantes do Partido e pioneiro da imprensa operária). Poucos dias depois, Leôncio Basbaum tornou-se membro do partido. Com Manuel Karacik e João Celso de Uchôa Cavalcanti, formou a primeira célula comunista da Faculdade de Medicina. Neste mesmo ano, a pedido de Astrojildo Pereira, organizou e ministrou no sindicato dos tecelões, durante três meses, um curso de introdução a O capital – baseado no resumo de Gabriel Deville. Aí já se delineava a articulação entre militância e formação teórica que marcaria sua trajetória. Em 1927, foi encarregado de construir uma organização juvenil de alcance nacional e passou a integrar a direção do Partido Comunista, com direito a voz e voto, como representante da Juventude Comunista (JC)5. Tornou-se então o primeiro-secretário-geral do Comitê Central da JC, cargo que ocupou até 1929. Suas tarefas incluíam recrutamento de jovens em fábricas, empresas, comércio e escolas, organizando atividades culturais, esportivas e recreativas como forma de politização e propaganda das ideias marxistas; era também responsável por editar o semanário O Jovem Proletário (1927-1928). A JC adquiriu peso numérico e político dentro do PCB. No início de 1928, sob a vigência da chamada Lei Celerada (que em 1927 limitou a liberdade de imprensa e de reunião no país, visando reprimir o movimento operário e a oposição política), Basbaum foi preso, sem explicações, por alguns dias na sede da polícia6. Ainda este ano, o PCB recebeu convites da Internacional Comunista (IC) para participar do VI Congresso da Internacional Comunista e do V Congresso da Internacional Juvenil Comunista, em Moscou. Na ocasião, foi escolhido como delegado da juventude. Suas lembranças sobre este evento são reveladoras: por um lado, admira a formação teórica dos marxistas europeus; por outro, critica neles a ignorância quase completa sobre a América Latina e sua tendência de transpor mecanicamente esquemas analíticos da Ásia para a realidade latino-americana. No Congresso, presenciado por Stálin, Basbaum relata a emoção ao ouvir a “Internacional” executada sob a regência de Pierre Degeyter, bem como a perplexidade diante da resolução que identificava os social-democratas como principais inimigos, relativizando o perigo do nazismo então em ascensão. Esse contexto internacional moldou a linha obreirista e sectária que mais tarde seria aplicada no Brasil. Em 1929, Basbaum chefiou a delegação do PCB na I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires, ocasião em que tentou convencer Luiz Carlos Prestes a ingressar no Partido, tentando aproximar o proletariado da pequena burguesia que se engajara nas propostas da Coluna. De volta ao Brasil, expôs suas impressões à direção, inclusive com críticas às posições de Prestes. Porém, as diferenças de avaliação sobre a via revolucionária no país foram superadas pela decisão de incorporar Prestes à liderança partidária a partir de 1930, o que se deu a partir da publicação do Manifesto de Maio no jornal paulistano Diário da Noite (29/05/1930), em que ele criticou Getúlio Vargas, rompendo com o tenentismo e com a Aliança Liberal varguista – além de anunciar uma plataforma socialista (sua efetiva filiação ao PCB ocorreria em 1934). Durante a década de 1930, como resultado das políticas adotadas após o IIIContinuar lendo “O marxismo de Leôncio Basbaum”

O marxismo de Acosta Saignes

Jornalista, professor, editor, antropólogo e historiador, foi fundador do Partido Comunista de Venezuela e do Partido Republicano Progresista, organização legal que abrigou os comunistas venezuelanos durante perseguição política Por Claudia Marcela Orduz Rojas * ACOSTA SAIGNES, Miguel Segundo (venezuelano; San Casimiro/Venezuela, 1908 – Caracas, 1989) 1 – Vida e práxis política Nascido no estado do Aragua, filho de Miguel Acosta Delgado e da francesa Adela Saignes Roulac, Miguel Segundo Acosta Saignes cedo se mudou para o estado de Miranda, onde passou sua infância e iniciou seus estudos. Em 1922, com 14 anos, foi morar na capital, Caracas, onde cursou o ensino médio. Sua juventude foi marcada por diversos acontecimentos sociais e políticos nacionais que marcaram sua trajetória: as lutas contra a ditadura de Juan Vicente Gómez (1908-1935); o aparecimento de epidemias que dizimaram a população; o surgimento dos primeiros movimentos migratórios do campo para as cidades; a oscilação dos preços do café, na época o principal produto de exportação; e a descoberta dos primeiros poços de petróleo e a concessão sem controle dos contratos de exploração a empresas estrangeiras, entre outros. Nesse cenário político e econômico conturbado, Acosta iniciou seus estudos superiores. Em 1928, ingressou na Facultad de Medicina da Universidad Central de Venezuela, onde se envolveu nas lutas contra a repressão e o regime autoritário do general Juan Vicente Gómez1. Foi preso por participar nas manifestações contra a ditadura e na comemoração da Semana do Estudante. Junto a outros estudantes – que faziam parte da chamada Generación de 19282 –, foi levado a La Rotunda, uma prisão conhecida pelas torturas, envenenamentos e condições inumanas contra os presos políticos. Pouco tempo depois, foi trasladado para Las Colonias, no estado de Miranda, e em abril de 1929, ficou preso no Castillo de Puerto Cabello, em uma base naval. Durante seu cativeiro no Castillo, Miguel Acosta conheceu o poeta José Pio Tamayo, pioneiro do marxismo venezuelano, que em Havana participou do coletivo que fundaria o primeiro Partido Comunista de Cuba3. Ali, Acosta recebeu as primeiras lições de formação política revolucionária, entrou em contato com a filosofia marxista e refletiu sobre a história e os problemas nacionais. Em fins de 1929, ele e seus companheiros de luta foram libertados; alguns optaram por continuar suas vidas no exílio, Acosta decidiu ficar no país. Dois anos depois, junto com outros jovens camaradas que participaram do coletivo de formação política Carpa Roja – coordenado por Pío Tamayo – nos anos de cárcere, Acosta organizou a fundação do Partido Comunista de Venezuela (PCV). Também em 1931, casou-se com sua prima María Teresa. Após o período da prisão, Acosta exerceu a docência como professor de matemática e psicologia. Para complementar sua renda, trabalhou ainda como linotipista, jornalista esportivo e revisor, entre outras atividades. Em 1933, ingressou no curso de Direito da Universidad Central de Venezuela. Em sua incursão no jornalismo, tornou-se colunista dos jornais El Heraldo, La Voz del Estudiante, Últimas Noticias e El Nacional; e fundou dois periódicos: La Gaceta de América (1935), com Inocente Palacios; e La Victoria (1936), acompanhado de Juan Morales Lara e Alejandro Alfonso Larraín. Além disso, atuou como diretor do jornal El Popular (1936), que defendia pautas como a reforma agrária, a criação de impostos mais altos e progressivos para as empresas petroleiras, a formação de uma refinaria estatal e o direito ao voto para jovens maiores de 18 anos. Durante a década de 1930, o pensador venezuelano se envolveu também na formação e organização de numerosos agrupamentos estudantis e sindicatos no interior do país. Sua atividade política foi intensa durante esse período: participou do I Congresso de Trabajadores de Venezuela,que fundou a Confederación Venezolana del Trabajo (CVT); fez parte da direção da Federación de Estudiantes de Venezuela (FEV) e participou, em 1936, como delegado da FEV, do primeiro congresso de estudantes socialistas da América Latina, realizado no México. Ainda em 1936, exerceu papel central na criação do Partido Republicano Progresista (PRP). De orientação marxista-leninista, o PRP funcionou como “fachada legal” da militância comunista venezuelana, pois a Constituição vigente na época considerava traidores a todos aqueles vinculados a partidos com doutrinas comunistas e anarquistas4. No mesmo ano, com a chegada ao poder de Eleazar López Contreras, Acosta e outros quarenta e sete companheiros militantes do PRP passam a ser considerados ameaças ao regime político e são expulsos do país. Após permanecer alguns meses na clandestinidade realizando trabalho político e organizativo, em janeiro de 1938 viajou ao México onde permaneceu exilado durante nove anos. Naquele momento, este país era considerado uma referência para a juventude rebelde, militante e estudiosa do continente americano. As grandes transformações sociais, econômicas e políticas introduzidas por Lázaro Cárdenas (1934-1940), a favor dos trabalhadores, indígenas e camponeses, eram tidas como exemplo e inspiravam as reflexões e lutas dos exilados venezuelanos e seus colegas latino-americanos. Com o intuito de aprofundar os estudos sobre a questão agrária, na qual vinha trabalhando desde seu período na clandestinidade, matriculou-se inicialmente no curso de Economia – que depois trocou pelo curso de Antropologia e História – na Escuela Nacional de Antropología. Também em 1938, publicou seu primeiro livro intitulado Latifundio: el problema agrario en Venezuela e três anos depois Petróleo en México y Venezuela (1941). Por este período, o autor assistiu a aulas com professores mexicanos e estrangeiros referências do pensamento antropológico da época: Alfonso Caso, Daniel Rubín de la Borbolla, Pablo Martínez del Río, Manuel Maldonado Kerdell, Miguel Othón de Mendizábal, Paul Rivet, Alfred Métraux, Juan Comas e Paul Kirchhoff. Foi justamente com Kirchhoff, um antropólogo marxista alemão expulso pelo regime nazista e exilado no México, com quem aprofundou a leitura crítica das obras de Marx, Engels e Lewis Morgan. Em 1945 recebeu os títulos de etnólogo e mestre em Ciências Antropológicas e um ano depois, com o retorno do regime democrático, voltou à Venezuela. Assim como outros companheiros da Generación de 1928, o antropólogo venezuelano não só complementou sua formação acadêmica no exílio, como retornou a seu país querendo impulsionar e renovar o conhecimento científico e social e promover a pesquisaContinuar lendo “O marxismo de Acosta Saignes”

O marxismo de John Reed

Jornalista, escritor e militante socialista, foi fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores dos Estados Unidos e autor de Dez dias que abalaram o mundo, clássico do jornalismo literário no qual relata sua observação dos acontecimentos da Revolução Soviética Por Ronaldo Tadeu de Souza * REED, John Silas (estadunidense; Portland/Estados Unidos, 1887 – Petrogrado/União Soviética, 1920). 1 – Vida e práxis política John Silas Reed nasceu no Óregon, Noroeste dos Estados Unidos, filho de  Charles Jerome Reed e de Margaret Green Reed. Com a mãe, aprendeu a ler ainda na infância. Em 1906, mudou-se para Cambridge, no estado de Massachusetts, para estudar Jornalismo na Universidade de Harvard, onde se formou em 1910. Nesta cidade, John conheceu Walter Lippmann e Charles Townsend Copeland. Sob a influência do primeiro, participou do Clube Socialista de Harvard; com o segundo, então professor em Harvard, aprendeu técnicas de composição em inglês e assimilou a importância de escrever em uma linguagem comum, para melhor expor as circunstâncias da realidade e observar a beleza escondida do mundo sensível. Em Harvard, teve também suas primeiras experiências com jornais e revistas; por volta de 1910, escreveu para o Lampoon e para o Harvard Monthly, em que publicou seus primeiros poemas e textos em prosa romântica. Após a faculdade, em 1911, foi viver na cidade de Nova Iorque. Como muitos jovens imaginativos, sonhadores e impetuosos do turbulento começo do século XX, John desejava escrever poesia; esta vontade era resultado da combinação singular de um aluno mediano com a de um leitor infatigável de romances e grandes escritores como Walter Scott e Thomas Malory. Mas a vida o levaria por caminhos distintos: o de jornalista internacional e militante socialista. Em 1913, em Nova Iorque, John Reed teve uma de suas mais importantes experiências intelectuais e profissionais, que o formariam como jornalista comprometido com as causas populares: por indicação de Lincoln Steffens, amigo de sua família, ele foi contratado como repórter da Metropolitan Magazine. Por este tempo, presenciou a greve do setor têxtil em Paterson, Nova Jersey. Em sua quase autobiografia, Almost thirty [Quase trinta], publicada nos anos 1930, ele diria sobre o período: “eu soube então, e não foi pelos livros, como os trabalhadores produzem toda a riqueza do mundo, e que esta vai para aqueles que nada fazem para merecê-la”. Trabalhando para o Metropolitan Magazine, Reed acompanhou de perto a Revolução Mexicana. Chegando ao México pelo Texas, atravessou a fronteira, encontrou as tropas revolucionária da Divisão Norte e conheceu o general Francisco Villa – com quem diz que “sobreviveu a batalhas sangrentas, bebeu, dançou” e escreveu um dos seus livros mais importantes, México insurgente (publicado em 1914)[1]. Quando regressou a Nova Iorque, relatou as batalhas de Pancho Villa e seus companheiros rebeldes, e ainda em 1913, o jovem jornalista viajou para a Europa pela primeira vez, para encontrar-se, em Nápoles, com Mabel Dodge, estadunidense envolvida com o mundo das artes, de quem ele foi amante. Logo, o casal seguiu viagem para a França, depois retornando à Itália[2]. No ano seguinte, estourou a I Guerra Mundial. O conflito instigou Reed, e ele estava pronto para cobri-lo, porém, por ser frequentador do bar do Hotel Ritz de Paris, ambiente que reunia famosos escritores e artistas, preferiram mantê-lo aí, negando-lhe a tarefa. Ele, então, junto ao correspondente do New York Evening Post, Robert Dunn, obteve um visto médico, podendo assim viajar para Nice, em setembro de 1914. Em dezembro, seguiu para Berlim, onde conseguiu entrevistar Karl Liebknecht, o líder da ala radical revolucionária do Partido Social-Democrata Alemão, que tinha votado contra os créditos de guerra no parlamento alemão. Sua experiência da guerra se aprofundou quando, em janeiro de 1915, foi à frente de batalha de Ypres, na Bélgica, onde, ao lado de Robert Dunn, presenciou os horrores das trincheiras e viu os corpos de soldados franceses mortos. Outro episódio marcante ocorreu este mesmo ano, também na região de Ypres, quando acompanhado por um oficial (e do colega Dunn), Reed chegou  a manusear um fuzil e disparar na direção inimiga — um gesto breve, mas que o perturbou, ao expor a ambiguidade de seu papel como correspondente de guerra, no qual a linha entre observar e participar podia ser tênue[3]. Além disto, o fato teve consequências para sua carreira no jornalismo: ao receber a informação da ocorrência, o New York Evening Post comunicou que ele não poderia mais entrar na Europa pela França. Daí que mais tarde John Reed, junto ao ilustrador Boardman Robinson, que agora o acompanhava, teria que ingressar na Europa pela zona oriental do continente, sempre que tivesse que lá voltar para dar continuidade a sua cobertura. Enquanto a experiência da Revolução Mexicana incitou em Reed a paixão pelas causas populares, a I Guerra Mundial o levou a nutrir sentimentos de ódio pela guerra e desprezo pelos governantes – entendendo que todos, igualmente, usavam a classe trabalhadora no conflito para obtenção de benefícios próprios. Ainda em 1915, John Reed voltou para Nova Iorque. Na cidade, tentou reatar sua relação com Mabel Dodge, que naquele momento vivia afastada de seu novo universo político. Instável emocionalmente, Reed retomou a escrita de poesia. No período, escreveu também textos importantes para o jornal The Masses [As Massas], com destaque para o conto “Daughter of the Revolution” [“A filha da Revolução”], de fevereiro de 1915, mais tarde publicado em coletânea póstuma; e o artigo “The worst thing in Europe”[“A pior coisa da Europa”], de março do mesmo ano. Antes da grande aventura da sua vida – que seria a cobertura e relato da Revolução Bolchevique –, Reed viajou brevemente à Europa Oriental, onde, em fevereiro de 1916, escreveu o artigo The world well lost [O mundo bem perdido]. No texto, descreveu a experiência de um socialista sérvio que, após a I Guerra Mundial, e decepcionado com a atuação dos social-democratas, não acreditava mais nas possibilidades de reformas. Entretanto, foi no relato das glórias da Revolução Russa que John Silas Reed se tornaria um dos grandes nomes da história do marxismo e do movimento comunista. Já tendoContinuar lendo “O marxismo de John Reed”

O marxismo de Stanley Ryerson

Historiador, filósofo e jornalista, foi dirigente do Partido Comunista do Canadá, militando na formação política e se destacando como um dos primeiros marxistas a desenvolver uma interpretação materialista histórica da realidade nacional canadense e da questão regional do Quebeque Por Yuri Martins-Fontes, Sean Purdy e Pedro Rocha Curado * RYERSON, Stanley Bréhaut Egerton; E. Stanley; E. Roger (canadense; Toronto, 1911 – Montreal, 1998). 1 – Vida e práxis política Nascido em Toronto, capital da anglófona Ontário, Stanley Ryerson foi membro de uma família de classe média-alta. Seu pai, Edward Stanley Ryerson, e sua mãe, Tessie De Vigne, eram descendentes de franceses e, por conta disso, Ryerson cresceu em profundo contato com a língua e a cultura francesa. Entre 1919 e 1929, estudou no Upper Canada College, instituição educacional da elite anglo-saxã local. Na sequência, ingressou no curso de Letras da University of Toronto. E em 1931 – ano em que o comunismo foi posto na ilegalidade no Canadá – partiu para a França, onde realizou um intercâmbio acadêmico na Sorbonne, em Paris.  Durante este período na Europa, aproximou-se do pensamento socialista, sobretudo por meio da Association des Écrivains et Artistes Révolutionaires [Associação dos Escritores e Artistas Revolucionários]. Também aí, em 1932, teve contato com a literatura marxista, lendo, entre outras obras, duas que o marcariam: o Manifesto do Partido Comunista,de Karl Marx e Friedrich Engels; e La révolution culturelle: les conditions préalables et les premiers pas d’une culture socialiste de masse en Union Soviétique (Paris: Bureau d’éditions, 1931), do marxista alemão exilado na URSS Alfred Kurella – escrita em francês para divulgação socialista na Europa. Neste mesmo ano, retornou a seu país para completar o primeiro ciclo de sua formação universitária[1]. Em Toronto, associou-se à Young Communist League of Canada [Liga dos Jovens Comunistas do Canadá] (YCL) e assumiu o posto de redator-chefe da revista dessa agremiação, The Young Worker [O Jovem Trabalhador]. Aderiu também ao Progressive Arts Club [Clube de Artes Progressistas], desenvolvendo um especial interesse pela relação entre arte e política; e, usando o pseudônimo de “E. Stanley”, concluiu uma breve peça de teatro intitulada War in the East [Guerra no Oriente] – texto dramático em defesa da União Soviética e da classe trabalhadora[2]. Regressou a Paris em 1933, para mais um período de estudos que terminaria no ano seguinte – graduando-se, após esta segunda temporada no exterior, com um trabalho sobre a obra do romancista siciliano Giovanni Verga. Por estes tempos em que esteve na Europa, vivenciou a turbulência política na Itália e na Espanha, nos primeiros anos da Grande Depressão (após a Crise de 1929), e se envolveu com o movimento comunista – tendo colaborado com a revista da juventude do Parti Communiste Français (PCF), L’Avant Garde, e participado de manifestações. Testemunhou ainda os esforços de aproximação entre o Partido Comunista e os socialistas franceses, em decorrência da elaboração da estratégia do Front Populaire [Frente Popular] – que seria oficializada em 1935, durante o VII Congresso da Internacional Comunista (IC). Foi com o ânimo de tais experiências que retornou ao Canadá, vindo então a se dedicar à luta dos trabalhadores – especialmente no Quebeque, província francófona que passaria a ser o centro de sua atuação política e intelectual, e onde produziria suas principais obras. Ainda em 1934, filiou-se, na cidade de Toronto, ao Communist Party of Canada/ Parti Communiste du Canada [Partido Comunista do Canadá] (PCC) – cuja situação ilegal se manteve até 1936 –, vindo a se tornar um de seus mais importantes dirigentes e intelectuais[3]. Bilíngue, seria logo nomeado diretor de formação política do partido em Montreal (Quebeque) e editor de seu jornal em francês, o Clarté – tornando-se um dos principais representantes do partido desta região francófona canadense. Neste mesmo ano, ajudou a fundar e presidiu a Canadian Youth League Against War and Fascism, organização criada como frente da YCL para atrair a juventude trabalhadora e os estudantes para a causa antifascista. Passou também a lecionar no Departamento de Estudos Franceses do Sir George Williams College, de Montreal, em que trabalharia entre 1934 e 1937 – utilizando-se, por este tempo, do pseudônimo “E. Roger” para assinar textos políticos, evitando assim represálias políticas e laborais. Membro do Comitê Central do Partido Comunista por décadas – entre 1935 e 1969 –, Stanley Ryerson foi diretor do Programa de Educação do PCC (1935) e também secretário provincial do partido em Quebeque, de 1936 a 1940, além de ter ocupado distintos cargos relacionados à formação política e intelectual da organização, militando principalmente na atividade de formação comunista da população francófona do Quebeque. Quanto a sua atividade teórica, já em 1935 publicou seus primeiros artigos em um jornal anglófono do PCC, The Worker [O Trabalhador]. Neles, tratou das rebeliões armadas canadenses contra o governo colonial da Coroa Britânica (1837 e 1838), episódios que levaram à progressiva conquista de maior autonomia das colônias do alto e baixo Canadá (as províncias de Ontário e Quebeque) contribuindo para a construção do gradual processo de independência do país, iniciado em 1867. Neste período inicial – marcado pela Frente Popular da Internacional Comunista e de seus partidos membros –, alguns escritos de Ryerson se caracterizaram por certo orgulho nacional, com títulos como “Heroes of old Canada” [“Heróis do antigo Canadá”] e “Communists, heirs to great traditions” [“Comunistas, herdeiros de grandes tradições”] – ambos de 1937. Entretanto, neste mesmo ano o marxista publicou também uma de suas principais obras, 1837: the birth of canadian democracy, na qual desenvolveu a que é considerada a primeira análise marxista das rebeliões canadenses da época em questão – além de ter participado do Congresso da Associação Internacional de Artistas e Trabalhadores, na Cidade do México[4]. Por este tempo, Ryerson contribuiu também com artigos históricos para as revistas New Frontiers e Masses, órgãos multipartidários que publicavam matérias históricas, políticas e culturais de uma ampla gama de socialistas, social-democratas e comunistas. No outono de 1939, com o início da II Guerra Mundial, o Partido Comunista foi proibido e criminalizado, condição que perdurou até 1943 – sendo que, no Quebeque,Continuar lendo “O marxismo de Stanley Ryerson”

O marxismo de Claude McKay

Escritor, operário e jornalista jamaicano, boêmio e bissexual, foi militante do movimento negro, membro da Workers’ Socialist Federation (Inglaterra) e da Internacional Comunista, centrando-se em articular a questão do racismo e a luta de classes em perspectiva marxista Por Jhonatan Uewerton Souza e Noemi Santos da Silva * CLAUDE MCKAY; Festus Claudius McKay (jamaicano; Sunny Ville, 1889 – Chicago/EUA, 1948) 1 – Vida e práxis política Nascido em uma família negra proprietária de terras, em uma vila rural habitada por camponeses livres nas montanhas de Claredon, Jamaica, Festus Claudius McKay foi o caçula entre onze filhos de um casal de posição social relativamente elevada para os padrões da população de pele escura do Caribe britânico. Seu pai, Thomas Francis McKay, um trabalhador que ascendeu de classe e se tornou um próspero agricultor, pertencia à fração de 1,5% da população com direito ao voto, à época de seu nascimento. Diácono da Igreja Batista, se orgulhava da moral puritana, reprovando os costumes e o sincretismo religioso dos camponeses. A dona de casa Hannah Ann Elizabeth McKay, sua mãe, era mais tolerante com os hábitos da população rural, a quem auxiliava e por quem demonstrava admiração – atitudes que influenciaram a formação de Claude. Orgulhosos de suas raízes africanas, a família preservava as memórias de seus avós de origem axânti e malgaxe, submetidos ao jugo do escravismo. A Jamaica de Claude McKay era um país em intensa transformação; ilha atrelada ao império britânico, do qual se libertaria apenas em 1962, passava por uma crise em sua economia açucareira, depois substituída pela banana na virada para o século XX – cujo comércio era controlado por empresas alinhadas ao imperialismo estadunidense: Boston Fruit e United Fruit Company. Com seu monopólio, estes conglomerados adquiriram terras, que arrendavam para os camponeses negros, endividando-se com latifundiários brancos ou mestiços. A dominação de classe se articulava a uma estratificação racial com hierarquia de cor, relegando famílias negras de pele retinta, como os McKay, à condição de subalternidade. Enquanto os culis [coolies] chegavam da Ásia para trabalhar no campo, os jamaicanos migravam para o Panamá ou para os EUA em busca de prosperidade. Cidades como Kingston e St. Andrew cresciam, ampliando a oferta educacional e levando à formação de um circuito cultural de onde emergiria uma pequena intelligentsia negra – a qual passaria a refletir criticamente a respeito da situação do país, em termos econômicos, políticos, culturais e étnicos. O irmão de Claude, Uriah Theodore (U’Theo) foi um dos formados no prestigiado Mico Teacher’s College, da capital do país; teve contato com o fabianismo e o agnosticismo, desenvolvendo orgulho por ser um homem negro letrado; participou de debates na esfera pública e escreveu para jornais. Depois de aprender as primeiras letras na escola da Igreja Mt. Sião, Claude foi morar com seu irmão mais velho, Uriah Theodore (U’Theo), em Montego Bay, em 1897, para continuar sua formação. Ali, tomaria conhecimento de uma outra Jamaica, muito diferente do seu pequeno vilarejo. Neste período em que viveu com o irmão, familiarizou-se com os clássicos da literatura mundial. Aproveitando-se da boa biblioteca do irmão, iniciou-se no socialismo fabiano e rompeu com sua formação religiosa. Assumindo-se um livre pensador, teve acesso a jornais e revistas de Kingston, Londres e Nova Iorque, começando a escrever poemas – sobre temas do folclore jamaicano, seguindo o estilo clássico britânico. Em 1902, retornou para Sunny Ville junto com seu irmão, que comprara terras no vilarejo natal e assumira uma escola local, onde Claude terminaria sua formação tendo o próprio U’Theo como professor. Em 1907, Claude foi aprovado para estudar em uma escola profissional de comércio em Kingston, mas um terremoto atingiu a cidade e ele logo teve de regressar à casa dos pais. Impossibilitado de retornar a Kingston, entre 1907 e 1909, ele foi aprendiz de um artesão em Brown’s Town. Nesse período, conheceu Walter Jekyll, cavalheiro inglês com quem desenvolveu relação de afeto e que o influenciaria[1].  Em 1909 sua mãe morreu. Claude McKay se mudou então para Kingston acompanhando Jekyll. Na cidade, trabalhou em uma fábrica de fósforos e depois se integrou à polícia, em Spanish Town, onde permaneceu até 1911. Como policial, tomou consciência da dimensão da violência das forças repressivas britânicas contra a população trabalhadora das cidades coloniais do Caribe, solidarizando-se com os marginalizados. Paralelamente, a convivência com Jekyll, crítico da industrialização e admirador da cultura popular jamaicana, do qual coletava baladas e histórias que compilaria em Jamaican song and story (1907), influenciou uma guinada estética na poesia de McKay. Ele passou a trabalhar com as especificidades da língua inglesa falada na Jamaica, abandonando a estética imperial vitoriana em busca de uma forma que dialogasse com as peculiaridades locais – o que inspiraria vários poetas jamaicanos como Louise Bennett. Por intermédio de Jekyll, seus poemas foram publicados nos principais periódicos do país, o Kingston Daily Gleaner e o Jamaica Times; conheceu o pessimismo de Schopenhauer e aderiu à Rationalist Press Association, travando contato com influentes livres-pensadores. Nesse período McKay publicou seus dois primeiros livros de poesia, Songs of Jamaica e Constab ballads, ambos de 1912, nos quais celebra a cultura popular nacional, registra as condições de vida da população negra e reflete sobre sua experiência na polícia. Ainda este ano, em meio a uma revolta popular contra o aumento do preço das passagens de bonde em Kingston, publicou no Daily Gleaner o poema “Passive resistence”, evocando o direito à autodefesa e à luta pelos direitos “sem derramamento de sangue”. Em seguida, numa celebração da história de resistência negra, publicou poemas celebrando a Rebelião de Morant Bay (1865) – contra a miséria generalizada e a injustiça dos britânicos contra libertos, excluídos da vida política e social após a abolição da escravidão (1833). No mesmo ano, contrariando os conselhos de Jekyll, mudou-se para o Alabama, nos Estados Unidos, para estudar agronomia no Tuskegee Institute, dirigido por Booker T. Washington e voltado à formação profissionalizante de jovens negros, conforme os princípios defendidos por seu fundador que visavam a elevação moral e econômica da população afroestadunidense eContinuar lendo “O marxismo de Claude McKay”

O marxismo de Jacques Roumain

Antropólogo, escritor, poeta, professor e diplomata, foi fundador do Partido Comunista Haitiano e expoente do movimento Negritude, defensor da ideia de que a questão do negro não deve ser reduzida ao problema do racismo, sendo antes uma questão de luta de classes Por Joana A. Coutinho * ROUMAIN, Jacques (Porto Príncipe-Haiti, 1907; Porto Príncipe, 1944) 1 – Vida e práxis política Jacques Roumain nasceu na capital haitiana. Primogênito de uma família numerosa, teve onze irmãos. Seu pai, Auguste Roumain, foi um grande proprietário de terras, e sua mãe Émilie Auguste, era filha de Tancrède Auguste (presidente do Haiti entre 1912 e 1913). De uma família de mestiços letrados, Jacques falava fluentemente o dialeto criollo e o francês – características incomuns em um tempo no qual a maioria da população nativa sabia somente o criollo e era analfabeta1. A infância e época de formação de Jacques Roumain foi marcada por seguidas revoltas camponesas no país – contra as altas taxas tributárias, a miséria e exploração – situação que culminaria em mudanças constantes no governo e em uma prolongada ocupação do país pelos Estados Unidos (1915-1934), com o apoio das elites haitianas. Os EUA desocupariam o Haiti apenas vinte anos depois, após alcançarem seus objetivos: garantir o pagamento dos empréstimos contraídos com o Citibank e abolir um artigo da constituição haitiana que proibia a venda de suas plantações para estrangeiros2. Importa destacar que o Haiti havia se endividado com esse banco estadunidense para conseguir pagar a enorme indenização imposta pela França como requisito para o reconhecimento da independência do país – pagamentos que só foram encerrados em 1947, contabilizando cerca de 21 bilhões de dólares e mais 200 anos de juros. À época da libertação haitiana do jugo colonial francês (1804), o país era considerado a “joia do Caribe”: uma sociedade composta por cerca de 500.000 escravos, 30.000 brancos e 28.000 negros livres que mantinha uma economia organizada em torno da plantação da cana-de-açúcar e, em menor medida, do café – produção que dava a São Domingos (nome colonial do Haiti) o status de colônia altamente lucrativa. Jacques Roumain teve uma educação esmerada, como era comum aos de sua classe social: primeiramente no Haiti, estudou no famoso colégio Saint-Louis de Gonzague, e a partir dos 14 anos, mudou-se para a Suíça, onde terminou sua formação escolar no Institut Grünau, em Berna e depois na École Polytechnique Fédérale de Zurique3. Ali, aprendeu o idioma alemão, leu com paixão Schopenhauer, Nietzsche e Darwin, além de estudar paleontologia. Depois, viajou à Madri, capital da Espanha, para estudar agronomia, visitando também a Alemanha, França e Inglaterra. Nesta capital sua atenção se voltou às touradas, que o encantaram a ponto de ele chegar a ter aulas de toureio, além de ter escrito um poema em prosa sobre o tema, intitulado “Corrida”. Afinal, não terminou o curso – e caberia a seus irmãos estudarem agronomia e cuidar das terras da família. Em 1927, ainda em meio à ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, Roumain decidiu regressar a seu país. À época com 20 anos de idade, se juntou a Philippe Thoby-Marcelin (poeta, escritor e jornalista), Carl Brouard (poeta) e Antonio Vieux (escritor) – jovens intelectuais haitianos críticos à agressão estadunidense – para fundar o periódico La Revue Indigène: les Arts et la Vie4 [A Revista Indígena: as Artes e a Vida], que estimulava a exploração de novas formas de escrita que tratassem das complexidades da sociedade haitiana. A publicação representa um marco fundador do movimento Nègritude [Negritude] – corrente de vanguarda caribenha que, por meio da literatura e da política, buscou mostrar ao haitiano como ter orgulho de suas raízes culturais, de sua tradição oral e da religião vodu. Em 1928, foi nomeado gerente de um jornal chamado Petit Impartial [Pequeno Imparcial], e na sua nomeação o diretor elogiou a “chama patriótica” do jovem Roumain, ao mesmo tempo em que lhe pediu calma e ponderação. O debutante não tinha nem uma nem outra. Cofundador da Liga da Juventude Patriótica, em dezembro deste ano foi preso (pela primeira vez), junto com Georges Petit e Elie Guérin, por crime relacionado à “imprensa”. Foram condenados a um ano de detenção e ao pagamento de uma multa de cinco mil gourdes haitianos. A sentença depois seria reduzida, mas eles foram mantidos presos sob o argumento de existirem outras acusações. Somente alcançaram a liberdade em agosto de 1929. Nesse mesmo ano, Roumain começou a publicar a coluna “Mon Carnet” [Meu Caderno], primeiro, no jornal La Presse e, depois, no Le Nouvelliste. Mas seu trabalho foi logo interrompido porque, em outubro, Roumain foi novamente preso, junto com dois companheiros, Victor Cauvin e Antoine Pierre-Paul, por ferirem a lei que proibia a associação de vinte ou mais pessoas. Em dezembro de 1929, uma anistia liberou todos os presos políticos. Estando em liberdade, Jacques Roumain se casou com a haitiana Nicole Hibbert, filha do romancista Fernand Hibbert (1873-1928). Em 1930, com a queda do presidente Louis Borno, Roumain foi nomeado chefe de divisão do Ministério do Interior pelo presidente interino, Eugène Roy. Porém, se demitiu do cargo depois de alguns meses para fazer campanha para o então candidato Sténio Vincent, eleito presidente no mesmo ano. Em 1931, Roumain retornou ao cargo, dessa vez nomeado por Sténio Vicent (que governou entre 1930 e 1941). Em 1932, um promotor o convocou por suspeita de “subversão”. A acusação o levou à prisão no ano seguinte, na Penitenciária Nacional, junto com o socialista Max Hudicourt, sendo ambos acusados de conspiração. Em carta ao poeta Léon Laleau, Roumain declarou: “eu sou comunista”, e “nenhum poder no mundo pode me tirar este direito”5. Em junho de 1934, publicou a obra Analyse schématique (1932-1934) [Análise esquemática], expondo algumas de suas perspectivas do marxismo, e ao lado de alguns companheiros fundou o Parti Communiste Haïtien (PCH) [Partido Comunista Haitiano], sendo eleito secretário-geral. Neste primórdio, o Comitê Central do partido lançou o lema “Cor não é nada, classe é tudo”. Ainda nesse ano da fundação, em agosto foi preso e, em outubro, condenado aContinuar lendo “O marxismo de Jacques Roumain”

O marxismo de Caio Prado

Historiador, filósofo, editor e político, foi militante do Partido Comunista Brasileiro durante toda a vida, sendo pioneiro de uma interpretação marxista autêntica da realidade brasileira Por Yuri Martins-Fontes * PRADO Júnior, Caio (brasileiro; São Paulo, 1907 – São Paulo, 1990) 1 – Vida e práxis política Caio da Silva Prado Júnior nasceu na primeira década do século XX, no seio de uma abastada família de cafeicultores e industriais. Frequentou boas escolas; teve professores particulares. Ainda moço assistiu à Semana de Arte Moderna de 1922. Logo depois entrou na Faculdade de Direito de São Paulo (a Faculdade de Filosofia ainda não existia), formando-se em 1928. Devido à precariedade do meio universitário brasileiro da época, sua origem de classe foi um fator significativo para que pudesse ter acesso a uma formação intelectual “refinada e sólida”1. Neste período, anterior à Revolução de 1930, a política brasileira era dominada por oligarquias regionais, não havendo partidos de dimensão nacional. Entretanto, no estado de São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP) dominava a cena com um poder que ressoava no restante do país. A partir de 1922, com o movimento tenentista, se fortaleceu a oposição – por parte das classes médias e certa dissidência oligárquica – ao clientelismo2 deste partido. A pauta política progressista da época era a de promover um Estado nacional forte que se contrapusesse às elites paulistas. Em 1926, foi fundado o Partido Democrático de São Paulo (PD), com a bandeira da “renovação dos costumes políticos”; no entanto, a agremiação tinha como lideranças latifundiários, que mais tarde se negariam a abrir mão de seus privilégios. Por este tempo, o jovem Caio escreveu o artigo “A crise da democracia brasileira” (1927), no qual acusava a fraude eleitoral operada pelo Partido Republicano Paulista (representante da oligarquia cafeeira) e esboçava uma análise de classes da sociedade nacional. Depois, em 1929, imerso nesse panorama político restrito, Caio Prado se filiou ao PD. Embora breve, esta sua primeira experiência partidária foi intensa: o começo do que seria uma vida de engajamento político. Militante enérgico, impulsionou a penetração do partido em bairros da capital e interior, através de tarefas de organização e comícios para arregimentar correligionários. O objetivo do PD era promover a Campanha Liberal, apoiando a candidatura de Getúlio Vargas contra o oficialista conservador Júlio Prestes. Em meio a essa tensão, Caio gritou saudação a Vargas, em cerimônia da candidatura de seu oponente, sendo preso pela primeira vez.3 Em 1930, J. Prestes, candidato da enfraquecida elite paulista, foi eleito – em um processo fraudulento. Diante disto, as forças opositoras, sobretudo facções da oligarquia gaúcha e os tenentes, se aliaram, fortalecendo-se. Neste processo, Caio Prado atuou em favor dos rebeldes, participando de ações conspiratórias, promovendo a comunicação entre líderes e apoiando a logística de operação de sabotagem. Contudo, com a vitória dos revoltosos e a consequente chegada de Getúlio ao poder, o PD teve expostas suas contradições e falta de programa. Foi assim que Caio Prado, decepcionado com as limitações de sua fração burguesa “radical” no enfrentamento das oligarquias, superaria as barreiras conservadoras de sua classe social, em uma inflexão que o levou a subverter os valores no qual estava imerso e a efetivamente se radicalizar. Em 1931, se casou com Hermínia Cerquilho e teve seu primeiro filho. Neste mesmo ano, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (antigo nome do PCB, hoje Partido Comunista Brasileiro), força política não numerosa, mas que tinha então um programa consistente, apontando para a raiz social e econômica do problema nacional. Membro ativo, Caio Prado entregou-se à organização dos trabalhadores, atuando em organizações de base. O começo da década de 1930 foi conturbado no Brasil – assim como no mundo. A sociedade brasileira, ansiosa por uma nova ideologia que refletisse o tempo de crise do entreguerras, se dividia entre socialistas e integralistas. Em São Paulo, um centro das disputas nacionais, uma crise política culmina na mal denominada “Revolução Constitucionalista” de 1932 – em realidade, um golpe de estado das antigas oligarquias locais para restabelecer a ordem anterior. Caio Prado se colocou contrário a este movimento sedicioso (que chegou até mesmo a atrair artistas da vanguarda modernista). Nesse período passou a militar pelo Socorro Vermelho e pela Cooperativa Internacional dos Trabalhadores, além de participar da fundação do Clube dos Artistas Modernos (CAM) – que abrigou parcela mais politizada da elite cultural modernista. Inclinado à formação de opinião, tão logo se filiou ao PCB, passou a desempenhar a atividade de editor, à qual se dedicaria por décadas. Começou editando o efêmero jornal A Luta e, em 1933, traduziu e publicou Teoria do materialismo dialético: manual popular de sociologia marxista (de Bukharin), obra didática com o intuito de difundir o marxismo. Para viabilizar estes projetos e apoiar o partido, ele desviou verba de sua família, além de interceder junto a amizades politicamente progressistas. Em 1933, visitou a União Soviética e, à volta, fez uma conferência no CAM que lotou a rua. Foi sua primeira atuação significativa como formador de opinião, atividade que consideraria como uma das tarefas comunistas essenciais. Ainda neste ano, veio à luz Evolução política do Brasil, sua pioneira obra de impacto, com que dava início a uma produção historiográfica vigorosa. Em 1934, publicou seu segundo livro, URSS: um novo mundo, fruto da popularidade de suas palestras de 1932. A obra, apreendida pela polícia, trouxe ao escritor um inicial reconhecimento nos meios comunistas – aliás, maior do que aquele resultante da sofisticada análise de seu livro anterior (Evolução…). Nela, investiu contra o pacifismo da social-democracia parlamentar, defendendo a ética da insurreição revolucionária: a única, segundo ele, que realizou de fato o lema da “igualdade entre os homens”4. Em meados da década de 1930, com a consolidação do poder de Vargas, a inicial afirmação política do PCB sofreu um refluxo, e a correlação de forças se tornou cada vez mais desfavorável. A partir daí, Caio Prado evitaria discutir se a revolução deveria ou não ser armada, pacífica ou violenta, acentuando que, antes de se pretender saber a “forma” como se dará a “revolução”, cabe arregimentarContinuar lendo “O marxismo de Caio Prado”

O marxismo de Juan B. Justo

Médico, jornalista, político e escritor militante, foi o primeiro tradutor direto do clássico O capital de Marx ao espanhol, fundou o Partido Socialista Argentino e se destacou como defensor do cooperativismo e do movimento operário argentino Por Yodenis Guirola [Tradução: Yuri Martins-Fontes L. e Renato César Ferreira Fernandes] JUSTO, Juan Bautista (argentino; Buenos Aires, 1865 — Los Cardales/Argentina, 1928) 1 – Vida e práxis política Juan Bautista Justo nasceu na capital argentina, filho de pais de classe média que se dedicavam a trabalhos agrícolas. Sua mãe, Aurora Castro, tinha ascendência mestiça, e seu pai, Juan Felipe Justo, era descendente de genoveses. Inicialmente, sua família desfrutava de certo conforto econômico, o que depois se deterioraria. Sua educação inicial se deu em sua cidade natal, primeiro em uma escola particular, e logo, entre 1877 e 1881, no Colegio Nacional. Em 1882 começou seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidad de Buenos Aires, e paralelamente trabalhou como jornalista no diário La Prensa, o que contribuiu para financiar a universidade. A partir do quarto ano do curso de medicina, fez residência no Hospital de Clínicas. Em 1888, formou-se em Medicina, obtendo seu título com honras – sendo seu trabalho de conclusão sobre aneurismas arteriais cirúrgicos. Após graduar-se, viajou para a Europa, onde continuou sua formação clínica em Paris, Berna e Viena. Ao retornar, em 1889, trabalhou no Hospital de Crónicos de Buenos Aires, no qual foi nomeado chefe de cirurgia. Em 1890, como cirurgião, aplicou com sucesso o método da ressecção osteoplástica do crânio, sendo reconhecido e designado como presidente do Círculo Médico Argentino. No âmbito militante, junto com Germán Avé Lallemant (agrimensor e marxista alemão-argentino), convocou a celebração do Primeiro de Maio. Também neste ano, incorporou-se à Unión Cívica de la Juventud, na qual militou brevemente, e atendeu a feridos do Parque de Artillería, no contexto da Revolução de 18901. Em 1892, paralelamente às suas funções como médico, Justo colaborou com o periódico El Obrero, de orientação marxista; e em 1893, meses após a refundação da Agrupación Socialista, Justo aderiu à organização2, tendo desempenhado um papel relevante em seu desenvolvimento. Em agosto deste mesmo ano Justo compareceu a uma reunião em Buenos Aires convocada pelo jornal La Prensa para discutir a formação de uma federação política e a criação de um jornal que defendesse os interesses da classe trabalhadora. A partir desta reunião, comprometeu-se com a elaboração de um órgão de imprensa – um “jornal socialista científico defensor da classe trabalhadora”. Em abril de 1894, com a edição do primeiro número do periódico, foi oficialmente fundado La Vanguardia, no qual Justo publicou um extenso artigo de apresentação, tratando do tema da transformação social na Argentina3. Por estes anos, dedicou-se a ler diversos pensadores, tais como Spencer, Rousseau, Ricardo, Smith e Marx, a fim de conhecer mais dos problemas sociais de seu tempo. Em 1895 viajou para os Estados Unidos e logo Europa, visitando cidades como Paris, Berna e Madri. Entre seus objetivos estava contactar militantes socialistas e conhecer a realidade daqueles países. Como parte disso, escreveu diferentes notas ou breves artigos que foram publicados no periódico La Vanguardia. Durante a viagem pela Europa, começou a planejar a tradução do primeiro tomo de O capital de Marx, que seria publicado três anos mais tarde, em Madri. No início de junho de 1896, sob o pseudônimo de “Cittadino”, Justo enviou ao jornal conservador La Nación, de Buenos Aires, o texto “La mejor confraternidad es la nacionalización”, no qual defendia a incorporação, enquanto cidadãos plenos, dos imigrantes italianos por meio de sua naturalização como argentinos. O artigo foi bem recebido, levando a que Justo fosse convidado a se apresentar na imprensa e a colaborar com o periódico. Assim, entre junho e agosto deste ano, escreveu uma série de textos publicados em forma de coluna em La Nación, nos quais tratava questões de política, economia, livre-comércio, salários, socialismo ou situação da classe operária. Em 28 de junho de 1896, junto com Augusto Kühn, Isidoro Salomó e Esteban Jiménez, Juan Justo fundou o Partido Socialista Argentino (PSA); o periódico La Vanguardia tornou-se o órgão oficial do partido. Neste ano, Justo apresentou-se como candidato a deputado, obtendo apenas 138 votos que, embora insuficientes para conseguir uma cadeira, dariam início a sua relevante carreira parlamentar. Em 29 de agosto de 1897, foi inaugurada a nova sede da Agrupación Socialista em Buenos Aires, em que discursaram, além de Justo: Carlos Мalagarriga (advogado, jornalista e político espanhol) e Alejandro Mantecón (operário encadernador), além de alguns reconhecidos personagens do pensamento latino-americano, como José Ingenieros e Leopoldo Lugones. Nesta nova sede, ficavam os escritórios do jornal La Vanguardia, o Comité Ejecutivo del Partido, a Biblioteca Obrera, a Asociación Obrera de Socorros Mutuos, o Circolo Socialista Italiano e várias sociedades sindicais. Em 1898, publicou em Madri sua tradução, diretamente do alemão para o espanhol, do primeiro tomo de O Capital de Marx (a primeira nesse idioma). A seguir, proferiu no Ateneo de Buenos Aires a conferência intitulada “La teoría científica de la historia y la política argentina”4, publicada no mesmo ano pela livraria Lajouane. No ano seguinte, impulsionou a edição de El Diario del Pueblo, e se casou com Mariana Chertkoff (Odessa, 1876 – Buenos Aires, 1912), com quem teve seis filhos: Andrés, Daniel, Leticia, Aurora, Miguel e Sara. Em 1900, mudou-se para Junín, província a noroeste de Buenos Aires, para trabalhar como médico e, ao mesmo tempo, estudar a situação da agricultura e pecuária na região. Em 1901, proferiu a conferência “El programa socialista en el campo”, em que expôs questões-chave de sua doutrina sobre a questão agrária, reivindicando a relevância do problema rural na Argentina. Nos anos seguintes, faria várias palestras sobre temas políticos, econômicos e sociais, que ganhariam destaque editorial e político. Em 1904, Justo foi nomeado professor titular da cátedra de Cirurgia. E em 1905, fundou a cooperativa El Hogar Obrero, que cinco anos mais tarde seria admitida na Aliança Cooperativa Internacional. Ainda neste ano reassumiu a direção de La Vanguardia e o periódico começou a ser publicado diariamente,Continuar lendo “O marxismo de Juan B. Justo”

O marxismo de C. L. R. James

Historiador, jornalista, ensaísta e militante socialista de Trinidad e Tobago, foi um dos fundadores do movimento independentista Agência Internacional de Serviços Africanos e do pan-africanismo radical, tendo atuado também pelos partidos estadunidenses Socialist Workers Party e Workers Party Por Rita Coitinho e Joana A. Coutinho * James, Cyril Lionel Robert, “C. L. R. James”, “J. R. Johnson”, “J. Mayer” (trinitário; Tunapuma/Trinidad e Tobago, 1901 – Londres/Inglaterra, 1989). 1 – Vida e práxis política Nascido em Trinidad, então colônia inglesa, Cyril Lionel Robert James cresceu num ambiente familiar de classe média e afeito aos livros, sendo seu pai professor e sua mãe uma leitora ávida. Estimulado pelos pais, cedo desenvolveu o gosto pela literatura, história e música, além do esporte e artes em geral – interesses que se revelariam, posteriormente, como temas importantes de seus estudos e reflexões filosóficas. Entre os nove e os dezessete anos frequentou, com bolsas de estudos, o Queen’s Royal College, em Porto de Espanha, escola de elite das mais antigas da ilha que recebia professores diretamente da Inglaterra. Aí se destacou como atleta de salto em altura e treinou críquete (modalidade em que foi reconhecido como promissor)1. Na década de 1920, após a conclusão de seus estudos, trabalhou como professor do ensino secundário de Inglês e História (tendo como aluno o futuro primeiro-ministro marxista Eric Williams). Por esses anos, ainda em seu país natal, escreveu dois romances: La divina pastora (1927) e Triumph (1929). Com o tempo seus interesses também se voltaram para a política, e desta aproximação inicial nasceu em 1929 a biografia do líder trabalhista de Trinidad, Arthur Cipriani, intitulado Life of captain Cipriani [A vida do capitão Cipriani]. Em 1932, aos 31 anos, migrou para a Inglaterra, país no qual viveu inicialmente em Lancashire – desfrutando do auxílio do amigo e campeão de críquete Learie Constantine. Nesta cidade, trabalhou como repórter esportivo para o jornal Manchester Guardian, enquanto, simultaneamente, mantinha-se articulado aos movimentos de libertação nacional das colônias britânicas no Caribe. É de 1933 a publicação do panfleto The case for West Indian self-government [O caso do autogoverno nas Índias Ocidentais], uma extensão do seu trabalho anteriormente publicado acerca de Arthur Cipriani. Tendo logo se mudado para Londres, deu início a estudos das obras de Marx e Engels, bem como acerca da Revolução Russa e seus principais teóricos. Em 1934, ingressou no Independent Labour Party [Partido Trabalhista Independente], atuando na comunicação interna e ajudando a formar o Marxist Group [Grupo Marxista]. No ano seguinte, com Yomo Kenyatta e Amy Ashwood-Garvey, fundou a International African Friends of Abyssinia (IAFA) [Internacional dos Amigos Africanos da Abissínia], cuja agitação política intensa provoca preocupação no fascismo italiano, em franca disputa pelo domínio da Etiópia. Em 1937 este coletivo passou a ser dirigido pelo comunista trinitário George Padmore (1903-1959) – intelectual que exerceu forte influência junto a James, de quem ele destacaria a importância na elaboração do termo “negritude” e o fato de ter inspirado os principais movimentos de libertação no continente africano. Juntos, fundam o International African Service Bureau (IASB) [Agência Internacional de Serviços Africanos], celeiro dos movimentos de independência das colônias britânicas após a II Guerra Mundial – ficando James responsável pela imprensa2. Em 1938, James foi convidado por James Cannon – secretário do Socialist Workers Party (SWP) [Partido Socialista dos Trabalhadores] dos Estados Unidos – para atuar como especialista da IV Internacional em questões africanas, afro-americanas e coloniais. Estabeleceu uma longa relação com Leon Trótski, com quem chegou a se encontrar em 1939, em Coyoacán (México), para conversar sobre temas como as perspectivas de uma política voltada aos negros e sua relação com o projeto revolucionário. Por volta de 1941, junto com a marxista eslava radicada nos Estados Unidos, Raya Dunayevskaya, começou a formar a tendência Johnson-Forest, reunindo trotskistas estadunidenses3. Em 1947 este grupo se associou ao Workers Party (WP) [Partido dos Trabalhadores]. Contudo, já em 1950 James rompeu com esta tendência – e com o trotskismo. No ano seguinte, formou o Correspondence Publishing Committee [Comitê Editorial de Correspondência], que passaria a publicar um jornal operário – o Correspondence [Correspondência]. Por meio deste comitê, manteve conexões internacionais com projetos semelhantes, como o Socialisme ou Barbarie [Socialismo ou Bárbarie] da França. James permaneceu nos Estados Unidos até 1952, militando na clandestinidade, até ser preso por “atividades antiestadunidenses”. Saiu do país antes de ser deportado4. Após deixar os EUA, James manteria ainda intensa troca de correspondência com os integrantes do Correspondence, com vistas a orientá-los, principalmente depois que Raya Dunayeskaya deixou o grupo, em 1955. Destas cartas surgiram as bases teóricas que dariam origem à Ligue of Revolutionary Black Workers [Liga Revolucionária dos Trabalhadores Negros], criada nos EUA em 1969. Em 1955, James se casou com Selma Deitch, uma militante do grupo que, junto com Maria Rosa Dalla Costa, lançou a campanha internacional a favor de estabelecer um salário para o trabalho doméstico. Em certa medida, as posições que James expressou nessa época anteciparam as da chamada New Left (o movimento Nova Esquerda), que surgiria décadas depois. Ao longo dos anos 1950 e 1960 James esteve algumas vezes no continente africano e, em 1958, viveu no Caribe. É deste ano seu texto “Facing reality” [“Encarando a realidade”], no qual revela sua desilusão com os partidos comunistas e com o trotskismo. Durante os anos em que esteve de volta a sua terra natal, trabalhou na biografia de George Padmore, descrito por ele como o espírito orientador do African Bureau [Diretório Africano] e o pai da “emancipação africana”. Em 1963, publicou Beyond a boundary [Para além da fronteira] obra em que analisa questões vinculadas à estética e à educação vitoriana desde uma perspectiva do habitante das “índias ocidentais”. No final dos anos 1960, a convite de socialistas e expoentes do movimento negro estadunidense, James regressou aos EUA, e ao longo da década de 1970 deu palestras e aulas em universidades como professor convidado. São deste tempo obras como Radical America (1970) e a biografia de Kwame Nkrumah (1960-1966) – Nkrumah and the Ghana Revolution [Nkrumah e a RevoluçãoContinuar lendo “O marxismo de C. L. R. James”

O marxismo de Blas Roca

Autodidata, foi dirigente do primeiro e do atual Partido Comunista de Cuba, destacando-se como educador e divulgador do marxismo – pensamento que concebia como um guia a ser aplicado criativamente, e que buscou unir com as ideias de José Martí Por Lucilo Batlle Reyes* [Tradução de Yuri Martins-Fontes e Felipe Deveza] [PDF] BLAS ROCA; Wilfredo Calderío, Francisco (cubano; Manzanillo/Cuba, 1908 – Havana,  1987) 1 – Vida e práxis política Francisco Wilfredo Calderío López, conhecido como Blas Roca Calderío, nasceu em uma família de trabalhadores pobres e com tradição na luta pela independência cubana, sendo o mais velho de nove irmãos. Levou o sobrenome de sua mãe devido às normas da época. Na escola fundamental, mal alcançou a quarta série; ainda criança, teve que trabalhar em uma grande variedade de atividades para ajudar a sustentar sua casa. Sofreu forte opressão da sociedade burguesa-latifundiária e dependente de sua época, pois era pobre e mestiço – o que contribuiu para forjar seu espírito de rebelião contra a injustiça e a opressão. Com a ajuda de seu professor Ernesto Ramis, ainda bem moço, Wilfredo Calderío fez um curso de magistério, habilitando-se para lecionar na educação infantil; embora gostasse da profissão – que exerceu por dois anos (1924-1926) –, foi forçado a deixá-la, por não se submeter a manobras políticas. Assim, seguindo a tradição familiar, tornou-se sapateiro, e foi a partir daí que se ligaria para sempre às lutas da classe trabalhadora, unindo-se ao movimento sindical e travando contato com a literatura marxista. Em 1929, entrou no pioneiro Partido Comunista de Cuba (PCC), passando a dirigir o Sindicato dos Sapateiros de sua cidade; no ano seguinte, assumiu o cargo de secretário-geral da Federación Obrera de Manzanillo (FOM) e, ao mesmo tempo, secretário-local do partido. Nesta época sofreu sua primeira prisão política, no Castillo del Príncipe, em Havana, durante três meses. Em 1931, foi eleito membro do Comitê Central do PCC e, em 1932, preso pela segunda vez. Ao sair da prisão, no ano seguinte, preparou a greve geral em Manzanillo – contribuindo à mobilização que pôs fim à ditadura de Gerardo Machado. Já em 1933, participou do V Plenário do Comitê Central do PCC; neste evento, usou o pseudônimo Julio Martínez, mas logo, a pedido de Rubén Martínez Villena, adotou o pseudônimo Blas Roca – o qual, em 1939, quando foram convocadas as eleições para a Assembleia Constituinte, oficializou como seu verdadeiro nome. Ao retornar a Manzanillo, fundou o soviete de Mabay, o primeiro de Cuba. Pouco tempo depois, o partido o transferiu para Havana, incorporando-o como membro da Executiva Política (Birô) do Comitê Central. No fim de 1933, foi provisoriamente nomeado secretário-geral, cargo ratificado em 1934 (no II Congresso do Partido), no qual permaneceu até 1961, quando o Partido Socialista Popular (nome que o PCC passara a adotar em 1944) decidiu se dissolver para formar, juntamente com o Movimiento 26 de Julio e o Directorio Revolucionario 13 de Marzo, uma organização única dos revolucionários cubanos: as Organizaciones Revolucionarias Integradas (sob a liderança de Fidel Castro). Em agosto de 1934, Blas Roca fez sua primeira viagem à União Soviética para participar da reunião preparatória do VII Congresso da Internacional Comunista; um ano depois, chefiou a delegação do PCC em Moscou, sendo eleito membro de seu Comitê Executivo para a América Latina. Como tal, deu valiosa colaboração aos partidos operários e comunistas latino-americanos: caso de sua visita ao Brasil, durante a qual pôde encontrar Luiz Carlos Prestes na prisão, conversar com ele e ajudar a romper o isolamento em que fora mantido; e ainda, da atenção que deu ao Partido Comunista Mexicano, quando este atravessava uma crise de sua direção. Em 1940, presidiu a delegação do Partido Unión Revolucionaria Comunista (PURC), na Assembleia Constituinte. Desde então, até o golpe de Estado de Fulgência Batista, em 1952, foi membro da Câmara dos Deputados. Blas Roca forjou sua sólida cultura de maneira autodidata; lia de tudo. Em sua infância, entrou em contato com variadas obras, desde as de história cubana, às da literatura universal – como Os Miseráveis, Dom Quixote, entre outras disponíveis na biblioteca familiar. Isto alimentou seu pensamento com ideais democráticos e de justiça social, cujo núcleo foi o pensamento de José Martí. Mais tarde, quando começou a participar das lutas proletárias, entrou em contato com a literatura marxista. Leu então O ABC do Comunismo de Bukharin, O Estado e a Revolução de Lenin e A Crítica da Economia Política de Marx, que foram seguidos pelo Manifesto do Partido Comunista e pelo Capital, dentre outras obras clássicas do marxismo (à medida que chegavam em Cuba). Foi, enfim, uma síntese do intelectual revolucionário orgânico cubano do século XX, que articulou a cubanidade, a ética, o latino-americanismo e o anti-imperialismo de Martí, com a universalidade do marxismo-leninismo. A chegada de Blas Roca à alta direção do primeiro partido dos comunistas cubanos marca uma etapa qualitativamente superior no processo de amadurecimento marxista-leninista desta agremiação – enquanto instrumento político de vanguarda da revolução cubana. A experiência organizacional do marxista – nascida de sua militância de base, de estudos teóricos permanentes e de seu trabalho para unificar o partido –, juntamente com seu esforço e dedicação, o convenceu da necessidade de repensar a estratégia e as táticas do partido: como uma ciência da liderança da luta de classes dos trabalhadores, nas condições específicas dos países coloniais e dependentes. Assim, se iniciaria uma radical mudança tático-estratégica na ação partidária – centrada na luta pela legalidade, aliança com setores progressistas sem perda dos princípios de classe, propaganda revolucionária e busca por hegemonia. Após a vitória revolucionária de janeiro de 1959, na primeira plenária do PSP (fevereiro de 1959), Roca orientou o trabalho de seu partido no sentido de “defender a Revolução e fazê-la avançar”. Mais tarde, presidiu a comissão responsável por elaborar o projeto de Constituição da República – aprovada por referendo popular em 1976. Foi membro do Comitê Central do novo PCC desde sua fundação (1965), até falecer (1987), sendo enterrado com honras de general morto em guerra. “Deixou de existirContinuar lendo “O marxismo de Blas Roca”

Veias Abertas nº1 | 2019 – Apresentação

Veias Abertas é um espaço crítico aberto à diversidade de ideias e lutas que se faz presente no debate teórico socialista. Editada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo, e tendo seu nome inspirado na obra clássica de Eduardo Galeano, a publicação periódica abarca variados temas da vasta gama de conhecimentos das ciências históricas (historiografia, educação, economia etc) e das disciplinas filosóficas.