O marxismo de John Reed

Jornalista, escritor e militante socialista, foi fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores dos Estados Unidos e autor de Dez dias que abalaram o mundo, clássico do jornalismo literário no qual relata sua observação dos acontecimentos da Revolução Soviética

Por Ronaldo Tadeu de Souza *

REED, John Silas (estadunidense; Portland/Estados Unidos, 1887 – Petrogrado/União Soviética, 1920).

1 – Vida e práxis política

John Silas Reed nasceu no Óregon, Noroeste dos Estados Unidos, filho de  Charles Jerome Reed e de Margaret Green Reed. Com a mãe, aprendeu a ler ainda na infância.

Em 1906, mudou-se para Cambridge, no estado de Massachusetts, para estudar Jornalismo na Universidade de Harvard, onde se formou em 1910. Nesta cidade, John conheceu Walter Lippmann e Charles Townsend Copeland. Sob a influência do primeiro, participou do Clube Socialista de Harvard; com o segundo, então professor em Harvard, aprendeu técnicas de composição em inglês e assimilou a importância de escrever em uma linguagem comum, para melhor expor as circunstâncias da realidade e observar a beleza escondida do mundo sensível. Em Harvard, teve também suas primeiras experiências com jornais e revistas; por volta de 1910, escreveu para o Lampoon e para o Harvard Monthly, em que publicou seus primeiros poemas e textos em prosa romântica.

Após a faculdade, em 1911, foi viver na cidade de Nova Iorque. Como muitos jovens imaginativos, sonhadores e impetuosos do turbulento começo do século XX, John desejava escrever poesia; esta vontade era resultado da combinação singular de um aluno mediano com a de um leitor infatigável de romances e grandes escritores como Walter Scott e Thomas Malory. Mas a vida o levaria por caminhos distintos: o de jornalista internacional e militante socialista.

Em 1913, em Nova Iorque, John Reed teve uma de suas mais importantes experiências intelectuais e profissionais, que o formariam como jornalista comprometido com as causas populares: por indicação de Lincoln Steffens, amigo de sua família, ele foi contratado como repórter da Metropolitan Magazine. Por este tempo, presenciou a greve do setor têxtil em Paterson, Nova Jersey. Em sua quase autobiografia, Almost thirty [Quase trinta], publicada nos anos 1930, ele diria sobre o período: “eu soube então, e não foi pelos livros, como os trabalhadores produzem toda a riqueza do mundo, e que esta vai para aqueles que nada fazem para merecê-la”. Trabalhando para o Metropolitan Magazine, Reed acompanhou de perto a Revolução Mexicana. Chegando ao México pelo Texas, atravessou a fronteira, encontrou as tropas revolucionária da Divisão Norte e conheceu o general Francisco Villa – com quem diz que “sobreviveu a batalhas sangrentas, bebeu, dançou” e escreveu um dos seus livros mais importantes, México insurgente (publicado em 1914)[1].

Quando regressou a Nova Iorque, relatou as batalhas de Pancho Villa e seus companheiros rebeldes, e ainda em 1913, o jovem jornalista viajou para a Europa pela primeira vez, para encontrar-se, em Nápoles, com Mabel Dodge, estadunidense envolvida com o mundo das artes, de quem ele foi amante. Logo, o casal seguiu viagem para a França, depois retornando à Itália[2].

No ano seguinte, estourou a I Guerra Mundial. O conflito instigou Reed, e ele estava pronto para cobri-lo, porém, por ser frequentador do bar do Hotel Ritz de Paris, ambiente que reunia famosos escritores e artistas, preferiram mantê-lo aí, negando-lhe a tarefa. Ele, então, junto ao correspondente do New York Evening Post, Robert Dunn, obteve um visto médico, podendo assim viajar para Nice, em setembro de 1914. Em dezembro, seguiu para Berlim, onde conseguiu entrevistar Karl Liebknecht, o líder da ala radical revolucionária do Partido Social-Democrata Alemão, que tinha votado contra os créditos de guerra no parlamento alemão.

Sua experiência da guerra se aprofundou quando, em janeiro de 1915, foi à frente de batalha de Ypres, na Bélgica, onde, ao lado de Robert Dunn, presenciou os horrores das trincheiras e viu os corpos de soldados franceses mortos. Outro episódio marcante ocorreu este mesmo ano, também na região de Ypres, quando acompanhado por um oficial (e do colega Dunn), Reed chegou  a manusear um fuzil e disparar na direção inimiga — um gesto breve, mas que o perturbou, ao expor a ambiguidade de seu papel como correspondente de guerra, no qual a linha entre observar e participar podia ser tênue[3]. Além disto, o fato teve consequências para sua carreira no jornalismo: ao receber a informação da ocorrência, o New York Evening Post comunicou que ele não poderia mais entrar na Europa pela França. Daí que mais tarde John Reed, junto ao ilustrador Boardman Robinson, que agora o acompanhava, teria que ingressar na Europa pela zona oriental do continente, sempre que tivesse que lá voltar para dar continuidade a sua cobertura.

Enquanto a experiência da Revolução Mexicana incitou em Reed a paixão pelas causas populares, a I Guerra Mundial o levou a nutrir sentimentos de ódio pela guerra e desprezo pelos governantes – entendendo que todos, igualmente, usavam a classe trabalhadora no conflito para obtenção de benefícios próprios.

Ainda em 1915, John Reed voltou para Nova Iorque. Na cidade, tentou reatar sua relação com Mabel Dodge, que naquele momento vivia afastada de seu novo universo político. Instável emocionalmente, Reed retomou a escrita de poesia. No período, escreveu também textos importantes para o jornal The Masses [As Massas], com destaque para o conto “Daughter of the Revolution” [“A filha da Revolução”], de fevereiro de 1915, mais tarde publicado em coletânea póstuma; e o artigo “The worst thing in Europe”[“A pior coisa da Europa”], de março do mesmo ano.

Antes da grande aventura da sua vida – que seria a cobertura e relato da Revolução Bolchevique –, Reed viajou brevemente à Europa Oriental, onde, em fevereiro de 1916, escreveu o artigo The world well lost [O mundo bem perdido]. No texto, descreveu a experiência de um socialista sérvio que, após a I Guerra Mundial, e decepcionado com a atuação dos social-democratas, não acreditava mais nas possibilidades de reformas.

Entretanto, foi no relato das glórias da Revolução Russa que John Silas Reed se tornaria um dos grandes nomes da história do marxismo e do movimento comunista. Já tendo como companheira a ativista feminista e escritora Louise Bryant – que conhecera durante um intervalo do trabalho em campo, quando viveu em Nova Iorque –, Reed chegou à Rússia em setembro de 1917. Louise tinha sido casada com um dentista novaiorquino chamado Paul Trullinger, mas se envolveu com Reed, com quem se identificava quanto ao espírito rebelde e imaginativo, sendo colaboradora dos jornais anarquistas dirigidos por Alexander Berkman e Emma Goldman, respectivamente, o Blast e o Mother Earth. Estes anos de 1916 e 1917, ao lado de Louise, foram permeados pela boemia e por projetos artísticos, além da ruptura com Walter Lippmann. À época, Reed, que conquistava uma reputação nacional como jornalista, se opôs à entrada dos Estados Unidos na I Guerra, o que o levou a várias ações práticas que fizeram com que perdesse o emprego em grandes jornais corporativos; com isto, nenhum periódico comercial de porte se dispôs a pagar por sua estadia e reportagens na Rússia. Foi Max Eastman, editor do The Masses, um jornal mensal socialista, quem levantou os recursos para Reed e Louise cobrirem o acontecimento.

A partir desse momento, até a sua morte em 1920, John Silas Reed, que já professava as causas dos trabalhadores, defenderia abertamente as bandeiras do movimento comunista e, nos Estados Unidos, ajudaria a construir uma organização que tivesse no horizonte os feitos do Partido Bolchevique.

Entre 1918 e 1919, após cobrir a Revolução de 1917, Reed voltou para os Estados Unidos, onde foi julgado pela campanha antimilitarista que havia levado a cabo em 1916. Aproveitando a estada em seu país, ele organizou concorridos comícios, nos quais explicou aos estadunidenses o que havia sido a Revolução de Outubro na Rússia.

Nesse período, John Reed ingressou no Partido Socialista dos Estados Unidos; porém, insatisfeito com o envolvimento da organização no sistema partidário do pais, começou vislumbrar a possibilidade de criar outro partido. Em 31 de agosto de 1919, ao lado de outros militantes expulsos do Partido Socialista, Reed iniciou a construção do Communist Labor Party dos Estados Unidos [Partido Comunista dos Trabalhadores] – que seria o embrião do Communist Party of the United States of America [Partido Comunista dos EUA] –, do qual ele e o comunista estadunidense Louis Fraina seriam os representantes junto à Internacional Comunista.

Entusiasmado com a vitória dos bolcheviques, e superando obstáculos do regime estadunidense (que o proibia de sair do país), Reed, clandestinamente, voltou para a Rússia revolucionária para concluir a jornada que o consagraria como jornalista radical.

John Reed morreu num gelado dia do outono russo, aos 32 anos, de tifo, em Moscou, três anos depois de ter vivenciado e relatado – na espetacular obra Ten days that shook the world [Dez dias que abalaram o mundo] – o maior acontecimento para os trabalhadores do século XX.

2 – Contribuições ao marxismo

Reed não foi um propriamente um teórico do materialismo histórico, nem um militante estritamente devotado à ação política, mas sua biografia sobressai por ter narrado o maior evento político e social da história comunista. A obra Dez dias que abalaram o mundo é a apreensão testemunhal-ocular da Revolução Russa de 1917. Seu legado – como marxista e jornalista – é considerado um marco da reportagem moderna, pela forma como uniu imersão direta nos acontecimentos, força narrativa e tomada de posição política, ampliando os limites do que significa testemunhar e narrar a história. A grande proeza histórica, política e literária de Reed foi ter conseguido, dentro dos seus termos e convicções, manter fixamente seu olhar apaixonado nos detalhes do processo dinâmico da Revolução, assim como em seus personagens menores e mesmo anônimos – tendo observado atentamente os próprios trabalhadores em ação a tomar o destino em suas mãos[4].

Algumas considerações são importantes sobre Dez dias que abalaram o mundo, a saber: 1) John Reed, para escrever, valeu-se de documentos do dia-a-dia da revolução, proclamações emitidas, panfletos, pôster de propaganda, jornais diários de organizações e folhetos de distribuição rápida; 2) desde que chegou à Rússia, em setembro de 1917, com Louise Bryant, ele teve a acolhida tanto dos membros do Governo Provisório (interessado na divulgação socialista de seu governo no exterior), como dos bolcheviques – pois Reed foi logo tido pelos comunistas russos como um jornalista revolucionário, sendo esta receptividade decisiva para a construção viva de sua reportagem-história; 3) ele não desejou apenas descrever a Revolução para a audiência estadunidense, mas sim o fez para os leitores vindouros, para os futuros trabalhadores e socialistas de todo o mundo; 4) Reed não se preocupou em contar o que havia antes, nem as consequências de médio prazo da Revolução; 5) A grande conquista de Dez dias reside no fato de que John Reed conseguiu relatar, com riqueza de detalhes, os sentimentos imediatos daqueles que buscavam transformar suas vidas, apreendendo em suas páginas a vontade expressa nos momentos de entusiasmo político e social.

Um ponto que merece atenção – concernente à contribuição de Reed ao marxismo e ao campo do jornalismo crítico – foi o estilo que usou para relatar os eventos que estava cobrindo, conseguindo transformar fatos rudes e acontecimentos secos em narrativas com força de expressão e capacidade de despertar o interesse humano, sensível, dos leitores[5].

Foi esse romantismo rebelde que fez o seu livro mais conhecido e importante sobreviver com exuberância até nossos dias, apesar de tantos revezes sofridos pelos socialistas, em especial após a Queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética nos anos 1990[6].

Interessante destacar as técnicas narrativas que o excepcional jornalista literário que foi John Reed utilizou: ele não apenas observava os protagonistas dos eventos, mas os tipificava com seus traços mais característicos; ele tinha como ideal – e em certa medida o concretizou – documentar diretamente as declarações, adotando como estratégia jornalística a reprodução de relatos integrais, de modo a tornar os acontecimentos mais claros e evidentes para o leitor; seu objetivo não era apenas o de relatar os fatos, mas o que o movia era reconstruí-los em suas circunstâncias concretas e atmosfera social, de modo a torná-los o mais vívidos para o leitor; e, por fim, a preocupação de Reed foi, sobretudo, descrever em detalhes o espírito eminentemente humano que envolve os grandes eventos históricos[7].

Assim, o intenso relato sobre a Revolução Russa de 1917, cujo resultado foi um sucesso ímpar, combinou investigação jornalística, impressões subjetivas, paixão política e o detalhe literário dos fatos.

John Reed recebeu uma severa crítica de certas figuras do século XX – em grande medida pelo espírito do tempo, a Guerra Fria. Mas mereceu também elogios serenos positivos de alguns dos que o criticavam: George F. Kennan reconheceu seu “poder literário”; Walter Lippmann, seu antigo amigo de Harvard, destacou seu dom para autodramatização; Max Eastman escreveu um romance em que Reed foi ficcionalizado; e Warren Beatty produziu um filme sobre ele em 1981, o famoso Reds.

Mas a contribuição de John Reed para o marxismo e para as lutas de milhares de pessoas subalternizadas que hoje têm a esperança de uma vida melhor foi reconhecida por dois dos principais personagens do livro do próprio Reed; ao prefaciar o Dez dias que abalaram o mundo, Krupskaia disse que: “o livro de Reed oferece um quadro autêntico da revolta, e é por isso que terá uma importância toda especial para a juventude, para as gerações futuras, para quem a Revolução de Outubro já será história”; “no seu gênero, o livro de Reed é uma epopeia”[8]. Já Lênin afirmou sobre a obra que: “gostaria de ver publicada aos milhões de exemplares […] para todas as línguas, pois traça um quadro […] extraordinariamente vivo dos acontecimentos […] da Revolução da Ditadura do Proletariado”[9]. Com efeito, a obra de Reed traça com emocionante precisão todos os acontecimentos, pessoas, organizações e os temperamentos vividos nas duas semanas mais importantes do século XX. Lênin ainda diria que o livro de Reed foi fundamental para o verdadeiro esclarecimento do proletariado mundial acerca do que ocorreu em 1917 na Rússia.

John Reed foi um entusiasta do socialismo que se organiza desde baixo, além de adepto do socialismo dos sovietes de operários, camponeses e soldados. O artigo que publicou em 1918 no The Liberator, que na ocasião era dirigido por Max Eastman, com o título “Soviets in action” [“Sovietes em ação”] revela seu modo de pensar o socialismo. Neste ensaio – uma de suas principais contribuições para o marxismo –, Reed apresenta alguns conceitos e práticas políticas que entende como fundamentais: capacidade de organização da classe trabalhadora; coordenação pelos conselhos das atividades sociais e econômicas essenciais; participação efetiva dos trabalhadores; representação direta; sensibilidade para com os mais necessitados; política autônoma; descentralização e governo local na criação de um governo central; mandato revogável a qualquer momento; flexibilidade política; e defesa consciente da revolução[10].

John Silas Reed morreu em outubro de 1920, ainda jovem, deixando para as gerações futuras de socialistas essa concepção de socialismo dos sovietes, que defendia, além de uma obra preciosa que ajudou a difundir pelo mundo os ideais comunistas e a história da emblemática Revolução Bolchevique.

3 – Comentário sobre a obra

A produção intelectual John Silas Reed constitui-se principalmente de sua vasta atividade jornalística, além de poemas esparsos e cartas a pessoas íntimas. Contudo, seus poucos livros publicados em vida são um repertório imaginativo e apaixonante de significativas experiências humanas no início do século XX. Seus escritos foram publicados em diversos idiomas, inclusive na língua portuguesa.

Destacam-se de John Reed as seguintes obras: Mexico insurgent [México insurgente] (Nova Iorque: Daniel Appleton e Company, 1914), traduzido no Brasil como México rebelde (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968); The war in Eastern Europe [A guerra na Europa Oriental] (Nova Iorque: Charles Scribner’s Sons, 1916), traduzido como Guerra dos Bálcãs (São Paulo: Conrad, 2002); e seu clássico Ten days that shook the world (Nova Iorque: Boni and Liveright, 1919), logo publicado em Portugal, em 1927, com o título Dez dias que abalaram o mundo (Lisboa: Editorial Inquérito) – mas vindo a sair no Brasil apenas em 1967, pela Civilização Brasileira.

Outras obras suas de impacto, mas menos relevantes para  história do marxismo, são: Daughter of the Revolution and other stories (Nova Iorque: Vanguard Press, 1927), coletânea de contos editada por Floyd Dell e traduzida ao português como A filha da Revolução (São Paulo: Conrad, 2000); e o esboço autobiográfico “Almost thirty”, escrito em 1917 mas publicado somente em 1936 na revista The New Republic.

Além destas, dentre a obra poética do jovem John Reed, cabe mencionar The day in bohemia, or, Life among the artists [Um dia na Boêmia, ou, A vida entre os artistas], sátira sobre a cena artística de bairros boêmios de Nova Iorque, publicada como livreto em 1913, em edição independente (Riverside/EUA: Hillacre). E Tamburlaine and other verses (Riverside/EUA: Hillacre, 1917), pequeno livro que reúne 25 poemas com reflexões sobre a vida e personagens históricos.

Com relação a seus escritos principais, Mexico insurgent foi sua primeira obra como correspondente internacional cobrindo um fato de importância para os trabalhadores. No livro, Reed narra a Revolução Mexicana liderada por Pancho Villa. O jornalismo literário de Reed, ao relatar a rebelião dos villistas, ao contrário de muitos de seus colegas, que tomavam informações de líderes políticos com uma visão enviesada do processo, buscou captar o sentimento dos mais pobres, dos verdadeiros democratas, do dia a dia das tropas e dos revolucionários.

The war in Eastern Europe é talvez o livro mais desencantado de John Reed. Nele, informa ao público estadunidense o ocorrido na I Guerra Mundial, sobretudo na região dos Bálcãs. Isto porque ele não nutria nenhum sentimento positivo pela guerra e pelas elites governantes que a promoviam, levando à morte os que menos tinham a ganhar com a guerra: a classe trabalhadora mundial. Ao descrever o primeiro conflito mundial entre potências imperialistas, Reed detalhou o sofrimento expresso na carne viva e nos ossos fraturados de homens que davam suas vidas pelos interesses do lucro. Aqui, porém, a morte foi narrada por Reed sem a mesma paixão de México insurgente, ainda que com uma imensidão de detalhes.

Entretanto, não há dúvida que Ten days that shook the world é sua grande obra, e que é também um dos grandes livros do século XX. Não se trata, contudo, de um livro didático sobre a Revolução Russa, e também não foi escrito para o senso comum que deseja conhecer o evento sem maiores complexidades – engana-se quem for lê-lo com isto em mente. Dez dias conta, de maneira romanesca, os dias que antecederam a Revolução e o dia preciso (25 de outubro) em que se deu a conquista do poder pelos trabalhadores, camponeses e soldados reunidos e organizados nos sovietes [conselhos] – tendo a seu lado os bolcheviques e os líderes Lênin, Zinoviev, Kamenev, Trótski, Bukharin, Kollontai, Lunatcharski e Krupskaia à frente. Ou seja, narra as duas semanas anteriores à Revolução, e a subjetividade de milhares de trabalhadores, trabalhadoras, camponeses, camponesas e soldados revolucionários. É o principal texto sobre este evento histórico, junto com a História da Revolução Russa (1930-1932/ 3 volumes),de Trótski, e A Revolução Bolchevique[11] (1917-1923/3 vol.), de Edward Hallet Carr. Esta informação é importante pois estabelece três gêneros textuais distintos sobre o mesmo fenômeno. A obra de Trótski é o testemunho denso e abrangente de um dos atores do processo revolucionário de 1917. Edward Carr, que foi professor no Trinity College em Cambridge, Inglaterra, escreveu com rigor historiográfico e detalhamento dos eventos talvez a mais completa – e, portanto, mais importante – obra sobre a Revolução Soviética – obra esta que seria incluída em sua História da União Soviética, publicada em 14 volumes. Por sua vez, e em termos comparativos, o livro de John Reed, Dez dias que abalaram o mundo, descreve com vivacidade e emoção objetiva as semanas que antecederam a conquista do poder pelos sovietes e o partido de Lênin, o que torna seu trabalho, no âmbito do gênero textual jornalístico, notável para o entendimento das causas que levaram a uma revolução na Rússia no começo do século XX – acontecimento que mudaria a história.   

Em Daughter of the Revolution encontramos Reed escrevendo pequenas histórias e casos que presenciou em alguns momentos da carreira jornalística. Esses episódios ganham traços ficcionais e romanescos na escrita efervescente, e ao mesmo tempo objetiva, do autor. São fatos que ele presenciou no México, na I Guerra Mundial, na Nova Iorque dos anos 1910, e na Revolução Russa de 1917 (mas que estão ausentes do livro Dez dias).

Almost thirty é um relato nostálgico de Reed sobre seus dias em Harvard como aluno de jornalismo. Ali, mesmo ocupando a presidência do Clube Cosmopolita e a gerência do Clube Musical, ele se sentia isolado e estranho – em meio àquele ambiente aristocratizado dos estudantes pertencentes à elite estadunidense. A obra consiste de seus temores, angústias e receios da adolescência no período universitário. Narra suas impressões sobre o contato com Charles Townsend Copeland e Walter Lippmann; conta do impacto que lhe causou a greve operária em Paterson, do êxtase com a cidade de Nova Iorque: “Em Nova Iorqueeu amei pela primeira vez, e eu escrevi pela primeira vez as coisas que eu vi com intensa alegria de criação”. Trata da experiência de viajar ao México como correspondente de guerra pelo The Metropolitan Magazine para acompanhar Pancho Villa e a Revolução Mexicana, e da ida, também como jornalista, à Europa para cobrir a I Guerra. E sobre estes dois eventos que marcaram sua vida, Reed afirma que na Europa não encontrou “nenhuma espontaneidade, nenhum idealismo” como presenciara na Revolução Mexicana. A biografia é o autorrelato de um personagem, de um homem apaixonado, aventureiro no bom sentido, de um radical e boêmio que se encontraria realizado ao testemunhar em 1917 – na Rússia dos conselhos de trabalhadores, camponeses e soldados, dos bolcheviques e de Lênin – os dez dias que abalariam todo o século XX[12].

Há alguns portais que disponibilizam as obras de John Reed, como: Marxists (www.marxists.org); e The Oregon Encyclopedia (www.oregonencyclopedia.org).

4 – Bibliografia de referência

BINGHAM, Edwin R. “The lost revolutionary: a biography of John Reed by Richard O’Connor”. The Pacific Northwest Quarterly, v. 60, n. 2, 1969.

______. “So Short a Time: a biography of John  Reed and Louise Bryant by Barbara Gelb”. The Pacific Northwest Quarterly, v. 66, n. 2, 1975.

BUSTAMENTE, Fernando. Duas revoluções: percurso estético-político na literatura de John Reed. Dissertação [Mestrado], Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

CHILLÓN, Albert. Literatura y periodismo: una tradición de relaciones promiscuas. Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, 1999.

CORRÊA, Vítor de Abreu. Testemunho e técnica no jornalismo literário: a contribuição de John Reed. Trabalho de Conclusão de Curso, Centro Universitário de Brasília,Brasília, 2006.

FRAZIER, Ian. “John Reed’s – unblinking stare”. The American Scholar, v. 71, 2002.

HOMBERGER, Eric. John Reed. Manchester/Nova Iorque: Manchester University Press, 1990.

KISCH, Egon Erwin. “O autor e sua obra”. Em: REED, John. Os dez dias que abalaram o mundo. Porto Alegre: LPM, 2002.

KRUPSKAIA, Nadeja. “Prefácio à Primeira Edição Russa”. Em: REED, John S. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Círculo do Livro, S/D.

LÊNIN, Vladimir I. “Prefácio à Edição Norte-Americana”. Em: REED, John S. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Círculo do Livro, S/D.

ROSENSTONE, Robert A. Romantic revolutionary: a biography of John Reed. Nova Iorque: Random House, 1975.

SPENCER, Arthur C. “Romantic Revolutionary: a biography of John Reed by Robert A. Rosenstone”. Oregon Historical Quarterly, v. 77, n. 1, 1976.

TAYLOR, A. J. P. Introdução. Em: REED, John. Dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

VENTURA, Zuenir. Apresentação. Em: REED, John. Dez dias que abalaram o mundo: a história de uma revolução. São Paulo: Ediouro, 2002.

Notas editoriais

* Ronaldo Tadeu de Souza é professor de Ciência Política da UFRJ; cientista social pela PUC-SP, doutor em Ciência Política pela USP, onde fez também pós-doutorado, e pesquisador do Centro de Estudos em Cultura Contemporânea, do Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria (UFRJ) e do Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Política e Pensamento Crítico. Autor de, entre outras obras: Tensões na teoria política contemporânea: um estudo sobre os conceitos de ação política e ordem natural em Hannah Arendt e Leo Strauss (FFLCH-USP, 2017); e “Antonio Candido leitor de Marcel Proust: ou o realismo como teoria literária” (Literatura e Sociedade/USP, 2019).

* Com colaboração e edição de texto de Yuri Martins-Fontes, Felipe S. Deveza e Joana A. Coutinho, e ilustração de Felipe S. Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis-USP, sendo um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões são bem-vindas: editoria@nucleopraxisusp.org.


[1] Reed (1936).

[2] Homberger (1990).

[3] Ver: DUNN, Robert. Five fronts: on the firing-lines with the english, french, austrian, german and russian troops [Cinco frentes: nas linhas de tiro com as tropas inglesas, francesas, austríacas, alemãs e russas] (1915).

[4] KISCH (2002)

[5] CORREA (2006).   

[6] ROSENSTONE (1975).

[7] CHILLÓN (1999).

[8] KRUPSKAIA (s/d) [1919].

[9] LÊNIN (s/d) [1919].

[10] REED (2007) [1918].

[11] CARR. A history of soviet Russia, Londres: Macmillan, 1950–1978 [The Bolshevik Revolution (3 volumes)]. O livro de Carr ainda não possui tradução para o português; há um livro que resume a obra maior do historiador inglês, traduzido entre nós como: A Revolução Russa de Lênin a Stálin (1917-1929), Rio de Janeiro: Zahar, 1981. Existe também, como alternativa, a edição em espanhol: CARR. La historia de la Rusia soviética, Madrid: Alianza Editorial, 1972 [La Revolución Bolchevique 1917-1923 (3 volumes)].

[12] CORRÊA (2006).