Jornalista, escritor e militante socialista, foi fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores dos Estados Unidos e autor de Dez dias que abalaram o mundo, clássico do jornalismo literário no qual relata sua observação dos acontecimentos da Revolução Soviética Por Ronaldo Tadeu de Souza * REED, John Silas (estadunidense; Portland/Estados Unidos, 1887 – Petrogrado/União Soviética, 1920). 1 – Vida e práxis política John Silas Reed nasceu no Óregon, Noroeste dos Estados Unidos, filho de Charles Jerome Reed e de Margaret Green Reed. Com a mãe, aprendeu a ler ainda na infância. Em 1906, mudou-se para Cambridge, no estado de Massachusetts, para estudar Jornalismo na Universidade de Harvard, onde se formou em 1910. Nesta cidade, John conheceu Walter Lippmann e Charles Townsend Copeland. Sob a influência do primeiro, participou do Clube Socialista de Harvard; com o segundo, então professor em Harvard, aprendeu técnicas de composição em inglês e assimilou a importância de escrever em uma linguagem comum, para melhor expor as circunstâncias da realidade e observar a beleza escondida do mundo sensível. Em Harvard, teve também suas primeiras experiências com jornais e revistas; por volta de 1910, escreveu para o Lampoon e para o Harvard Monthly, em que publicou seus primeiros poemas e textos em prosa romântica. Após a faculdade, em 1911, foi viver na cidade de Nova Iorque. Como muitos jovens imaginativos, sonhadores e impetuosos do turbulento começo do século XX, John desejava escrever poesia; esta vontade era resultado da combinação singular de um aluno mediano com a de um leitor infatigável de romances e grandes escritores como Walter Scott e Thomas Malory. Mas a vida o levaria por caminhos distintos: o de jornalista internacional e militante socialista. Em 1913, em Nova Iorque, John Reed teve uma de suas mais importantes experiências intelectuais e profissionais, que o formariam como jornalista comprometido com as causas populares: por indicação de Lincoln Steffens, amigo de sua família, ele foi contratado como repórter da Metropolitan Magazine. Por este tempo, presenciou a greve do setor têxtil em Paterson, Nova Jersey. Em sua quase autobiografia, Almost thirty [Quase trinta], publicada nos anos 1930, ele diria sobre o período: “eu soube então, e não foi pelos livros, como os trabalhadores produzem toda a riqueza do mundo, e que esta vai para aqueles que nada fazem para merecê-la”. Trabalhando para o Metropolitan Magazine, Reed acompanhou de perto a Revolução Mexicana. Chegando ao México pelo Texas, atravessou a fronteira, encontrou as tropas revolucionária da Divisão Norte e conheceu o general Francisco Villa – com quem diz que “sobreviveu a batalhas sangrentas, bebeu, dançou” e escreveu um dos seus livros mais importantes, México insurgente (publicado em 1914)[1]. Quando regressou a Nova Iorque, relatou as batalhas de Pancho Villa e seus companheiros rebeldes, e ainda em 1913, o jovem jornalista viajou para a Europa pela primeira vez, para encontrar-se, em Nápoles, com Mabel Dodge, estadunidense envolvida com o mundo das artes, de quem ele foi amante. Logo, o casal seguiu viagem para a França, depois retornando à Itália[2]. No ano seguinte, estourou a I Guerra Mundial. O conflito instigou Reed, e ele estava pronto para cobri-lo, porém, por ser frequentador do bar do Hotel Ritz de Paris, ambiente que reunia famosos escritores e artistas, preferiram mantê-lo aí, negando-lhe a tarefa. Ele, então, junto ao correspondente do New York Evening Post, Robert Dunn, obteve um visto médico, podendo assim viajar para Nice, em setembro de 1914. Em dezembro, seguiu para Berlim, onde conseguiu entrevistar Karl Liebknecht, o líder da ala radical revolucionária do Partido Social-Democrata Alemão, que tinha votado contra os créditos de guerra no parlamento alemão. Sua experiência da guerra se aprofundou quando, em janeiro de 1915, foi à frente de batalha de Ypres, na Bélgica, onde, ao lado de Robert Dunn, presenciou os horrores das trincheiras e viu os corpos de soldados franceses mortos. Outro episódio marcante ocorreu este mesmo ano, também na região de Ypres, quando acompanhado por um oficial (e do colega Dunn), Reed chegou a manusear um fuzil e disparar na direção inimiga — um gesto breve, mas que o perturbou, ao expor a ambiguidade de seu papel como correspondente de guerra, no qual a linha entre observar e participar podia ser tênue[3]. Além disto, o fato teve consequências para sua carreira no jornalismo: ao receber a informação da ocorrência, o New York Evening Post comunicou que ele não poderia mais entrar na Europa pela França. Daí que mais tarde John Reed, junto ao ilustrador Boardman Robinson, que agora o acompanhava, teria que ingressar na Europa pela zona oriental do continente, sempre que tivesse que lá voltar para dar continuidade a sua cobertura. Enquanto a experiência da Revolução Mexicana incitou em Reed a paixão pelas causas populares, a I Guerra Mundial o levou a nutrir sentimentos de ódio pela guerra e desprezo pelos governantes – entendendo que todos, igualmente, usavam a classe trabalhadora no conflito para obtenção de benefícios próprios. Ainda em 1915, John Reed voltou para Nova Iorque. Na cidade, tentou reatar sua relação com Mabel Dodge, que naquele momento vivia afastada de seu novo universo político. Instável emocionalmente, Reed retomou a escrita de poesia. No período, escreveu também textos importantes para o jornal The Masses [As Massas], com destaque para o conto “Daughter of the Revolution” [“A filha da Revolução”], de fevereiro de 1915, mais tarde publicado em coletânea póstuma; e o artigo “The worst thing in Europe”[“A pior coisa da Europa”], de março do mesmo ano. Antes da grande aventura da sua vida – que seria a cobertura e relato da Revolução Bolchevique –, Reed viajou brevemente à Europa Oriental, onde, em fevereiro de 1916, escreveu o artigo The world well lost [O mundo bem perdido]. No texto, descreveu a experiência de um socialista sérvio que, após a I Guerra Mundial, e decepcionado com a atuação dos social-democratas, não acreditava mais nas possibilidades de reformas. Entretanto, foi no relato das glórias da Revolução Russa que John Silas Reed se tornaria um dos grandes nomes da história do marxismo e do movimento comunista. Já tendoContinuar lendo “O marxismo de John Reed”
O marxismo de John Reed