Jornalista, professor, editor, antropólogo e historiador, foi fundador do Partido Comunista de Venezuela e do Partido Republicano Progresista, organização legal que abrigou os comunistas venezuelanos durante perseguição política
Por Claudia Marcela Orduz Rojas *
ACOSTA SAIGNES, Miguel Segundo (venezuelano; San Casimiro/Venezuela, 1908 – Caracas, 1989)
1 – Vida e práxis política
Nascido no estado do Aragua, filho de Miguel Acosta Delgado e da francesa Adela Saignes Roulac, Miguel Segundo Acosta Saignes cedo se mudou para o estado de Miranda, onde passou sua infância e iniciou seus estudos. Em 1922, com 14 anos, foi morar na capital, Caracas, onde cursou o ensino médio.
Sua juventude foi marcada por diversos acontecimentos sociais e políticos nacionais que marcaram sua trajetória: as lutas contra a ditadura de Juan Vicente Gómez (1908-1935); o aparecimento de epidemias que dizimaram a população; o surgimento dos primeiros movimentos migratórios do campo para as cidades; a oscilação dos preços do café, na época o principal produto de exportação; e a descoberta dos primeiros poços de petróleo e a concessão sem controle dos contratos de exploração a empresas estrangeiras, entre outros.
Nesse cenário político e econômico conturbado, Acosta iniciou seus estudos superiores. Em 1928, ingressou na Facultad de Medicina da Universidad Central de Venezuela, onde se envolveu nas lutas contra a repressão e o regime autoritário do general Juan Vicente Gómez1. Foi preso por participar nas manifestações contra a ditadura e na comemoração da Semana do Estudante. Junto a outros estudantes – que faziam parte da chamada Generación de 19282 –, foi levado a La Rotunda, uma prisão conhecida pelas torturas, envenenamentos e condições inumanas contra os presos políticos. Pouco tempo depois, foi trasladado para Las Colonias, no estado de Miranda, e em abril de 1929, ficou preso no Castillo de Puerto Cabello, em uma base naval. Durante seu cativeiro no Castillo, Miguel Acosta conheceu o poeta José Pio Tamayo, pioneiro do marxismo venezuelano, que em Havana participou do coletivo que fundaria o primeiro Partido Comunista de Cuba3. Ali, Acosta recebeu as primeiras lições de formação política revolucionária, entrou em contato com a filosofia marxista e refletiu sobre a história e os problemas nacionais. Em fins de 1929, ele e seus companheiros de luta foram libertados; alguns optaram por continuar suas vidas no exílio, Acosta decidiu ficar no país.
Dois anos depois, junto com outros jovens camaradas que participaram do coletivo de formação política Carpa Roja – coordenado por Pío Tamayo – nos anos de cárcere, Acosta organizou a fundação do Partido Comunista de Venezuela (PCV). Também em 1931, casou-se com sua prima María Teresa.
Após o período da prisão, Acosta exerceu a docência como professor de matemática e psicologia. Para complementar sua renda, trabalhou ainda como linotipista, jornalista esportivo e revisor, entre outras atividades. Em 1933, ingressou no curso de Direito da Universidad Central de Venezuela.
Em sua incursão no jornalismo, tornou-se colunista dos jornais El Heraldo, La Voz del Estudiante, Últimas Noticias e El Nacional; e fundou dois periódicos: La Gaceta de América (1935), com Inocente Palacios; e La Victoria (1936), acompanhado de Juan Morales Lara e Alejandro Alfonso Larraín. Além disso, atuou como diretor do jornal El Popular (1936), que defendia pautas como a reforma agrária, a criação de impostos mais altos e progressivos para as empresas petroleiras, a formação de uma refinaria estatal e o direito ao voto para jovens maiores de 18 anos.
Durante a década de 1930, o pensador venezuelano se envolveu também na formação e organização de numerosos agrupamentos estudantis e sindicatos no interior do país. Sua atividade política foi intensa durante esse período: participou do I Congresso de Trabajadores de Venezuela,que fundou a Confederación Venezolana del Trabajo (CVT); fez parte da direção da Federación de Estudiantes de Venezuela (FEV) e participou, em 1936, como delegado da FEV, do primeiro congresso de estudantes socialistas da América Latina, realizado no México.
Ainda em 1936, exerceu papel central na criação do Partido Republicano Progresista (PRP). De orientação marxista-leninista, o PRP funcionou como “fachada legal” da militância comunista venezuelana, pois a Constituição vigente na época considerava traidores a todos aqueles vinculados a partidos com doutrinas comunistas e anarquistas4. No mesmo ano, com a chegada ao poder de Eleazar López Contreras, Acosta e outros quarenta e sete companheiros militantes do PRP passam a ser considerados ameaças ao regime político e são expulsos do país.
Após permanecer alguns meses na clandestinidade realizando trabalho político e organizativo, em janeiro de 1938 viajou ao México onde permaneceu exilado durante nove anos. Naquele momento, este país era considerado uma referência para a juventude rebelde, militante e estudiosa do continente americano. As grandes transformações sociais, econômicas e políticas introduzidas por Lázaro Cárdenas (1934-1940), a favor dos trabalhadores, indígenas e camponeses, eram tidas como exemplo e inspiravam as reflexões e lutas dos exilados venezuelanos e seus colegas latino-americanos. Com o intuito de aprofundar os estudos sobre a questão agrária, na qual vinha trabalhando desde seu período na clandestinidade, matriculou-se inicialmente no curso de Economia – que depois trocou pelo curso de Antropologia e História – na Escuela Nacional de Antropología.
Também em 1938, publicou seu primeiro livro intitulado Latifundio: el problema agrario en Venezuela e três anos depois Petróleo en México y Venezuela (1941). Por este período, o autor assistiu a aulas com professores mexicanos e estrangeiros referências do pensamento antropológico da época: Alfonso Caso, Daniel Rubín de la Borbolla, Pablo Martínez del Río, Manuel Maldonado Kerdell, Miguel Othón de Mendizábal, Paul Rivet, Alfred Métraux, Juan Comas e Paul Kirchhoff. Foi justamente com Kirchhoff, um antropólogo marxista alemão expulso pelo regime nazista e exilado no México, com quem aprofundou a leitura crítica das obras de Marx, Engels e Lewis Morgan.
Em 1945 recebeu os títulos de etnólogo e mestre em Ciências Antropológicas e um ano depois, com o retorno do regime democrático, voltou à Venezuela. Assim como outros companheiros da Generación de 1928, o antropólogo venezuelano não só complementou sua formação acadêmica no exílio, como retornou a seu país querendo impulsionar e renovar o conhecimento científico e social e promover a pesquisa social. Acosta rapidamente se vinculou como professor da Faculdade de Filosofia e Letras na Universidad Central de Venezuela (UCV) e fundou o Instituto de Antropología y Geografía e a Escuela de Periodismo.
Nas três décadas seguintes, sua atuação acadêmica, administrativa e política se tornou ainda mais intensa. Em 1948 criou a Comisión Nacional Indígenista e em 1958 a Escuela de Geografía da UCV. Também atuou como decano da Faculdade de Humanidades e Educação da UCV entre os anos de 1962-1965 e 1968-1971. Ademais, participou da fundação da Revista Archivos Venezolanos de Folklore (1949) e fez parte do conselho de redação da Revista Venezolana de Sociologia y Antropología da Faculdade de Sociologia e Antropologia da UCV.
Em 1961, ampliou sua formação acadêmica, ao receber o título de licenciado em Geografia; em 1963 se doutorou em Antropologia – ambos pela UCV. Como ele mesmo reiterava a seus alunos – com base no conhecido pensamento de Marx5 –, era necessário não só contemplar a realidade, mas principalmente transformá-la, e essa transformação, complementava, incluía “a libertação dos povos oprimidos”. Assim centrado em seu compromisso com as lutas do povo venezuelano, Acosta candidatou-se e foi eleito senador da República (período de 1964 a 1969) pelo Partido Revolucionário Nacionalista, o qual reunia líderes e organizações da esquerda progressista venezuelana6.
Neste ínterim, em 1967, Acosta foi designado comissário da UNESCO para coletar dados e escrever sobre a história dos afrodescendentes na América Latina e Caribe. No mesmo ano, publicou uma de suas obras mais relevantes: Vida de los esclavos negros en Venezuela.
Nas duas décadas posteriores continuou com suas atividades como professor, e dedicou-se à pesquisa, reflexão e divulgação de dois temas centrais na sua obra: o legado dos africanos em seu país e a figura do libertador Simón Bolívar. Ciente de que o tema da escravidão era vital para compreender a história dos três séculos posteriores, o autor se aprofundou na questão. Suas pesquisas sobre os afro-americanos, o regime social de desigualdade a que foram submetidos, suas ideias e lutas ganharam fôlego nos anos 1970, quando fundou e dirigiu a revista Cuadernos Afro-Americanos (1975), e passou a dar aulas na Cátedra de Estudios Afro-Americanos, na Universidad Santa María de Caracas.
Fruto de sua pesquisa e admiração pelo libertador, a quem considerava um ícone da “identidade venezuelana e latino-americana”, o antropólogo marxista publicou em 1977 o ensaio Bolívar: acción y utopía del hombre de las dificultades – obra que ganhou o prêmio Casa de las Américas (Cuba).
No final da vida recebeu diversas homenagens por suas investigações sobre a história e lutas do povo venezuelano e pelo seu compromisso com a transformação social. Em 1987, recebeu ainda o Premio Nacional de Cultura Popular (hoje Premio Nacional de Saberes Tradicionales) –um reconhecimento por seu trabalho de pesquisa e divulgação da cultura, tradições e folclore venezuelano.
Em 10 de fevereiro de 1989, aos 81 anos, Acosta morreu, em Caracas, devido a diversos problemas de saúde que se agravaram nos seus últimos anos de vida, embora tenha se mantido intelectualmente ativo até o fim.
2 – Contribuições ao marxismo
Acosta via o marxismo como uma visão de mundo que lhe permitiu revelar os segredos da sociedade capitalista ocidental – sobretudo por meio da crítica da economia política. Segundo o pensador, o materialismo histórico era um instrumento teórico importante não apenas para a crítica, mas fundamentalmente, para a transformação social.
Nos seus textos e em sala de aula chamava a atenção de seus leitores e alunos para os problemas e contradições de seu país e das sociedades capitalistas em geral. Também acreditava que a produção de conhecimento acadêmico e a luta política, que deviam contribuir para a liberação dos povos oprimidos, tinham que ser desenvolvidas de maneira simultânea. Isto é, sua compreensão do marxismo era ampla, incluindo pensamento e luta social, teoria e prática. Tal perspectiva, bem como sua compreensão do processo histórico venezuelano foram influenciadas pelos acontecimentos e debates políticos, nacionais e internacionais, que marcaram sua juventude.
Após a morte de Juan Vicente Gómez (1935), a Venezuela experimentava mudanças econômicas, sociais e políticas, que somadas à penetração das modernas teorias sociais e ao impacto político e ideológico da Revolução Russa, criaram as condições para o surgimento de novas interpretações sobre o passado e presente do país7. Inicia-se assim uma nova etapa, protagonizada pela Generación de 1928, que rompe com as ideias políticas do século XIX e inaugura um período cujas pesquisas e reflexões utilizam o marxismo como ferramenta de análise que configura uma visão diferente sobre o processo histórico e social venezuelano8.
Um dos trabalhos que marca essa nova etapa da historiografia venezuelana é Latifundio: el problema agrario en Venezuela, publicado em 1938, considerado o primeiro estudo a analisar a questão agrária incorporando o materialismo histórico. Nesta obra, inspirada em ideias de Marx, Engels e também de Mariátegui, o marxista venezuelano explora a relação entre as classes sociais e a terra e oferece uma explicação materialista sobre o processo histórico de desapropriação e concentração da terra, que continuava intacto após a independência9. Na sua avaliação, o latifúndio impedia o progresso econômico e intelectual do povo e o funcionamento da democracia. Desse modo, Acosta defendia a necessidade de romper com o que entendia como “herança feudal” que marcava a estrutura agrária venezuelana e colocar em marcha uma proposta revolucionária que garantisse a justiça no campo, a reforma agrária, a independência econômica e o funcionamento da democracia. Seu trabalho se tornou um ponto de partida e influenciou pesquisas e reflexões posteriores.
Além do problema agrário, o autor também se interessou pela questão da exploração de petróleo – a cargo de companhias estrangeiras – e sua relação com o latifúndio, tema de Petróleo en México y Venezuela (1941). Suas reflexões sobre as interfaces entre terra, latifúndio, petróleo e imperialismo não só foram importantes para desvelar e compreender os problemas e contradições de sua sociedade, mas contribuíram também para elaborar e fundamentar as propostas e transformações defendidas pela esquerda venezuelana. Tais transformações incluíam a reforma agrária, a modernização do campo, a industrialização do país e o controle da indústria petroleira por parte do Estado, e começariam a se tornar realidade décadas depois.
A esses estudos iniciais, que lançaram luz sobre a contradição fundamental entre o imperialismo e o nacionalismo e que contribuíram para consolidar as bases de um projeto nacional, de carácter antifeudal e anti-imperialista, somaram-se depois trabalhos sobre as sociedades originárias, os escravizados negros e seus descendentes, os camponeses e as comunidades tradicionais e o povo venezuelano. Nesses escritos, elaborados a partir de uma perspectiva dialética, o autor valoriza a história, cultura e lutas dos oprimidos e questiona os historiadores oficiais das décadas de 1950 e 1960, especialmente Arturo Uslar Pietri e Mario Briceño Iragorry, que defendiam a tese de que a Venezuela era fruto da colonização europeia, deixando de lado as contribuições indígenas e africanas.
Nesse sentido, Acosta amplia o marxismo e propõe uma visão que critica e rompe com o eurocentrismo, que prevalecia à época, formulando uma teoria crítica marxista própria para tratar dos problemas venezuelanos.
É nesse percurso intelectual que o antropólogo reflete também sobre a questão da “nação” e da “identidade nacional”10. Confrontando dialeticamente aspectos econômicos e culturais, o autor entende a nação como um produto histórico surgido de vários processos que se combinaram e que contaram com a participação de diferentes grupos sociais. Desse conjunto de questões surge seu interesse em estudar as contribuições culturais e materiais dos europeus, dos povos indígenas e dos escravizados africanos e seus descendentes11.
O autor também elabora um conceito de identidade que traz em primeiro plano a dimensão da consciência da sociedade e dos indivíduos em determinado tempo histórico. A identidade, disse, é “a consciência que tem a sociedade e os indivíduos de sua participação no crescimento histórico”, isto é, ela está relacionada com as capacidades, possibilidades e impulsos que tem a sociedade para projetar seus conhecimentos, suas convicções e sua consciência histórica no presente e no futuro12. Desse modo, acreditava que o povo devia se apropriar de sua história e construir uma identidade para acessar conscientemente a escolha legítima de seu destino histórico.
A ideia e a necessidade de transformação social como premissa fundamental da atividade militante orientaram o pensamento e a prática política de Acosta no conturbado e dinâmico contexto venezuelano. Sua atividade acadêmica e intelectual ocorreu de maneira paralela a seu trabalho de conscientização e organização política. Influenciou e organizou associações operárias e ligas camponesas. Participou ativamente em debates nacionais em defesa da soberania nacional. Levou ainda suas reflexões e propostas ao congresso nacional. Acreditou e lutou pela unidade dos movimentos progressistas, anti-imperialistas e dos povos oprimidos contra a força saqueadora do grande capital internacional13.
3 – Comentário sobre a obra
A obra do antropólogo e historiador venezuelano foi profícua e diversa. Ao longo de sua vida, escreveu numerosos artigos jornalísticos e ensaios científicos, além de cerca de vinte livros. Seus escritos abordam diversos assuntos nacionais e temas abrangentes, que vão desde a questão agrária, passando pela formação da identidade, a etnologia, o folclore, os estudos sobre os afro-americanos e indígenas, e a vida e o pensamento do libertador Simón Bolívar.
O primeiro ensaio de Miguel Acosta Saignes, intitulado Latifundio: el problema agrario en Venezuela (Cidade do México: Editorial Popular, 1938), apresenta uma visão crítica e histórica da questão agrária. Embora publicado inicialmente no México, o livro circulou também na Venezuela e em outros países americanos, de maneira clandestina. É considerada a primeira obra venezuelana que aborda o problema agrário utilizando o materialismo histórico. Acosta outorga aí um papel fundamental às relações econômicas e à luta de classes – questões que viriam a marcar seus trabalhos posteriores. O ensaio – que aborda temas centrais como a “terra”, o “latifúndio”, a “reforma agrária”, a “exploração dos camponeses” e o “imperialismo” – transformou-se, segundo o autor, não apenas em uma leitura política, mas também em uma “base ideológica para trabalhar com os camponeses”.
Após a publicação dessa obra, o marxista concentrou-se na escrita de Petróleo en México y Venezuela (C. do México: Editorial Popular, 1941), em que examinou as relações estreitas entre o latifúndio e a exploração de petróleo a cargo de empresas estrangeiras.
Pouco depois, publica El comercio de los Aztecas (Cidade do México: ENAH, 1945). Esta monografia, junto com os artigos “Los pochteca: ubicación de los mercaderes en la estructura social tenochca” (Acta Anthropológica, C. do México, jun. 1945), “Los teopixque” (Rev. Mexicana de Estudios Antropológicos, C. do México, 1946) e “Migraciones de los mexica” (Memorias de la Academia Mexicana de la Historia [série Tlatelolco a través de los tiempos], v.VII, C. do México, 1946) abordam o papel dos comerciantes e padres na organização social azteca.
No ano seguinte, publica Los caribes en la costa venezolana (C. do México: ENAH, 1946), com o qual abre suas investigações sobre a Venezuela no âmbito da chamada área Circum-Caribe.
De volta a seu país, Acosta dedica-se a documentar e fotografar – principalmente entre 1946 e 1960 – o cotidiano e os traços mais expressivos da identidade venezuelana, vindo a ser reconhecido como o fotógrafo da “venezolanidad” (venezuelanidade)14.
Publica também estudos sobre temas variados, dentre os quais se destacam: Tema de pedagogía (Caracas: Ávila Gráfica, 1951); Zona Circuncaribe: período indígena (C. do México: Instituto Panamericano de Geografía e Historia, 1953); Estudios de etnología antigua de Venezuela (Caracas: UCV, 1954); Alejandro de Humboldt (Caracas: Fundación Mendoza, 1955), La vivienda rural en Trujillo (Caracas: Editorial Sucre, 1955); Cerámica de la Luna en los Andes venezolanos (Caracas: Universidad de Los Andes, 1957); Historia de los portugueses en Venezuela (Caracas: UCV, 1959); e Estudios de folklore venezolano (Caracas: UCV, 1962).
Em 1967, publica ainda sua tese de doutorado Vida de los esclavos negros en Venezuela (Caracas: Editorial Hespérides, 1967), seu primeiro trabalho sobre os africanos e a escravidão na Venezuela. A obra, considerada uma de suas principais, é também uma das mais importantes da antropologia histórica venezuelana; um estudo que reconstrói, a partir de fontes históricas, os modos de vida e trabalho dos negros escravizados e a dinâmica social classista do período colonial. Ao longo de quinze capítulos, o autor apresenta um estudo crítico, totalizante e interdisciplinar do fenômeno da escravidão, que inclui aspectos como a geografia escravista, a demografia, a vida econômica, a organização social e as manifestações culturais, entre outros.
A partir dos anos 1970, aprofundou-se no tema da escravidão, sobre o qual escreveu: Las ideas de los esclavos negros en América (Caracas: Universidad de Santa María, 1986); e o ensaio “Esclavitud de los africanos en América”, capítulo de Historia General de América Hispanoamericana [tomo VI – Período Colonial] (Caracas: Academia Nacional de la Historia, 1989).
Nos últimos anos de sua vida, o antropólogo marxista dedicou-se, ainda, ao estudo biográfico, acertos, derrotas e contradições vivenciadas pelo libertador Simón Bolívar, a quem julgava um símbolo da “identidade coletiva” venezuelana e latino-americana. No seu primeiro trabalho, intitulado Bolívar: acción y utopía del hombre de las dificultades (Havana: Casa de las Américas, 1977), apresentou o militar como um ser humano lutador, imperfeito, mas sempre justo; que expressava a dialética da sociedade em que viveu. O livro se tornou um marco na renovação da historiografia venezuelana. De forma distinta às obras escritas até então sobre o Libertador, marcadas por uma historiografia biográfica oficial, Acosta destacou o protagonismo do povo venezuelano, outorgando um papel histórico central a todos os que participaram do Exército Libertador e lutaram contra o imperialismo: pardos, negros, índios, crioulos e mestiços.
Com esse trabalho, o autor se torna um dos mais destacados intérpretes marxistas de Bolívar e recebe dois prêmios: o Casa de las Américas, outorgado em Cuba; e o de Melhor Ensaio de História (biênio 1977-1979) da Fundación Cristóbal Mendoza da Academia Nacional de la Historia de Venezuela. Mais tarde, foram publicadas mais três obras de Acosta sobre Bolívar: Antología de Simón Bolívar (Cidade do México: UNAM, 1981), Introducción a Bolívar (C. do México: Siglo Veintiuno Edit., 1983); e Dialéctica del Libertador (Caracas: UCV, 2002) – esta última publicada postumamente.
Em 1985, publicou o artigo “La identidad no es la historia, es la conciencia de la historia” (El Nacional, Caracas, 29/11/1985), no qual sintetiza sua concepção de que a identidade não é apenas “a história de uma sociedade”, mas exige consciência crítica. Segundo o autor, a identidade é a “consciência que a sociedade e os indivíduos têm de seu vínculo com o desenvolvimento histórico, com sua atualidade” – e ainda, “suas capacidades, possibilidades e impulso para projetar seu conhecimento, convicções e consciência histórica não só nos eventos presentes, mas também nos futuros”15.
Em 2008, data de seu centenário, uma seleção da obra fotográfica do marxista foi reunida no livro Miguel Acosta Saignes: un fotógrafo de la venezolanidad (Caracas: Fundación Centro Nacional de la Fotografía). E em 2020, Acosta foi homenageado com a coletânea de ensaios sobre sua obra intitulada Miguel Acosta Saignes: estudios críticos (Mérida: Universidad de Los Andes) – organizada por Hernán Lucena Molero16.
A maior parte de seus livros, artigos, entrevistas e discursos estão disponíveis na rede em portais de universidades e revistas científicas venezuelanas e estrangeiras; encontram-se aí também diversos textos sobre sua vida, pensamento e trajetória política.
4 – Bibliografia de referência
GONZÁLEZ, Ángel. “La historiografía marxista venezolana en tres autores: Juan Bautista Fuenmayor, Carlos Irazábal y Miguel Acosta Saignes”. Tiempo y Espacio, Caracas, v.25, n.63, jun. 2015.
PINO, Elias. “Generación de 1928”. Em: Diccionario de Historia de Venezuela, Caracas: Fundación Polar, 1997. Disp.: https://bibliofep.fundacionempresaspolar.org/
MOLERO, Hernán (org.). Miguel Acosta Saignes: estudios críticos. Mérida: Universidad de los Andes, Centro de Estudios de África y Asia, 2020.
MOLINA, Magdi; RIVERO, Yanixa. “El concepto de nación en el pensamiento de Miguel Acosta Saignes”. Provincia, Mérida, n.23, jan.-jun. 2010.
ROJAS, Reinaldo. “Miguel Acosta Saignes y la antropología americana”. Antropología Americana, C. do México, v.3, n.6, 2018.
SANOJA, Mario. “Cien años del nacimiento de Miguel Acosta Saignes” [discurso de homenagem]. Academia Nacional de la Historia, C. do México, 2008. Disp.: https://biblat.unam.mx.
VARGAS, Iraida. “El pensamiento político de Miguel Acosta Saignes, un revolucionario nuestro americano”. Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales, Caracas, v.16, n.1, jan.-abr., 2010.
Notas editoriais
* Claudia Marcela Orduz Rojas é historiadora pela Universidad Nacional de Colombia, mestra e doutora em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais; pesquisadora do Programa Internacional Cidade e Alteridade: convivência multicultural e justiça urbana, e do Projeto Mobiliza Rio Doce (UFMG). Autora de, entre outras obras: O rompimento da barragem de rejeitos de Fundão e a ascensão do capitalismo de desastre no Brasil (UFMG, 2020).
* Com colaboração e edição de texto de Yuri Martins-Fontes e Paulo Alves Junior, e ilustração de Felipe Santos Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis-USP, sendo um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões são bem-vindas: editoria@nucleopraxisusp.org.
1 SANOJA (2008).
2 PINO (1997).
3 Ver: Martins-Fontes, Siqueira da Silva e Esquivel Corella: “O marxismo de Pío Tamayo”, Dicionário marxismo na América. Disp.: https://nucleopraxisusp.org.
4 Art. 32, inciso VI.
5 “XI Tese sobre Feuerbach”, de Karl Marx [1845].
6 SANOJA (2008).
7 GONZÁLEZ (2015).
8 PINO (1997).
9 GONZÁLEZ (2015).
10 MOLINA (2010)
11 ROJAS (2018).
12 MOLERO (2020).
13 VARGAS (2010).
14 Sua obra fotográfica seria publicada postumamente em: ACOSTA (2008).
15 MOLERO (2020).
16 MOLERO (2020).