O marxismo de Acosta Saignes

Jornalista, professor, editor, antropólogo e historiador, foi fundador do Partido Comunista de Venezuela e do Partido Republicano Progresista, organização legal que abrigou os comunistas venezuelanos durante perseguição política Por Claudia Marcela Orduz Rojas * ACOSTA SAIGNES, Miguel Segundo (venezuelano; San Casimiro/Venezuela, 1908 – Caracas, 1989) 1 – Vida e práxis política Nascido no estado do Aragua, filho de Miguel Acosta Delgado e da francesa Adela Saignes Roulac, Miguel Segundo Acosta Saignes cedo se mudou para o estado de Miranda, onde passou sua infância e iniciou seus estudos. Em 1922, com 14 anos, foi morar na capital, Caracas, onde cursou o ensino médio. Sua juventude foi marcada por diversos acontecimentos sociais e políticos nacionais que marcaram sua trajetória: as lutas contra a ditadura de Juan Vicente Gómez (1908-1935); o aparecimento de epidemias que dizimaram a população; o surgimento dos primeiros movimentos migratórios do campo para as cidades; a oscilação dos preços do café, na época o principal produto de exportação; e a descoberta dos primeiros poços de petróleo e a concessão sem controle dos contratos de exploração a empresas estrangeiras, entre outros. Nesse cenário político e econômico conturbado, Acosta iniciou seus estudos superiores. Em 1928, ingressou na Facultad de Medicina da Universidad Central de Venezuela, onde se envolveu nas lutas contra a repressão e o regime autoritário do general Juan Vicente Gómez1. Foi preso por participar nas manifestações contra a ditadura e na comemoração da Semana do Estudante. Junto a outros estudantes – que faziam parte da chamada Generación de 19282 –, foi levado a La Rotunda, uma prisão conhecida pelas torturas, envenenamentos e condições inumanas contra os presos políticos. Pouco tempo depois, foi trasladado para Las Colonias, no estado de Miranda, e em abril de 1929, ficou preso no Castillo de Puerto Cabello, em uma base naval. Durante seu cativeiro no Castillo, Miguel Acosta conheceu o poeta José Pio Tamayo, pioneiro do marxismo venezuelano, que em Havana participou do coletivo que fundaria o primeiro Partido Comunista de Cuba3. Ali, Acosta recebeu as primeiras lições de formação política revolucionária, entrou em contato com a filosofia marxista e refletiu sobre a história e os problemas nacionais. Em fins de 1929, ele e seus companheiros de luta foram libertados; alguns optaram por continuar suas vidas no exílio, Acosta decidiu ficar no país. Dois anos depois, junto com outros jovens camaradas que participaram do coletivo de formação política Carpa Roja – coordenado por Pío Tamayo – nos anos de cárcere, Acosta organizou a fundação do Partido Comunista de Venezuela (PCV). Também em 1931, casou-se com sua prima María Teresa. Após o período da prisão, Acosta exerceu a docência como professor de matemática e psicologia. Para complementar sua renda, trabalhou ainda como linotipista, jornalista esportivo e revisor, entre outras atividades. Em 1933, ingressou no curso de Direito da Universidad Central de Venezuela. Em sua incursão no jornalismo, tornou-se colunista dos jornais El Heraldo, La Voz del Estudiante, Últimas Noticias e El Nacional; e fundou dois periódicos: La Gaceta de América (1935), com Inocente Palacios; e La Victoria (1936), acompanhado de Juan Morales Lara e Alejandro Alfonso Larraín. Além disso, atuou como diretor do jornal El Popular (1936), que defendia pautas como a reforma agrária, a criação de impostos mais altos e progressivos para as empresas petroleiras, a formação de uma refinaria estatal e o direito ao voto para jovens maiores de 18 anos. Durante a década de 1930, o pensador venezuelano se envolveu também na formação e organização de numerosos agrupamentos estudantis e sindicatos no interior do país. Sua atividade política foi intensa durante esse período: participou do I Congresso de Trabajadores de Venezuela,que fundou a Confederación Venezolana del Trabajo (CVT); fez parte da direção da Federación de Estudiantes de Venezuela (FEV) e participou, em 1936, como delegado da FEV, do primeiro congresso de estudantes socialistas da América Latina, realizado no México. Ainda em 1936, exerceu papel central na criação do Partido Republicano Progresista (PRP). De orientação marxista-leninista, o PRP funcionou como “fachada legal” da militância comunista venezuelana, pois a Constituição vigente na época considerava traidores a todos aqueles vinculados a partidos com doutrinas comunistas e anarquistas4. No mesmo ano, com a chegada ao poder de Eleazar López Contreras, Acosta e outros quarenta e sete companheiros militantes do PRP passam a ser considerados ameaças ao regime político e são expulsos do país. Após permanecer alguns meses na clandestinidade realizando trabalho político e organizativo, em janeiro de 1938 viajou ao México onde permaneceu exilado durante nove anos. Naquele momento, este país era considerado uma referência para a juventude rebelde, militante e estudiosa do continente americano. As grandes transformações sociais, econômicas e políticas introduzidas por Lázaro Cárdenas (1934-1940), a favor dos trabalhadores, indígenas e camponeses, eram tidas como exemplo e inspiravam as reflexões e lutas dos exilados venezuelanos e seus colegas latino-americanos. Com o intuito de aprofundar os estudos sobre a questão agrária, na qual vinha trabalhando desde seu período na clandestinidade, matriculou-se inicialmente no curso de Economia – que depois trocou pelo curso de Antropologia e História – na Escuela Nacional de Antropología. Também em 1938, publicou seu primeiro livro intitulado Latifundio: el problema agrario en Venezuela e três anos depois Petróleo en México y Venezuela (1941). Por este período, o autor assistiu a aulas com professores mexicanos e estrangeiros referências do pensamento antropológico da época: Alfonso Caso, Daniel Rubín de la Borbolla, Pablo Martínez del Río, Manuel Maldonado Kerdell, Miguel Othón de Mendizábal, Paul Rivet, Alfred Métraux, Juan Comas e Paul Kirchhoff. Foi justamente com Kirchhoff, um antropólogo marxista alemão expulso pelo regime nazista e exilado no México, com quem aprofundou a leitura crítica das obras de Marx, Engels e Lewis Morgan. Em 1945 recebeu os títulos de etnólogo e mestre em Ciências Antropológicas e um ano depois, com o retorno do regime democrático, voltou à Venezuela. Assim como outros companheiros da Generación de 1928, o antropólogo venezuelano não só complementou sua formação acadêmica no exílio, como retornou a seu país querendo impulsionar e renovar o conhecimento científico e social e promover a pesquisaContinuar lendo “O marxismo de Acosta Saignes”