Historiador, filósofo e jornalista, foi dirigente do Partido Comunista do Canadá, militando na formação política e se destacando como um dos primeiros marxistas a desenvolver uma interpretação materialista histórica da realidade nacional canadense e da questão regional do Quebeque Por Yuri Martins-Fontes, Sean Purdy e Pedro Rocha Curado * RYERSON, Stanley Bréhaut Egerton; E. Stanley; E. Roger (canadense; Toronto, 1911 – Montreal, 1998). 1 – Vida e práxis política Nascido em Toronto, capital da anglófona Ontário, Stanley Ryerson foi membro de uma família de classe média-alta. Seu pai, Edward Stanley Ryerson, e sua mãe, Tessie De Vigne, eram descendentes de franceses e, por conta disso, Ryerson cresceu em profundo contato com a língua e a cultura francesa. Entre 1919 e 1929, estudou no Upper Canada College, instituição educacional da elite anglo-saxã local. Na sequência, ingressou no curso de Letras da University of Toronto. E em 1931 – ano em que o comunismo foi posto na ilegalidade no Canadá – partiu para a França, onde realizou um intercâmbio acadêmico na Sorbonne, em Paris. Durante este período na Europa, aproximou-se do pensamento socialista, sobretudo por meio da Association des Écrivains et Artistes Révolutionaires [Associação dos Escritores e Artistas Revolucionários]. Também aí, em 1932, teve contato com a literatura marxista, lendo, entre outras obras, duas que o marcariam: o Manifesto do Partido Comunista,de Karl Marx e Friedrich Engels; e La révolution culturelle: les conditions préalables et les premiers pas d’une culture socialiste de masse en Union Soviétique (Paris: Bureau d’éditions, 1931), do marxista alemão exilado na URSS Alfred Kurella – escrita em francês para divulgação socialista na Europa. Neste mesmo ano, retornou a seu país para completar o primeiro ciclo de sua formação universitária[1]. Em Toronto, associou-se à Young Communist League of Canada [Liga dos Jovens Comunistas do Canadá] (YCL) e assumiu o posto de redator-chefe da revista dessa agremiação, The Young Worker [O Jovem Trabalhador]. Aderiu também ao Progressive Arts Club [Clube de Artes Progressistas], desenvolvendo um especial interesse pela relação entre arte e política; e, usando o pseudônimo de “E. Stanley”, concluiu uma breve peça de teatro intitulada War in the East [Guerra no Oriente] – texto dramático em defesa da União Soviética e da classe trabalhadora[2]. Regressou a Paris em 1933, para mais um período de estudos que terminaria no ano seguinte – graduando-se, após esta segunda temporada no exterior, com um trabalho sobre a obra do romancista siciliano Giovanni Verga. Por estes tempos em que esteve na Europa, vivenciou a turbulência política na Itália e na Espanha, nos primeiros anos da Grande Depressão (após a Crise de 1929), e se envolveu com o movimento comunista – tendo colaborado com a revista da juventude do Parti Communiste Français (PCF), L’Avant Garde, e participado de manifestações. Testemunhou ainda os esforços de aproximação entre o Partido Comunista e os socialistas franceses, em decorrência da elaboração da estratégia do Front Populaire [Frente Popular] – que seria oficializada em 1935, durante o VII Congresso da Internacional Comunista (IC). Foi com o ânimo de tais experiências que retornou ao Canadá, vindo então a se dedicar à luta dos trabalhadores – especialmente no Quebeque, província francófona que passaria a ser o centro de sua atuação política e intelectual, e onde produziria suas principais obras. Ainda em 1934, filiou-se, na cidade de Toronto, ao Communist Party of Canada/ Parti Communiste du Canada [Partido Comunista do Canadá] (PCC) – cuja situação ilegal se manteve até 1936 –, vindo a se tornar um de seus mais importantes dirigentes e intelectuais[3]. Bilíngue, seria logo nomeado diretor de formação política do partido em Montreal (Quebeque) e editor de seu jornal em francês, o Clarté – tornando-se um dos principais representantes do partido desta região francófona canadense. Neste mesmo ano, ajudou a fundar e presidiu a Canadian Youth League Against War and Fascism, organização criada como frente da YCL para atrair a juventude trabalhadora e os estudantes para a causa antifascista. Passou também a lecionar no Departamento de Estudos Franceses do Sir George Williams College, de Montreal, em que trabalharia entre 1934 e 1937 – utilizando-se, por este tempo, do pseudônimo “E. Roger” para assinar textos políticos, evitando assim represálias políticas e laborais. Membro do Comitê Central do Partido Comunista por décadas – entre 1935 e 1969 –, Stanley Ryerson foi diretor do Programa de Educação do PCC (1935) e também secretário provincial do partido em Quebeque, de 1936 a 1940, além de ter ocupado distintos cargos relacionados à formação política e intelectual da organização, militando principalmente na atividade de formação comunista da população francófona do Quebeque. Quanto a sua atividade teórica, já em 1935 publicou seus primeiros artigos em um jornal anglófono do PCC, The Worker [O Trabalhador]. Neles, tratou das rebeliões armadas canadenses contra o governo colonial da Coroa Britânica (1837 e 1838), episódios que levaram à progressiva conquista de maior autonomia das colônias do alto e baixo Canadá (as províncias de Ontário e Quebeque) contribuindo para a construção do gradual processo de independência do país, iniciado em 1867. Neste período inicial – marcado pela Frente Popular da Internacional Comunista e de seus partidos membros –, alguns escritos de Ryerson se caracterizaram por certo orgulho nacional, com títulos como “Heroes of old Canada” [“Heróis do antigo Canadá”] e “Communists, heirs to great traditions” [“Comunistas, herdeiros de grandes tradições”] – ambos de 1937. Entretanto, neste mesmo ano o marxista publicou também uma de suas principais obras, 1837: the birth of canadian democracy, na qual desenvolveu a que é considerada a primeira análise marxista das rebeliões canadenses da época em questão – além de ter participado do Congresso da Associação Internacional de Artistas e Trabalhadores, na Cidade do México[4]. Por este tempo, Ryerson contribuiu também com artigos históricos para as revistas New Frontiers e Masses, órgãos multipartidários que publicavam matérias históricas, políticas e culturais de uma ampla gama de socialistas, social-democratas e comunistas. No outono de 1939, com o início da II Guerra Mundial, o Partido Comunista foi proibido e criminalizado, condição que perdurou até 1943 – sendo que, no Quebeque,Continuar lendo “O marxismo de Stanley Ryerson”
O marxismo de Stanley Ryerson