O marxismo de Leôncio Basbaum

Médico, editor e pensador marxista, foi organizador da Juventude Comunista e dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB), destacando-se em trabalhos de formação política e produzindo uma das primeiras aplicações do materialismo histórico à realidade brasileira Por Lincoln Secco e Paulo Alves Junior * BASBAUM, Leôncio (brasileiro; Recife, 1907 – São Paulo, 1969) 1 – Vida e práxis política Leôncio Basbaum nasceu no Recife do começo do século XX, sendo o sexto dos onze filhos de Isaac e Clara Basbaum, imigrantes originários de Kichinev, capital da então Bessarábia (hoje Chisinau, Moldávia). A família, proprietária de uma pequena joalheria na capital pernambucana, integrou-se a um meio urbano em transformação. Em suas memórias, ele registraria que uma das suas primeiras experiências políticas de importância foi a celebração da vitória dos aliados da I Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, nas ruas recifenses, episódio que marcou sua passagem da infância para a adolescência1. Basbaum teve uma boa educação. Em 1919, foi matriculado no Ginásio Ayres Gama, sendo transferido, em 1923, para o Ginásio Carneiro Leão, prestigiada instituição recifense. Concluído o ensino médio, embarcou em março de 1924 para o Rio de Janeiro, com o objetivo de cursar Medicina. No mês seguinte ingressou na Faculdade de Medicina do Rio, na qual se formaria em 19292. Nesse período, aproximou-se do universo literário e político, escrevendo contos para a Revista Número, sob o pseudônimo de Jeremias Cordeiro. De acordo com seu próprio relato, os primeiros meses no Rio de Janeiro não foram de militância imediata, mas de adaptação e vida social junto ao ambiente estudantil, além de conversas noturnas na pensão em que vivia – sobre futebol, professores, literatura e família3. No entanto, as férias de 1924 e 1925 no Recife foram decisivas. Frequentando a enfermaria do Hospital Pedro II como estudante de medicina, Basbaum mantinha laços com antigos camaradas da faculdade, entre eles Raul e Manuel Karacik, com quem discutia a respeito da “Rússia Bolchevista”. Por intermédio dos irmãos Karacik, foi apresentado a Souza Barros, que o iniciou nas discussões sobre comunismo, bolchevismo e as figuras de Lênin e Trótski. Essa cadeia de sociabilidade o levou a conhecer Cristiano Cordeiro, Astrojildo Pereira e outros militantes que haviam participado da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 25 de março de 1922, e da I Comissão Central Executiva (CCE) – núcleo político partidário. Com eles, Basbaum teve seu primeiro contato mais direto com o marxismo4. Em 1925, de volta ao Rio de Janeiro, participou de um comício de 1º de Maio na Praça Mauá, em um contexto de estado de sítio (decorrente da Revolta Paulista de 1924). Nesse momento o nome de Luiz Carlos Prestes e a experiência da chamada Coluna Prestes começaram a circular com mais intensidade em seu horizonte político. O vínculo orgânico com o PCB se consolidou no ano seguinte, quando, após nova participação nas comemorações de 1º de Maio, recebeu uma ficha de filiação de Abelardo Nogueira (um dos primeiros militantes do Partido e pioneiro da imprensa operária). Poucos dias depois, Leôncio Basbaum tornou-se membro do partido. Com Manuel Karacik e João Celso de Uchôa Cavalcanti, formou a primeira célula comunista da Faculdade de Medicina. Neste mesmo ano, a pedido de Astrojildo Pereira, organizou e ministrou no sindicato dos tecelões, durante três meses, um curso de introdução a O capital – baseado no resumo de Gabriel Deville. Aí já se delineava a articulação entre militância e formação teórica que marcaria sua trajetória. Em 1927, foi encarregado de construir uma organização juvenil de alcance nacional e passou a integrar a direção do Partido Comunista, com direito a voz e voto, como representante da Juventude Comunista (JC)5. Tornou-se então o primeiro-secretário-geral do Comitê Central da JC, cargo que ocupou até 1929. Suas tarefas incluíam recrutamento de jovens em fábricas, empresas, comércio e escolas, organizando atividades culturais, esportivas e recreativas como forma de politização e propaganda das ideias marxistas; era também responsável por editar o semanário O Jovem Proletário (1927-1928). A JC adquiriu peso numérico e político dentro do PCB. No início de 1928, sob a vigência da chamada Lei Celerada (que em 1927 limitou a liberdade de imprensa e de reunião no país, visando reprimir o movimento operário e a oposição política), Basbaum foi preso, sem explicações, por alguns dias na sede da polícia6. Ainda este ano, o PCB recebeu convites da Internacional Comunista (IC) para participar do VI Congresso da Internacional Comunista e do V Congresso da Internacional Juvenil Comunista, em Moscou. Na ocasião, foi escolhido como delegado da juventude. Suas lembranças sobre este evento são reveladoras: por um lado, admira a formação teórica dos marxistas europeus; por outro, critica neles a ignorância quase completa sobre a América Latina e sua tendência de transpor mecanicamente esquemas analíticos da Ásia para a realidade latino-americana. No Congresso, presenciado por Stálin, Basbaum relata a emoção ao ouvir a “Internacional” executada sob a regência de Pierre Degeyter, bem como a perplexidade diante da resolução que identificava os social-democratas como principais inimigos, relativizando o perigo do nazismo então em ascensão. Esse contexto internacional moldou a linha obreirista e sectária que mais tarde seria aplicada no Brasil. Em 1929, Basbaum chefiou a delegação do PCB na I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires, ocasião em que tentou convencer Luiz Carlos Prestes a ingressar no Partido, tentando aproximar o proletariado da pequena burguesia que se engajara nas propostas da Coluna. De volta ao Brasil, expôs suas impressões à direção, inclusive com críticas às posições de Prestes. Porém, as diferenças de avaliação sobre a via revolucionária no país foram superadas pela decisão de incorporar Prestes à liderança partidária a partir de 1930, o que se deu a partir da publicação do Manifesto de Maio no jornal paulistano Diário da Noite (29/05/1930), em que ele criticou Getúlio Vargas, rompendo com o tenentismo e com a Aliança Liberal varguista – além de anunciar uma plataforma socialista (sua efetiva filiação ao PCB ocorreria em 1934). Durante a década de 1930, como resultado das políticas adotadas após o IIIContinuar lendo “O marxismo de Leôncio Basbaum”