Por Yuri Martins-Fontes L. *
Resumo
Este ensaio tem como objetivo discutir sobre a desinformação midiática e a deficiência educacional enquanto instrumentos políticos promotores da ideologia dominante e da manutenção do poder, para então melhor compreender uma consequência central dessa “ignorância” planejada: a conjuntura de nova ascensão da extrema-direita no mundo. Como bases para tal análise – sustentada em pesquisas recentes e focada nos casos estadunidense e brasileiro – investiga-se: i) o baixo nível educacional como projeto das classes dominantes, situação que vem se deteriorando; ii) a extrema concentração da imprensa, manipulada globalmente por corporações que produzem a quase totalidade das informações difundidas no planeta, reduzindo a liberdade de opinião em nome de uma suposta “liberdade de imprensa”; iii) e por conseguinte, mediante o conceito de “periferização do mundo”, o processo pelo qual o agravamento da crise estrutural capitalista desde 2008, com consequente aumento da desigualdade e fome, tem levado a uma crescente insatisfação e tensão social – evidenciando com isto certo esgotamento de projetos políticos centristas (como se vê nos casos de EUA e Brasil, aqui investigados).
Palavras-chave: Desinformação; Baixo nível educacional; Liberdade de opinião; Periferização do mundo; Crise estrutural capitalista.
*****
Recorrendo à história da teoria política, lemos em Gramsci que é melhor sermos pessimistas na análise e otimistas na ação. É certo que o marxista italiano tem sua razão: uma análise deve ser feita sempre se tomando precauções, tendo atenção à margem de erro que pode afundar projetos. Mas o mais importante, na atual conjuntura, parece ser a segunda parte de sua ideia, convergente com a de outro grande representante do pensamento crítico, Mariátegui: a necessidade da fé racional como elemento-chave de um processo transformador, o cuidado para não recairmos na desesperança que afeta – diz ele – a “alma” burguesa desencantada, niilista.
Guinada à direita ou esgotamento das políticas social-democratas?
Analistas de várias colorações, no Brasil e no exterior, vêm proclamando uma suposta guinada à direita que estaria ocorrendo de modo geral no mundo, ou ao menos no Ocidente. Alguns mais ideológicos, buscando aparentar convicção em sua avaliação falha (Folha de São Paulo), afirmaram que, com a morte de Fidel Castro, “a esquerda morreu”1. À parte o que há de hilário em tal leviandade jornalística – que já não surpreende –, observamos que se trata da antiga tática de afetar o ânimo do inimigo, que há 2500 anos Sun Tzu já descrevia em sua Arte da Guerra2, e cujo objetivo, hoje em dia, é nitidamente abarcar a simpatia das massas de desiludidos com a política, que apassivados pela vida dura e sem capacidade de discernimento – dado o baixo nível cultural generalizado, fruto de uma mídia e educação indecentes –, preferem seguir de braços dados com os vencedores “que seguem fortes e voltam a vencer”; sofrimento menor, dizem. E se isso vale para o Brasil, vale também para diversas nações “ocidentais” dominadas pela desinformação e deficiência educacional, caso dos EUA, como queremos mostrar neste breve paralelo.
Note-se que não se quer negar categoricamente que vivamos um momento conservador, em que as instituições estruturalmente autoritárias foram (re)tomadas – no caso brasileiro, “de assalto” – por reacionários que estiveram calados por uns anos. Mas sim, quer-se mostrar que isto só é verdade “relativamente” – pois em uma perspectiva “absoluta”, a direita efetivamente ideológica não demonstra crescimento: ainda que a mídia corporativa global lhe tenha ampliado a voz, em sua tentativa por barrar reformas sociais centristas e manter intactos os altos níveis de lucros das elites, mesmo na maior crise que atingiu o coração do capitalismo, desde 1929.
Embora se respeitando a avaliação de analistas progressistas, que nos alertam para essa situação delicada – como Guilherme Boulos ao verificar um dos mais vis Congressos de nossa história –, cabe notar que em última análise não foi a direita que ganhou votos nos EUA ou no Brasil, mas os centristas – com suas políticas social-democratas ou social-liberais – que os perderam. E ainda mais: se a direita, em ambas as nações, manteve seu poder de votos, isso não demonstra necessariamente uma opção propriamente “conservadora” de parte da população, mas se trata de um problema econômico e cultural: a junção de uma situação de declínio de poder econômico das classes médias e baixas, somada a uma estrutura cultural medíocre, cujos fundamentos – ou falta deles – se encontram em uma grande mídia invariavelmente ancorada nos interesses das oligarquias (e aqui nos referimos não aos “10%”, mas ao “1%”), as quais têm por firme aliado um sistema educacional cada vez mais precarizado, combinação que tolhe a capacidade de discernimento de grande parte destes votantes “conservadores”, fazendo com que ajam muitas vezes contra seus interesses.
Para se construir uma análise plausível, que dê conta de contribuir ao entendimento da atual conjuntura desfavorável e servir como guia para as transformações sociais e políticas que necessitamos, é preciso antes que alcancemos o máximo possível as raízes da questão a ser analisada – tanto elementos econômicos, como culturais e mesmo estatísticos –, despidos das aparências que cintilam em manchetes repletas de interesses. Observemos, num primeiro momento, os jogos publicitários-eleitorais, através de alguns números simples.
Eleições de 2016 nos Estados Unidos
Contra supostas “evidências” de uma guinada à direita, vemos que nos EUA, os números da vitória de Trump não condizem com tal interpretação. Vejamos: Hillary obteve esse ano 61,3 milhões de votos populares (47,8% dos válidos), contra 60,5 milhões de Trump (47,3%) – quem só ganhou as eleições devido ao antidemocrático sistema indireto dessa nação bipartidária (ou antes, na prática, monopartidária, com duas tendências). Já em 2012, Obama conseguiu 51,1% dos votos válidos, contra 47,2% do candidato republicano. E em 2008, o democrata foi reeleito com 52,9% contra 45,7% do adversário. Como se nota, nos três pleitos a votação republicana foi basicamente a mesma: entre 46% e 47%, sendo que entre a atual (que tanta atenção chamou às avaliações de “guinada à direita”) e a anterior, de 2012, a votação foi quase exatamente a mesma: 47,3 e 47,2%.
Vale aqui uma comparação com o simples e inteligente estudo feito por Caio Dezorzi, que baseado em dados acessíveis (mas pouco observados) sobre os primeiros turnos das eleições brasileiras – ou seja, aquela votação que pode ser vista como mais ideológica, ou autêntica –, mostrou que a direita não só não cresceu no pleito presidencial de 2014, como decaiu em relação aos anteriores. No primeiro turno de 2014, Dilma obteve 30,3%; em “segundo lugar” ficaram os brancos e nulos com 27,2%; e Aécio só aparece em terceiro, com 24,4%. Comparemos com 2010: Dilma, 35,1%, contra 25,2% dos brancos e nulos, e 24,4% de Serra. E no primeiro turno de 2006: Lula, 37,1%; Alckimin, 31,7%; e os brancos e nulos em terceiro, com 23,7%. Em suma, a direita liberal – representada pelo PSDB e sócios – manteve exatamente sua votação entre 2010 e 2014, e ainda perdeu votos frente às eleições de 2006 (com o agravante de que em 2006 constava do páreo o mítico Lula!).
O que ocorreu, portanto, e aí está a aparência que devemos dissipar, é que a centro-esquerda petista (aliás, cada vez mais centro, que esquerda) é que perdeu votos para os descontentes (que optaram pelos brancos/nulos) – ou de outro prisma: perdeu votos para a confusão generalizada que em uma crise econômica acomete o cidadão médio sem autonomia para construir um quadro da situação (dada a mencionada situação da mídia e da educação), e que assim tende a culpar por seu “regresso social” (unicamente) o lento neodesenvolvimentismo lulista, que comanda o executivo. Isso o leva a buscar novos salvadores, caras que pareçam novas (caso de Marina Silva, que, agora em posição conservadora, é opção de muitos que gostariam de aprofundar as reformas mínimas do lulismo, sem falar no “não-político” Dória).
Mas voltemos aos EUA: a eleição de Trump não pode ser atribuída a um ideológico apoio das massas a esse “psicopata que presidirá os EUA” – na definição de Altamiro Borges. Seu “pensamento” ou o significado efetivo de suas frases sórdidas pouco tem que ver com guinadas realmente conservadoras; como tampouco houve “guinada” no Brasil. Não se pode confundir o esvaziamento das políticas centristas dos EUA e Brasil, e a consequente pauperização (concreta, na realidade palpável do bolso do povo) de seus antigos eleitores, com “tendências” reacionárias ou fascistas.
Tanto nos EUA, como no Brasil, trata-se de gente insatisfeita com a situação econômica que descamba (por aqui o sentimento é mais doloroso, já que não estávamos estagnados, mas em um processo de franco crescimento). De fato, que significa para um jovem de 20 anos o governo do PT, senão aquele que esteve no poder em toda sua vida minimamente crítica (os últimos 13 anos), e o qual neste tempo fez a felicidade dos bancos? Para um jovem brasileiro, bolsa-família, Prouni, políticas agrárias, direito dos negros e homossexuais, bilhete único, salário-mínimo mais valorizado, seguro-desemprego são (eram) favas contadas, ou de outro modo, eram o mínimo que um Estado tinha de oferecer ao cidadão. E como mostraram as jornadas de junho de 2013, eles agora queriam mais. Bradar por isso não pode ser visto como uma opção conservadora, pelo contrário.
Já nos EUA, guardadas as proporções e os tempos um pouco distintos dos eventos-chave, o “movimento” eleitoral (com aparência de movimento “político-ideológico) se deu de modo parecido.
Declínio econômico nos EUA
Desde a crise econômica de 2008, que como colocado, foi a primeira em 80 anos a afetar o centro do sistema, e que logo atingiria o mundo inteiro (mediante a emissão de dólares pelo centro financeiro do mundo para a salvação de seus bancos), as populações mais vulneráveis do planeta têm visto suas pequenas conquistas sociais das últimas décadas se esvaziarem. Neste processo, nos abalados EUA, algumas providências urgentes foram tomadas pelos tradicionalmente belicistas governos democratas, para amenizar as consequências internas, como especialmente: a promoção de diversas guerras mundo afora (Ucrânia, Síria, Líbia, além da manutenção do conflito do Afeganistão e outros menores), nas quais as impactantes indústrias estadunidenses de armas e de construção civil puderam ser fortemente aquecidas, além de, no âmbito da política internacional, ter sido uma maneira de os EUA se livrarem de opositores ao hegemônico neoliberalismo (Kadafi, Al-Asad, Yanukovitch), e de mostrarem força frente à crescente influência russa e chinesa, que questionam sua unipolaridade nas relações internacionais.
Contudo, se tal política externa “democrata” melhorou a condição das elites na crise, no âmbito interno a desigualdade somente cresce há anos, e já atinge 1/6 da população estadunidense. Hillary em sua campanha tentou jogar a desgraça na conta de Obama, mencionando o fracasso das políticas sociais centro-direitistas dos democratas (o termo “centro-direita” vale só na política interna, pois externamente os democratas são quase tão de extrema-direita quanto os republicanos). Para a candidata derrotada, era prioridade a implantação de um grande programa de criação de empregos: “somos o partido da classe trabalhadora, mas não fizemos um trabalho bom o bastante”.
Há bastante tempo a fome é um problema dos mais graves nos EUA. Segundo o Censo de 2014, quase 47 milhões de estadunidenses passam fome (em algum período do ano), o que se configura em uma tragédia que atinge uma população semelhante à da Argentina (U. S. Census Bureau, 2014)3. É certo que Obama tentou fazer algo pelos mais pobres, caso de seu programa de reforma da saúde – o “obamacare” –, que porém acabou se tornando uma faca de dois gumes: de um lado, deu assistência aos mais miseráveis, de outro, onerou a saúde da classe média baixa, imediatamente acima na pirâmide social (em substanciais 250 dólares, mínimo mensal obrigatório).
Um dos pilares sólidos que mantém esta situação de pauperização, é o problema da desigualdade social. A partir de trabalho de peso realizado pelos economistas T. Piketty e E. Saez, vemos que entre 1993 e 2012 a renda média real dos 99% mais pobres cresceu anualmente 0,34%, enquanto a do 1% mais rico cresceu dez vezes mais: 3,3%/ano4.
Em breves linhas, constam aqui alguns elementos para a reflexão. No próximo item discutiremos a outra face dessa estrutura que mantém a desigualdade e passividade social – a citada questão do baixo nível cultural histórico como “projeto de Estado”, o que nos termos de um relatório governamental estadunidense, trata-se de uma “crescente maré de mediocridade”: “Nossa nação corre riscos”.
Baixo nível cultural como projeto de Estado
Após apresentados alguns aspectos eleitorais e socioeconômicos que em tempos de crise mundial levaram projetos políticos centristas a perderem espaço para facções conservadoras – que ora assumem o podernos EUA e Brasil (dentre outros países) – continuemos com o paralelo entre essas duas nações.
Como vimos, EUA e Brasil são bastante assemelhados em certos quesitos negativos. Lancemos agora um olhar à questão cultural – já que quando falamos em uma suposta “guinada à direita”, pressupõe-se que aquele que “guinou” tomou esta atitude conscientemente, escolhendo representantes reacionários de acordo com seu discernimento e liberdade de opinião.
Na construção da opinião pública, duas instituições são cruciais: a mídia e a educação, ambas formadoras das estruturas dentro das quais se movem os valores, os princípios de uma sociedade. Tratemos primeiramente da grande mídia corporativa – cada vez mais concentrada e globalizada, no sentido mais daninho do termo –, que hegemoniza e homogeneíza nossas doses diárias de “verdade” (e deixemos para mais adiante a questão educacional).
É bem-sabido que o surrado conceito de “liberdade de imprensa” – na acepção limitada, que se restringe a certos interesses de grandes meios de manipulação informativa – não inclui e mesmo se opõe à “liberdade de opinião”. Tais oligarquias controladoras da imprensa, aliás – representantes do 1% global –, são os atores fundamentais que contribuem permanentemente ao “progresso do nosso subdesenvolvimento” (como diria Stanislaw Ponte Preta).
No entanto, esse “progresso” da desgraça moderna – que tem por pilar a desinformação e o entretenimento vulgar –, não ocorre somente no Brasil ou em países submissos como o nosso, mas cada vez mais se faz presente no centro do sistema capitalista.
Periferização do mundo
Como observa o filósofo Paulo Arantes em A fratura brasileira do mundo (2001), os países que comandam o neoliberalismo têm experimentado uma “brasilianização” ou “periferização” de suas sociedades – as quais estão se tornando mais parecidas com nossas nações inconclusas e desestruturadas da periferia (vejam-se os frequentes incêndios de carros nos apinhados subúrbios de Paris, ou as revoltas generalizadas contra a supressão de políticas europeias de bem-estar social).
Nos Estados Unidos, nas últimas décadas houve uma exponencial concentração da mídia (e inclusive o enfrentamento desse problema foi promessa não cumprida da campanha de Obama). Talvez por essa passividade do democrata no tema, mas sobretudo por suas atitudes intensamente belicistas, que movimentaram e agradaram muito aos “mercados” (renovação do estoque de armas, reconstrução de nações destruídas, apropriação de recursos energéticos), a imprensa estadunidense se colocou a favor dele, contra a candidatura de Trump – apesar de que o republicano em assuntos internos certamente se alinha mais com os objetivos de Estado mínimo pregados pelas poderosas organizações de comunicação do país. De todo modo, como se viu, esse apoio midiático ao democrata não foi suficiente para que, em curto tempo, se convencesse uma população sistematicamente “formada” na falta de princípios humanos (mediante fortes doses diárias de televisão e outras formas de violência, sempre a pregar valores como o individualismo, o machismo, a xenofobia, a competitividade, a lei do mais forte), a de repente negar seu voto a um candidato “apenas” pelo fato de ele ser machista, xenófobo, estúpido, racista…
Já no caso brasileiro, lembremos que um dos pilares do tripé promotor do golpe de Estado que neste ano derrubou a presidenta eleita foi justamente a mídia – ao lado de um parlamento e um judiciário dos mais desonestos da história de nossa semi-nação, instituições que conseguem causar estupor mesmo dentre seus pares (congressistas e togados quase sempre reacionários) europeus. O presente golpe, vale recordar, começou ainda na campanha de 2014, e dentre outros interesses, foi motivado por Dilma ter aventado colocar em pauta a regulação dos meios de comunicação.
Por esta mesma época, a jornalista britânica Sue Branford – colaboradora dos maiores e mais influentes meios corporativos (conservadores) do mundo, como BBC, Financial Times e Guardian –, em mesa de debate com Otávio Frias criticou a vergonhosa concentração da mídia brasileira em mãos de poucas famílias que, segundo ela, manipulam notícias mediante ênfases e omissões planejadas, além de forjar edições de coberturas que distorcem os fatos. O capo da Folha de S. P., irritado com a insinuação, em sua resposta falha, limitou-se a tentar desqualificar a jornalista, sugerindo que ela agia “como petista”. Apesar do esbravejamento, o herdeiro júnior sabe bem que seu jornal-partido protagoniza a manutenção da extrema falta de liberdade informativa brasileira.
Segundo relatório de 2013 publicado pela ONG Repórter Sem Fronteiras, o Brasil sofre com um alto grau de “concentração midiática”5, o que contrasta com a “extrema diversidade de sua sociedade civil”; este problema advém de um sistema nacional de comunicação estruturado pela ditadura militar, que ainda segue vigente. O documento afirma que “dez grandes grupos econômicos” – cada qual representando uma “família” – repartem a quase totalidade da “comunicação de massas” no país. Dentre estes, se destacam: na televisão, o grupo Globo (Marinho), o SBT (Sílvio Santos), a Rede Bandeirantes (Saad) e a Record (do industrial de igrejas Edir Macedo); e na imprensa escrita, além da Folha (que vem surpreendendo mesmo os concorrentes com sua ânsia golpista de nível Kataguiri), o Estadão (Mesquita), a Editora Abril (dona da Veja, órgão conservador dos Civita) e, novamente, os Marinho (filhos de 1964, com seu jornal O Globo).
O Partido da Imprensa Golpista global: dos EUA para o mundo
O problema da falta de democracia na imprensa, contudo não é uma particularidade brasileira. Conforme entrevista do fundador do Wikileaks, Julian Assange, se no Brasil “há seis famílias que controlam 70% da imprensa”, este desequilíbrio chega a ser pior em países supostamente “desenvolvidos”, como a Suécia em que 60% da mídia é comandada por uma só organização, ou na Austrália, em que o tal Rupert Murdoch detém sozinho mais da metade da imprensa escrita.
No caso dos Estados Unidos, a relação entre a mídia e a política direitista é ainda mais orgânica – e a concentração de poderio, como mencionado, vem se agravando. O premiado jornalista e professor da Universidade da Califórnia, o armênio Ben Bagdikian mostra em seu estudo (O monopólio da mídia, 2000) que, se no início dos anos 1980 cinquenta empresas dominavam a comunicação nacional, no final dos 1990 elas tinham se reduzido a somente dez corporações. Em 2004, o autor reviu e atualizou sua obra, acabando por verificar que naquela data eram apenas cinco as empresas que monopolizavam 90% da informação de massas: Time Warner (CNN, AOL), Disney (ABC, D. Channel), Murdoch’s News Corporation (Fox, The Wall Street Journal), Bertelsmann (RTL Group, Penguin Random) e Viacom (ex-CBS, Paramount, MTV).
Esses conglomerados corporativos não só controlam a opinião pública estadunidense, como influenciam diretamente diversos estamentos governamentais, caso do Conselho de Relações Exteriores, que durante o governo Obama promoveu o armamento de grupos neonazis em prol da destituição do governo eleito ucraniano e incendiou nações cujos governos eram opositores (Venezuela, Síria, Líbia), além de ter apoiado vários golpes de Estado (Honduras, Paraguai e Brasil). Logicamente, antes de iniciar cada conflito, tais meios se comprometeram com a construção dos discursos que os legitimariam nas televisões, jornais, cinemas do mundo.
Nos últimos anos, a concentração de poder não se modificou, mas apenas trocou parcialmente os sócios no comando: este ano, a Comcast, após sua fusão com a NBC (General Eletric-Vivendi) alcançou, de acordo com a revista Forbes, o cume na hierarquia midiática – hoje designada como os seis grandes (“top six”).
Tais megacorporações possuem e controlam a informação nos EUA, mas também em várias nações subalternas – da América e do mundo. São impérios empresariais – multinacionais com braços financeiros – que ademais de gerir e eleger a informação disponível para nosso “consumo”, dirigem um imenso negócio de entretenimento, que abarca do cinema, música, teatro, saites de internet e publicações de livros enlatados, até o impactante e perigoso mercado da indústria de produção e distribuição de conteúdos televisivos padronizados, que chegam a grande parte dos domicílios de todo o mundo. Note-se que a televisão é provavelmente o mais potente veículo (de)formador de opiniões do planeta. No caso dos EUA, país caracterizado pelo apreço à tecnologia e artificialismo, em que o cidadão médio assiste cerca de 5 horas de televisão por dia (segundo pesquisa de 2009 da Nielsen Media Research), a manipulação da consciência geral da população pode, portanto, chegar a níveis de ficção científica matrixiana.
Daí não ser surpresa a vitória de um elemento energúmeno como Trump – ou em nosso caso bananeiro, da quadrilha que conforma a ampla maioria do pífio Congresso atual. É certo que ninguém vota contra seus interesses “conscientemente”. Mas o problema é justamente este: a construção de uma “consciência” autônoma é algo quase inacessível à maior parcela da população mundial que, além de sujeita à precarização e tecnicização de um ensino sem visão do todo (tema que ainda trataremos), são vítimas dos desígnios do PIG Global – essas megacorporações financeiro-midiáticas que, em nome de sua própria “liberdade” de imprimir e difundir sua ideologia, cultivam a desinformação geral.
Desinformação como projeto de Estado
Assim, quando ouvimos esses discursos “vitoriosos” dos porta-vozes do sistema – o PIG global que em grande medida é comandado desde os EUA –, bradando que a esquerda “está morrendo” e o capitalismo-fim-da-história triunfa, cabe duvidar do imediatismo e dos interesses por trás de tais análises superficiais que, borrifadas nas ondas impostas pelo jornalismo comercial contemporâneo, proclamam a cada instante “novas tendências globais”, legando a meras aparências (eventos relativos) uma “legitimidade” de fatos consolidados pela história. Eleição não reflete democracia e o poder momentâneo da extrema-direita nos EUA e Brasil não reflete uma ideologia efetivamente conservadora ou fascista, mas antes revela a falha das reformas mínimas centristas (social-democratas) – desgastadas e que já não dão conta das necessidades atuais.
Em uma situação na qual a “imensa maioria dos cidadãos é analfabeta – total ou funcional –, pode-se falar em liberdade de expressão e de pensamento?” – ponderava Fidel Castro, ao que ele mesmo contesta: “Muitas pessoas no mundo não só carecem de liberdade para pensar, mas tiveram seu aparelho pensador destruído”.
De fato, não há motivo para surpresas: nas primeiras décadas do século XX, o pensador marxista Walter Benjamin, no ensaio “O narrador”, já advertia que a difusão da imprensa – com suas informações compartimentadas, que não promovem a reflexão – foi um dos principais instrumentos consolidadores do capitalismo. “Basta olharmos um jornal para percebermos que seu nível está mais baixo que nunca, e que da noite para o dia não somente a imagem do mundo exterior mas também do mundo ético sofreram transformações que antes não julgaríamos possíveis” – reflete ele (e não fala de hoje, mas dos idos de há um século). A crise capitalista não é um desvio, mas uma planejada permanência.
A ignorância como ideologia: a educação nos Estados Unidos
Quando lemos nos jornais que uma potência econômica supostamente “desenvolvida” elegeu como presidente um megaempresário chauvinista, racista e desequilibrado o suficiente para causar uma guerra mundial, ou que a metrópole mais “desenvolvida” de um país emergente elegeu como prefeito um multimilionário (Dória) com idade mental de adolescente para queimar verbas públicas enxugando gelo em uma cruzada cinzenta contra pichadores (estes incontornáveis artistas subversivos), certamente, a todos que pudemos desfrutar de uma educação minimamente questionadora acerca da realidade, nos vêm a ponderação: por que tal miséria?
Como discutido anteriormente, não se pode afirmar que tais maiorias populares que votaram contra seus interesses (de classe e humanos) o tenham feito de modo lúcido. Antes, as explicações podem ser encontradas no desencanto palpável dos bolsos das classes populares com as políticas centristas cada vez mais “mínimas”; e no baixo nível cultural generalizado (em especial nos EUA e Brasil), problema que não é decorrente da falta de estruturas que possibilitassem mudanças, mas da própria visão política da “modernidade ocidental” – que tem na mediocridade cultural o pilar de seu projeto de Estado (forma mais sutil do que as armas para a manutenção do poder e da concentração de renda).
Quanto a este último ponto, tratamos já do caso do “PIG global” e seus interesses político-mercantis – enquanto empresários e voz das classes dominantes. Verifiquemos agora a questão da deterioração da educação, focando-nos nos EUA, esse império moderno – país no qual a falta de verba nunca foi, nem de longe, um obstáculo.
Estados Unidos (e Brasil): baixo nível educacional como ideologia para o “progresso”
Em um extremo oposto ao de Cuba – pequena ilha de população igual à da cidade de São Paulo, cujo índice de alfabetização é de 99,8% (3o do mundo após Geórgia e Eslováquia segundo relatório do PNUD-ONU de 2016), e que justamente por possuir uma população crítica, a cada menor gesto atrai para si as manchetes oligárquicas de todo o mundo –, os EUA (e o Brasil, seu tradicional vassalo) têm por característica histórica a insuficiência educacional de sua população. Isto, com a peculiaridade que tal baixo nível no ensino – logicamente não relacionado à escassez de recursos desta riquíssima nação – nunca foi tido como um problema crucial a ser enfrentado efetivamente pelo Estado, mas sim tratou-se de um “projeto” político-ideológico (embora por vezes o excesso de ignorância nacional tenha ligado o alerta de alguns de seus governos).
A situação de deterioração educacional nos EUA remonta ao início do século XX, quando o então presidente Wilson se reúne com os maiores empresários do país, com o intuito de encontrar formas para resolver o problema da falta de mão-de-obra qualificada para a indústria. A partir das ideias de industriais como Frederik Taylor, Henry Ford e Andrew Carnegie, a educação estadunidense se consolidou no sentido de formar uma grande massa (quanto maior, mais barata) de trabalhadores disciplinados e qualificados para operar máquinas, os quais, por outro lado, teriam aumentado seu poder de compra, aquecendo a economia daquele período da Grande Guerra. Instituiu-se assim as bases da sociedade de consumo que rege nossos dias, levando-se a cabo um modelo de ensino massivo e gratuito para o povo, que o capacitava a desempenhar com eficiência trabalhos mecânicos (que naquela época foram fundamentais à indústria, mas se tornariam mais e mais obsoletos), ao mesmo tempo em que se reduziu a quase nada a formação em temas das humanidades – que pudessem favorecer o questionamento da sociedade e consequentemente causar problemas. Em meio a isso, como não poderia deixar de ser, as classes dominantes investiram em técnicas pedagógicas que formariam uma pequena elite de executivos, bem adestrados na capacidade de decidir e manipular.
Quanto ao Brasil, desde meados do século XX, com a ascensão do poderio e influência estadunidense no pós-Guerra, o país se afasta da concepção educacional europeia, até então mais humanista, passando a seguir os EUA nesse modelo “universalizante” da baixa qualidade – tecnicista, acrítico e logicamente elitista (com a propagação das escolas particulares, como escape das elites).
Já no final do século, o problema ganharia uma dimensão perigosa, que fez tal projeto ser ao menos repensado – embora nada de contundente tenha sido feito. Para ilustrar o caso, vejamos a impactante análise da historiadora Susan Berglund, professora da Universidade Central da Venezuela e doutora por Massachusetts (EUA). Nos anos 1980, os EUA tinham se tornado o grande banco central do mundo – após romperem unilateralmente com a paridade dólar-ouro, contando com a submissão europeia, gesto que os encaminhariam para se consolidar nos 1990 como a única superpotência do planeta. Por este tempo, um emblemático relatório da National Commission on Excellence in Education, feito no governo R. Reagan, mostrou que esse período “áureo” da política externa e economia não se traduziu em benesses fundamentais para a população. “Nossa nação corre riscos” – diz o estudo –, pois que as bases educacionais do país (já tão pouco sólidas) estão sendo destruídas por uma “crescente maré de mediocridade”, o que ameaça, concluem os autores, o futuro da nação e do povo: são então 23 milhões são analfabetos funcionais, e 40% dos jovens de até 17 anos são analfabetos.
Segundo a pesquisadora, os motivos de tal situação foram, além da pobreza de certos distritos educacionais e da falta de preparação docente (derivada dos baixos salários), os programas educacionais de “estudos gerais” implementados, que deram imensas “liberdades” para que as crianças desde bem jovens escolhessem (de acordo com sua supostamente “autônoma” consciência infantil) o que queriam ou não estudar – segundo a proposta escola-novista de viés pós-moderno (que hoje domina as mais conceituadas escolas particulares brasileiras e influencia, em seu pior aspecto, as públicas). Retirou-se assim a obrigatoriedade de disciplinas menos úteis ao programa político oligárquico, como História e Filosofia, e mesmo um segundo idioma – como era de se esperar –, mas surpreendentemente, até a Matemática foi precarizada (reduzida a só um ano de obrigatoriedade)!
Note-se de passagem que isso se deu aos moldes do que vem impondo o atual governo golpista brasileiro, segundo a anacrônica cartilha do neoliberal FMI (que aliás, nem o próprio FMI defende mais), e sendo assessorado publicitariamente por pseudo-atores globais e movimentos “apartidários” bancados pelo Instituto Millenium/DEM/PSDB, dentre outras mentes iluminadas do gênero.
A alarmante ignorância no novo século
Uma década depois, no início do século XXI, vejamos certos frutos simbólicos desta crise displicentemente enfrentada. Em 2006, motivada pela intensa campanha midiática da guerra dos EUA contra o Iraque, a revista National Geographic elaborou pesquisa que mostrou que apenas 37% dos jovens do país sabiam localizar a tão falada nação asiática no mapa-múndi; e o que talvez seja mais grave: a metade dos entrevistados foi incapaz de dizer onde ficava Nova Iorque no mapa dos EUA. Mas o despreparo vai muito mais longe: um terço dos jovens afirmou que a população de seu país gira em torno de 1 a 2 bilhões de pessoas (quando são 300 milhões); e somente 14% – um em cada sete – opina que é importante conhecer uma língua estrangeira. Em sua conclusão, o relatório afirma que os jovens do país “não estão preparados para um futuro cada vez mais globalizado”. E talvez aí resida uma pista do porquê de ter sido eleito um nome conservador como Trump, pois, como já estudado amplamente na psicologia, o sujeito menos capaz de compreender a complexa realidade em movimento, tende a manter-se em posições rigidamente defensivas, “conservando” deste modo os poucos elementos já familiares que está apto a compreender.
Mas sigamos com as evidências desta crise que transcende a educação e ameaça a própria civilização, visto que nas mãos de um literalmente estúpido governante se encontra um poderio bélico suficiente para a destruição de vários planetas – o que, segundo projeções otimistas, no mínimo deve nos levar a uma nova guerra fria nos próximos anos. Segundo a Avaliação Nacional do Progresso Educacional dos EUA, em pesquisa de 2009, 68% dos alunos de escolas públicas chegam ao terceiro ano fundamental sem saber ler, e menos da metade dos que terminam o ensino médio têm níveis de leitura suficientes para cursar uma universidade.
Ainda neste período, um estudo da Universidade do Texas revelou que 25% dos professores de Biologia das escolas públicas do país acreditavam que os dinossauros teriam habitado a Terra ao mesmo tempo que os primeiros humanos – desconhecendo (mesmo sendo biólogos) o hiato de breves 60 milhões de anos que separam a existência de uma e outra espécie. Ademais, 70% dos professores de ciências do ensino médio, desconhecem as normas nacionais de ensino da evolução das espécies, e continuam ensinando a seus alunos tão somente o “criacionismo”. Tais dados decerto têm ligações íntimas com pesquisa do instituto Gallup que mostra que 42% dos estadunidenses creem que um deus criou os seres humanos há menos de 10 mil anos.
Os exemplos são muitos, e não é possível analisar aqui a todos, mas para finalizar, em 2014 uma enquete da Fundação Nacional para a Ciência dos EUA (NSF) revelou que um em cada quatro estadunidenses não sabe que a Terra gira ao redor do Sol (Neuman, 2014); e que metade da população do país considera a astrologia uma ciência e simplesmente “desconhece” a teoria de que o homem descende dos primatas. Diante do absurdo de tais números, a pesquisadora Megan Strom, em seu artigo “Promovendo a ignorância nos Estados Unidos”, se pergunta se esses dados teriam relação com o fato de que, mesmo com tantas evidências e catástrofes, 74% dos senadores estadunidenses ainda negam o aquecimento global. Trump, aliás, nos primeiros dias de mandato, já mandou deletar a seção dedicada às mudanças climáticas do portal da Casa Branca.
O fracasso neoliberal da privatização do ensino
Um fato primordial para uma análise do problema apresentado é que os baixos índices de rendimento acadêmico dos EUA se localizam especialmente nas comunidades mais pobres, e têm ligação direta com os cortes no orçamento da educação, promovidos pelas correntes privatizadoras que atacam o setor público desde há décadas. Dados recentes mostram que, se 47% dos estudantes até a oitava série foram reprovados em inglês, no caso das escolas periféricas de Nova Iorque, este número ascende a 65%. Trata-se de um modelo educacional que responde a uma lógica mercantil – fundada no poder de compra e que fomenta o individualismo, a competição (ou seu florido eufemismo, a “competitividade”), não valorizando o desenvolvimento do estudante no sentido pleno de suas capacidades humanas.
Com cerca de 50 milhões de alunos matriculados, os EUA têm hoje um dos níveis educacionais mais baixos do mundo rico. O Departamento de Educação, em 2013, afirmou em relatório que a “competitividade global” de seu ensino está debilitada, e que isso se deve ao enorme abismo que existe entre as “condições socioeconômicas dos distintos grupos sociais”, e ao baixo nível de profissionalização dos professores, mal remunerados.
Já no caso do Brasil – de intelectuais reacionários do nível do ator de enlatados Alexandre Frota ou do fofoqueiro-influenciador Marco Antonio Villa – a situação é parecida. Após um breve hiato de neodesenvolvimentismo lulista, que atuou por alguma melhoria da educação – embora insuficiente e priorizando sempre o consumo –, vemos o Brasil retomar sua orientação histórica: rumo ao atraso. Segundo o relatório trianual PISA/2015 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos)6, estudo que é uma referência mundial da área e que avaliou a aprendizagem de estudantes de 15 anos em 70 países, o Brasil – embora tenha aumentado seu investimento no ensino durante o lulismo (passando de 32% a 42% da média dos países centrais do capitalismo, os ditos “desenvolvidos”) – não viu ainda essa verba se refletir em uma melhora efetiva. O país continua nas últimas posições das 3 áreas analisadas: ciências (63o), leitura (59o) e matemática (65o). Já os EUA – à semelhança do Brasil, se guardadas as proporções – também figuram dentre os últimos dos últimos, quando se leva em consideração somente os países ricos.
Em nossa realidade brasileira, na qual as escolas particulares desfrutam de tanto prestígio por dentre as classes médias, um dado curioso chama a atenção: os alunos das escolas particulares, mais abonados e bem estruturados (com mais tempo livre, apoio familiar e melhor alimentação), saíram-se infimamente melhores de que seus colegas em inferiores condições socioeconômicas da rede pública. Esta foi inclusive uma das menores diferenças registradas entre o ensino público e particular no mundo. Segundo estudiosos do tema, entrevistados pela BBC-Brasil, os motivos deste aparente paradoxo é que a baixa valorização (não só econômica, mas moral) do professor brasileiro não acomete apenas os funcionários públicos, mas é generalizada. Salários (extremamente) baixos, falta de motivação profissional, formação deficiente dos professores e falta de autonomia docente estão dentre as causas principais.
No outro polo deste quadro, temos países como Cuba e Cingapura. Se Cuba detém a melhor educação da América, sendo inclusive superior a muitos dos países mais ricos do mundo, e comparada a nações-modelo como Cingapura, Suíça e Canadá, isso não se trata de um milagre. Ao contrário da América Latina que de modo geral destina cerca de 4% do PIB à educação, o governo socialista caribenho destina mais de três vezes este valor: 13%. Segundo recente declaração do Banco Mundial – órgão político conservador e liberal: “Cuba é internacionalmente reconhecida por seus êxitos nos campos da educação e da saúde… comparando-se a países desenvolvidos” (algo que a ONU há décadas já reconhecera, mas que ganha significado quando vindo da voz do inimigo).
Já a pequena e rica cidade-Estado de Cingapura é tida como detentora da melhor educação de todo o mundo e, como Cuba, tem práticas que certamente poderiam guiar Estados educacionalmente precários (EUA, Brasil), tais como: políticas de valorização econômica e social do professor, com plano de carreiras que incluem atividades de pesquisa e de direção de escola, formação pedagógica continuada e mesmo remuneração das atividades “invisíveis”, típicas do magistério, como o tempo de preparação da aula e correção dos trabalhos escolares.
Considerações finais
Certamente, tais parâmetros estão longe de nossa realidade política brasileira atrasada, que se arrasta de golpe em golpe, e em especial, longe desse momento caótico em que é imperativo ao governo reacionário buscar apoio no que há de mais arcaico e fascista – atacando como era de se esperar aqueles personagens cuja função é justamente a promoção da crítica: os artistas, os educadores.
Efetivamente, como afirmou o grande pensador brasileiro Caio Prado Júnior (ele o disse em relação ao Brasil, mas se trata de uma ideia que parece ter validade universal): o baixo nível cultural das elites, seu pouco apreço pela leitura, pelo estudo, reflete-se na população e vice-versa, de modo dialético. Vide o caso Trump.
Bibliografia
ARANTES, Paulo. A fratura brasileira do mundo: visões do laboratório brasileiro da mundialização. Petrópolis: Vozes, 2001.
CORREIO DA CIDADANIA. “ONG denuncia concentração de mídia e falta de liberdade de imprensa o Brasil”. Correio da Cidadania, 06/02/2013. Disp.: https://www.correiocidadania.com.br.
INEP. “Brasil no PISA 2015”. INEP/MinC, 06/12/2016. Disp.: https://download.inep.gov.br/acoes_internacionais/pisa/documentos/2016/pisa_brasil_2015_apresentacao.pdf.
NEUMAN, Scott. “1 in 4 americans thinks the Sun goes around the Earth, survey says”. National Public Radio (NPR), 14/02/2014.
PIKETTY, T.; SAEZ, E.. “Desigualdade a longo prazo”. Science, v. 344, n. 6186, 2014.
PNUD. “Human Development Report 2016: overview”. PNUD-ONU, 23/05/2017. Disp.: https://www.undp.org.
SUN TZU. Arte da Guerra. Porto Alegre: L&PM, 2000.
UNITED STATES CENSUS BUREAU. “Food Security”. United States Census Bureau, 2014.
1 Um dentre tantos artigos ideológicos da Folha de S. Paulo, uma das corporações conservadoras que mais influenciam a opinião pública nacional.
2 Tratado de estratégia militar do século V antes de Nossa Era.
3 Um resumo deste Censo pode ser lido em Hunger Notes (https://www.worldhunger.org/hunger-in-america-united-states-hunger-poverty-facts-2018).
4 Entre vários trabalhos de ambos os autores, ver: T. Piketty e E. Saez, “Desigualdade a longo prazo” (Science, 2014).
5 Ver sobre este relatório: “ONG denuncia concentração de mídia e falta de liberdade de imprensa o Brasil” (Correio da Cidadania, 2013).
6 Ver relatório do INEP/MinC: “Brasil no PISA 2015” (2016).
*****
Notas
* Filósofo, professor e escritor. Fundador e coordenador do Núcleo Práxis da USP.
Ensaio escrito entre o fim de 2016 e o início de 2017, originalmente publicado em três partes pela revista Caros Amigos (edições de: nov. e dez. 2016, e de jan 2017).