Por Gerardo Oviedo* [Tradução: Yuri Martins-Fontes] ASTRADA, Carlos (argentino; Córdoba, 1894 – Buenos Aires, 1970) 1 – Vida e prática política Carlos Astrada nasceu no final do século XIX, no seio de uma família tradicional cordobesa. Filho de Horacio Astrada e Etelvina Álvarez, tinha uma ascendência mestiça – moura, africana e indígena – da qual se orgulhava. Tendo em casa uma boa biblioteca, concluiu os estudos primários com um tutor; em seguida, frequentou o ensino secundário no Colégio Nacional de Montserrat, entre 1908 e 1912. A partir de então foi um autodidata, até ingressar na Universidad Nacional de Córdoba, em 1918. Desde cedo, conferiu a seus escritos um tom ensaístico e modernista que, com certas variações, manteve ao longo de toda a sua obra. Amigo de Deodoro Roca e Saúl Taborda, no início de 1918, participou do grupo que impulsionou a Reforma Universitária, tendo testemunhado a redação do Manifiesto Liminar [Manifesto Preliminar]. Insatisfeito com o ensino universitário, abandonou a licenciatura em Direito em 1920. Partilhando do idealismo revolucionário cultivado pelos setores mais radicais do reformismo universitário, o jovem Astrada foi influenciado pelo vitalismo de Nietzsche1. Colaborou com jornais de orientação anarquista e juntou-se à efêmera experiência pedagógica anarquista de Saúl Taborda no Colégio da Universidad Nacional de La Plata (1920). Após a frustração desta experiência, chegou a exercer, entre 1922 e 1925, o cargo de diretor de publicações da Faculdade de Direito da Universidad Nacional de Córdoba. Em 1927, Astrada recebeu uma bolsa dessa mesma universidade para aprofundar os seus estudos filosóficos na academia alemã. Estabeleceu-se inicialmente em Colônia. Neste mesmo ano, conheceu a companheira de toda a sua vida, Cornelie Heinrich. Em fevereiro de 1929 nasceu o seu filho Rainer, que também se tornaria marxista. E em seguida, em março, assistiu como ouvinte ao famoso colóquio de Davos, em que Heidegger e Ernst Cassirer debateram. De julho de 1927 a julho de 1931 viveu na Alemanha, onde foi aluno de Max Scheler, Edmund Husserl, Nicolai Hartmann, Karl Reinhard, Walter Otto e Martin Heidegger – chegando a frequentar cursos de Heidegger juntamente com Herbert Marcuse. No ambiente cultural alemão, Astrada absorveu os motivos filosóficos e sociológicos da crítica pessimista à modernidade, acentuando, com as novas abordagens fenomenológicas e existenciais, o anticientificismo que estimulava seu pensamento desde o início. Regressou à Argentina em agosto de 1931, passando a se dedicar ao ensino universitário. Em 1932, ocorreu a sua primeira aproximação à obra de Marx, com três textos sobre temas que o interessarão muito a partir de então: “Ethos capitalista y perspectivas del materialismo histórico”, “Heidegger y Marx: la historia como posibilidad fundamental de la existencia” y “Fundamentación filosófica de la sociología”2. Entre 1933 e 1934, foi responsável pelas publicações da Universidad Nacional del Litoral (Santa Fé). Ao mesmo tempo, lecionou na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires a disciplina de “História da Filosofia Moderna e Contemporânea”, que se prolongaria entre 1933 e 1947. Ministrou também um curso de “Ética” na Universidad Nacional de La Plata, entre 1937 e 1946. A partir de 1947, foi professor titular da disciplina “Gnoseologia e Metafísica” na Universidad de Buenos Aires, tendo como antecessores Alejandro Korn e Francisco Romero. Em 1948, assumiu a direção do Instituto de Filosofia, onde fundou a revista Cuadernos de Filosofía. E no ano seguinte, foi um dos principais impulsionadores do I Congreso Nacional de Filosofia, realizado em Mendoza, que contou com a presença de importantes figuras europeias e americanas, tais como Hans-Georg Gadamer, Eugen Fink, Nicola Abbagnano, Karl Löwith, Ludwig Landgrebe, Ernesto Grassi, Otto Bolnow, Rodolfo Mondolfo, Coriolano Alberini, Luis Juan Guerrero, Alberto Wagner de Reyna, José Vasconcelos, Joaquim de Carvalho e Francisco Miró Quesada. Em 1952, Astrada proferiu palestras sobre o humanismo em Roma, Turim, Friburgo, Essen e Hamburgo. Pouco depois, organizou a homenagem a Schelling no Congresso de Filosofia de São Paulo (1954). Contudo, em 1956 – sendo adepto do peronismo –, Astrada foi destituído de todos os seus cargos acadêmicos pela ditadura militar que subjugava o país desde 1955. Então, com o apoio do Partido Comunista de la Argentina, realizou a sua primeira viagem à União Soviética, tendo testemunhado, em seu regresso, a Revolução Húngara, no outono deste mesmo ano. Em 1960, realizou uma segunda grande viagem na qual, além da URSS e da Tchecoslováquia, visitou também a China, onde conheceu pessoalmente Mao Tsé-Tung. A experiência chinesa das comunas populares marcou uma viragem ideológica crucial na biografia intelectual e política de Astrada. Durante a década de 1960, ele continuou a publicar ensaios de interpretação social – sobretudo livros compostos por artigos de seu período nacionalista. É o caso da reedição com acréscimos de El mito gaucho (1964)3 e dos escritos reunidos em Tierra y figura: configuraciones del numen del paisaje (1963)4. Em 1967, Astrada impulsionou a fundação da Kairós, revista de orientação marxista – para a qual contribuiu com numerosos artigos, alguns assinados com pseudônimo – dirigida pelo seu principal discípulo, Alfredo Llanos. Durante os seus últimos anos, Astrada concedeu muitas entrevistas, tanto a revistas de crítica cultural como de opinião política. Sua última carta foi dirigida ao filósofo marxista brasileiro Álvaro Vieira Pinto. Carlos Astrada faleceu em dezembro de 1970, aos 76 anos – devido a uma doença que o acometia há anos. 2 – Contribuições ao marxismo Do ponto de vista da tradição da cultura socialista, Astrada foi um jovem ensaísta libertário – interessando-se pela filosofia da existência de Heidegger no final dos anos 1920. Em 1932, iniciou sua aproximação ao materialismo histórico, a qual se aprofundaria – após um período de adesão ao peronismo, no qual misturou ideias nacionalistas e marxistas – especialmente na década de 1950, quando se afirma como teórico marxista sistemático. Ao longo de todo este percurso – marcado por reviravoltas ideológicas –, Astrada se mostrou distante de organizações e partidos, para além de uma época de proximidade com o Partido Comunista (PCA). Devido a sua formação intelectual aristocratizante, desenvolveu pouca confiança na militância política cotidiana – apesar de ter saudado a guinada socialista da Revolução Cubana.Continuar lendo “O marxismo de Carlos Astrada”
O marxismo de Carlos Astrada