O marxismo de Jacques Roumain

Antropólogo, escritor, poeta, professor e diplomata, foi fundador do Partido Comunista Haitiano e expoente do movimento Negritude, defensor da ideia de que a questão do negro não deve ser reduzida ao problema do racismo, sendo antes uma questão de luta de classes Por Joana A. Coutinho * ROUMAIN, Jacques (Porto Príncipe-Haiti, 1907; Porto Príncipe, 1944) 1 – Vida e práxis política Jacques Roumain nasceu na capital haitiana. Primogênito de uma família numerosa, teve onze irmãos. Seu pai, Auguste Roumain, foi um grande proprietário de terras, e sua mãe Émilie Auguste, era filha de Tancrède Auguste (presidente do Haiti entre 1912 e 1913). De uma família de mestiços letrados, Jacques falava fluentemente o dialeto criollo e o francês – características incomuns em um tempo no qual a maioria da população nativa sabia somente o criollo e era analfabeta1. A infância e época de formação de Jacques Roumain foi marcada por seguidas revoltas camponesas no país – contra as altas taxas tributárias, a miséria e exploração – situação que culminaria em mudanças constantes no governo e em uma prolongada ocupação do país pelos Estados Unidos (1915-1934), com o apoio das elites haitianas. Os EUA desocupariam o Haiti apenas vinte anos depois, após alcançarem seus objetivos: garantir o pagamento dos empréstimos contraídos com o Citibank e abolir um artigo da constituição haitiana que proibia a venda de suas plantações para estrangeiros2. Importa destacar que o Haiti havia se endividado com esse banco estadunidense para conseguir pagar a enorme indenização imposta pela França como requisito para o reconhecimento da independência do país – pagamentos que só foram encerrados em 1947, contabilizando cerca de 21 bilhões de dólares e mais 200 anos de juros. À época da libertação haitiana do jugo colonial francês (1804), o país era considerado a “joia do Caribe”: uma sociedade composta por cerca de 500.000 escravos, 30.000 brancos e 28.000 negros livres que mantinha uma economia organizada em torno da plantação da cana-de-açúcar e, em menor medida, do café – produção que dava a São Domingos (nome colonial do Haiti) o status de colônia altamente lucrativa. Jacques Roumain teve uma educação esmerada, como era comum aos de sua classe social: primeiramente no Haiti, estudou no famoso colégio Saint-Louis de Gonzague, e a partir dos 14 anos, mudou-se para a Suíça, onde terminou sua formação escolar no Institut Grünau, em Berna e depois na École Polytechnique Fédérale de Zurique3. Ali, aprendeu o idioma alemão, leu com paixão Schopenhauer, Nietzsche e Darwin, além de estudar paleontologia. Depois, viajou à Madri, capital da Espanha, para estudar agronomia, visitando também a Alemanha, França e Inglaterra. Nesta capital sua atenção se voltou às touradas, que o encantaram a ponto de ele chegar a ter aulas de toureio, além de ter escrito um poema em prosa sobre o tema, intitulado “Corrida”. Afinal, não terminou o curso – e caberia a seus irmãos estudarem agronomia e cuidar das terras da família. Em 1927, ainda em meio à ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, Roumain decidiu regressar a seu país. À época com 20 anos de idade, se juntou a Philippe Thoby-Marcelin (poeta, escritor e jornalista), Carl Brouard (poeta) e Antonio Vieux (escritor) – jovens intelectuais haitianos críticos à agressão estadunidense – para fundar o periódico La Revue Indigène: les Arts et la Vie4 [A Revista Indígena: as Artes e a Vida], que estimulava a exploração de novas formas de escrita que tratassem das complexidades da sociedade haitiana. A publicação representa um marco fundador do movimento Nègritude [Negritude] – corrente de vanguarda caribenha que, por meio da literatura e da política, buscou mostrar ao haitiano como ter orgulho de suas raízes culturais, de sua tradição oral e da religião vodu. Em 1928, foi nomeado gerente de um jornal chamado Petit Impartial [Pequeno Imparcial], e na sua nomeação o diretor elogiou a “chama patriótica” do jovem Roumain, ao mesmo tempo em que lhe pediu calma e ponderação. O debutante não tinha nem uma nem outra. Cofundador da Liga da Juventude Patriótica, em dezembro deste ano foi preso (pela primeira vez), junto com Georges Petit e Elie Guérin, por crime relacionado à “imprensa”. Foram condenados a um ano de detenção e ao pagamento de uma multa de cinco mil gourdes haitianos. A sentença depois seria reduzida, mas eles foram mantidos presos sob o argumento de existirem outras acusações. Somente alcançaram a liberdade em agosto de 1929. Nesse mesmo ano, Roumain começou a publicar a coluna “Mon Carnet” [Meu Caderno], primeiro, no jornal La Presse e, depois, no Le Nouvelliste. Mas seu trabalho foi logo interrompido porque, em outubro, Roumain foi novamente preso, junto com dois companheiros, Victor Cauvin e Antoine Pierre-Paul, por ferirem a lei que proibia a associação de vinte ou mais pessoas. Em dezembro de 1929, uma anistia liberou todos os presos políticos. Estando em liberdade, Jacques Roumain se casou com a haitiana Nicole Hibbert, filha do romancista Fernand Hibbert (1873-1928). Em 1930, com a queda do presidente Louis Borno, Roumain foi nomeado chefe de divisão do Ministério do Interior pelo presidente interino, Eugène Roy. Porém, se demitiu do cargo depois de alguns meses para fazer campanha para o então candidato Sténio Vincent, eleito presidente no mesmo ano. Em 1931, Roumain retornou ao cargo, dessa vez nomeado por Sténio Vicent (que governou entre 1930 e 1941). Em 1932, um promotor o convocou por suspeita de “subversão”. A acusação o levou à prisão no ano seguinte, na Penitenciária Nacional, junto com o socialista Max Hudicourt, sendo ambos acusados de conspiração. Em carta ao poeta Léon Laleau, Roumain declarou: “eu sou comunista”, e “nenhum poder no mundo pode me tirar este direito”5. Em junho de 1934, publicou a obra Analyse schématique (1932-1934) [Análise esquemática], expondo algumas de suas perspectivas do marxismo, e ao lado de alguns companheiros fundou o Parti Communiste Haïtien (PCH) [Partido Comunista Haitiano], sendo eleito secretário-geral. Neste primórdio, o Comitê Central do partido lançou o lema “Cor não é nada, classe é tudo”. Ainda nesse ano da fundação, em agosto foi preso e, em outubro, condenado aContinuar lendo “O marxismo de Jacques Roumain”