Poeta, operário e jornalista jamaicano, boêmio e bissexual, foi militante do movimento negro, membro da Workers’ Socialist Federation (Inglaterra) e da Internacional Comunista, centrando-se em articular a questão do racismo e a luta de classes em perspectiva marxista Por Jhonatan Uewerton Souza e Noemi Santos da Silva * CLAUDE MCKAY; Festus Claudius McKay (jamaicano; Sunny Ville, 1889 – Chicago/EUA, 1948) 1 – Vida e práxis política Nascido em uma família negra proprietária de terras, em uma vila rural habitada por camponeses livres nas montanhas de Claredon, Jamaica, Festus Claudius McKay foi o caçula entre onze filhos de um casal de posição social relativamente elevada para os padrões da população de pele escura do Caribe britânico. Seu pai, Thomas Francis McKay, um trabalhador que ascendeu de classe e se tornou um próspero agricultor, pertencia à fração de 1,5% da população com direito ao voto, à época de seu nascimento. Diácono da Igreja Batista, se orgulhava da moral puritana, reprovando os costumes e o sincretismo religioso dos camponeses. A dona de casa Hannah Ann Elizabeth McKay, sua mãe, era mais tolerante com os hábitos da população rural, a quem auxiliava e por quem demonstrava admiração – atitudes que influenciaram a formação de Claude. Orgulhosos de suas raízes africanas, a família preservava as memórias de seus avós de origem axânti e malgaxe, submetidos ao jugo do escravismo. A Jamaica de Claude McKay era um país em intensa transformação; ilha atrelada ao império britânico, do qual se libertaria apenas em 1962, passava por uma crise em sua economia açucareira, depois substituída pela banana na virada para o século XX – cujo comércio era controlado por empresas alinhadas ao imperialismo estadunidense: Boston Fruit e United Fruit Company. Com seu monopólio, estes conglomerados adquiriram terras, que arrendavam para os camponeses negros, endividando-se com latifundiários brancos ou mestiços. A dominação de classe se articulava a uma estratificação racial com hierarquia de cor, relegando famílias negras de pele retinta, como os McKay, à condição de subalternidade. Enquanto os culis [coolies] chegavam da Ásia para trabalhar no campo, os jamaicanos migravam para o Panamá ou para os EUA em busca de prosperidade. Cidades como Kingston e St. Andrew cresciam, ampliando a oferta educacional e levando à formação de um circuito cultural de onde emergiria uma pequena intelligentsia negra – a qual passaria a refletir criticamente a respeito da situação do país, em termos econômicos, políticos, culturais e étnicos. O irmão de Claude, Uriah Theodore (U’Theo) foi um dos formados no prestigiado Mico Teacher’s College, da capital do país; teve contato com o fabianismo e o agnosticismo, desenvolvendo orgulho por ser um homem negro letrado; participou de debates na esfera pública e escreveu para jornais. Depois de aprender as primeiras letras na escola da Igreja Mt. Sião, Claude foi morar com seu irmão mais velho, Uriah Theodore (U’Theo), em Montego Bay, em 1897, para continuar sua formação. Ali, tomaria conhecimento de uma outra Jamaica, muito diferente do seu pequeno vilarejo. Neste período em que viveu com o irmão, familiarizou-se com os clássicos da literatura mundial. Aproveitando-se da boa biblioteca do irmão, iniciou-se no socialismo fabiano e rompeu com sua formação religiosa. Assumindo-se um livre pensador, teve acesso a jornais e revistas de Kingston, Londres e Nova Iorque, começando a escrever poemas – sobre temas do folclore jamaicano, seguindo o estilo clássico britânico. Em 1902, retornou para Sunny Ville junto com seu irmão, que comprara terras no vilarejo natal e assumira uma escola local, onde Claude terminaria sua formação tendo o próprio U’Theo como professor. Em 1907, Claude foi aprovado para estudar em uma escola profissional de comércio em Kingston, mas um terremoto atingiu a cidade e ele logo teve de regressar à casa dos pais. Impossibilitado de retornar a Kingston, entre 1907 e 1909, ele foi aprendiz de um artesão em Brown’s Town. Nesse período, conheceu Walter Jekyll, cavalheiro inglês com quem desenvolveu relação de afeto e que o influenciaria[1]. Em 1909 sua mãe morreu. Claude McKay se mudou então para Kingston acompanhando Jekyll. Na cidade, trabalhou em uma fábrica de fósforos e depois se integrou à polícia, em Spanish Town, onde permaneceu até 1911. Como policial, tomou consciência da dimensão da violência das forças repressivas britânicas contra a população trabalhadora das cidades coloniais do Caribe, solidarizando-se com os marginalizados. Paralelamente, a convivência com Jekyll, crítico da industrialização e admirador da cultura popular jamaicana, do qual coletava baladas e histórias que compilaria em Jamaican song and story (1907), influenciou uma guinada estética na poesia de McKay. Ele passou a trabalhar com as especificidades da língua inglesa falada na Jamaica, abandonando a estética imperial vitoriana em busca de uma forma que dialogasse com as peculiaridades locais – o que inspiraria vários poetas jamaicanos como Louise Bennett. Por intermédio de Jekyll, seus poemas foram publicados nos principais periódicos do país, o Kingston Daily Gleaner e o Jamaica Times; conheceu o pessimismo de Schopenhauer e aderiu à Rationalist Press Association, travando contato com influentes livres-pensadores. Nesse período McKay publicou seus dois primeiros livros de poesia, Songs of Jamaica e Constab ballads, ambos de 1912, nos quais celebra a cultura popular nacional, registra as condições de vida da população negra e reflete sobre sua experiência na polícia. Ainda este ano, em meio a uma revolta popular contra o aumento do preço das passagens de bonde em Kingston, publicou no Daily Gleaner o poema “Passive resistence”, evocando o direito à autodefesa e à luta pelos direitos “sem derramamento de sangue”. Em seguida, numa celebração da história de resistência negra, publicou poemas celebrando a Rebelião de Morant Bay (1865) – contra a miséria generalizada e a injustiça dos britânicos contra libertos, excluídos da vida política e social após a abolição da escravidão (1833). No mesmo ano, contrariando os conselhos de Jekyll, mudou-se para o Alabama, nos Estados Unidos, para estudar agronomia no Tuskegee Institute, dirigido por Booker T. Washington e voltado à formação profissionalizante de jovens negros, conforme os princípios defendidos por seu fundador que visavam a elevação moral e econômica da população afroestadunidense eContinuar lendo “O marxismo de Claude McKay”
O marxismo de Claude McKay