Historiador, filósofo e jornalista, foi dirigente do Partido Comunista do Canadá, militando na formação política e se destacando como um dos primeiros marxistas a desenvolver uma interpretação materialista histórica da realidade nacional canadense e da questão regional do Quebeque
Por Yuri Martins-Fontes, Sean Purdy e Pedro Rocha Curado *
RYERSON, Stanley Bréhaut Egerton; E. Stanley; E. Roger (canadense; Toronto, 1911 – Montreal, 1998).
1 – Vida e práxis política
Nascido em Toronto, capital da anglófona Ontário, Stanley Ryerson foi membro de uma família de classe média-alta. Seu pai, Edward Stanley Ryerson, e sua mãe, Tessie De Vigne, eram descendentes de franceses e, por conta disso, Ryerson cresceu em profundo contato com a língua e a cultura francesa.
Entre 1919 e 1929, estudou no Upper Canada College, instituição educacional da elite anglo-saxã local. Na sequência, ingressou no curso de Letras da University of Toronto. E em 1931 – ano em que o comunismo foi posto na ilegalidade no Canadá – partiu para a França, onde realizou um intercâmbio acadêmico na Sorbonne, em Paris.
Durante este período na Europa, aproximou-se do pensamento socialista, sobretudo por meio da Association des Écrivains et Artistes Révolutionaires [Associação dos Escritores e Artistas Revolucionários]. Também aí, em 1932, teve contato com a literatura marxista, lendo, entre outras obras, duas que o marcariam: o Manifesto do Partido Comunista,de Karl Marx e Friedrich Engels; e La révolution culturelle: les conditions préalables et les premiers pas d’une culture socialiste de masse en Union Soviétique (Paris: Bureau d’éditions, 1931), do marxista alemão exilado na URSS Alfred Kurella – escrita em francês para divulgação socialista na Europa. Neste mesmo ano, retornou a seu país para completar o primeiro ciclo de sua formação universitária[1].
Em Toronto, associou-se à Young Communist League of Canada [Liga dos Jovens Comunistas do Canadá] (YCL) e assumiu o posto de redator-chefe da revista dessa agremiação, The Young Worker [O Jovem Trabalhador]. Aderiu também ao Progressive Arts Club [Clube de Artes Progressistas], desenvolvendo um especial interesse pela relação entre arte e política; e, usando o pseudônimo de “E. Stanley”, concluiu uma breve peça de teatro intitulada War in the East [Guerra no Oriente] – texto dramático em defesa da União Soviética e da classe trabalhadora[2].
Regressou a Paris em 1933, para mais um período de estudos que terminaria no ano seguinte – graduando-se, após esta segunda temporada no exterior, com um trabalho sobre a obra do romancista siciliano Giovanni Verga. Por estes tempos em que esteve na Europa, vivenciou a turbulência política na Itália e na Espanha, nos primeiros anos da Grande Depressão (após a Crise de 1929), e se envolveu com o movimento comunista – tendo colaborado com a revista da juventude do Parti Communiste Français (PCF), L’Avant Garde, e participado de manifestações. Testemunhou ainda os esforços de aproximação entre o Partido Comunista e os socialistas franceses, em decorrência da elaboração da estratégia do Front Populaire [Frente Popular] – que seria oficializada em 1935, durante o VII Congresso da Internacional Comunista (IC). Foi com o ânimo de tais experiências que retornou ao Canadá, vindo então a se dedicar à luta dos trabalhadores – especialmente no Quebeque, província francófona que passaria a ser o centro de sua atuação política e intelectual, e onde produziria suas principais obras.
Ainda em 1934, filiou-se, na cidade de Toronto, ao Communist Party of Canada/ Parti Communiste du Canada [Partido Comunista do Canadá] (PCC) – cuja situação ilegal se manteve até 1936 –, vindo a se tornar um de seus mais importantes dirigentes e intelectuais[3]. Bilíngue, seria logo nomeado diretor de formação política do partido em Montreal (Quebeque) e editor de seu jornal em francês, o Clarté – tornando-se um dos principais representantes do partido desta região francófona canadense. Neste mesmo ano, ajudou a fundar e presidiu a Canadian Youth League Against War and Fascism, organização criada como frente da YCL para atrair a juventude trabalhadora e os estudantes para a causa antifascista.
Passou também a lecionar no Departamento de Estudos Franceses do Sir George Williams College, de Montreal, em que trabalharia entre 1934 e 1937 – utilizando-se, por este tempo, do pseudônimo “E. Roger” para assinar textos políticos, evitando assim represálias políticas e laborais.
Membro do Comitê Central do Partido Comunista por décadas – entre 1935 e 1969 –, Stanley Ryerson foi diretor do Programa de Educação do PCC (1935) e também secretário provincial do partido em Quebeque, de 1936 a 1940, além de ter ocupado distintos cargos relacionados à formação política e intelectual da organização, militando principalmente na atividade de formação comunista da população francófona do Quebeque.
Quanto a sua atividade teórica, já em 1935 publicou seus primeiros artigos em um jornal anglófono do PCC, The Worker [O Trabalhador]. Neles, tratou das rebeliões armadas canadenses contra o governo colonial da Coroa Britânica (1837 e 1838), episódios que levaram à progressiva conquista de maior autonomia das colônias do alto e baixo Canadá (as províncias de Ontário e Quebeque) contribuindo para a construção do gradual processo de independência do país, iniciado em 1867.
Neste período inicial – marcado pela Frente Popular da Internacional Comunista e de seus partidos membros –, alguns escritos de Ryerson se caracterizaram por certo orgulho nacional, com títulos como “Heroes of old Canada” [“Heróis do antigo Canadá”] e “Communists, heirs to great traditions” [“Comunistas, herdeiros de grandes tradições”] – ambos de 1937. Entretanto, neste mesmo ano o marxista publicou também uma de suas principais obras, 1837: the birth of canadian democracy, na qual desenvolveu a que é considerada a primeira análise marxista das rebeliões canadenses da época em questão – além de ter participado do Congresso da Associação Internacional de Artistas e Trabalhadores, na Cidade do México[4].
Por este tempo, Ryerson contribuiu também com artigos históricos para as revistas New Frontiers e Masses, órgãos multipartidários que publicavam matérias históricas, políticas e culturais de uma ampla gama de socialistas, social-democratas e comunistas.
No outono de 1939, com o início da II Guerra Mundial, o Partido Comunista foi proibido e criminalizado, condição que perdurou até 1943 – sendo que, no Quebeque, a ilegalidade só terminaria em 1957. Ryerson ingressou então na clandestinidade e, em 1940, publicou um panfleto contrário ao recrutamento, denominado La conscription, c’est l’esclavage. Três anos depois, lançou um de seus livros mais importantes, French Canada: a study in Canadian democracy. Diante do contexto de acosso, os comunistas fundaram o Labor-Progressive Party [Partido Trabalhista-Progressista], agremiação legal de fachada pela qual lançaram candidatos até 1959[5].
Ryerson, que voltara a morar em Toronto, manteve-se membro do Comitê Central do PCC, ocupando vários cargos altos no partido, como: diretor nacional de Educação (1944-1947); diretor nacional de Organização (1947-1954); editor de sua revista teórica do PCC, National Affairs Monthly (1944-1947); diretor de seu Centro para Estudos Marxistas (1962-1969); e editor das revistas teóricas do partido, Horizons e Marxist Quarterly (1962-1969).
Já em 1956, a invasão da Hungria pela União Soviética e a denúncia contra Stálin feita por Kruschev – que resultou na saída de muitos membros do PCC –, o impactaram negativamente, mas ainda assim se manteve no partido. Embora não se abstivesse de fazer críticas, tratava de restringir sua exposição ao debate interno. Neste contexto, após a crise interna do partido, publicou uma autocrítica, por meio da qual se desculpou pela interpretação idealizada que fizera dos democratas burgueses canadenses do século XIX.
Na década de 1960, o PCC foi paulatinamente se enfraquecendo, em decorrência da repressão política nacional e do clima conservador que se instalou no país nos anos 1950, mas também por divergências políticas sobre o papel da União Soviética e da ascensão da chamada Nova Esquerda (movimento que trouxe à pauta política novos temas). Em 1968, Ryerson passou a promover debates periódicos sobre vários tópicos, dos quais participavam diferentes tendências da esquerda de Toronto[6]. O projeto, porém, findou em 1971, ano em que Ryerson deixou oficialmente o partido, devido a discordâncias teóricas e políticas, como, entre outras, sua oposição à invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética em 1968[7].
Desvinculado da militância partidária, o marxista atuou principalmente como professor universitário de História – entre 1969 e 1990 – junto à Université du Québec à Montréal. Durante os anos de vida acadêmica, publicou diversos estudos sobre o movimento operário e a política nacional no Canadá francófono – sendo seu último artigo de 1993.
Stanley Ryerson faleceu em abril de 1998, na cidade de Montreal, aos 87 anos.
2 – Contribuições ao marxismo
Ao longo dos seus quase quarenta anos de filiação ao Partido Comunista, Ryerson conseguiu relacionar sua prática social a seu desenvolvimento teórico, tendo produzido centenas de escritos como professor, jornalista e intelectual orgânico, enquanto militava, também intensamente, em diversas atividades políticas do partido. Embora o PCC tenha sido fundado, na clandestinidade, em 1921, até os anos 1930, os movimentos e debates marxistas são escassos no Canadá – tratando-se basicamente de panfletos, manifestos e textos jornalísticos associados a partidos, ligas estudantis e sindicatos.
Neste contexto da primeira metade do século XX, Ryerson se destaca por ter elaborado análises que, fundadas no marxismo, contribuíram à compreensão da história de seu país. Formado em Letras, mas bastante dedicado aos debates filosóficos, é contudo como historiador que ele deu sua principal contribuição ao marxismo, ao elaborar, com base no materialismo histórico, uma interpretação da realidade nacional canadense que valorizava o protagonismo popular.
Em seus primeiros escritos, nos anos 1930, e em sua obra mais madura, da segunda metade do século XX, Ryerson relacionou a história das lutas do Canadá francófono – considerada uma nação oprimida pelo Estado canadense de maioria anglófona – com a ideia de “democracia popular”[8]. Tal perspectiva foi motivo de polêmica com a liderança do partido, durante as idas e vindas do debate político que se travou em torno da questão nacional. Uma de suas importantes obras deste período inicial é o livro 1837: o nascimento da democracia canadense (1937), em que contesta a explicação nacionalista da revolução democrático-burguesa (de 1837-1838) – responsável pela fundação do Canadá e pela instauração do modelo econômico capitalista no país –, buscando então entender a desigualdade que havia entre o Quebeque (província mais pobre) e o restante do Canadá[9].
As contribuições de Ryerson ao pensamento marxista são o produto de questões que vigoravam em seu tempo. No período de 1830 a 1870, em decorrência das condições de trabalho extenuantes e perigosas, foram criados, na província do Quebeque, os primeiros clubes de proteção dos trabalhadores, embora a formação de sindicatos ainda fosse considerada ilegal. O direito de greve, por exemplo, só começará a ser reconhecido no país em 1871 – no Quebeque, a regulação ocorrerá somente em 1898. Entre 1871 e 1921, a província francófona vivenciou um surto de êxodo rural, associado ao desenvolvimento industrial, notadamente da indústria manufatureira; nesse período, houve um grande crescimento da taxa de urbanização quebequense, que passou de 20% a 56% da população, ocasionando o desenvolvimento de uma classe operária consistente, composta principalmente por canadenses-franceses e irlandeses. As primeiras associações de classe canadenses surgiram no fim do século XIX. Em 1894, foi fundado em Montreal o Parti Ouvrier Socialiste [Partido Trabalhista Socialista], com um programa que defendia a tomada do Estado pelo proletariado, a nacionalização das comunicações e dos transportes e a melhoria nas condições de trabalho. Pouco depois, em 1899, foi fundado o Parti Ouvrier du Québec [Partido Trabalhista do Quebeque], após uma cisão interna.
Já no século XX, em 1919, ocorreu a greve geral de Winnipeg, fortalecendo o apoio social à One Big Union, um sindicato revolucionário do Oeste canadense. Neste mesmo ano houve uma primeira tentativa de fundação do Partido Comunista canadense, o que acabaria se concretizando em 1921[10]. No ano seguinte, o novo partido recebeu em suas fileiras os membros do Montreal Labour College – uma instituição de ensino superior voltada para a formação de líderes sindicais e militantes políticos. Em 1923, Albert Saint-Martin tentou criar o Parti Communiste Canadien-Français, com sede em Quebeque – com o plano de construir uma organização voltada aos problemas dos canadenses francófonos, que não fosse submissa ao PCC (sediado em Toronto). No Primeiro de Maio de 1924 e de 1925, ocorreram as Journées Internationales des Travailleurs. Contudo, no contexto conservador deste país norte-americano, nas décadas que se seguiram o comunismo foi declarado ilegal em diversos períodos – sobretudo no Quebeque, cuja proibição durante e após a II Guerra durou quase vinte anos.
A Crise de 1929, vivenciada pelo ainda jovem Ryerson, foi uma divisora de águas no fortalecimento do movimento comunista no país e nas sociedades “ocidentais” como um todo, provocando profundo choque nas mentalidades. Os problemas estruturais do capitalismo ficaram, a partir de então, mais evidentes, e muitos canadenses buscaram debater o desenvolvimento a partir de formatos alternativos. Por este tempo, a Internacional Comunista interpretou esta crise como um sinal da decadência do sistema capitalista, percepção esta reforçada pelo fato da economia soviética não ter sido tão afetada.
Após seu período de estudos na França – experiência fundamental na qual se aprofundou no marxismo e se tornou comunista –, em 1934 o jovem Ryerson regressou ao Canadá. À época, a Europa já vivenciava a ascensão do fascismo – Mussolini (1922), Salazar (1926), Franco (1936), Hitler (1933), enquanto o governo canadense estava sob o comando do partido Conservador de Richard Bennet (1930-1935). Foi neste ambiente adverso que Ryerson deu início a atividades de militância voltadas para a conscientização dos trabalhadores, bem como a reflexões teóricas sobre a questão nacional do Canadá – tratando, neste âmbito, do problema particular da identidade quebequense. Foi no Quebeque que centrou sua atuação política e produziu suas principais obras – as quais contribuíram tanto para o engajamento político dos trabalhadores canadenses quanto para o refinamento teórico-metodológico marxista em relação à investigação da história nacional.
Alinhado com as deliberações antifascistas do VII Congresso da IC em Moscou (1935), o militante e acadêmico percebeu a importância de os diversos partidos comunistas fomentarem a pesquisa e a divulgação das tradições revolucionárias de cada país, que estava sendo falsificada pelos movimentos fascistas. Diferentemente das diretrizes do VI Congresso (1928)[11], quando se definiu como estratégia política a oposição aos grupos social-democratas, por favorecerem a estabilização política do regime burguês, os comunistas passariam agora a perceber no fascismo – esta arma política da burguesia usada em contextos de crise – seu principal problema a ser enfrentado em âmbito internacional.
Não obstante, surgiu então um problema teórico fundamental ao arcabouço metodológico marxista de Ryerson: como tratar a questão do nacionalismo na releitura histórica da formação canadense? Se a nação é uma instituição burguesa, o nacionalismo é portanto uma perspectiva ideológica burguesa, responsável por escamotear o antagonismo de classes em prol de pretensos “interesses comuns” e de um falso conceito de nação. Porém, Ryerson entende que, com o imperialismo, a luta contra a opressão nacional passa a fazer parte da luta mais ampla de libertação do proletariado – contexto que exige alianças com outras classes e povos da periferia do capitalismo. No caso do Canadá, a “questão nacional” apresenta-se por duas facetas, a saber: a da fundação imaginária da identidade nacional canadense; e a dos movimentos separatistas da região franco-canadense (Quebeque), que almejam se libertar do Estado canadense majoritariamente anglófono.
Assim, de um lado, Ryerson propôs revisar a fundação do Canadá como nação independente, trazendo à tona os aspectos vinculados à formação de uma consciência de classe que resultava tanto na organização dos trabalhadores como na oposição desta ao projeto burguês de nação, alicerçado pelos detentores dos meios de produção. Por outro lado, o marxista defendeu existir uma singularidade identitária quebequense, construída por meio da exploração de seu povo trabalhador. Entretanto, por não se vincular às correntes separatistas locais, evitou utilizar conceitos como “nacionalismo” e “nacionalista” em sua análise sobre a fundação do Canadá, assim como não usou “separatismo” e “nação canadense-francesa” em suas análises sobre a questão regional quebequense. Como solução, opôs a tais termos os de “povo”, “nacionalidade”, “via nacional”, “cultura nacional” e “interesses nacionais”, em especial quando relacionados aos franco-canadenses do Sul, que viviam condições sociais deterioradas e de forte exclusão.
Vale enfatizar que a escrita de história em geral, e do povo trabalhador, em particular, era muito pouco desenvolvida nos meados do século XX, quando Ryerson começou sua produção intelectual. Como diretor de Educação, após o fim da II Guerra Mundial, Ryerson e outros camaradas do Partido Comunista, como Margaret Fairley, lançaram o projeto de escrever uma “História do povo canadense” [“People’s history of Canada”], organizando em Toronto um grupo de pesquisadores do partido para viabilizar a obra. Em 1949, Ryerson defendeu a iniciativa, argumentando que um povo tem o direito à posse de sua terra e ao fruto do seu trabalho, além de sua cultura, ideologia e história[12]. Os primeiros resultados dessa empreitada foram publicados em forma de artigos populares em 1949 e, esporadicamente, durante os anos 1950, mas o projeto se deteve tanto por conta da repressão e perseguição aos comunistas canadenses, como por crises internas do partido.
Com efeito, a maior contribuição de Ryerson para uma história do povo canadense viria com as publicações de The founding of Canada [A fundação do Canadá], de 1960, e Unequal union [União desigual], de 1968 – livros baseados parcialmente em pesquisas realizadas nos anos 1940 por colegas seus, como Margaret Fairley (educadora e jornalista comunista), J. Francis White (editor e intelectual socialista) e H. Clare Pentland (professor de História Econômica que analisou a questão nacional canadense com base no materialismo histórico). Na primeira destas obras, Ryerson interpreta a colonização europeia como inserida no processo de expansão imperialista, de modo que a sociedade canadense se desenvolveria em meio a tensões entre forças democráticas populares e estruturas de exploração coloniais. Já em Unequal union, interpreta a formação do Canadá como sendo fruto de uma união desigual entre povos distintos – indígenas e europeus –, em um processo marcado por violenta dominação cultural e econômica, que teve por cume a Confederação de 1867, na qual foram consolidadas as desigualdades regionais e nacional. Essas duas obras de Ryerson se tornaram populares nas universidades e entre militantes socialistas de vários campos. Com elas, os leitores canadenses passaram a ter pela primeira vez acesso a uma ampla síntese de sua história nacional em perspectiva marxista.
Aspectos do pensamento de Stanley Ryerson se assemelham aos de historiadores marxistas britânicos da corrente historiográfica conhecida como História vista de baixo – tais como E. P. Thompson, Christopher Hill, Vitor Kiernan, Raphael Samuel, Rodney Hilton e Eric Hobsbawm. Há, porém, uma diferença crucial: nenhum destes historiadores britânicos foi dirigente de partido, como o foi o marxista canadense. E ainda, com exceção de Hobsbawm, todos eles romperam com o partido logo depois da crise de 1956, passando a atuar pelo movimento da Nova Esquerda (que emerge entre os anos 1950 e 1970). Na condição de intelectuais independentes, portanto, os britânicos tiveram mais liberdade intelectual para inovar os estudos históricos marxistas, centrando-se na compreensão do protagonismo histórico dos subalternos e na crítica ao determinismo econômico.
Ryerson, ao contrário destes, foi sobretudo um militante, um intelectual orgânico, cujos escritos e teorias serviram como instrumental para a luta de classes. Suas posições políticas e teóricas estiveram em certa medida marcadas por seu alinhamento ao partido e às orientações da IC. Por este motivo, ele viria a sofrer críticas de alguns teóricos marxistas (em especial da geração surgida nos anos 1970 e 1980), tendo sido acusado de oferecer uma interpretação mecanicista do marxismo – por supostamente ter usado conceitos do materialismo histórico de modo não-dialético, gerando interpretações imprecisas acerca da questão nacional canadense[13].
Como todo debate marxista consistente – cuja verdade só se demonstra na realidade da história –, essa polêmica deverá ser continuada através de análises dialéticas cada vez mais refinadas sobre as contradições sociais do Canadá. Interpretações que não apenas comportem proposições concretas para uma resolução do problema canadense, como estratégias e ações reais para a efetivação das transformações necessárias.
3 – Comentário sobre a obra
Durante suas quase quatro décadas no PCC, Ryerson publicou seis livros e escreveu meia centena de ensaios para revistas especializadas, além de diversos panfletos e artigos sobre uma ampla gama de assuntos, saídos em publicações do partido e em outros meios socialistas e acadêmicos[14].
Entre suas mais importantes publicações, todas traduzidas do inglês ao francês, estão os livros: French Canada: a study in canadian democracy [Canadá francês: um estudo sobre a democracia canadense]; The founding of Canada: beginnings to 1815 [A fundação do Canadá: do início a 1815]; Unequal union: confederation and the roots of conflict in the Canadas – 1815-1873 [União desigual: a confederação e as raízes do conflito no Canadá – 1815-1873]. A seguir, apresentamos estas e outras obras dentre as mais relevantes do prolífico marxista canadense.
Uma de suas primeiras publicações foi a peça de teatro “War in the East”(Masses, v. 1, n. 12, mar.-abr. 1934)[15], obra de agitação e propaganda (agitprop) na qual denuncia a ameaça do imperialismo japonês contra a Revolução Soviética, em um enredo que expõe a luta de classes entre os trabalhadores e a elite detentora do poder que se beneficia com a guerra.
Em 1937, publica no jornal do Partido Comunista, The Worker, dois artigos nos quais expõe seu conceito de “democracia popular”: “Heroes of old Canada” e “Communists, heirs to great traditions” – textos em que trata dos precursores do movimento de libertação canadense, relacionando-os com as lutas dos comunistas no presente.
Ainda neste ano, Ryerson publica 1837: the birth of canadian democracy [1837: o nascimento da democracia canadense] (Toronto: Francis White, 1937), importante obra em que busca desconstruir a abordagem nacionalista na explicação da revolução democrático-burguesa ocorrida em 1837-1838, responsável pela fundação do Canadá e pela instauração do modelo econômico capitalista no país. Lançado no ano de comemoração do centenário da rebelião, o livro almejava superar o apagamento da luta de classes entre os grupos sociais envolvidos no processo da independência nacional, já que a leitura historiográfica canônica desconsiderava a oposição entre os interesses populares, e os das oligarquias e proprietários de terra nacionais. Para Ryerson, tratava-se fundamentalmente de uma luta antifeudal, anticolonial e democrática, a qual continuaria a se desenvolver ao longo do próximo século, com o processo de industrialização do país, agora devido ao antagonismo entre a nascente burguesia nacional e o incipiente proletariado. Em especial, Ryerson procurava compreender os motivos do atraso socioeconômico do Quebeque em relação ao restante do país[16].
No ano seguinte é publicado The present situation in Quebec (Toronto: Communist Party of Canada, 1938), panfleto no qual Ryerson ensaia uma interpretação marxista da questão nacional canadense.
Outro destacado panfleto seu sai no ano de 1943: The dissolution of the Communist International (Toronto: Ontario Communist Labor, Total War Committee). Nele, Ryerson expõe a dissolução da Internacional Comunista como uma estratégia com vistas a impulsionar as autonomias nacionais e fortalecer a unidade antifascista durante a II Guerra. Trata também da criação do Labor-Progressive Party, partido legal com que se buscou contornar a proibição do PCC e a perseguição política sofrida pelos comunistas canadenses.
Ainda em 1943, publica Le réveil du Canada français [O despertar do Canadá francês], uma das primeiras interpretações marxistas da questão nacional franco-canadense. Em meio à II Guerra, a obra procura explicar a formação do povo canadense francófono, analisando suas reivindicações políticas.
Neste mesmo – prolífico – ano, Ryerson lança também o livro French Canada (Toronto: Progress Publishers, 1943), uma de suas obras mais impactantes. Nele, por meio de uma perspectiva de classe, o marxista analisa a história do Quebeque e sua situação política na Federação Canadense. Mostra como as elites reacionárias obstruem as causas populares para manterem seu poder. Dá ênfase também aos movimentos sociais e rebeliões populares que construíram o país[17].
A world to win: an introduction to the science of socialism” [Um mundo a conquistar: uma introdução à ciência do socialismo] (Toronto: Progress Books, 1946) foi originalmente escrito como material educacional do Partido Comunista para formação política de militantes de base. Este texto de Ryerson traz ideias que o aproximaram da escola historiográfica posteriormente conhecida como História vista de baixo, posto que se centrava na exposição da vida de pessoas comuns, trabalhadores e marginalizados, evitando a ênfase característica da história política, centrada em grandes líderes.
Nos anos 1950, em meio a vários cargos e tarefas que desempenhou pelo partido, Ryerson produziu vários artigos, dentre os quais menciona-se “The Party in the fight for peace” [“O Partido na luta pela paz”] (National Affairs Monthly, v. 8, n. 3, mar. 1951), texto no qual pondera que a prioridade dos comunistas naqueles anos de Guerra Fria era a “luta pela paz”, opondo-se ao imperialismo estadunidense e à ameaça de uma nova guerra mundial.
Em 1960 vem à luz outro de seus livros mais notáveis: The founding of Canada (Toronto: Progress Publishers, 1960). Nesta obra, Ryerson demonstra sua habilidade de educador ao escrever uma síntese marxista da história de seu país em linguagem acessível e popular, fazendo uma substancial reinterpretação da história canadense a partir do uso de conceitos como classes sociais, luta de classes, feudalismo, capitalismo e imperialismo[18].
Já na obra filosófico-política Open society: paradox and challenge (Nova Iorque: International Publishers, 1965), ele explana uma crítica de embasamento marxista sobre a ideia burguesa de “sociedade aberta” – conceito difundido pelo filósofo liberal austríaco Karl Popper no livro The open society and its enemies, de 1945.
Outro livro que obteve grande projeção foi Unequal union (Toronto: Progress Publishers, 1968) – considerado um de seus clássicos. Nele, o marxista trata das origens da independência do Canadá em 1867, apontando como as elites forjaram a união nacional para consolidar seu poder. Como resultado, a integração territorial foi feita de maneira por demais desigual, subordinando os canadenses francófonos aos interesses da burguesia majoritariamente anglófona. Analisa também a consolidação do país no contexto do crescimento das revoltas coloniais, das lutas democráticas e do desenvolvimento do capitalismo industrial[19].
Textos de Stanley Ryerson podem ser lidos na rede em portais como: Marxists (www.marxists.org); e Internet Archive (archive.org).
Quanto a obras sobre Ryerson, um estudo que traz ampla bibliografia de seus escritos é o artigo “Stanley Bréhaut Ryerson: marxist historian” (Studies in Political Economy, v. 9, 1982), de Gregory Kealey.
4 – Bibliografia de referência
BISAILLON, Joel. Stanley Bréhaut Ryerson (1911-1998) et l´analyse de sa pensée sur la question nationale au Québec de 1934-1991. Dissertação [mestrado], Université du Québec à Montréal, Montreal, 2008. Disp.: https://archipel.uqam.ca/795/1/M10159.pdf Acesso em abril de 2026.
COMEAU, R.; DIONNE, B. Le droit de se taire: histoire des communistes au Québec, de la Première Guerre mondiale à la Révolution tranquille. Montreal: VLB Éditeur, 1989.
COMEAU, R.; TREMBLAY, R. (orgs.). Stanley Brehaut Ryerson, un intellectuel de combat. Montreal: Vents d’Ouest, 1992. Disp.: www.classiques.uqam.ca; e em https://archive.org.
LEVESQUE, Andrée. “Stanley Bréhaut Ryerson (1911-1998)”. Labour/ Le Travail, Peterborough, v. 42, 1998. Disp.: https://id.erudit.org/iderudit/llt42ob01.
KEALEY, Gregory S. “Stanley Bréhaut Ryerson: marxist historian”. Studies in Political Economy: a Socialist Review. Ottawa, v. 9, n. 1, 1982.
KIMMEL; KEALEY. “With our own hands: Margaret Fairley and the ‘real makers’ of Canada”. Labour/Le Travail, n. 31, 1993.
MCDOUGALL, Brian. “Stanley Ryerson and the materialist conception of History: a study in the stalinist distortion of marxism”. Dissertação [Mestrado], School of Canadian Studies, Carleton University, Ottawa, 1981.
MCKAY, Ian. “Henri Gagnon, Tim Buck, Stanley Ryerson, and the contested legacy of the Comintern on the national question the crisis of french-canadian communism in the 1940s”. Em: DRACHEWYCH; MCKAY (orgs.). Left Transnationalism: the communist international and the national, colonial, and racial questions. Montreal/Kingston: McGill-Queen’s University Press, 2019.
Nota editorial
* Yuri Martins-Fontes é professor, escritor, tradutor e editor da Práxis Literária. Bacharel em Filosofia e doutor em História Econômica (USP), com pós-doutorados em Filosofia Política (USP) e em História, Cultura e Trabalho (PUC-SP). É coordenador do Núcleo Práxis-USP e pesquisador do LEPHE-USP. Autor de, entre outras obras: Marx na América (2018/ 2a. edição no prelo).
* Robert Sean Purdy é professor de História da FFLCH-USP; graduado em História (Carleton University/ Canadá), mestre e doutor em História Urbana (Queen’s University/ Canadá), com pós-doutorado em História Social (Univ. of Chicago/ EUA). Autor de, entre outras obras: From place of hope to outcast space (Queen’s University, 2003).
* Pedro Rocha Fleury Curado é professor do Instituto de Relações Internacionais da UFRJ; bacharel em Ciências Sociais e doutor em Economia Política (UFRJ), com pós-doutorados em Relações Internacionais (EHESS/França; e UFRJ). É coordenador do Núcleo Práxis-USP e pesquisador do Lab. Estudos em Segurança e Defesa. Autor de, entre outras obras: A guerra fria e a ‘cooperação ao desenvolvimento’ com os países não-alinhados (UFRJ/EHESS, 2014).
* Com edição de texto de Ândrea Francine Batista e Argus Romero, e ilustração de Felipe Santos Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis da USP, sendo um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões são bem-vindas: editoria@nucleopraxisusp.org.
[1] BISAILLON (2008); LEVESQUE (1998).
[2] Peça publicada em: Masses, v. 1, n. 12, mar.-abr. 1934.
[3] LEVESQUE (1998).
[4] COMEAU; TREMBLAY (1992).
[5] Idem.
[6] ENDICOTT, Stephen. “Les années torontoises (1943-1969)” ; em: COMEAU; TREMBLAY (1992). KEALEY (1982), p. 146-147.
[7] Após a Tchecoslováquia empreender uma série de reformas liberais, aproximando-se de modelos político-econômicos do Ocidente capitalista – evento conhecido como “Primavera de Praga” –, a URSS interveio militarmente no país, ato que gerou discussões entre comunistas de todo o mundo.
[8] Ver sobre o conceito, entre outras obras de Ryerson: French Canada: a study in canadian democracy (1943). Ver também: DENIS, Serge. “La question nationale au Canada: Stanley B. Ryerson et le Québec contemporain (1965-1993)”. Em: COMEAU; TREMBLAY (1992).
[9] RYERSON. 1837: the birth of canadian democracy (1937).
[10] COMEAU; TREMBLAY (1992).
[11] No VII Congresso em Moscou (1935), a Internacional Comunista se reuniu para definir suas táticas de combate ao avanço do fascismo no mundo.
[12] KIMMEL e KEALEY (1993).
[13] MACDOUGALL (1981).
[14] Sobre sua bibliografia, ver: COMEAU; DIONNE (1996).
[15] Peça incluída na coletânea de dramas canadenses do século XX – sobre temas das lutas de classes – Eight men speak (Toronto: New Hogtown Press, 1976). Disp.: https://archive.org.
[16] Ver: Ryerson. 1837: The birth of canadian democracy. Kutztown/Pennsylvania: Hassell Street Press, 2021.
[17] RYERSON. The founding of Canada. Toronto: Progress Book, 1960. Versão digital: Internet Archive. Disp.: https://archive.org/details/foundingofcanada0000ryer.
[18] Idem
[19] Vide: RYERSON. Unequal union (1968).