Médico, editor e pensador marxista, foi organizador da Juventude Comunista e dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB), destacando-se em trabalhos de formação política e produzindo uma das primeiras aplicações do materialismo histórico à realidade brasileira
Por Lincoln Secco e Paulo Alves Junior *
BASBAUM, Leôncio (brasileiro; Recife, 1907 – São Paulo, 1969)
1 – Vida e práxis política
Leôncio Basbaum nasceu no Recife do começo do século XX, sendo o sexto dos onze filhos de Isaac e Clara Basbaum, imigrantes originários de Kichinev, capital da então Bessarábia (hoje Chisinau, Moldávia). A família, proprietária de uma pequena joalheria na capital pernambucana, integrou-se a um meio urbano em transformação.
Em suas memórias, ele registraria que uma das suas primeiras experiências políticas de importância foi a celebração da vitória dos aliados da I Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, nas ruas recifenses, episódio que marcou sua passagem da infância para a adolescência1.
Basbaum teve uma boa educação. Em 1919, foi matriculado no Ginásio Ayres Gama, sendo transferido, em 1923, para o Ginásio Carneiro Leão, prestigiada instituição recifense. Concluído o ensino médio, embarcou em março de 1924 para o Rio de Janeiro, com o objetivo de cursar Medicina. No mês seguinte ingressou na Faculdade de Medicina do Rio, na qual se formaria em 19292. Nesse período, aproximou-se do universo literário e político, escrevendo contos para a Revista Número, sob o pseudônimo de Jeremias Cordeiro.
De acordo com seu próprio relato, os primeiros meses no Rio de Janeiro não foram de militância imediata, mas de adaptação e vida social junto ao ambiente estudantil, além de conversas noturnas na pensão em que vivia – sobre futebol, professores, literatura e família3. No entanto, as férias de 1924 e 1925 no Recife foram decisivas. Frequentando a enfermaria do Hospital Pedro II como estudante de medicina, Basbaum mantinha laços com antigos camaradas da faculdade, entre eles Raul e Manuel Karacik, com quem discutia a respeito da “Rússia Bolchevista”. Por intermédio dos irmãos Karacik, foi apresentado a Souza Barros, que o iniciou nas discussões sobre comunismo, bolchevismo e as figuras de Lênin e Trótski. Essa cadeia de sociabilidade o levou a conhecer Cristiano Cordeiro, Astrojildo Pereira e outros militantes que haviam participado da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 25 de março de 1922, e da I Comissão Central Executiva (CCE) – núcleo político partidário. Com eles, Basbaum teve seu primeiro contato mais direto com o marxismo4.
Em 1925, de volta ao Rio de Janeiro, participou de um comício de 1º de Maio na Praça Mauá, em um contexto de estado de sítio (decorrente da Revolta Paulista de 1924). Nesse momento o nome de Luiz Carlos Prestes e a experiência da chamada Coluna Prestes começaram a circular com mais intensidade em seu horizonte político.
O vínculo orgânico com o PCB se consolidou no ano seguinte, quando, após nova participação nas comemorações de 1º de Maio, recebeu uma ficha de filiação de Abelardo Nogueira (um dos primeiros militantes do Partido e pioneiro da imprensa operária). Poucos dias depois, Leôncio Basbaum tornou-se membro do partido. Com Manuel Karacik e João Celso de Uchôa Cavalcanti, formou a primeira célula comunista da Faculdade de Medicina. Neste mesmo ano, a pedido de Astrojildo Pereira, organizou e ministrou no sindicato dos tecelões, durante três meses, um curso de introdução a O capital – baseado no resumo de Gabriel Deville. Aí já se delineava a articulação entre militância e formação teórica que marcaria sua trajetória.
Em 1927, foi encarregado de construir uma organização juvenil de alcance nacional e passou a integrar a direção do Partido Comunista, com direito a voz e voto, como representante da Juventude Comunista (JC)5. Tornou-se então o primeiro-secretário-geral do Comitê Central da JC, cargo que ocupou até 1929. Suas tarefas incluíam recrutamento de jovens em fábricas, empresas, comércio e escolas, organizando atividades culturais, esportivas e recreativas como forma de politização e propaganda das ideias marxistas; era também responsável por editar o semanário O Jovem Proletário (1927-1928). A JC adquiriu peso numérico e político dentro do PCB.
No início de 1928, sob a vigência da chamada Lei Celerada (que em 1927 limitou a liberdade de imprensa e de reunião no país, visando reprimir o movimento operário e a oposição política), Basbaum foi preso, sem explicações, por alguns dias na sede da polícia6. Ainda este ano, o PCB recebeu convites da Internacional Comunista (IC) para participar do VI Congresso da Internacional Comunista e do V Congresso da Internacional Juvenil Comunista, em Moscou. Na ocasião, foi escolhido como delegado da juventude. Suas lembranças sobre este evento são reveladoras: por um lado, admira a formação teórica dos marxistas europeus; por outro, critica neles a ignorância quase completa sobre a América Latina e sua tendência de transpor mecanicamente esquemas analíticos da Ásia para a realidade latino-americana. No Congresso, presenciado por Stálin, Basbaum relata a emoção ao ouvir a “Internacional” executada sob a regência de Pierre Degeyter, bem como a perplexidade diante da resolução que identificava os social-democratas como principais inimigos, relativizando o perigo do nazismo então em ascensão. Esse contexto internacional moldou a linha obreirista e sectária que mais tarde seria aplicada no Brasil.
Em 1929, Basbaum chefiou a delegação do PCB na I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires, ocasião em que tentou convencer Luiz Carlos Prestes a ingressar no Partido, tentando aproximar o proletariado da pequena burguesia que se engajara nas propostas da Coluna. De volta ao Brasil, expôs suas impressões à direção, inclusive com críticas às posições de Prestes. Porém, as diferenças de avaliação sobre a via revolucionária no país foram superadas pela decisão de incorporar Prestes à liderança partidária a partir de 1930, o que se deu a partir da publicação do Manifesto de Maio no jornal paulistano Diário da Noite (29/05/1930), em que ele criticou Getúlio Vargas, rompendo com o tenentismo e com a Aliança Liberal varguista – além de anunciar uma plataforma socialista (sua efetiva filiação ao PCB ocorreria em 1934).
Durante a década de 1930, como resultado das políticas adotadas após o III Congresso do PCB – que condenou alianças com a social-democracia –, houve um fortalecimento da política obreirista dentro do partido, o que levou ao afastamento de parte importante da primeira geração dirigente, para que fossem privilegiados os operários “autênticos”, em detrimento de intelectuais como Basbaum. Entre prisões – primeiro em 1930, depois em 1932, em São Paulo, com transferência para a Casa de Detenção do Rio e logo para Ilha Grande – e debates internos, sua posição passou a ser criticada como “pequeno-burguesa”. Neste ínterim, em 1931, casou-se com Sílvia Pereira (ex-militante da JC), com quem, no ano seguinte, teve seu primeiro filho, Maurício Leôncio Basbaum.
Em 1933, diante da exigência de uma autocrítica formal, optou por afastar-se do partido. Neste período, chamado em suas memórias de “tempos burgueses” (1933-1942), dedicou ao comércio varejista da família (Lojas Brasileiras) e ao exercício da medicina, ao mesmo tempo que refletia e escrevia sobre sua experiência política. Deste contexto surgiu A caminho da revolução proletária e camponesa – publicado sob o pseudônimo de “Augusto Machado”. Em 1935, nasceu seu segundo filho, Hersch Basbaum.
A partir de 1939, com o endurecimento do Estado Novo varguista, Basbaum voltou a ser preso em razão de sua antiga militância comunista. Em 1943, publicou na Argentina Fundamentos do materialismo histórico (pela Americalee), e em 1944 foi encarregado pela direção do PCB de organizar a Editora Vitória, instrumento importante de formação e propaganda do partido. Após a legalização temporária do PCB em 1945, reassumiu posições de destaque na organização, como na Comissão Nacional de Finanças, ao mesmo tempo em que se afastava da direção cotidiana da editora.
Nos primeiros meses de 1945 morreu seu pai, aos 75 anos. Dias após a perda, recebeu a visita de Diógenes Alves de Arruda Câmara. Arruda lhe confidenciou que Prestes seria liberado dentro de poucos dias e precisavam de um lugar seguro e bastante amplo para alojá-lo por alguns dias, até poder se instalar com a família. Os poucos dias se transformaram em dez meses. Em Uma vida em seis tempos, Basbaum afirma que Prestes sempre foi um hóspede educado, gentil e reservado. Ainda no primeiro semestre de 1945, o PCB obteve uma autorização legal, situação que durou pouco, pois em janeiro de 1947, acusado de receber dinheiro de Moscou, voltou para a ilegalidade.
Nestes tempos, Basbaum já estava reincorporado ao partido, porém sem participar do Comitê Central. A respeito, afirmou que não estava mais disposto a executar tarefas práticas simples, “que qualquer outro camarada pode executar”; que desejava tarefas políticas.
Em 1953, Basbaum, que era proprietário de uma pequena fábrica no Bairro do Brás em São Paulo, estava em uma situação financeira difícil. Desolado com os rumos do PCB, retomou então uma velha ideia que tivera na década de 1930. Passou a estudar sistematicamente História, com o intuito de levar adiante o projeto de escrita da obra que seria intitulada História sincera da República.
Até o ano de 1954, conseguiu concluir o livro em que sistematiza, na perspectiva marxista, uma história do período republicano no Brasil. O primeiro volume foi publicado em 1957, mesmo ano em que foi convidado para uma reunião na casa de Calvino Filho, editor e militante comunista. Na reunião, foi apresentado a Basbaum um projeto de revista marxista e independente do partido. Após algumas reuniões, veio à luz o primeiro número do periódico, com o título Novos Tempos – de sete editados no total.
Em 1958, Basbaum se matriculou em cursos do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), com vistas a ampliar seu conhecimento de Economia Política (tendo por professores Ignácio Rangel e Michel Debrun) e de Sociologia (que cursou com Guerreiro Ramos). Após algum tempo separado da primeira esposa, em 1959 casou-se com Eni Basbaum.
No começo dos anos 1960, redigiu Caminhos brasileiros para o desenvolvimento, livro organizado durante viagem à Europa com a esposa. Escreveu ainda, a partir de anotações de viagem, No estranho país dos Iugoslavos, publicado em 1962. Neste ano, debruçou-se ainda sobre a Filosofia da História e redigiu Processo evolutivo do Brasil – publicado em 1963.
Devido ao golpe de 1964, interrompeu esse seu intenso período de produção intelectual e passou a viver na clandestinidade. Partiu então para um exílio na Europa, onde concluiu, em 1966, História e consciência social.
Leôncio Basbaum morreu em São Paulo, vítima de um derrame, aos 61 anos, em 1969.
2 – Contribuições ao marxismo
A entrada de Leôncio Basbaum no Partido Comunista do Brasil, em 1925, ocorreu antes de que ele pudesse adquirir uma formação marxista sólida. Seu pensamento resultou de correntes múltiplas: de um lado, o marxismo de influência soviética (especialmente Lênin e Bukharin) e, de outro, resquícios de uma cultura intelectual positivista ainda dominante na República Velha. A formação médica também deixou marcas: o interesse pela quantificação social, pelo recurso sistemático a dados estatísticos e por analogias às ciências naturais, o que explica sua constante procura por causalidades mecânicas e regulares nos fenômenos históricos e sociais.
A produção intelectual de Basbaum é vasta e atravessa história, filosofia e política. Entretanto, o núcleo de seu pensamento está em sua concepção de revolução e de estrutura social brasileira, formulada com maior clareza no livro A caminho da revolução operaria e camponesa (1933). Nesta obra, seu marxismo aparece sistematizado como interpretação da sociedade brasileira a partir das relações de produção, das formas de propriedade e da inserção no capitalismo mundial. Para Basbaum, o Brasil é dominado por um bloco “burguês-feudal”, composto por setores agrários e frações burguesas associadas ao Imperialismo, embora reconheça interesses modernizantes da burguesia.
Suas memórias, publicadas postumamente em 1976, decerto trazem uma perspectiva bastante subjetiva, além de algumas situações e debates que soam um tanto inverossímeis. O livro logo tornou-se fonte incontornável para o estudo da vida interna do PCB nas décadas de 1920 e 1930. Apesar de eventuais exageros e do tom ressentido, Basbaum pertence a uma geração que deixou poucas informações do período que atuou. Entre os dirigentes do PCB daquele período, praticamente nenhum nos legou tantos detalhes da luta interna. Isso porque Astrojildo Pereira foi expulso do partido em 1931; Octávio Brandão deixou o Brasil no mesmo ano rumo à União Soviética; e Prestes só ingressou no PCB em 1934, sendo preso no ano seguinte.
As duas obras chaves do pensamento de Basbaum são A caminho da revolução operária e camponesa (1933), pela natureza de verdadeiro documento de uma época, e História sincera da República, pelo pioneirismo. Mas é na primeira em que fica evidente seu marxismo maduro, como fruto das correntes múltiplas que o influenciaram. Basbaum faz parte da pequena comissão de elaboração da estratégia do partido no III Congresso de 1928, ano da viragem da Internacional Comunista (IC), em que a aliança com os social-democratas foi condenada, sendo adotada a linha de proletarização dos quadros dirigentes (obreirismo) e de “classe contra classe”, o que levaria ao abandono das alianças defendidas anteriormente e ao isolamento político. O III Congresso alijou o PCB de uma participação real na Revolução de 1930 e excluiu do partido o grupo dirigente fundador, em acordo com o Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista (SSA-IC).
Em 1929, o recém-formado SSA-IC lançou a “Carta aberta aos Partidos Comunistas da América Latina sobre os perigos da direita”, aprovado pelo PCB em seguida. Astrojildo Pereira estava em Moscou, e o líder interino do partido era Cristiano Cordeiro. Em abril de 1929, assumiu Paulo de Lacerda, intelectual fluminense e irmão de Fernando e do deputado Maurício de Lacerda. Paulo seria logo substituído por uma direção coletiva em que estavam seu irmão Fernando e Leôncio Basbaum. Portanto, Basbaum estava fortemente imbuído da linha obreirista da IC, e não por acaso usa em seu livro a expressão “social-fascismo”; isso explica sua sobrevivência no partido alguns anos mais do que seus companheiros da primeira geração pecebista.
Até 1928 o PCB buscou contatos com a pequena burguesia representada pelos tenentes e apoiou a “terceira revolta” – a primeira fora a dos Dezoito do Forte de Copacabana, e a segunda a Revolução Paulista de 1924 (à qual se seguiu a Coluna Prestes-Miguel Costa).
Com a queda do grupo dirigente de 1928-1930, aquela linha foi criticada e a nova direção foi assistida pela SSA-IC. É nesse contexto que Basbaum tentou incidir no debate procurando oferecer ao partido uma estratégia de revolução, quando essa elaboração já estava pronta na Internacional Comunista. Evidentemente, Basbaum tentava adaptar a sua aos documentos enviados pelo Birô Sul-Americano.
Para ele, a classe dominante é um bloco burguês e feudal; à burguesia importa integrar o território e expandir o mercado interno por transporte e melhorias na agricultura, porém ela teme mais as massas do que os latifúndios, e assim evita a revolução. Por fim, entende que o bloco feudal-burguês é subordinado aos capitais inglês, francês e estadunidense.
O bloco feudal-burguês se dividia em grandes cafeicultores paulistas ligados ao imperialismo britânico, estancieiros gaúchos, fazendeiros de café mineiros e outros grupos sociais ligados ao imperialismo dos Estados Unidos. A expressão das divergências internas ao bloco era o preço do café.
O Partido Republicano Paulista (PRP) controlava o instituto do café e defendia a alta; o Partido Republicano Mineiro (PRM) protestou contra essa política. Basbaum não conseguiu encaixar em seu esquema o Partido Democrático (PD), aliado a Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. A “outubrada” (referência à denominada Revolução de 1930, movimento que derrubou o presidente Washington Luís, pôs fim à República Velha e instalou Getúlio Vargas no poder), foi para ele um golpe militar entre outros.
Segundo os números de Basbaum, podemos inferir que embora o peso bruto das exportações de café tivesse subido 10,85% entre 1927 e 1931, isto não impediu que o valor exportado pelo Brasil tivesse caído 44,26%. É a partir desta crise, inserida no universo da principal produção do país, que ele deriva sua análise das classes sociais brasileiras.
O estudo de Basbaum é uma aplicação do materialismo histórico à realidade brasileira – embora ele compreenda os grupos sociais como meros fantoches de dois imperialismos em disputa, o inglês e o estadunidense.
Apesar de seu método evolucionista e mecânico (em que as partes compõem um mecanismo e não uma totalidade, as antíteses são de universais abstratos, os grupos políticos não incidem na História senão por acaso), Basbaum surpreende exatamente num tema em que o marxismo conhecido por ele não estava desenvolvido: o problema étnico. Sem referências de conceitos apriorísticos, ele se vê forçado a usar a imaginação sociológica. Para ele, no “Brasil não há apenas o choque das classes – há também o das raças e das nacionalidades”7.
Na perspectiva materialista histórica de Basbaum – que desafia a teoria do determinismo biológico das elites intelectuais do início do século XX –, as desigualdades e a marginalização da população indígena e negra brasileira derivavam historicamente da exploração econômica, do regime escravocrata e do desenvolvimento do capitalismo dependente no Brasil, e não de supostas “deficiências raciais”8.
Embora Basbaum siga as propostas da IC sobre o problema nacional, ele vai além: consegue captar a metodologia de maneira criativa e conclui que o problema do racismo, assim como o das nações oprimidas, não pode ser simplesmente resolvido depois de uma revolução socialista; que mesmo se houvesse um poder soviético no Brasil ele não emanciparia negros e indígenas por decreto. Basbaum percebe que aqueles que mais sofrem preconceito são os pretos e os pardos escuros, e que São Paulo é uma cidade de acentuado racismo. Por exemplo: os praças são excluídos da guarda de honra de autoridades estrangeiras visitantes, não podem frequentar certas barbearias e cafés; o negro não pode ser garçom, barbeiro, caixeiro, e ganha menos por trabalho igual (sendo 40% do proletariado composto de negros e pardos). Da mesma forma, também defende a religiosidade de origem africana. “Alega-se a inferioridade do negro: é preguiçoso, insolente e analfabeto; os negros não têm cultura própria nem pensamento próprio!” – pondera ele, para concluir que “não há maior mentira”. Em outra passagem, comenta que “até a religião do negro é fora da lei”, pois “o branco acha que a religião do negro é feitiçaria”, que “macumba não é religião, mas crime e bruxaria, porque tem certos ritos que os brancos não compreendem”9.
Basbaum propugnava a autodeterminação do negro, mas era radicalmente contra o movimento negro da época (Frente Negra Brasileira), no qual identificava semelhanças com as ideias de Marcus Garvey10. Quanto ao indígena sua postura não podia ser mais insólita para a época: “mais ainda que a raça negra, o seu ideal é a autodeterminação, a constituição em Estado independente, o direito de habitar e cultivar a terra que lhe seja própria, vivendo de acordo com seus credos e costumes”.11 Dessa forma, para Basbaum, só o proletariado poderia ajudar os indígenas nessa luta.
Depois dessa incursão original, o marxismo de Basbaum se estabilizou na forma do marxismo-leninismo soviético. Acompanhando outros de sua geração, como Caio Prado Júnior, Eduardo Sucupira e Nelson Werneck Sodré, ele se aprofundou na filosofia. No final dos anos 1950, quando saiu do PCB (após o Congresso do PCUS de 1956 e a “Declaração de março de 1958”), fez sua obra mais influente: o supracitado livro que foi inspirado em Histoire sincère de la nation française [História sincera da França] (1933), de Charles Seignobos, autor francês bastante lido no Brasil durante a Primeira República (1889-1930). Nele, Basbaum se remete ao ponto de vista metodológico de Stálin – em obras como Problemas econômicos da União Soviética (1952), Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico (1938) e Marxismo e problemas da Linguística (1950) –, além de Zhdanov, teórico do realismo socialista e do próprio pensamento de Marx. Dentre os autores brasileiros, Caio Prado Junior é citado.
História sincera da República foi escrita em processo de franca ruptura pessoal de Basbaum com o PCB – processo que vai de 1954 a 1956. Obra irregular, com dados econômicos e exposição factual a partir de outros historiadores, de memórias, de jornais e revistas, ainda assim cumpriu um papel importante na historiografia – consolidando o autor no rol dos grandes historiadores marxistas brasileiros.
Antes dele a República fora objeto de uma síntese que combinava aspectos sociais, econômicos e políticos. José Maria Bello e Sertório de Castro eram dos poucos autores de narrativas muito bem escritas acerca da vida política da República; Nelson Werneck Sodré forneceu um marco interpretativo da História brasileira, com enquadramento mais amplo. E depois de Basbaum, adveio a obra mais importante sobre a República, feita por outro marxista: Edgard Carone.
Nos anos 1970, durante o período mais violento da ditadura militar, História sincera da República serviria como texto de formação política para a juventude da oposição oficial (MDB), permitindo que os militantes se esquivassem da censura e tivessem contato com a visão crítica de Basbaum acerca da História do Brasil. Materiais educativos, como cartilhas e panfletos, com base em sua obra, foram distribuídos clandestinamente aos jovens, como forma de romper com a “História Oficial” ufanista12.
3 – Comentário sobre a obra
Leôncio Basbaum não foi apenas um militante que ocasionalmente escrevia, mas um intelectual orgânico cuja produção acompanha e interpreta as vicissitudes do movimento comunista nacional e internacional. Seus textos são abrangentes e articulam três campos do conhecimento: História, Filosofia e Política. Suas obras não surgem como exercício acadêmico “puro”, mas como prolongamento reflexivo da militância, da experiência organizativa e das sucessivas derrotas e reorientações do PCB ao longo de quatro décadas.
A caminho da revolução operária e camponesa (Rio de Janeiro: Editora Calvino, 1933), foi escrito no calor dos debates internos do PCB e assinado sob o pseudônimo Augusto Machado, o livro é um verdadeiro documento de época. Na obra, Basbaum busca formular uma estratégia revolucionária para o Brasil, articulando a análise da estrutura de classes, da dependência externa e das possibilidades de aliança entre proletariado, campesinato e setores da burguesia. É também um testemunho da influência direta da Internacional Comunista e do chamado marxismo-leninismo em sua forma mais dogmática, ainda que com importantes elementos de originalidade.
Com ação militante significativa nos anos seguintes, uma década depois vem a público o livro Los fundamentos del materialismo: introducción al estudio de la historia de la filosofía (Buenos Aires: Americalee, 1943). Originalmente publicado na Argentina, no ano seguinte, o livro saiu também no Brasil: Fundamentos do materialismo (Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1944). Nele, Basbaum sistematiza elementos de filosofia marxista, com forte inspiração no marxismo soviético de então. Voltado à formação de quadros militantes, trata-se de uma tentativa de expor, em linguagem acessível, as bases do materialismo histórico e do método dialético. Em 1944/1945, a obra ganhou outra edição brasileira pela Pan-America S/A (EPASA). E em 1959 o livro foi reeditado com o título Sociologia do materialismo: introdução à história da filosofia (São Paulo: Obelisco).
Sua obra mais conhecida, História sincera da República (São Paulo: Fulgor), foi publicada em quatro volumes, sendo o primeiro de 1957, o segundo de 1958 e os dois últimos de 1962. Nela, propõe uma síntese marxista da história da República, articulando dimensões econômicas, sociais e políticas. No intuito de desmistificar a narrativa oficial das classes dominantes, analisa o protagonismo da luta de classes, dos conflitos econômicos e da dependência externa brasileira. Embora irregular e baseada em fontes secundárias, memórias, jornais e revistas, o livro preencheu um vazio interpretativo em sua época: antes de Basbaum, a República raramente tinha sido objeto de sínteses orgânicas que combinassem economia, sociedade e política. A obra teve impacto importante até ser “superada” em termos de documentação e detalhamento por trabalhos posteriores, como os de Edgard Carone.
Outra obra de análise da sociedade brasileira é Caminhos brasileiros do desenvolvimento (São Paulo: Fulgor, 1960). O texto foi redigido ao longo dos anos 1950 e articula sociologia histórica e economia política, examinando as vias possíveis de desenvolvimento capitalista no Brasil. Reflete o impacto de debates travados no ISEB e a influência de autores como Inácio Rangel e Guerreiro Ramos, com quem Basbaum teve contato ao frequentar cursos do Instituto.
Como resultado de anotações sobre uma viagem que fizera com a esposa, Basbaum publica No estranho país dos iugoslavos (São Paulo: Edaglit, 1962), livro que traz um relato da andança e reflexões políticas sobre a experiência iugoslava, registrando o olhar de um marxista formado nos moldes soviéticos diante de um modelo socialista “heterodoxo” – o que indica tentativas de diálogo com outras experiências e caminhos do socialismo.
Já afastado do PCB, ao longo dos anos 1960 Basbaum publica Processo evolutivo da História: apontamentos críticos à filosofia da história e à sociologia (São Paulo: Edaglit, 1963), síntese de filosofia da história aplicada ao caso brasileiro, em que busca compreender a formação histórica do país numa perspectiva evolutiva, articulando economia, política, classes sociais e problemas nacionais.
Pouco depois, publica História e consciência social: das conexões entre a psicologia, a sociologia e a história (São Paulo: Fulgor, 1967), no qual trata da formação da consciência e do comportamento das massas, investigando como a psicologia coletiva pode influenciar o rumo dos eventos históricos.
Desse mesmo ano é também o livro Alienação e humanismo (São Paulo: [s.n], 1967), em que o marxista apresenta uma reflexão filosófica sobre a condição humana no capitalismo, na qual reaparece a preocupação com categorias como alienação, trabalho, humanismo e emancipação.
Com a morte prematura em 1969, seu livro memorialístico, Uma vida em seis tempos: memórias, sairia postumamente, em 1976 (São Paulo: Alfa-Omega). Obra organizada de acordo com os “tempos” de sua vida – desde o “tempo dos sonhos” (infância e juventude, antes da entrada no PCB) até o “tempo da afirmação como escritor” –, constitui fonte de primeira ordem para o estudo da vida interna do Partido Comunista, especialmente nas décadas de 1920 e 1930. Para além de uma autobiografia, o livro é um testemunho histórico e crítico que revela vários conflitos internos vividos à época pelo PCB. O tom ressentido e a tendência do autor de sobrevalorizar sua própria atuação na história partidária não diminuem o valor documental da obra, sobretudo dada a escassez de relatos assim detalhados deixados por dirigentes e militantes daquela primeira geração.
A essas obras, somam-se ainda inúmeros artigos, panfletos, colaborações em jornais e participação na revista Novos Tempos, de orientação marxista e independente do PCB, que chegou a publicar sete números. Seus escritos podem ser encontrados na rede em portais como: Traduagindo (https://traduagindo.com); e Marxists (www.marxists.org).
4 – Bibliografia de referência
ALVES JUNIOR. Paulo. Anais do XXX Simpósio Nacional de História – ANPUH. Recife, jul. 2019.
BASBAUM, Hersch W. Cartas ao Comitê Central: história sincera de um sonhador. São Paulo: Discurso Editorial, 1999.
FARIA, Helena. “Basbaum, Leôncio. Em: CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, [s.d.]. Disp.: https://cpdoc.fgv.br.
LOVATO, Angelica. “Seis tempos de uma vida: apontamentos sobre a biografia política de Leoncio Basbaum”. Novos Rumos, Marília/SP, jun. 2016. Disp.: https://revistas.marilia.unesp.br.
JESUS, Geferson Santana de. Os intelectuais comunistas e as questões raciais no Brasil. Tese (Doutorado em História Econômica), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. Disp.: https://teses.usp.br.
KAREPOVS, Dainis. “A nação e a juventude comunista do Brasil”. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, jul. 2011.
MARASCHIN, Hudson. A juventude do MDB (JMDB): entre a resistência e a consolidação institucional (1974-1979/1982). Tese (Doutorado em História), Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2023. Disp.: udesc.br.
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. “Caminhos da Revolução (1929-1935)”. Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1995.
SILVA, Gilberto da. “História sincera da República: Leôncio Basbaum, um intérprete do Brasil na periferia do PCB”. Em: Simpósio Nacional de História – Anais ANPUH, Recife, 2019. Disp.: https://www.snh2019.anpuh.org.
SILVA, Renan Somogyi Rodrigues da. “Basbaum, Leôncio”. Em: Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Buenos Aires: Cedinci, 2022. Disp.: https://diccionario.cedinci.org.
Notas editoriais
* Lincoln Secco é professor de História da Universidade de São Paulo. É bacharel e licenciado em História (USP); mestre e doutor em História Econômica pela mesma instituição; investigador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (Trabalho, Instituições e Mercado). Autor de, entre outras obras: História do PT (Ateliê, 2018); e Caio Prado Júnior: o sentido da Revolução (Boitempo, 2008).
* Paulo Alves Junior é professor de História do Instituto de Humanidades e Letras na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Malês/BA). É historiador e mestre em História Social pela PUC-SP, doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista, e coordenador do Núcleo Práxis-USP. Autor de, entre outras obras: Um intelectual na trincheira: José Honório Rodrigues, intérprete do Brasil (Dialética, 2021).
* Com edição de texto de Yuri Martins-Fontes e Joana Coutinho, e ilustração de Felipe Santos Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis-USP, sendo um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões são bem-vindas: editoria@nucleopraxisusp.org.
1 BASBAUM (1976).
2 FARIA [s.d.].
3 As informações pessoais estão em suas memórias já citadas e no texto biográfico de seu filho: BASBAUM, Hersch (1999).
4 BASBAUM (1976).
5 KAREPOVS (2011).
6 Decretada durante a presidência de Washington Luís, esta lei permitia ao governo fechar agremiações, sindicatos e clubes que convocassem greves, além de proibir a propaganda de greves e manifestações, e de colocar o Partido Comunista na ilegalidade.
7 BASBAUM(1933).
8 JESUS (2024).
9 BASBAUM (1933).
10 Cabe lembrar que o líder negro conservador jamaicano Marcus Garvey (1887-1940) opunha-se à militância conjunta de trabalhadores brancos e negros, defendendo uma luta separada.
11 BASBAUM (1933).
12 MARASCHIN (2023).