ANTI-LUBBOCK: AS “NEGAÇÕES” DO VELHO MOURO CONTRA O BARÃO DE AVEBURY


Por Gustavo Velloso*

Resumo

O artigo procura contribuir para o conhecimento e a difusão do conteúdo e das ideias contidas nos assim chamados “Cadernos Etnológicos” de Karl Marx, que apenas nos últimos anos se tornaram objeto de atenção por parte de alguns antropólogos e historiadores brasileiros. O leitor encontrará nas páginas que seguem tanto uma apresentação panorâmica quanto uma interpretação circunstanciada das anotações marxianas sobre a obra-prima de um dos mais notáveis e conhecidos homens eruditos de sua época: o banqueiro e cientista britânico John Lubbock. Expressivas de um momento em que a disciplina antropológica dava os primeiros passos rumo à consolidação de sua autonomia frente aos estudos históricos e às ciências naturais, as notas de Marx sobre Lubbock (produzidas em 1882) apontam para os limites da razão evolucionista então vigente e sugerem, direta ou indiretamente, uma consciência concreta e transformadora sobre a historicidade das formações sociais não capitalistas.


Palavras-chave: John Lubbock ; Karl Marx ; Cadernos Etnológicos.

Eu comprarei convosco, venderei convosco, falarei convosco, passearei convosco, e por aí adiante, mas não comerei convosco, nem beberei, nem rezarei convosco.

(William Shakespeare, 1598)

… esta que chamam necessidade em qualquer lugar se usa e por tudo se estende e a todos alcança, e nem sequer aos encantados perdoa.

(Miguel de Cervantes, 1615)

Em outubro de 1882, o pensador e revolucionário alemão Karl Marx encontrava-se na sua casa, em Londres, dividido entre dramas familiares e diferentes afazeres de ordem prática e teórica, muitos dos quais permaneceriam inacabados com o seu falecimento, no ano seguinte1. Entre os trabalhos inconclusos, dos quais a preparação dos Livros 2 e 3 de O capital para a publicação é de longe o mais conhecido, dedicava-se o autor, desde 1879, à leitura e revisão de obras cujos conteúdos podemos hoje classificar como etnológicos ou, de maneira mais genérica (e com uma pequena dose de anacronismo, considerando-se o estágio ainda incipiente da disciplina na década de 1880), antropológicos. Tratava-se de livros escritos por historiadores, juristas e filantropos a respeito de sociedades não capitalistas de distintos continentes, tanto no passado quanto no presente do tempo em que foram escritos.

Seguindo o método de estudos adquirido durante sua formação universitária na década de 18302, Marx preenchera cadernos nos quais copiava excertos selecionados dos livros por ele estudados (mantendo o idioma original desses textos, no caso aqui analisado, o inglês) e inscrevia sobre eles notas marginais contendo os seus próprios comentários críticos (geralmente em alemão, mas algumas vezes mesclando palavras, trechos e expressões em outras línguas). Lawrence Krader reuniu parte dessas anotações marxianas (mais especificamente as que têm como objeto as obras de Lewis Henry Morgan, John Budd Phear, Henry Sumner Maine e John Lubbock) e publicou-as com o título de “Ethnological Notebooks” (KRADER, 1972), mas eles, todavia, não constituem a integralidade do material existente3. A compilação de Krader foi tomada como base para as repetidas edições posteriores: segunda edição de língua inglesa em 1974 (KRADER, 1974), tradução para o alemão em 1976 (KRADER, 1976), para o espanhol em 1988 (KRADER, 1988), e também foi incluída nas duas edições de uma coletânea publicada recentemente na Bolívia (MARX, 2009 e MARX, 2015)4.

Desses excertos, aqueles sobre os quais os estudiosos da obra de Marx5 menos voltaram sua atenção, até agora, são os que se referem aos escritos de John Lubbock (1834-1913), que Marx produzira apenas quatro meses antes de sua morte (KRADER, 1973; MUSTO, 2018). O próprio Krader não dedicou mais que duas páginas ao comentário dessas notas. Como veremos, todavia, um olhar detido sobre esses papéis se justifica não somente pela originalidade da iniciativa, mas também pelo conteúdo que eles trazem e pelo que a figura de John Lubbock representava social, política e ideologicamente em sua época.

As notas marxianas sobre Lubbock dividem-se em dois cadernos, cujos originais encontram-se guardados no arquivo do International Institute of Social History, em Amsterdam6. Ambos (B168 e J50) possuem trechos copiados por Marx (o primeiro de oito páginas, o segundo com duas), adicionadas as suas próprias intervenções, do livro The origin of civilization and the primitive condition of man (1870), de Lubbock. Ainda que tais notas não preencham mais do que cinco folhas dos cadernos marxianos, é nelas que encontramos as intervenções mais incisivas e ácidas do autor sobre os excertos copiados, o que nos permite compreender com relativa clareza as suas ideias em relação às obras anotadas e ao universo das formações sociais não capitalistas.

“¡Filisteo de ancha vista!”

Pode-se dizer que Lubbock, o interlocutor de Marx, enquadrava-se com perfeição no modelo clássico do homem burguês da Belle Époque. Sujeito de convicções liberais e portador de uma cadeira no Parlamento, possuía títulos de prestígio e ainda contava com a riqueza própria de um dos banqueiros mais abastados da Grã-Bretanha, a potência imperialista hegemônica durante o século XIX.

Nascido em 1834, em Londres, filho do banqueiro John William Lubbock (3rd Baronet, proprietário do Lubbock & Co. Bank, que após várias fusões originaria o atual Royal Bank of Scotland Group PLC), John Lubbock passou a frequentar o banco de seu pai em 1849, antes de completar 15 anos. Tornou-se sócio do mesmo banco aos 22, quando regressou do Eton College, onde vinha realizando os seus estudos iniciais desde 1845. Em 1865, herdou o título paterno de baronete, tornando-se o 4th Baronet, com o qual permaneceu até 1900, quando elevou-se à categoria de 1st Baron Avebury. Eleito, como membro do Partido Liberal, para o Parlamento Britânico em 1870 e 1874, contribuiu para a aprovação de diferentes medidas econômicas, como o Bank Holidays Act (1871), o Bills of Exchange Act (1882) e o Shop Hours Act (1889). Em 1879, foi designado para o cargo de primeiro presidente do Institute of Bankers (atual London Institute of Banking & Finance). Sujeito de negócios em meio à grande “era de ouro do crescimento capitalista”, beneficiou-se do extraordinário ritmo de crescimento das exportações inglesas e do aumento dos preços das mercadorias nacionais a partir de 1850 (HOBSBAWM, 1977).

Na década de 1860, Lubbock passou a projetar-se para além do lugar político e econômico que ocupava na sociedade britânica, aventurando-se com sucesso no campo das ciências com pesquisas cujos resultados passaram a receber razoável publicidade, naquele momento. Foram os seus dois primeiros livros, “Pre-historic Times” (1865) e “The Origin of Civilization and the Primitive Condition of Man” (1870), que lhe garantiram o prestígio científico e a consagração como homem ilustrado em toda a Europa7. E foi sob essa condição que chegou a ocupar altas posições acadêmicas, como as de vice chancellor da University of London entre 1872 e 1880, e membro do Parliament da mesma instituição entre 1880 e 1900. Incorporando seus interesses científicos e culturais na sua prática política, foi também o propositor do Ancient Monuments Protection Act, em 18828. Isso tudo era absolutamente coerente com o momento histórico vivido, no qual “o triunfo da sociedade burguesa parecia congênito à ciência” (HOBSBAWM, 1977).

Lubbock situava-se numa tradição de estudiosos (como J. Bachofen, L. Morgan e J. F. McLennan) que procuravam explicar as fases iniciais de organização social da espécie humana a partir de considerações sobre as formas originárias de família.

Friedrich Engels, no prefácio à quarta edição (1891) de “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” (1884), sintetizou o conteúdo dessa tradição e situou Lubbock como um seguidor parcial de McLennan. No seu entender, Bachofen teria sido o responsável pela inauguração dos estudos sobre a “história da família”, mas a sua abordagem tenderia a ver as transformações na organização familiar como meros reflexos do campo da religião. Já McLennan teria descoberto a importância da exogamia e do parentesco transmitido por direito materno, mas a sua análise tornava-se artificial à medida que submetia realidades dinâmicas a princípios jurídicos fixos. Lubbock, por sua vez, teria aceitado sem críticas o pressuposto de McLennan (um “evangelho indiscutível” para todos os estudiosos do período, segundo a irônica expressão engelsiana) de que haveria uma oposição fundamental e absoluta entre as práticas de endogamia e exogamia nas formações sociais não capitalistas; porém, ao demonstrarem empiricamente a existência de formas coletivas de matrimônio, seus livros forneceriam dados suficientes para a superação dessa “antítese” criada por McLennan, que ademais concebia a poligamia, a poliandria e a monogamia como os únicos regimes matrimoniais possíveis em qualquer situação. Somente a posterior demonstração de Morgan sobre a existência e a ampla disseminação dos regimes de casamento por grupos parecia-lhe (ou seja, a Engels) elevar o conhecimento científico da questão a um novo patamar (ENGELS, 2016).

Em “Pre-historic Times”, Lubbock reuniu ensaios que apresentavam uma perspectiva arqueológica e etnológica cruzada, onde o esforço de classificação das épocas pré-históricas baseava-se na comparação dos vestígios materiais do passado com os elementos societários observados nas agrupações aborígenes contemporâneas do autor, nomeadas por ele de “modern savages” (LUBBOCK, 1865)9. Supunha-se, sob a chave evolucionista dominante no período, que os padrões de transformação verificados nos grupos considerados “primitivos” do presente (século XIX) dariam luz ao conhecimento dos processos antigos de origem e desenvolvimento da “civilização”. Com essa abordagem, rejeitando por completo a cronologia bíblica da história humana, Lubbock se tornaria logo o principal representante da corrente evolucionista na Inglaterra, absorvendo diretamente as influências dos trabalhos de Charles Darwin, de quem, aliás, era vizinho e amigo próximo (KRADER, 1988).

É possível que essa proximidade teórica e social entre Darwin e Lubbock tenha exercido alguma influência para que Karl Marx (outro admirador profundo da teoria de Darwin) se visse incentivado a dedicar-se à leitura de um livro escrito por aquele alto representante liberal do capitalismo britânico. Foi sobre o segundo livro de Lubbock que Marx se debruçou e produziu as suas anotações. Pode-se dizer que “The Origin of Civilization and the Primitive Condition of Man” foi concebido como uma espécie de continuidade do primeiro livro, pois aprofundava suas análises e exposições, adicionando informações e elementos empíricos inéditos à perspectiva evolucionista já anteriormente adotada. O evolucionismo do autor, contudo, havia se consolidado e podia ser apresentado, agora, de maneira mais direta, o que fica expresso na máxima final de seu trabalho, segundo a qual “a história passada do homem foi, no geral, a história do progresso, e que, ansiosos pelo futuro, somos justificados a realizá-lo com confiança e esperança” (LUBBOCK, 1870)10. Tratava-se de uma nítida expressão de segurança e orgulho em relação aos aparentes sucessos da sociedade burguesa no terceiro quartel do século XIX, anos decisivos do período histórico que seria depois compreendido como a “Era do Capital” (HOBSBAWM, 1977). Como veremos, esse aspecto não passaria despercebido ou incólume à leitura e aos julgamentos de Karl Marx.

“¡Grande, supremo Lubb!” – I

A primeira edição do livro de Lubbock se divide em nove capítulos e um apêndice. Enquanto o primeiro capítulo possui caráter introdutório (no qual o autor realiza considerações sobre o seu objeto, somando a elas algumas “curiosidades”) e o apêndice é de ordem conclusiva (nele, em diálogo crítico com outros autores, Lubbock faz um balanço do alcance e dos limites que os resultados do livro possibilitam à ciência em geral), os demais capítulos apresentam-se em tópicos intitulados, respectivamente: “Art and ornaments” (capítulo 2), “Marriage and Relationship” (capítulo 3), “Religion” (capítulos 4, 5 e 6), “Character and Morals” (capítulo 7), “Language” (capítulo 8) e “Laws” (capítulo 9)11.

A leitura dos cadernos leva a crer que Marx leu a obra do banqueiro britânico em sua integralidade, considerando-se que a localização dos trechos copiados, ou apenas citados pelo pensador alemão, encontram-se espalhadas por todo o livro original. Todavia, o interesse de Marx incidiu mais diretamente sobre as questões referentes à organização familiar, ao desenvolvimento das concepções religiosas e aos mecanismos de transmissão de bens dos povos não capitalistas. Esses três eixos formam os pilares da estrutura geral das notas sobre Lubbock. Nelas, Marx parte de considerações sobre o parentesco estruturado sobre a linha feminina para, então, problematizar os pressupostos contidos nas hipóteses de Lubbock sobre a história das religiões e, ao final, registrar os mecanismos jurídicos de transmissão de poder e herança, bem como os sistemas de mediação de conflitos, verificados pelo seu interlocutor nas sociedades indígenas. Sem a pretensão de resolver as lacunas que marcam as notas de Marx e apresentar o seu conteúdo como um todo coerente, o que de fato não encontramos ali, vejamos sumariamente a que se referiam os excertos de Lubbock escolhidos por Marx, bem como quais foram as intervenções críticas que foram feitas sobre eles.

“¡Grande, supremo Lubb!” – II

Ao todo, Marx realizou 39 intervenções sobre os trechos selecionados, dos quais: 7 são sinais exclamatórios de teor irônico (“!”) que demonstram o desacordo de Marx com o conteúdo dos trechos onde foram inseridos; 5 são especificações de caráter textual, pelos quais Marx esclarece quais seriam os sujeitos a que se referem os predicados de algumas frases incompletas ou ambíguas; 11 são correções ou manifestações de divergências interpretativas entre ele e Lubbock; 6 são remissões externas a obras ou exemplos adicionais sobre o tema tratado nos respectivos excertos; e 10 se resumem a outras ironias e expressões depreciativas que Marx lança ao seu opositor.

A – Primeiro eixo: o parentesco estruturado sobre linha feminina:

As primeiras anotações marxianas se referem à adesão de Lubbock a uma tese de McLennan e Bachofen, que, ao contrário de Henry S. Maine (outro autor analisado por Marx em seus cadernos), postularam que “el parentesco por línea femenina es una costumbre general entre las comunidades salvajes del mundo entero” (MARX, 1988). McLennan, seguido por Lubbock, teria classificado o progresso das formas primitivas de organização da família com base no seguinte esquema evolutivo:

heterismo (matrimônios coletivos ou sistema de prostituição vigente na antiguidade clássica);

poliandria (costume de as mulheres se casarem simultaneamente com vários homens);

levirato (costume de um homem casar-se com a viúva de seu irmão);

endogamia vs. exogamia (proibição do casamento entre membros de diferentes clãs vs. proibição do casamento entre membros de um mesmo clã, fundamentada no infanticídio e no rapto); sistema de filiação feminina.

Marx (como depois Engels, como já o dissemos) reprovou a Lubbock tanto pela aceitação de uma separação absoluta entre endogamia e exogamia (embora tenha apresentado exemplos empíricos de convivência desses dois regimes, e isso Marx destaca com um irônico e sugestivo ponto de exclamação interpolado em um dos trechos transcritos) quanto por reproduzir a confusão, criada por Bachofen e McLennan em seus escritos, entre formas de matrimônio comunitário e “heterismo”:

y Lubb dice en la p. 70 que se cree esta estupidez, o sea, que identifica matrimonio comunitario con heterismo, cuando evidentemente el heterismo es una forma que presupone la prostitución (y ésta sólo existe por oposición al matrimonio, sea comunitario, etc. o monógamo). Se trata por consiguiente de un hysteron proteron <anacronismo> (MARX, 1988)12.

Em seguida, Lubbock afirmou se contrapor a McLennan, defendendo que “la exogamia procede del matrimonio por rapto” – e não o contrário –, tornou-se alvo de uma ácida acusação de ignorância, vinda de Marx: “O sea que Lubb no sabe nada de la base: la gens, que existe dentro de la tribu; tan poco como McLennan, pese a citar algunos datos que le pasan la cosa por las narices y de hecho se las irritaron un poco” (MARX, 1988). Além disso, onde o escritor inglês declarava-se “el primero en apreciar su importancia” [da associação entre matrimônio e rapto, feita por McLennan], Marx respondera com um novo sinal exclamatório e um elogio provido de alta dose de sarcasmo: “¡Grande, supremo Lubb!” (MARX, 1988).

Marx reproduz ainda em seus cadernos uma série de exemplos mencionados por Lubbock sobre sociedades (no continente africano em seu conjunto, bem como em regiões da Índia, Oceania, entre os lócrios e os etruscos da Antiguidade e – na América – no México e no Haiti) em que a sucessão da chefatura se daria por linhagem feminina, mas reprova o autor comentado por descrever essa prática com qualificativos como “curiosa”, “natural” e “extraordinária”, dando a entender que esses termos demonstravam a incapacidade de Lubbock para compreender de maneira histórica aquele fenômeno.

Adiante, em um trecho no qual Lubbock explicava a sucessão feminina por uma suposta “segurança” de que o herdeiro faria parte de fato da linhagem de um chefe, o pensador alemão intervém com a exclamação: “¡pragmatización!”, ao que se juntam, ainda, outras duas reparações: em primeiro lugar, quando Lubbock se utilizou da expressão “raças inferiores” numa assertiva sobre o fato de os “herdeiros de um homem” serem não seus próprios filhos, mas os de suas irmãs, Marx contra atacou com o parecer de que “pero es que no se trata de los herederos de un hombre; estos borricos civilizados son incapaces de desprenderse de sus propios convencionalismos” (MARX, 1988, grifos meus). Em seguida, na remissão de Lubbock ao relato do explorador francês René Callié (1799-1838) sobre a África central, em que se fala na “segurança” garantida pelo sistema de transmissão por via feminina, Marx questiona “si no es Callié [sic] sino los mismos africanos quienes dieron esta explicación, [lo que] demuestra que la sucesión por línea femenina ya sólo seguía en vigor para los altos funcionarios (jefes) e incluso ellos habían olvidado ya la razón” (MARX, 1988).

Em resumo, pode-se dizer que as interferências marxianas referentes ao primeiro eixo temático demonstram o desagrado do autor frente à maneira mistificadora de interpretação das sociedades humanas com base em categorias e esquemas de explicação pré-estabelecidos, derivados antes das formulações mentais e abstratas do analista do que pela busca de uma compreensão concreta (como síntese de múltiplas determinações) da realidade social. No caso de Lubbock, essa espécie de “idealismo” se expressaria tanto na adesão desmedida do autor a esquemas interpretativos conflitantes com o material empírico exposto em sua obra quanto com a postura arrogante de um homem que, apesar de atribuir o pioneirismo científico para si, como um “burro civilizado” não conseguiria compreender as dinâmicas sociais próprias das formações não capitalistas, projetando sobre elas os valores e as situações características da sociedade burguesa.

B – Segundo eixo: o desenvolvimento das concepções religiosas:

Outro trecho do livro de Lubbock que Marx escolheu reproduzir foi o da classificação da história das religiões em determinados “estágios” evolutivos, a saber:

ateísmo (inexistência de qualquer noção de matéria); fetichismo (pressão do homem para que a deidade cumpra os seus desejos); totemismo (adoração de objetos naturais); xamanismo (distanciamento entre a divindade e os seres humanos); idolatria ou antropomorfismo (deuses adquirindo imagem humana); divindade convertida em ser sobrenatural; religião (associada à moral).

Com relação ao penúltimo estágio, Marx registra uma discordância pontual em relação à leitura de Lubbock. Para o alemão, não se trataria apenas de uma conversão da divindade em entidade sobrenatural, mas do surgimento de um novo sistema de raciocínio mental; em suas palavras, “una cavilación de la mente”. E vai além. Radicalizando a sua denúncia, Marx acusa Lubbock de desconhecer a “superioridade” do raciocínio selvagem em comparação à mentalidade dos mais devotados europeus. Alguns dos exemplos mobilizados por Lubbock para ilustrar os referidos “estágios” foram transcritos por Marx e se referem a povos da Sumatra, Índia, Sibéria, indígenas norte-americanos e africanos. O autor alemão se mostrou particularmente interessado no exemplo dos índios californianos “y su incredulidad e igualdad, etc.” (MARX, 1988), que haviam sido descritos por Lubbock como “freethinkers and materialists” (“livres pensadores e materialistas”) (LUBBOCK, 1870). Logo, voltando-se contra o tom paternalista que Lubbock e uma de suas fontes de informação adotaram ao apontar uma suposta “incompreensão” de certos grupos africanos sobre a existência de Deus, Marx exclamou ironicamente: “¡pobrecitos!” (MARX, 1988).

Mais à frente, após reproduzir uma citação lubbockiana de parte das Sabedorias de Salomão sobre as origens da idolatria, Marx registrou em seu caderno um costume verificado na Índia pelo missionário francês Jean-Antoine Dubois (1765-1848), segundo o qual os brâmanes acorrentavam os seus próprios ídolos quando as arrecadações populares atingissem uma quantia abaixo do esperado, e libertavam a deidade somente quando o povo completasse o montante estipulado. Nesse ponto, Marx recorda uma passagem de Dom Quixote em que o protagonista encontrava-se na cova de Montesinos quando recebeu a visita de uma amiga e mensageira de Dulcinéia, comunicando-lhe que a amante passava por necessidades e pedia-lhe a quantia de seis reales. Possuindo apenas quatro, Quixote entrega-os para a mensageira junto com o recado de que lamentava pelas necessidades da amiga e desejava ser um Fugger (sobrenome de uma das mais importantes famílias de banqueiros germânicos da Primeira Modernidade) para poder melhor prestar-lhe ajuda. Voltando-se a Montesinos, Quixote o questiona se era mesmo possível que até os “encantados principales” padecessem de necessidades, ao que lhe é respondido: “Creia-me vossa mercê, senhor D. Quixote de la Mancha, que esta que chamam necessidade em qualquer lugar se usa e por tudo se estende e a todos alcança, e nem sequer aos encantados perdoa” (CERVANTES SAAVEDRA, 2007).

À primeira vista, a remissão ao episódio de Cervantes se resume ao fato de que tanto as deidades indianas quanto Dulcinéia, a amante idolatrada de Quixote, solicitam aos seus subordinados algum tipo de auxílio material sob situações de perigo ou necessidade, ao que são atendidos, e que nesse movimento estaria expresso o sentido e a dinâmica do fenômeno da idolatria, para além da incorporação, pelos deuses, da figura humana. Todavia, a confirmação de Montesinos quanto ao fato de que mesmo os “principais” e “encantados” podem sofrer algum tipo de carência pode ser aplicada (e parece-nos que Marx de fato sugeriu isso ao recordar o caso) também sobre John Lubbock, homem “encantado” da sociedade capitalista britânica e talvez um de seus “principais” representantes no final do século XIX. As análises de Lubbock sobre as formações sociais não capitalistas padeceriam, pois, de uma espécie de carência ou necessidade. Qual seria ela?

Os humores de Marx vão se tornando mais exaltados à medida que Lubbock, ainda sobre a questão da idolatria, procura explicá-la com base em um suposto “estado intelectual más avanzado [dos idólatras] que el culto a los animales o incluso el de los cuerpos celestes”13. Marx replica:

O sea, que entonces también servir a los dioses como si fueran reyes es ‘inferior’ al nivel de la adoración de ídolos […] ¡Como si el civilizado inglés [a começar pelo próprio Lubbock] no “adorara” a la reina o al Sr. Gladstone!14 […] ¡perro superficial! (MARX, 1988, grifo meu).

Ainda que, dada a natureza do texto analisado (um caderno de anotações), não devamos esperar encontrar nele o mesmo modo dialético de exposição da crítica presente em outras obras marxianas, e tal como descrito no prefácio ao primeiro volume de O Capital (1867), percebe-se que nele Marx não deixa de apropriar-se das categorias e do raciocínio do seu interlocutor para fazê-los se voltarem contra ele próprio durante o processo de negação. Numa outra passagem, em que Lubbock afirma ser difícil compreender a crença primitiva na imortalidade humana, Marx contesta-o aplicando o mesmo estranhamento a dois dos princípios mais elementares do pensamento cristão: as ideias de ressureição e imortalidade da alma.

quiere decir: incapaz de morir de muerte natural; Lubbock se ríe aquí de sí mismo y no sabe bien cómo; encuentra completamente natural el que sean ‘capaces’ de una muerte innatural, es decir, que sigan viviendo, aunque muertos de muerte natural (MARX, 1988)15.

Em meio a uma série de sociedades presentes e pretéritas cujos costumes previam cerimônias de sacrifícios rituais e consumo das vítimas em homenagem aos deuses (de Congo, Tibete, Nova Zelândia, Guiné, Ilhas Fiji, Índia, índios “pele-vermelhas”, Egito, Império Asteca, ameríndios brasileiros, Império Inca, algumas áreas e períodos da Antiguidade clássica e os judeus antigos), Marx enxergava uma “identificação” entre vítimas e deidades onde Lubbock não podia ver mais do que uma “curiosa confusão” (LUBBOCK, 1870), e outra vez mobilizou o exemplo do dogma cristão para cobrar do escritor inglês um olhar mais objetivo das sociedades analisadas: “No sólo el buey Apis [referência à divindade animal do antigo Egito], la víctima, sino también el cordero sacrificial, Cristo, igual a Dios, su hijo unigénito” (MARX, 1988).

Em seguida, Marx faz troça de uma narrativa que Lubbock retirou dos escritos do religioso presbiteriano John Dunmore Lang (1799-1878), o qual alegava possuir um amigo que havia se esforçado para convencer um inteligente aborígene australiano sobre a possibilidade de existência da vida sem o corpo [nas palavras de Lubbock: “hacer comprender”; nas de Marx: “hacer creer”]; o nativo teria caído no riso quando ouviu aquilo, imaginando se tratar de uma brincadeira; logo, porém, percebeu que o seu interlocutor não estava com piadas e desatou a rir ainda mais. Lubbock interpretou o riso do australiano como expressão de sua incapacidade de compreensão sobre o elevado princípio da alma (eis, aqui, uma manifestação direta do seu “idealismo”). A Marx, por outro lado, pareceu que a gargalhada devia-se à percepção do aborígene “de que el caballero era un borrico absolutamente sincero” (grifo meu). Repete-se a mesma sentença, já feita anteriormente: “Lubbock se ríe de sí mismo y no sabe cómo” (MARX, 1988).

Após designá-lo como um “animal”, Marx ironizou a lamentação de Lubbock sobre a visão estreita dos que pensam a ciência como hostil às “verdades” da religião: “¡filisteos de ancha vista!” (MARX, 1988). Essa intervenção tanto retoma a arrogante pretensão de pioneirismo científico por Lubbock quanto sintetiza o teor da crítica que Marx apenas esboça em seus comentários marginais sobre os trechos copiados: o olhar de Lubbock sobre as sociedades não capitalistas seria representativo dos véus ideológicos que o ligavam à sociedade burguesa e o colocavam numa posição social privilegiada e dominante, muito embora o essencial da visão crítica de Marx sobre Lubbock estivesse longe de reduzir-se a uma simples, mecânica e imediata relação entre a consciência ideológica e a condição social do seu interlocutor.

C – Terceiro eixo: a transmissão de bens e os mecanismos de mediação de conflitos:

As últimas anotações de Marx sobre o livro de Lubbock consistem em transcrições pontuais de passagens referentes a noções de propriedade, direitos de primogenitura e mecanismos de transmissão de bens em algumas sociedades não capitalistas. Mais especificamente, Marx se mostrou interessado nas informações de que entre alguns povos da Austrália, da África e da Polinésia, os processos de transmissão (do poder, da terra e outras posses) ocorreriam enquanto o pai ainda estivesse vivo, por vezes logo após o nascimento das crianças; de que nas ilhas Fiji, esse sistema de primogenitura era combinado com a já mencionada herança por linha feminina; de que australianos e indígenas norte-americanos, bem como os habitantes da Sumatra, teriam por costume que o pai anexasse o nome do filho ao seu próprio, e não o contrário; finalmente, de que nesses povos, os poderes de administração judiciária dos seus chefes estavam limitados a não afetarem os interesses gerais das comunidades, sendo prática corrente uma espécie de regulação social da vingança, que implicaria numa espécie de “crédito” do castigo entre as partes (MARX, 1988).

“¡El asunto Shylock!”, exclama Marx na última linha de suas notas sobre Lubbock (essa foi a sua única manifestação sobre o terceiro eixo), fazendo referência ao agiota judeu e personagem de O Mercador de Veneza, de W. Shakespeare, que como garantia de um empréstimo feito ao seu rival cristão, cobrara como pagamento a própria carne do fiador (SHAKESPEARE, 2002). De um lado, Marx lembrou-se desse “assunto” em função do tipo de “crédito” de vingança verificado por Lubbock nas sociedades que estudou. De outro, conforme explicitou o tradutor da edição espanhola dos Cadernos, Shylock “representa la pretensión sangrienta de disponer de los individuos como mercancía”, tópica recorrente no conjunto da obra marxiana (MARX, 1988). Porém, parece-nos evidente que as menções ao crédito e à usura voltam-se igualmente contra o próprio Lubbock, cuja atividade de banqueiro, uma espécie de agiota “nacional”, afinal de contas, definia o seu lugar na sociedade de classes.

“¡Grande, supremo Lubb!” – III

À guisa de conclusão, pode-se dizer que as notas sobre Lubbock demonstram um amplo reconhecimento por Marx da historicidade das formações sociais classificadas pelos seus contemporâneos como “primitivas”, o que significava rejeitar de maneira radical o tipo de evolucionismo positivista e etnocêntrico que dominava o cenário científico europeu do último quartel do século XIX, do qual Lubbock seria um privilegiado expoente. Sem compartilhar qualquer tipo de fetichismo filantrópico ou atração culturalista pelo “exótico”, as anotações de Marx carregam a defesa de uma leitura efetivamente histórica sobre as sociedades indígenas do presente e do passado, negando reduzi-las a esquemas explicativos fixos e pré-estabelecidos. Tratava-se, portanto, de fazer com que a análise concreta das situações históricas concretas antecedesse no método a interpretação sobre os modos de organização social anteriores e/ou alternativos ao da sociedade burguesa. Dessa “necessidade” quixotesca padecia até mesmo a obra do “principal” evolucionista e “encantado” banqueiro britânico John Lubbock, algo que naquele momento talvez somente o velho Mouro (apelido com o qual Marx ficara conhecido entre seus amigos e familiares), cujo método do materialismo histórico havia alcançado já o seu maior nível de maturidade, poderia oferecer.

Evidentemente, inexiste nas referidas notas uma formulação crítica de fato, sendo elas, na verdade, parte constituinte de um momento particular do movimento de “negação” que, seguindo a dialética do materialismo histórico, poderia ter levado Marx à construção de uma crítica mais ampla da nascente disciplina antropológica, não fosse pelo seu óbito.

Seja como for, fica claro pelo conjunto dos qualificativos ali lançados direta ou indiretamente contra Lubbock (“borrico civilizado”, “perro superficial”, “animal”; e incluindo também os de ácida ironia, como “filisteo de ancha vista”, “grande, supremo”) que a negação marxiana ultrapassava as fronteiras do campo pretensamente “puro” e “neutro” da ciência, correspondendo igualmente ao embate político e ideológico condicionante da dinâmica das classes sociais. Lubbock mantinha-se preso aos limites ideológicos do modo de produção que lhe garantia uma posição socialmente dominante. A sua incompreensão sobre as realidades não capitalistas – assim como o etnocentrismo e a arrogância intelectual própria de um homem seguro de sua posição social, ambos reprovados por Marx – seriam, portanto, expressão da decadência ideológica do mundo burguês, à qual Marx contrapôs, ao sublinhá-las de maneira valorativa, tanto a “igualdade” quanto uma certa “superioridade” no modo de pensar daquelas coletividades.

Nesse sentido, a postura de John Lubbock em relação aos povos não capitalistas se assemelhava à do já mencionado negociante judeu sheakespeariano diante do seu adversário cristão. Como em Shylock, as relações entre Lubbock e a dinâmica das sociedades que constituíam seu objeto de investigações (“comprarei convosco, venderei convosco, falarei convosco, passearei convosco”) se encerravam onde e quando a última não se enquadrasse nas concepções simbólicas e materiais do analista (“mas não comerei convosco, nem beberei, nem rezarei convosco”). Nesses casos, o trabalho do Barão de Avebury consistiria em abstrair das referidas sociedades a sua concretude histórica, mutilando delas a sua verdadeira “carne”.

Bibliografia

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Notas

* Gustavo Velloso é historiador e professor da FFLCH da Universidade de São Paulo; doutor em História Social pela USP e em História Moderna pela Universidad de Sevilla. É membro do Núcleo Práxis da USP.
O autor agradece a Paulo Henrique Mota e Fellipe Cotrim por suas leituras, comentários e correções conceituais deste artigo.

1 Durante o referido ano, Marx viajou por diversas regiões (Ventnor, Argélia, Marselha e Suíça) em busca de uma situação climática mais temperada, com a intenção de recuperar a sua saúde já fragilizada. Para um estudo sistemático da vida e obra de Marx durante esse período, a biografia intelectual escrita por Marcello Musto é a melhor e mais atualizada referência (MUSTO, 2018).

2 Em “Carta ao Pai” (1837), na qual expõe os dilemas que o levaram a transitar da carreira de jurista para o campo da filosofia, Marx declara ter se acostumado a “extratar e resumir todos os livros que lia” (MARX; ENGELS, 2010). “Resumir” parece constituir acréscimo pessoal do tradutor da edição brasileira, pois a tradução inglesa diz apenas “excerpting passages from out of all the books that I read” (MARX, 2006), o que condiz melhor com o texto original: “Dabei hatte ich die Gewohnheit mir eigen gemacht, aus allen Büchern, die ich las, Exzerpte zu machen” (MARX, 1985).

3 Krader se dera conta disso no longo estudo introdutório que escreveu para a referida edição, complementada em poucos anos com uma também incompleta edição dos Kovalevsky notebooks (KRADER, 1975). Conforme explicitou Kevin Anderson, Marx teve contato e se posicionou frente a estudos de numerosos outros autores, como Robert Sewell, Karl Bücher, Ludwig Friedländer, Ludwig Lange, Rudolf Jhering, Rudolf Sohm e J. W. B. Money (ANDERSON, 2010). A essa lista poder-se-ia adicionar outros escritores que Marx mencionara passageiramente em seus cadernos, entre os quais Bachofen, Mommsen, Niebuhr, McLennan, Hospitalier etc. Inexiste até o momento um levantamento sistemático e completo das informações de Marx sobre a então nascente disciplina antropológica, sendo esse um campo ainda aberto de investigações.

4 Para a escrita do presente artigo, o autor cotejou as versões inglesa (1972) e espanhola (1988) da edição de Lawrance Krader. Todavia, com o objetivo de possibilitar aos leitores de língua portuguesa uma melhor compreensão das ironias de Marx frente ao texto de Lubbock, optou-se por realizar as citações expressas sempre com base na versão espanhola.

5 Entre eles, o próprio Engels, além de Krader, Álvaro García Linera e Kevin Anderson, cujas referências encontram-se ao final deste artigo.

6 Os manuscritos foram todos digitalizados e encontram-se disponíveis para leitura e download no site do referido instituto. Cf. https://search.socialhistory.org/Record/ARCH00860/ArchiveContentList#G%20160-161.

7 Posteriormente, Lubbock lançou mais de uma dezena de obras no campo da História Natural, entremeados por títulos de ordem política, econômica, religiosa e motivacional. Ao que tudo indica, o único livro de John Lubbock traduzido e publicado no Brasil foi “On Peace and Happiness” (1909) [“Paz e Felicidade”] (LUBBOCK, s/d.), em que o autor apresenta uma abordagem idealista – a bem da verdade, teológica – acerca da esperança e outros ideais subjetivos da vida humana.

8 As informações biográficas de John Lubbock podem ser encontradas no verbete “Avebury, John Lubbock, 1st Baron” da Encyclopædia Britannica [v. 3]. Disponível em: https://www.britannica.com] e na plataforma digital Cambridge Alumni Database. [Disponível em: http://venn.lib.cam.ac.uk]. Acessados em: 22/01/2018.

9 Essa obra tornou-se referência por ter sido nela que Lubbock formulou as expressões “Paleolítico” e “Neolítico”, hoje muito difundidas entre historiadores e arqueólogos (PETTITT e WHITE, 2014).

10 Tradução livre. No original: “the past history of man has, on the whole, been one of progress, and that, in looking forward to the future, we are justified in doing so with confidence and with hope” (LUBBOCK, 1870).

11 Na segunda edição do mesmo livro (1898), houve o acréscimo de um capítulo intitulado “The origin of marriage” e outro nomeado “on the development of relationship” (LUBBOCK, 1898).

12 A intervenção “anacronismo” consiste em acréscimo do tradutor da edição espanhola.

13 Nesse ponto, um novo sinal exclamatório é inscrito por Marx após um trecho no qual Lubbock afirma haver uma paulatina separação entre chefes e súditos à medida que a “civilização” progride entre os povos. Sem maiores detalhes, podemos supor que ele tenha visto uma analogia, ou mesmo uma relação direta, entre essa elaboração de Lubbock e a concepção idealista do Estado (a qual pressupunha haver uma separação formal e absoluta entre este e a “sociedade civil”), cuja crítica Marx fizera ao longo de toda a sua vida e registrou em diferentes escritos anteriores. A esse respeito, ver, principalmente: (MARX, 2010a), (MARX, 2010b), (MARX, 2010c) e (MARX, 2012).

14 Referência a William E. Gladstone, líder do Partido Liberal e Primeiro Ministro britânico durante a época que Marx escrevia as suas notas.

15 Esse jogo dialético de ironias, que promove a inversão de posições entre “civilização” e “selvageria”, faz lembrar a maneira como Marx, em um de seus primeiros escritos de juventude, concluíra o seu o terceiro artigo sobre a “Lei referente ao furto da madeira” (1842): “Para os selvagens de Cuba, o ouro era o fetiche dos espanhóis. Eles organizaram uma celebração para ele, cantaram em volta dele e em seguida o jogaram ao mar. Caso tivessem assistido à sessão dos deputados renanos, os selvagens de Cuba não teriam considerado a madeira como o fetiche dos renanos? Porém, alguma sessão posterior lhes teria ensinado que o fetichismo está associado à zoolatria, e os selvagens de Cuba teriam jogado as lebres ao mar para salvar as pessoas” (MARX, 2017).