O marxismo de Jacques Roumain

Antropólogo, escritor, poeta, professor e diplomata, foi fundador do Partido Comunista Haitiano e expoente do movimento Negritude, defensor da ideia de que a questão do negro não deve ser reduzida ao problema do racismo, sendo antes uma questão de luta de classes Por Joana A. Coutinho * ROUMAIN, Jacques (Porto Príncipe-Haiti, 1907; Porto Príncipe, 1944) 1 – Vida e práxis política Jacques Roumain nasceu na capital haitiana. Primogênito de uma família numerosa, teve onze irmãos. Seu pai, Auguste Roumain, foi um grande proprietário de terras, e sua mãe Émilie Auguste, era filha de Tancrède Auguste (presidente do Haiti entre 1912 e 1913). De uma família de mestiços letrados, Jacques falava fluentemente o dialeto criollo e o francês – características incomuns em um tempo no qual a maioria da população nativa sabia somente o criollo e era analfabeta1. A infância e época de formação de Jacques Roumain foi marcada por seguidas revoltas camponesas no país – contra as altas taxas tributárias, a miséria e exploração – situação que culminaria em mudanças constantes no governo e em uma prolongada ocupação do país pelos Estados Unidos (1915-1934), com o apoio das elites haitianas. Os EUA desocupariam o Haiti apenas vinte anos depois, após alcançarem seus objetivos: garantir o pagamento dos empréstimos contraídos com o Citibank e abolir um artigo da constituição haitiana que proibia a venda de suas plantações para estrangeiros2. Importa destacar que o Haiti havia se endividado com esse banco estadunidense para conseguir pagar a enorme indenização imposta pela França como requisito para o reconhecimento da independência do país – pagamentos que só foram encerrados em 1947, contabilizando cerca de 21 bilhões de dólares e mais 200 anos de juros. À época da libertação haitiana do jugo colonial francês (1804), o país era considerado a “joia do Caribe”: uma sociedade composta por cerca de 500.000 escravos, 30.000 brancos e 28.000 negros livres que mantinha uma economia organizada em torno da plantação da cana-de-açúcar e, em menor medida, do café – produção que dava a São Domingos (nome colonial do Haiti) o status de colônia altamente lucrativa. Jacques Roumain teve uma educação esmerada, como era comum aos de sua classe social: primeiramente no Haiti, estudou no famoso colégio Saint-Louis de Gonzague, e a partir dos 14 anos, mudou-se para a Suíça, onde terminou sua formação escolar no Institut Grünau, em Berna e depois na École Polytechnique Fédérale de Zurique3. Ali, aprendeu o idioma alemão, leu com paixão Schopenhauer, Nietzsche e Darwin, além de estudar paleontologia. Depois, viajou à Madri, capital da Espanha, para estudar agronomia, visitando também a Alemanha, França e Inglaterra. Nesta capital sua atenção se voltou às touradas, que o encantaram a ponto de ele chegar a ter aulas de toureio, além de ter escrito um poema em prosa sobre o tema, intitulado “Corrida”. Afinal, não terminou o curso – e caberia a seus irmãos estudarem agronomia e cuidar das terras da família. Em 1927, ainda em meio à ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, Roumain decidiu regressar a seu país. À época com 20 anos de idade, se juntou a Philippe Thoby-Marcelin (poeta, escritor e jornalista), Carl Brouard (poeta) e Antonio Vieux (escritor) – jovens intelectuais haitianos críticos à agressão estadunidense – para fundar o periódico La Revue Indigène: les Arts et la Vie4 [A Revista Indígena: as Artes e a Vida], que estimulava a exploração de novas formas de escrita que tratassem das complexidades da sociedade haitiana. A publicação representa um marco fundador do movimento Nègritude [Negritude] – corrente de vanguarda caribenha que, por meio da literatura e da política, buscou mostrar ao haitiano como ter orgulho de suas raízes culturais, de sua tradição oral e da religião vodu. Em 1928, foi nomeado gerente de um jornal chamado Petit Impartial [Pequeno Imparcial], e na sua nomeação o diretor elogiou a “chama patriótica” do jovem Roumain, ao mesmo tempo em que lhe pediu calma e ponderação. O debutante não tinha nem uma nem outra. Cofundador da Liga da Juventude Patriótica, em dezembro deste ano foi preso (pela primeira vez), junto com Georges Petit e Elie Guérin, por crime relacionado à “imprensa”. Foram condenados a um ano de detenção e ao pagamento de uma multa de cinco mil gourdes haitianos. A sentença depois seria reduzida, mas eles foram mantidos presos sob o argumento de existirem outras acusações. Somente alcançaram a liberdade em agosto de 1929. Nesse mesmo ano, Roumain começou a publicar a coluna “Mon Carnet” [Meu Caderno], primeiro, no jornal La Presse e, depois, no Le Nouvelliste. Mas seu trabalho foi logo interrompido porque, em outubro, Roumain foi novamente preso, junto com dois companheiros, Victor Cauvin e Antoine Pierre-Paul, por ferirem a lei que proibia a associação de vinte ou mais pessoas. Em dezembro de 1929, uma anistia liberou todos os presos políticos. Estando em liberdade, Jacques Roumain se casou com a haitiana Nicole Hibbert, filha do romancista Fernand Hibbert (1873-1928). Em 1930, com a queda do presidente Louis Borno, Roumain foi nomeado chefe de divisão do Ministério do Interior pelo presidente interino, Eugène Roy. Porém, se demitiu do cargo depois de alguns meses para fazer campanha para o então candidato Sténio Vincent, eleito presidente no mesmo ano. Em 1931, Roumain retornou ao cargo, dessa vez nomeado por Sténio Vicent (que governou entre 1930 e 1941). Em 1932, um promotor o convocou por suspeita de “subversão”. A acusação o levou à prisão no ano seguinte, na Penitenciária Nacional, junto com o socialista Max Hudicourt, sendo ambos acusados de conspiração. Em carta ao poeta Léon Laleau, Roumain declarou: “eu sou comunista”, e “nenhum poder no mundo pode me tirar este direito”5. Em junho de 1934, publicou a obra Analyse schématique (1932-1934) [Análise esquemática], expondo algumas de suas perspectivas do marxismo, e ao lado de alguns companheiros fundou o Parti Communiste Haïtien (PCH) [Partido Comunista Haitiano], sendo eleito secretário-geral. Neste primórdio, o Comitê Central do partido lançou o lema “Cor não é nada, classe é tudo”. Ainda nesse ano da fundação, em agosto foi preso e, em outubro, condenado aContinuar lendo “O marxismo de Jacques Roumain”

O marxismo de Caio Prado

Historiador, filósofo, editor e político, foi militante do Partido Comunista Brasileiro durante toda a vida, sendo pioneiro de uma interpretação marxista autêntica da realidade brasileira Por Yuri Martins-Fontes * PRADO Júnior, Caio (brasileiro; São Paulo, 1907 – São Paulo, 1990) 1 – Vida e práxis política Caio da Silva Prado Júnior nasceu na primeira década do século XX, no seio de uma abastada família de cafeicultores e industriais. Frequentou boas escolas; teve professores particulares. Ainda moço assistiu à Semana de Arte Moderna de 1922. Logo depois entrou na Faculdade de Direito de São Paulo (a Faculdade de Filosofia ainda não existia), formando-se em 1928. Devido à precariedade do meio universitário brasileiro da época, sua origem de classe foi um fator significativo para que pudesse ter acesso a uma formação intelectual “refinada e sólida”1. Neste período, anterior à Revolução de 1930, a política brasileira era dominada por oligarquias regionais, não havendo partidos de dimensão nacional. Entretanto, no estado de São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP) dominava a cena com um poder que ressoava no restante do país. A partir de 1922, com o movimento tenentista, se fortaleceu a oposição – por parte das classes médias e certa dissidência oligárquica – ao clientelismo2 deste partido. A pauta política progressista da época era a de promover um Estado nacional forte que se contrapusesse às elites paulistas. Em 1926, foi fundado o Partido Democrático de São Paulo (PD), com a bandeira da “renovação dos costumes políticos”; no entanto, a agremiação tinha como lideranças latifundiários, que mais tarde se negariam a abrir mão de seus privilégios. Por este tempo, o jovem Caio escreveu o artigo “A crise da democracia brasileira” (1927), no qual acusava a fraude eleitoral operada pelo Partido Republicano Paulista (representante da oligarquia cafeeira) e esboçava uma análise de classes da sociedade nacional. Depois, em 1929, imerso nesse panorama político restrito, Caio Prado se filiou ao PD. Embora breve, esta sua primeira experiência partidária foi intensa: o começo do que seria uma vida de engajamento político. Militante enérgico, impulsionou a penetração do partido em bairros da capital e interior, através de tarefas de organização e comícios para arregimentar correligionários. O objetivo do PD era promover a Campanha Liberal, apoiando a candidatura de Getúlio Vargas contra o oficialista conservador Júlio Prestes. Em meio a essa tensão, Caio gritou saudação a Vargas, em cerimônia da candidatura de seu oponente, sendo preso pela primeira vez.3 Em 1930, J. Prestes, candidato da enfraquecida elite paulista, foi eleito – em um processo fraudulento. Diante disto, as forças opositoras, sobretudo facções da oligarquia gaúcha e os tenentes, se aliaram, fortalecendo-se. Neste processo, Caio Prado atuou em favor dos rebeldes, participando de ações conspiratórias, promovendo a comunicação entre líderes e apoiando a logística de operação de sabotagem. Contudo, com a vitória dos revoltosos e a consequente chegada de Getúlio ao poder, o PD teve expostas suas contradições e falta de programa. Foi assim que Caio Prado, decepcionado com as limitações de sua fração burguesa “radical” no enfrentamento das oligarquias, superaria as barreiras conservadoras de sua classe social, em uma inflexão que o levou a subverter os valores no qual estava imerso e a efetivamente se radicalizar. Em 1931, se casou com Hermínia Cerquilho e teve seu primeiro filho. Neste mesmo ano, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (antigo nome do PCB, hoje Partido Comunista Brasileiro), força política não numerosa, mas que tinha então um programa consistente, apontando para a raiz social e econômica do problema nacional. Membro ativo, Caio Prado entregou-se à organização dos trabalhadores, atuando em organizações de base. O começo da década de 1930 foi conturbado no Brasil – assim como no mundo. A sociedade brasileira, ansiosa por uma nova ideologia que refletisse o tempo de crise do entreguerras, se dividia entre socialistas e integralistas. Em São Paulo, um centro das disputas nacionais, uma crise política culmina na mal denominada “Revolução Constitucionalista” de 1932 – em realidade, um golpe de estado das antigas oligarquias locais para restabelecer a ordem anterior. Caio Prado se colocou contrário a este movimento sedicioso (que chegou até mesmo a atrair artistas da vanguarda modernista). Nesse período passou a militar pelo Socorro Vermelho e pela Cooperativa Internacional dos Trabalhadores, além de participar da fundação do Clube dos Artistas Modernos (CAM) – que abrigou parcela mais politizada da elite cultural modernista. Inclinado à formação de opinião, tão logo se filiou ao PCB, passou a desempenhar a atividade de editor, à qual se dedicaria por décadas. Começou editando o efêmero jornal A Luta e, em 1933, traduziu e publicou Teoria do materialismo dialético: manual popular de sociologia marxista (de Bukharin), obra didática com o intuito de difundir o marxismo. Para viabilizar estes projetos e apoiar o partido, ele desviou verba de sua família, além de interceder junto a amizades politicamente progressistas. Em 1933, visitou a União Soviética e, à volta, fez uma conferência no CAM que lotou a rua. Foi sua primeira atuação significativa como formador de opinião, atividade que consideraria como uma das tarefas comunistas essenciais. Ainda neste ano, veio à luz Evolução política do Brasil, sua pioneira obra de impacto, com que dava início a uma produção historiográfica vigorosa. Em 1934, publicou seu segundo livro, URSS: um novo mundo, fruto da popularidade de suas palestras de 1932. A obra, apreendida pela polícia, trouxe ao escritor um inicial reconhecimento nos meios comunistas – aliás, maior do que aquele resultante da sofisticada análise de seu livro anterior (Evolução…). Nela, investiu contra o pacifismo da social-democracia parlamentar, defendendo a ética da insurreição revolucionária: a única, segundo ele, que realizou de fato o lema da “igualdade entre os homens”4. Em meados da década de 1930, com a consolidação do poder de Vargas, a inicial afirmação política do PCB sofreu um refluxo, e a correlação de forças se tornou cada vez mais desfavorável. A partir daí, Caio Prado evitaria discutir se a revolução deveria ou não ser armada, pacífica ou violenta, acentuando que, antes de se pretender saber a “forma” como se dará a “revolução”, cabe arregimentarContinuar lendo “O marxismo de Caio Prado”

O marxismo de Juan B. Justo

Médico, jornalista, político e escritor militante, foi o primeiro tradutor direto do clássico O capital de Marx ao espanhol, fundou o Partido Socialista Argentino e se destacou como defensor do cooperativismo e do movimento operário argentino Por Yodenis Guirola [Tradução: Yuri Martins-Fontes L. e Renato César Ferreira Fernandes] JUSTO, Juan Bautista (argentino; Buenos Aires, 1865 — Los Cardales/Argentina, 1928) 1 – Vida e práxis política Juan Bautista Justo nasceu na capital argentina, filho de pais de classe média que se dedicavam a trabalhos agrícolas. Sua mãe, Aurora Castro, tinha ascendência mestiça, e seu pai, Juan Felipe Justo, era descendente de genoveses. Inicialmente, sua família desfrutava de certo conforto econômico, o que depois se deterioraria. Sua educação inicial se deu em sua cidade natal, primeiro em uma escola particular, e logo, entre 1877 e 1881, no Colegio Nacional. Em 1882 começou seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidad de Buenos Aires, e paralelamente trabalhou como jornalista no diário La Prensa, o que contribuiu para financiar a universidade. A partir do quarto ano do curso de medicina, fez residência no Hospital de Clínicas. Em 1888, formou-se em Medicina, obtendo seu título com honras – sendo seu trabalho de conclusão sobre aneurismas arteriais cirúrgicos. Após graduar-se, viajou para a Europa, onde continuou sua formação clínica em Paris, Berna e Viena. Ao retornar, em 1889, trabalhou no Hospital de Crónicos de Buenos Aires, no qual foi nomeado chefe de cirurgia. Em 1890, como cirurgião, aplicou com sucesso o método da ressecção osteoplástica do crânio, sendo reconhecido e designado como presidente do Círculo Médico Argentino. No âmbito militante, junto com Germán Avé Lallemant (agrimensor e marxista alemão-argentino), convocou a celebração do Primeiro de Maio. Também neste ano, incorporou-se à Unión Cívica de la Juventud, na qual militou brevemente, e atendeu a feridos do Parque de Artillería, no contexto da Revolução de 18901. Em 1892, paralelamente às suas funções como médico, Justo colaborou com o periódico El Obrero, de orientação marxista; e em 1893, meses após a refundação da Agrupación Socialista, Justo aderiu à organização2, tendo desempenhado um papel relevante em seu desenvolvimento. Em agosto deste mesmo ano Justo compareceu a uma reunião em Buenos Aires convocada pelo jornal La Prensa para discutir a formação de uma federação política e a criação de um jornal que defendesse os interesses da classe trabalhadora. A partir desta reunião, comprometeu-se com a elaboração de um órgão de imprensa – um “jornal socialista científico defensor da classe trabalhadora”. Em abril de 1894, com a edição do primeiro número do periódico, foi oficialmente fundado La Vanguardia, no qual Justo publicou um extenso artigo de apresentação, tratando do tema da transformação social na Argentina3. Por estes anos, dedicou-se a ler diversos pensadores, tais como Spencer, Rousseau, Ricardo, Smith e Marx, a fim de conhecer mais dos problemas sociais de seu tempo. Em 1895 viajou para os Estados Unidos e logo Europa, visitando cidades como Paris, Berna e Madri. Entre seus objetivos estava contactar militantes socialistas e conhecer a realidade daqueles países. Como parte disso, escreveu diferentes notas ou breves artigos que foram publicados no periódico La Vanguardia. Durante a viagem pela Europa, começou a planejar a tradução do primeiro tomo de O capital de Marx, que seria publicado três anos mais tarde, em Madri. No início de junho de 1896, sob o pseudônimo de “Cittadino”, Justo enviou ao jornal conservador La Nación, de Buenos Aires, o texto “La mejor confraternidad es la nacionalización”, no qual defendia a incorporação, enquanto cidadãos plenos, dos imigrantes italianos por meio de sua naturalização como argentinos. O artigo foi bem recebido, levando a que Justo fosse convidado a se apresentar na imprensa e a colaborar com o periódico. Assim, entre junho e agosto deste ano, escreveu uma série de textos publicados em forma de coluna em La Nación, nos quais tratava questões de política, economia, livre-comércio, salários, socialismo ou situação da classe operária. Em 28 de junho de 1896, junto com Augusto Kühn, Isidoro Salomó e Esteban Jiménez, Juan Justo fundou o Partido Socialista Argentino (PSA); o periódico La Vanguardia tornou-se o órgão oficial do partido. Neste ano, Justo apresentou-se como candidato a deputado, obtendo apenas 138 votos que, embora insuficientes para conseguir uma cadeira, dariam início a sua relevante carreira parlamentar. Em 29 de agosto de 1897, foi inaugurada a nova sede da Agrupación Socialista em Buenos Aires, em que discursaram, além de Justo: Carlos Мalagarriga (advogado, jornalista e político espanhol) e Alejandro Mantecón (operário encadernador), além de alguns reconhecidos personagens do pensamento latino-americano, como José Ingenieros e Leopoldo Lugones. Nesta nova sede, ficavam os escritórios do jornal La Vanguardia, o Comité Ejecutivo del Partido, a Biblioteca Obrera, a Asociación Obrera de Socorros Mutuos, o Circolo Socialista Italiano e várias sociedades sindicais. Em 1898, publicou em Madri sua tradução, diretamente do alemão para o espanhol, do primeiro tomo de O Capital de Marx (a primeira nesse idioma). A seguir, proferiu no Ateneo de Buenos Aires a conferência intitulada “La teoría científica de la historia y la política argentina”4, publicada no mesmo ano pela livraria Lajouane. No ano seguinte, impulsionou a edição de El Diario del Pueblo, e se casou com Mariana Chertkoff (Odessa, 1876 – Buenos Aires, 1912), com quem teve seis filhos: Andrés, Daniel, Leticia, Aurora, Miguel e Sara. Em 1900, mudou-se para Junín, província a noroeste de Buenos Aires, para trabalhar como médico e, ao mesmo tempo, estudar a situação da agricultura e pecuária na região. Em 1901, proferiu a conferência “El programa socialista en el campo”, em que expôs questões-chave de sua doutrina sobre a questão agrária, reivindicando a relevância do problema rural na Argentina. Nos anos seguintes, faria várias palestras sobre temas políticos, econômicos e sociais, que ganhariam destaque editorial e político. Em 1904, Justo foi nomeado professor titular da cátedra de Cirurgia. E em 1905, fundou a cooperativa El Hogar Obrero, que cinco anos mais tarde seria admitida na Aliança Cooperativa Internacional. Ainda neste ano reassumiu a direção de La Vanguardia e o periódico começou a ser publicado diariamente,Continuar lendo “O marxismo de Juan B. Justo”

O marxismo de C. L. R. James

Historiador, jornalista, ensaísta e militante socialista de Trinidad e Tobago, foi um dos fundadores do movimento independentista Agência Internacional de Serviços Africanos e do pan-africanismo radical, tendo atuado também pelos partidos estadunidenses Socialist Workers Party e Workers Party Por Rita Coitinho e Joana A. Coutinho * James, Cyril Lionel Robert, “C. L. R. James”, “J. R. Johnson”, “J. Mayer” (trinitário; Tunapuma/Trinidad e Tobago, 1901 – Londres/Inglaterra, 1989). 1 – Vida e práxis política Nascido em Trinidad, então colônia inglesa, Cyril Lionel Robert James cresceu num ambiente familiar de classe média e afeito aos livros, sendo seu pai professor e sua mãe uma leitora ávida. Estimulado pelos pais, cedo desenvolveu o gosto pela literatura, história e música, além do esporte e artes em geral – interesses que se revelariam, posteriormente, como temas importantes de seus estudos e reflexões filosóficas. Entre os nove e os dezessete anos frequentou, com bolsas de estudos, o Queen’s Royal College, em Porto de Espanha, escola de elite das mais antigas da ilha que recebia professores diretamente da Inglaterra. Aí se destacou como atleta de salto em altura e treinou críquete (modalidade em que foi reconhecido como promissor)1. Na década de 1920, após a conclusão de seus estudos, trabalhou como professor do ensino secundário de Inglês e História (tendo como aluno o futuro primeiro-ministro marxista Eric Williams). Por esses anos, ainda em seu país natal, escreveu dois romances: La divina pastora (1927) e Triumph (1929). Com o tempo seus interesses também se voltaram para a política, e desta aproximação inicial nasceu em 1929 a biografia do líder trabalhista de Trinidad, Arthur Cipriani, intitulado Life of captain Cipriani [A vida do capitão Cipriani]. Em 1932, aos 31 anos, migrou para a Inglaterra, país no qual viveu inicialmente em Lancashire – desfrutando do auxílio do amigo e campeão de críquete Learie Constantine. Nesta cidade, trabalhou como repórter esportivo para o jornal Manchester Guardian, enquanto, simultaneamente, mantinha-se articulado aos movimentos de libertação nacional das colônias britânicas no Caribe. É de 1933 a publicação do panfleto The case for West Indian self-government [O caso do autogoverno nas Índias Ocidentais], uma extensão do seu trabalho anteriormente publicado acerca de Arthur Cipriani. Tendo logo se mudado para Londres, deu início a estudos das obras de Marx e Engels, bem como acerca da Revolução Russa e seus principais teóricos. Em 1934, ingressou no Independent Labour Party [Partido Trabalhista Independente], atuando na comunicação interna e ajudando a formar o Marxist Group [Grupo Marxista]. No ano seguinte, com Yomo Kenyatta e Amy Ashwood-Garvey, fundou a International African Friends of Abyssinia (IAFA) [Internacional dos Amigos Africanos da Abissínia], cuja agitação política intensa provoca preocupação no fascismo italiano, em franca disputa pelo domínio da Etiópia. Em 1937 este coletivo passou a ser dirigido pelo comunista trinitário George Padmore (1903-1959) – intelectual que exerceu forte influência junto a James, de quem ele destacaria a importância na elaboração do termo “negritude” e o fato de ter inspirado os principais movimentos de libertação no continente africano. Juntos, fundam o International African Service Bureau (IASB) [Agência Internacional de Serviços Africanos], celeiro dos movimentos de independência das colônias britânicas após a II Guerra Mundial – ficando James responsável pela imprensa2. Em 1938, James foi convidado por James Cannon – secretário do Socialist Workers Party (SWP) [Partido Socialista dos Trabalhadores] dos Estados Unidos – para atuar como especialista da IV Internacional em questões africanas, afro-americanas e coloniais. Estabeleceu uma longa relação com Leon Trótski, com quem chegou a se encontrar em 1939, em Coyoacán (México), para conversar sobre temas como as perspectivas de uma política voltada aos negros e sua relação com o projeto revolucionário. Por volta de 1941, junto com a marxista eslava radicada nos Estados Unidos, Raya Dunayevskaya, começou a formar a tendência Johnson-Forest, reunindo trotskistas estadunidenses3. Em 1947 este grupo se associou ao Workers Party (WP) [Partido dos Trabalhadores]. Contudo, já em 1950 James rompeu com esta tendência – e com o trotskismo. No ano seguinte, formou o Correspondence Publishing Committee [Comitê Editorial de Correspondência], que passaria a publicar um jornal operário – o Correspondence [Correspondência]. Por meio deste comitê, manteve conexões internacionais com projetos semelhantes, como o Socialisme ou Barbarie [Socialismo ou Bárbarie] da França. James permaneceu nos Estados Unidos até 1952, militando na clandestinidade, até ser preso por “atividades antiestadunidenses”. Saiu do país antes de ser deportado4. Após deixar os EUA, James manteria ainda intensa troca de correspondência com os integrantes do Correspondence, com vistas a orientá-los, principalmente depois que Raya Dunayeskaya deixou o grupo, em 1955. Destas cartas surgiram as bases teóricas que dariam origem à Ligue of Revolutionary Black Workers [Liga Revolucionária dos Trabalhadores Negros], criada nos EUA em 1969. Em 1955, James se casou com Selma Deitch, uma militante do grupo que, junto com Maria Rosa Dalla Costa, lançou a campanha internacional a favor de estabelecer um salário para o trabalho doméstico. Em certa medida, as posições que James expressou nessa época anteciparam as da chamada New Left (o movimento Nova Esquerda), que surgiria décadas depois. Ao longo dos anos 1950 e 1960 James esteve algumas vezes no continente africano e, em 1958, viveu no Caribe. É deste ano seu texto “Facing reality” [“Encarando a realidade”], no qual revela sua desilusão com os partidos comunistas e com o trotskismo. Durante os anos em que esteve de volta a sua terra natal, trabalhou na biografia de George Padmore, descrito por ele como o espírito orientador do African Bureau [Diretório Africano] e o pai da “emancipação africana”. Em 1963, publicou Beyond a boundary [Para além da fronteira] obra em que analisa questões vinculadas à estética e à educação vitoriana desde uma perspectiva do habitante das “índias ocidentais”. No final dos anos 1960, a convite de socialistas e expoentes do movimento negro estadunidense, James regressou aos EUA, e ao longo da década de 1970 deu palestras e aulas em universidades como professor convidado. São deste tempo obras como Radical America (1970) e a biografia de Kwame Nkrumah (1960-1966) – Nkrumah and the Ghana Revolution [Nkrumah e a RevoluçãoContinuar lendo “O marxismo de C. L. R. James”

O marxismo de Diego Rivera

Artista plástico, ensaísta e ativo militante político, foi um dos maiores pintores muralistas mexicanos, tendo sido membro do Partido Comunista del México e, por breve período, da IV Internacional Por Felipe Santos Deveza e Marina Mainhard * RIVERA, Diego (mexicano; Guanajuato, 1886 – Cidade do México, 1957) 1 – Vida e práxis política Nascido em Guanajuato, sendo filho de Maria e de Diego Barrientos Rivera, Diego Maria de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera y Barrientos Acosta y Rodríguez nasceu na região central da cidade. Porém, devido a recomendações médicas e suspeitas de desnutrição, logo foi viver no interior montanhoso próximo, ficando aos cuidados de Antonia, sua babá ou “nana indígena”, conforme narra em suas memórias1. Interessou-se pelo desenho desde muito pequeno. Recuperado pelo clima das montanhas e pelo zelo de Antonia, retornou aos cuidados de sua mãe e seu pai. Professores de formação, seu pai era funcionário municipal e sua mãe se dedicava as atividades domésticas de uma casa abastada. A família Rivera era tipicamente mestiça e com diversas origens, tendo antepassados indígenas e europeus. Aos 6 anos foi morar na Cidade do México, onde seus pais e familiares teriam papéis importantes na sua educação. Aprendeu a ler e escrever com uma tia-avó, até que foi matriculado em uma escola católica. Esta experiência lhe provocou uma repulsa, desde a infância, pela religião. Aos 10 anos começou a ter aulas noturnas de arte na Academia de San Carlos e um pouco depois já frequentava a escola de arte em tempo integral. Teve uma formação mais artística que escolar convencional. Foi durante esse período que conheceu o famoso gravador José Guadalupe Posada – quem, com obras publicadas em jornais e livros, popularizou a imagem das caveiras mexicanas (as catrinas2). Ao completar 20 anos, conseguiu uma bolsa de estudos para viajar à Espanha e conhecer o ambiente acadêmico da pintura europeia. Viveu 14 anos na Europa, dez deles com Angelina Beloff, uma pintora de origem russa com quem se casou e morou em Paris. Teve um filho com ela, que morreu de meningite ainda bebê. Durante seu período europeu (1907-1921) conheceu Picasso, as obras de Cézanne e os artistas do bairro de Montparnasse, podendo experimentar as tendências artísticas que estavam florescendo, como o cubismo e o pós-impressionismo, que lhe renderam um relativo reconhecimento em Paris. Para ganhar a vida, especializou-se em copiar obras conhecidas e o estilo dos autores, vendendo seus quadros no mercado da falsificação. Esse período lhe rendeu um grande aprendizado, o qual mais tarde empregaria em suas mais célebres obras. Diferentemente de outros muralistas, Diego não se envolveu nas batalhas da Revolução Mexicana (1910-1920). Em 1921 ele foi convidado por José Vasconcelos (1882-1959), secretário de Educação do governo pós-revolucionário de Álvaro Obregón (1920-1924) para decorar as paredes de prédios públicos com obras que ajudassem a contar a história do país. Embora desejasse refundar a cultura nacional, Vasconcelos buscava na Europa referências para o renascimento cultural mexicano, e Diego foi escolhido por seu reconhecimento artístico nos salões parisienses. Após os anos na Europa, em 1921 ele desembarcou no porto de Veracruz. Por essa época se separou de Belloff, e em 1922 se casou com Guadalupe Marin (1895-1983), com quem teria duas filhas – Ruth e Guadalupe Rivera Marin. Como muitos outros modernistas latino-americanos, seria a partir do retorno da experiência europeia que Diego redescobriria o México, perceberia a exuberância de suas cores, a plástica da vida cotidiana e as imagens da Revolução, com suas tropas populares, de grandes sombreiros e pesadas cartucheiras, inspirando novos tipos, formas e temas. Trabalhando na Secretaria de Educação, procurou retratar festas populares, cenas do cotidiano de trabalhadores, e foi evoluindo para composições relacionadas à luta de classes e pela terra. O retorno de Diego Rivera ao México ocorreu nos anos de fundação e início da construção do Partido Comunista de México – no embalo da Revolução Bolchevique (1917) –, e ele foi imediatamente atraído para o centro do partido, criando uma unidade entre a atividade artística dos muralistas e a atividade política comunista. Em 1928, Diego se separou de Guadalupe, e logo começou sua relação com Frida Kahlo, que conhecera enquanto pintava a gigantesca obra mural que decora o edifício da Secretaría de la Educación Pública, no centro da Cidade do México. Com Frida – que buscava referências entre os pintores mais politizados da época e passou a acompanhar o seu trabalho – Diego viveu um intenso relacionamento, até a morte dela em 1954. Ele, por sua vez, se tornou um grande admirador dos quadros da companheira. No ano seguinte (1929), eles se casaram, e conforme demonstram suas cartas, diários e registros, Frida e Diego foram muito parceiros, embora ela nunca tenha deixado de expor suas opiniões, mágoas e críticas ao marido. Entre 1923 e 1928, quando concluiu o famoso mural “Arsenal” – em que aparecem Frida Kahlo e Tina Modotti distribuindo armas aos revolucionários –, Diego Rivera daria uma nova orientação às obras murais, superando a ideia de caráter didático da simples ilustração da história mexicana, para as inúmeras tentativas alegóricas de representar nos murais a luta de classes. No final da década de 1920, os governos do Maximato (série de governos controlados pelo ex-presidente Calles) perseguiram o PCM e o mantiveram na ilegalidade. Diego Rivera, que nessa época já era uma importante figura pública, conservaria seus contratos com o governo, sendo assim acusado por comunistas de colaborar com a “nova burguesia mexicana”. Isolado, Diego aceitou realizar alguns murais nos Estados Unidos, onde a sua obra ganhou notoriedade internacional. Após pintar murais na Califórnia e em Nova Iorque com temas variados, em 1932 ele começou a pintar um mural no Rockfeller Center, prédio central de icônico magnata capitalista estadunidense. Desde o início este mural foi polêmico, já que juntava o mais famoso artista comunista da época a uma das mais icônicas sedes dos capitalistas. Em meio à maior crise econômica dos Estados Unidos e ao clima de conciliação das políticas do New Deal, do governo Roosevelt (1933-1945), este fato seria interpretadoContinuar lendo “O marxismo de Diego Rivera”

O marxismo de Pío Tamayo

Poeta, escritor, editor e educador, foi um pioneiro do marxismo venezuelano, tendo participado da organização do primeiro Partido Comunista de Cuba e fundado o coletivo Carpa Roja, precursor dos núcleos comunistas que deram origem ao Partido Comunista de Venezuela Por Yuri Martins-Fontes, José Fernando Siqueira da Silva e Freddy Giovanni Esquivel Corella Pío Tamayo Rodríguez, José (venezuelano; El Tocuyo/Venezuela, 1898 – Barquisimeto/Venezuela, 1935). 1 – Vida e práxis política José Pío Tamayo Rodríguez nasceu em 5 de abril de 1898 em El Tocuyo, no Sudoeste do Estado de Lara – região agrícola e pecuária. Filho de José Antonio Tamayo Pérez e de Sofía Rodríguez, mais velho de onze irmãos, foi alfabetizado por sua tia, a professora Juana Francisca Rodríguez. Influenciado por sua mãe, teve desde cedo contato com a literatura, o que lhe despertou a possibilidade de uma vida menos restrita do que aquela que lhe reservava os negócios familiares no comércio e produção rural. Em sua cidade natal, seguiu os estudos no Liceo Bolívar e no colégio La Concordia. Com 12 anos de idade, quando costumava escapar das aulas para ler em biblioteca da vizinhança, publicou seu primeiro texto. Na adolescência, com o pseudônimo de “Júpiter” (inspirado nas iniciais de seu nome – J. P. T. R.), editou os periódicos El Juvenil, Saltos y Brincos e Ayacucho, que circularam no estado de Lara. Em 1912 se transferiu ao colégio La Salle, de Barquisimeto. À época, já realizava atividades de tipografia com seus irmãos Juan e Joaquín Falcón. Em 1913, ao lado dos companheiros Roberto Montesino e Hedilio Lozada, fundou a gráfica Gil-Blas, em Barquisimeto. Colaborou também com o jornal tocuyano El Cosmopolita, em que escrevia sobre poesia e crítica política, além de ter sido redator de El Ideal, impresso pela tipografia La Torcaz. Em meados dos anos 1910, por motivo do falecimento de seu pai, teve de regressar a El Tocuyo para cuidar dos negócios da fazenda da família – período em que tentou fomentar uma cooperativa camponesa no local. Primogênito de uma família proprietária de terras e orientado desde logo a esta atividade pelo pai, foi na literatura que Pío encontrou um espaço para ampliar seus horizontes para além das atividades econômicas realizadas no campo e no comércio. Então, passou a desenvolver uma ativa participação nas atividades sociais e centros literários tanto de sua cidade como de Barquisimeto – colaborando com publicações como Don Quijote (1914), Minerva (1914-1915) e Ensueños (1915). Por estes tempos a I Guerra Mundial foi deflagrada. Ansioso por notícias do conflito, Pío Tamayo se juntou com seus companheiros de militância político-literária – entre outros, Alcides e Hedilio Losada, Ernesto Nordhoff, Rafael Elías Rodríguez, Agustín Gil Gil, Roberto Montesinos e Jesús García – para formar o círculo literário El Tonel de Diógenes. Neste espaço de leitura e diálogo, os jovens articulariam discussões literárias, debates políticos e estudos filosóficos, além de criarem a revista de literatura Renacimiento, que teve breve duração. As reuniões desse grupo marcaram o começo de uma fase em que Pío passou a ser malvisto pelo governo de Juan Vicente Gómez – ditador que dirigiu o país entre 1908 e 1935. Apesar disso, sendo membro de renomada família produtora de açúcar, de início Pío não sofreu maiores retaliações. Em 1917, escreveu os poemas “El poema del cosmos”, em que abordou as condições preocupantes do mundo; e “Las canciones del sexo”, no qual, por meio de imagens sensuais, “cantou” a vida, reconhecendo o “ruído bestial” da história. No período, contribuiu com vários periódicos – com destaque para El Cosmopolita, El Diário e El Tocuyo –, tratando de temas como o fim da I Guerra (1918) e o impacto da epidemia de gripe espanhola (assumindo inclusive tarefas na Cruz Vermelha). No início de 1922, finalizou e começou a divulgar entre conhecidos sua primeira novela, El dolor de los granujas [A dor dos pilantras], na qual expunha a condição miserável dos camponeses. A obra – que só seria publicada por uma editora em 1998 – ganhou boa repercussão, motivo pelo qual as ações de Pío Tamayo passaram a ser identificadas como “subversivas” e “comunistas”. Ante a situação de risco, em julho de 1922 partiu para Porto Rico, sob o argumento de que iria estudar “técnicas de cultivo” e se especializar no negócio do açúcar. Não obstante, fora do território venezuelano, ele se dedicaria especialmente ao que de fato desejava: o trabalho literário e o contato com os exilados políticos venezuelanos. Vivendo em Porto Rico – hospedado na propriedade do venezuelano Rafael W. Camejo, negociante do ramo açucareiro –, dirigiu a revista Gráficas e Bohemia. Aí, lidou simultaneamente com duas atividades díspares: sua formação profissional técnico-agrícola, e sua contribuição político-jornalística e literária. O conflito entre ambos os trabalhos foi manifestado por Pío em diversas cartas do período. Após nove meses em Porto Rico, em maio de 1923, prosseguiu viagem, dirigindo-se aos Estados Unidos. Passou cinco meses em Nova Iorque, tendo trabalhado em uma gráfica e como redator no jornal Prensa Latina, além de ter conhecido exilados políticos venezuelanos. Em outubro de 1923, Pío Tamayo seguiu para Cuba. Este foi um momento denso de sua viagem, em que ele se familiarizou com as teses marxistas e se envolveu com o movimento comunista internacional. Estabelecendo-se em Havana, onde viveu por sete meses, travou relação com os revolucionários que no ano seguinte criariam a Liga Anti-Imperialista das Américas (LADLA), vinculada à Internacional Comunista (IC). Envolveu-se também com os debates e organização do coletivo que, em 1925, fundaria o primeiro Partido Comunista de Cuba (PCC) – tornando-se camarada de marxistas como Julio Antonio Mella. E contribuiu com a formação política de seus compatriotas, opositores da ditadura gomecista, além de se articular com outros exilados latino-americanos e colaborar com as revistas Venezuela Libre (dirigida pelo advogado e jornalista Francisco Laguado Jaime)e Universitaria (da qual participava Alejo Carpentier). Em maio de 1924, deslocou-se de Cuba à cidade caribenha de Barranquilla, na Colômbia, onde morou por dois meses. Seu objetivo foi o de se encontrar com o general venezuelano Emilio Arévalo Cedeño –Continuar lendo “O marxismo de Pío Tamayo”

O marxismo de Pagu

Escritora, jornalista, tradutora, desenhista e diretora teatral, participou do movimento antropofágico modernista e foi militante do Partido Comunista do Brasil e do Partido Socialista, tendo atuado também em órgão secreto da Internacional Comunista Por Walnice Nogueira Galvão * PAGU; Galvão, Patrícia Rehder (brasileira; São João da Boa Vista-SP, 1910 – Santos-SP, 1962). 1 – Vida e práxis política Paulista do interior, Patrícia Rehder Galvão, que seria conhecida como Pagu, foi criada na capital, para onde seus pais se transferiram quando ela tinha 2 anos. Era filha de Adélia Rehder e Thiers Galvão de França, advogado e jornalista, sendo Pagu a terceira de três irmãos: Conceição, Homero e Sidéria (esta última seria pelo resto da vida uma aliada, confidente e cúmplice). Iniciou os estudos no Grupo Escolar da Liberdade, à rua Galvão Bueno. Após frequentar a Escola Normal do Brás, bairro em que residia, formou-se em 1928 pela Escola Normal Caetano de Campos, na Praça da República (Centro de São Paulo), diploma que habilitava ao ensino de crianças, na escola primária. Fenômeno recente no panorama brasileiro, a “normalista” abria a perspectiva da emancipação feminina através do trabalho. Simultaneamente, Pagu assistiu aulas no Conservatório Musical. Por este tempo, Pagu foi apresentada por Raul Bopp a Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, figuras de proa do Modernismo. Com sua formosura juvenil, charme e comportamento inconvencional, Pagu abalou o cenáculo modernista; a exuberância da cabeleira, a boca polpuda, os olhos derramados – registrados no célebre poema que lhe dedicou Raul Bopp, “Coco Pagu” – tornaram-se sua marca registrada. Recém-saída de um concurso de beleza em sua cidade natal, a moça foi tragada pelo turbilhão da sociabilidade modernista, brilhando em festas e saraus paulistanos nos quais declamava a poesia de seus novos amigos. Em 1929, Pagu e Oswald de Andrade passaram a viver juntos. Num gesto típico de escândalo modernista, celebrariam sua união numa cerimônia de casamento ao pé do jazigo da família de Oswald, no Cemitério da Consolação. Dessa união, com cinco anos de duração, nasceu um filho, Rudá Poronominare Galvão de Andrade. Pagu participaria intensamente da fase antropofágica do Modernismo e prestaria colaboração à Revista de Antropofagia com desenhos, contos e poemas. No ano seguinte, ela viajou de navio a Buenos Aires, no intuito de participar de um recital e tentar encontrar Luiz Carlos Prestes, que ali vivia em exílio, mas não o encontrou. Entretanto, durante o percurso, fez amizade com Zorrilla de San Martin e travou contatos na área literária com o grupo de escritores da revista Sur: Jorge Luis Borges, Victoria Ocampo, Eduardo Mallea. À volta, ela trouxe livros e outros materiais marxistas. Já em São Paulo, Astrojildo Pereira, intelectual fundador do PCB, procura o casal. Pagu, cativada, passou a traduzir panfletos a seu pedido, declarando com entusiasmo dedicar-se doravante à “causa dos oprimidos”. Com a crise econômica que estourara em 1929, abriu-se passo a uma reconfiguração de forças, com radicalização de intelectuais, à direita e à esquerda. Encerrava-se a década de eclosão e fastígio do Modernismo, baseada numa fusão de vanguardistas com mecenas cafeicultores. Nesse processo, em 1931 Patrícia e Oswald filiaram-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e passaram a militar pela revolução. Ainda em 1931, o casal fundou o tabloide O Homem do Povo, que duraria apenas oito números. Hostilizado pelos estudantes da vizinha Faculdade de Direito – que chegaram a invadir a redação –, acabou proibido por ordem policial. Após o fechamento do periódico, Pagu e Oswald decidiram embarcar para Montevidéu, onde finalmente se encontraram com Prestes. Juntos, passariam dias conversando, tendo formado uma forte conexão. Pagu data deste encontro sua conversão definitiva à luta política socialista, tal o poder de convicção do líder. Sentindo-se ignorante, daí em diante Pagu procurou estudar, e mergulhou na militância. Sua primeira prisão se deu nesse ano de 1931, em Santos – maior porto do Brasil, escoadouro da riqueza principal de então, o café –, quando participou de uma greve após ser designada para militar na organização do Socorro Vermelho. Logo solta, trabalhando como operária, discursou no palanque do comício de uma greve de estivadores e foi novamente presa quando acudia um manifestante baleado pela polícia. O episódio ganhou primeira página em A Tribuna, de Santos, com o nome de Patrícia Galvão em manchete sensacionalista e acusadora. É deste evento que data sua reputação de ser a primeira mulher presa política no Brasil. Contudo, a reação do PCB diante do escândalo armado pela mídia foi negativa: a origem pequeno-burguesa de Pagu seria atacada num manifesto que desautorizava sua atuação – como agitadora individual – no palanque do comício. O período que se segue é de dificuldades para Pagu e Oswald. A polícia mantém constante vigilância sobre suas ações, forçando-os a redobrar os cuidados. Então, em 1932, o PCB recomenda a transferência dela para o Rio de Janeiro. Iniciou-se então sua fase carioca. Vivendo em um cortiço, viu-se proibida pelo partido de trabalhar no Diário da Noite, por ser esta uma atividade considerada “intelectual” – enquanto o PCB considerava necessário que ela passasse por um processo de “proletarização”. Depois de procurar em agências e tentar colocações como empregada doméstica ou de fábrica, conseguiu um posto como lanterninha de cinema na Cinelândia, passando a agir na organização de um sindicato dos trabalhadores de cinema e casas de diversão. Descoberta pelos patrões, foi despedida, indo então trabalhar como operária numa metalúrgica. Em seguida, foi nomeada para a Conferência Nacional do PCB e designada para participar da segurança – o que lhe trouxe muita alegria, reforçando sua fé na luta política e no comunismo. Nessa metalúrgica, ela organizou duas células, mas, ao adoecer, perdeu o emprego, ficando em situação precária. Assim, o PCB ordenou que voltasse a São Paulo e passasse a militar no meio intelectual. Corria o ano de 1932; na esteira do movimento separatista de São Paulo, ela e Oswald receberam ordem de prisão e passam à clandestinidade. Neste contexto, o partido – que então vivia sua fase “obreirista” (de valorização de operários na direção, em detrimento de intelectuais) – abriuContinuar lendo “O marxismo de Pagu”

O marxismo de Emilio Frugoni

Ensaísta, poeta, crítico de teatro, professor de Literatura e de Direito, editor e político, foi fundador do Partido Socialista de Uruguay e um dos pioneiros do marxismo uruguaio Por Natalia Tahara e Mateus Fiorentini * FRUGONI, Emilio; “Urgonif”; “Imulio Ergonif”; “Tritón” (uruguaio; Montevidéu, 1880 – Montevidéu, 1969). 1 – Vida e práxis política Emilio Frugoni nasceu em uma família com formação católica e oriunda das camadas médias urbanas, filho de Domingo Frugoni, imigrante italiano e comerciante, e de Josefina Queirolo de Frugoni, mestiça (criolla). Ainda no século XIX, aos 16 anos, Frugoni já colaborava com jornais estudantis influenciados pelo Partido Colorado, como Los Debates e El Bombo. Os conflitos que marcaram a passagem para o século XX no Uruguai são resultados de anos de polarização política entre o Partido Nacional (os blancos) e o Colorado – ambos oriundos do processo de independência do país. Durante o período que começou por volta de 1870 e se estendeu até 1904, deu-se a consolidação da formação nacional moderna e capitalista uruguaia. Foi neste cenário em que Frugoni se inseriu no mundo da política – tendo inclusive uma breve participação na guerra civil de 1897 e na revolução de 1904, nas quais lutou pelas fileiras coloradas. Por estes anos, ao lado de Enrique Rodó (expoente do pensamento nacional uruguaio) e Carlos Reyles (escritor e ensaísta), impulsionou o Club Libertad que mobilizava os jovens identificados com o batllismo, corrente política do colorado José Batlle y Ordóñez, que governou o Uruguai entre 1903 e 1907, e entre 1911 e 1915, implementando reformas sociais. O país esteve marcado, desde sua independência (1828), por conflitos entre os partidos Blanco e Colorado, que funcionavam mais como frações políticas das oligarquias, que como partidos políticos. Estes embates marcaram a entrada da sociedade uruguaia no século XX, não sendo apenas conflitos entre caudilhos, mas o momento em que teve início a construção de projetos nacionais e a consolidação das bases que viriam a fundamentar a democracia liberal burguesa no país. Desencantado com os partidos tradicionais, ainda moço Frugoni se afastou dos colorados, aproximando-se do movimento operário – de orientação socialista. Em 1904, logo após a guerra civil, vinculou-se ao Centro Obrero Socialista, agrupamento fundado em 1896, que reunia adeptos do socialismo científico. Em dezembro deste ano, em um ato público realizado no tradicional Teatro Stella d’Italia, proferiu a conferência intitulada “Profesión de fe socialista”, evento que expressou um momento determinante para a produção intelectual de Frugoni, assim como para a constituição de sua interpretação acerca da formação social do Uruguai. Nesse período, em que estudava Direito e já dispunha de certo prestígio como poeta e polemista junto aos círculos intelectuais de Montevidéu, participou de vários concursos literários e deu aulas na Facultad de Enseñanza Secundaria (1905-1907); foi também cronista teatral nos periódicos Diario Nuevo (1906) e El Día (1908-1911). Em 1910, formou-se em Direito na Facultad de Derecho y Ciencias Sociales – e, com outros companheiros, fundou o Partido Socialista de Uruguay (PS). Nas eleições deste ano, Frugoni elegeu-se deputado pela Coalición Liberal-Socialista, tornando-se o primeiro deputado socialista eleito no Uruguai – e um dos primeiros na América Latina. Ao longo de toda sua trajetória parlamentar, ocuparia o cargo por cinco vezes (1911-1914, 1920-1921, 1928-1933, 1934-1939, 1940-1942), havendo inicialmente se notabilizado por sua postura crítica ao segundo mandato de Jose Batlle y Ordoñez (1911-1915) – apesar de ter apoiado algumas de suas reformas. Foi também membro da Assembleia Nacional Constituinte, que funcionou de 1916 a 1917. Neste período de dezesseis anos na vida parlamentar, elaborou projetos sobre temas relacionados ao trabalho, como: reajuste salarial; trabalho da mulher e da criança; trabalho noturno; jornada de quarenta horas semanais de trabalho; direito à moradia para trabalhadores. Entretanto, a eclosão da Revolução Russa, em 1917, produziu um impacto determinante para os rumos do PS, bem como da trajetória política de Frugoni. A chegada dos bolcheviques ao poder na Rússia dividiu os socialistas, da mesma forma que o conjunto do movimento revolucionário uruguaio, entre aqueles que apoiavam a experiência russa, e os que a criticavam ou se opunham. Aqueles grupos que se identificavam com a Revolução de Outubro comandada por Lênin foram identificados como maximalistas, sendo liderados por Eugenio Gómez; já entre os críticos encontrava-se Frugoni, que simpatizava com os revolucionários de Fevereiro e a ala menchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Com a criação da Internacional Comunista (IC), em 1919, abriu-se nova polêmica no PS – agora em torno de sua adesão a esta organização –, o que marcaria os debates do VIII Congresso do partido no ano seguinte. No entanto, devido a dificuldades de comunicação, as 21 condições exigidas para o ingresso de partidos à IC tardaram em chegar ao Uruguai, o que reabriu as discussões que pautariam o VII Congresso Extraordinário do PS, em 1921. Na ocasião, aprovou-se por ampla maioria a adesão do partido à III Internacional, e sua consecutiva mudança de nome – passando a se chamar Partido Comunista de Uruguay (PCU). As discrepâncias com a nova linha adotada levaram ao desligamento de Frugoni, quem ainda em 1921 refundaria, ao lado de alguns poucos companheiros, o Partido Socialista. Entre 1926 e 1933, paralelamente a suas atividades políticas, tornou-se o primeiro professor da disciplina de Legislación del Trabajo y Previsión Social e diretor da Facultad de Derecho y Ciencias Sociales da Universidad de la República (UDELAR), época em que protagonizou os debates acerca da Reforma Universitária.. Devido a sua resistência ao golpe de Estado do presidente Gabriel Terra (março de 1933), Frugoni foi preso no quartel de Blandengues (Montevidéu), sendo alguns dias depois deportado para Buenos Aires. Na Argentina, foi convidado pelo reitor da Universidad de La Plata, José Peco, a ministrar um curso sobre marxismo – o que originaria uma das suas principais obras, Ensayos sobre marxismo (1936), fruto da publicação do compêndio de conteúdos de suas aulas. Em 1934, regressou do exílio ao Uruguai, dedicando-se a função de deputado, após ter renunciado ao cargo de diretor da Facultad de Derecho y Ciencias Sociales. Na década seguinte, foiContinuar lendo “O marxismo de Emilio Frugoni”