O marxismo de Jacques Roumain

Antropólogo, escritor, poeta, professor e diplomata, foi fundador do Partido Comunista Haitiano e expoente do movimento Negritude, defensor da ideia de que a questão do negro não deve ser reduzida ao problema do racismo, sendo antes uma questão de luta de classes Por Joana A. Coutinho * ROUMAIN, Jacques (Porto Príncipe-Haiti, 1907; Porto Príncipe, 1944) 1 – Vida e práxis política Jacques Roumain nasceu na capital haitiana. Primogênito de uma família numerosa, teve onze irmãos. Seu pai, Auguste Roumain, foi um grande proprietário de terras, e sua mãe Émilie Auguste, era filha de Tancrède Auguste (presidente do Haiti entre 1912 e 1913). De uma família de mestiços letrados, Jacques falava fluentemente o dialeto criollo e o francês – características incomuns em um tempo no qual a maioria da população nativa sabia somente o criollo e era analfabeta1. A infância e época de formação de Jacques Roumain foi marcada por seguidas revoltas camponesas no país – contra as altas taxas tributárias, a miséria e exploração – situação que culminaria em mudanças constantes no governo e em uma prolongada ocupação do país pelos Estados Unidos (1915-1934), com o apoio das elites haitianas. Os EUA desocupariam o Haiti apenas vinte anos depois, após alcançarem seus objetivos: garantir o pagamento dos empréstimos contraídos com o Citibank e abolir um artigo da constituição haitiana que proibia a venda de suas plantações para estrangeiros2. Importa destacar que o Haiti havia se endividado com esse banco estadunidense para conseguir pagar a enorme indenização imposta pela França como requisito para o reconhecimento da independência do país – pagamentos que só foram encerrados em 1947, contabilizando cerca de 21 bilhões de dólares e mais 200 anos de juros. À época da libertação haitiana do jugo colonial francês (1804), o país era considerado a “joia do Caribe”: uma sociedade composta por cerca de 500.000 escravos, 30.000 brancos e 28.000 negros livres que mantinha uma economia organizada em torno da plantação da cana-de-açúcar e, em menor medida, do café – produção que dava a São Domingos (nome colonial do Haiti) o status de colônia altamente lucrativa. Jacques Roumain teve uma educação esmerada, como era comum aos de sua classe social: primeiramente no Haiti, estudou no famoso colégio Saint-Louis de Gonzague, e a partir dos 14 anos, mudou-se para a Suíça, onde terminou sua formação escolar no Institut Grünau, em Berna e depois na École Polytechnique Fédérale de Zurique3. Ali, aprendeu o idioma alemão, leu com paixão Schopenhauer, Nietzsche e Darwin, além de estudar paleontologia. Depois, viajou à Madri, capital da Espanha, para estudar agronomia, visitando também a Alemanha, França e Inglaterra. Nesta capital sua atenção se voltou às touradas, que o encantaram a ponto de ele chegar a ter aulas de toureio, além de ter escrito um poema em prosa sobre o tema, intitulado “Corrida”. Afinal, não terminou o curso – e caberia a seus irmãos estudarem agronomia e cuidar das terras da família. Em 1927, ainda em meio à ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, Roumain decidiu regressar a seu país. À época com 20 anos de idade, se juntou a Philippe Thoby-Marcelin (poeta, escritor e jornalista), Carl Brouard (poeta) e Antonio Vieux (escritor) – jovens intelectuais haitianos críticos à agressão estadunidense – para fundar o periódico La Revue Indigène: les Arts et la Vie4 [A Revista Indígena: as Artes e a Vida], que estimulava a exploração de novas formas de escrita que tratassem das complexidades da sociedade haitiana. A publicação representa um marco fundador do movimento Nègritude [Negritude] – corrente de vanguarda caribenha que, por meio da literatura e da política, buscou mostrar ao haitiano como ter orgulho de suas raízes culturais, de sua tradição oral e da religião vodu. Em 1928, foi nomeado gerente de um jornal chamado Petit Impartial [Pequeno Imparcial], e na sua nomeação o diretor elogiou a “chama patriótica” do jovem Roumain, ao mesmo tempo em que lhe pediu calma e ponderação. O debutante não tinha nem uma nem outra. Cofundador da Liga da Juventude Patriótica, em dezembro deste ano foi preso (pela primeira vez), junto com Georges Petit e Elie Guérin, por crime relacionado à “imprensa”. Foram condenados a um ano de detenção e ao pagamento de uma multa de cinco mil gourdes haitianos. A sentença depois seria reduzida, mas eles foram mantidos presos sob o argumento de existirem outras acusações. Somente alcançaram a liberdade em agosto de 1929. Nesse mesmo ano, Roumain começou a publicar a coluna “Mon Carnet” [Meu Caderno], primeiro, no jornal La Presse e, depois, no Le Nouvelliste. Mas seu trabalho foi logo interrompido porque, em outubro, Roumain foi novamente preso, junto com dois companheiros, Victor Cauvin e Antoine Pierre-Paul, por ferirem a lei que proibia a associação de vinte ou mais pessoas. Em dezembro de 1929, uma anistia liberou todos os presos políticos. Estando em liberdade, Jacques Roumain se casou com a haitiana Nicole Hibbert, filha do romancista Fernand Hibbert (1873-1928). Em 1930, com a queda do presidente Louis Borno, Roumain foi nomeado chefe de divisão do Ministério do Interior pelo presidente interino, Eugène Roy. Porém, se demitiu do cargo depois de alguns meses para fazer campanha para o então candidato Sténio Vincent, eleito presidente no mesmo ano. Em 1931, Roumain retornou ao cargo, dessa vez nomeado por Sténio Vicent (que governou entre 1930 e 1941). Em 1932, um promotor o convocou por suspeita de “subversão”. A acusação o levou à prisão no ano seguinte, na Penitenciária Nacional, junto com o socialista Max Hudicourt, sendo ambos acusados de conspiração. Em carta ao poeta Léon Laleau, Roumain declarou: “eu sou comunista”, e “nenhum poder no mundo pode me tirar este direito”5. Em junho de 1934, publicou a obra Analyse schématique (1932-1934) [Análise esquemática], expondo algumas de suas perspectivas do marxismo, e ao lado de alguns companheiros fundou o Parti Communiste Haïtien (PCH) [Partido Comunista Haitiano], sendo eleito secretário-geral. Neste primórdio, o Comitê Central do partido lançou o lema “Cor não é nada, classe é tudo”. Ainda nesse ano da fundação, em agosto foi preso e, em outubro, condenado aContinuar lendo “O marxismo de Jacques Roumain”

O marxismo de Caio Prado

Historiador, filósofo, editor e político, foi militante do Partido Comunista Brasileiro durante toda a vida, sendo pioneiro de uma interpretação marxista autêntica da realidade brasileira Por Yuri Martins-Fontes * PRADO Júnior, Caio (brasileiro; São Paulo, 1907 – São Paulo, 1990) 1 – Vida e práxis política Caio da Silva Prado Júnior nasceu na primeira década do século XX, no seio de uma abastada família de cafeicultores e industriais. Frequentou boas escolas; teve professores particulares. Ainda moço assistiu à Semana de Arte Moderna de 1922. Logo depois entrou na Faculdade de Direito de São Paulo (a Faculdade de Filosofia ainda não existia), formando-se em 1928. Devido à precariedade do meio universitário brasileiro da época, sua origem de classe foi um fator significativo para que pudesse ter acesso a uma formação intelectual “refinada e sólida”1. Neste período, anterior à Revolução de 1930, a política brasileira era dominada por oligarquias regionais, não havendo partidos de dimensão nacional. Entretanto, no estado de São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP) dominava a cena com um poder que ressoava no restante do país. A partir de 1922, com o movimento tenentista, se fortaleceu a oposição – por parte das classes médias e certa dissidência oligárquica – ao clientelismo2 deste partido. A pauta política progressista da época era a de promover um Estado nacional forte que se contrapusesse às elites paulistas. Em 1926, foi fundado o Partido Democrático de São Paulo (PD), com a bandeira da “renovação dos costumes políticos”; no entanto, a agremiação tinha como lideranças latifundiários, que mais tarde se negariam a abrir mão de seus privilégios. Por este tempo, o jovem Caio escreveu o artigo “A crise da democracia brasileira” (1927), no qual acusava a fraude eleitoral operada pelo Partido Republicano Paulista (representante da oligarquia cafeeira) e esboçava uma análise de classes da sociedade nacional. Depois, em 1929, imerso nesse panorama político restrito, Caio Prado se filiou ao PD. Embora breve, esta sua primeira experiência partidária foi intensa: o começo do que seria uma vida de engajamento político. Militante enérgico, impulsionou a penetração do partido em bairros da capital e interior, através de tarefas de organização e comícios para arregimentar correligionários. O objetivo do PD era promover a Campanha Liberal, apoiando a candidatura de Getúlio Vargas contra o oficialista conservador Júlio Prestes. Em meio a essa tensão, Caio gritou saudação a Vargas, em cerimônia da candidatura de seu oponente, sendo preso pela primeira vez.3 Em 1930, J. Prestes, candidato da enfraquecida elite paulista, foi eleito – em um processo fraudulento. Diante disto, as forças opositoras, sobretudo facções da oligarquia gaúcha e os tenentes, se aliaram, fortalecendo-se. Neste processo, Caio Prado atuou em favor dos rebeldes, participando de ações conspiratórias, promovendo a comunicação entre líderes e apoiando a logística de operação de sabotagem. Contudo, com a vitória dos revoltosos e a consequente chegada de Getúlio ao poder, o PD teve expostas suas contradições e falta de programa. Foi assim que Caio Prado, decepcionado com as limitações de sua fração burguesa “radical” no enfrentamento das oligarquias, superaria as barreiras conservadoras de sua classe social, em uma inflexão que o levou a subverter os valores no qual estava imerso e a efetivamente se radicalizar. Em 1931, se casou com Hermínia Cerquilho e teve seu primeiro filho. Neste mesmo ano, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (antigo nome do PCB, hoje Partido Comunista Brasileiro), força política não numerosa, mas que tinha então um programa consistente, apontando para a raiz social e econômica do problema nacional. Membro ativo, Caio Prado entregou-se à organização dos trabalhadores, atuando em organizações de base. O começo da década de 1930 foi conturbado no Brasil – assim como no mundo. A sociedade brasileira, ansiosa por uma nova ideologia que refletisse o tempo de crise do entreguerras, se dividia entre socialistas e integralistas. Em São Paulo, um centro das disputas nacionais, uma crise política culmina na mal denominada “Revolução Constitucionalista” de 1932 – em realidade, um golpe de estado das antigas oligarquias locais para restabelecer a ordem anterior. Caio Prado se colocou contrário a este movimento sedicioso (que chegou até mesmo a atrair artistas da vanguarda modernista). Nesse período passou a militar pelo Socorro Vermelho e pela Cooperativa Internacional dos Trabalhadores, além de participar da fundação do Clube dos Artistas Modernos (CAM) – que abrigou parcela mais politizada da elite cultural modernista. Inclinado à formação de opinião, tão logo se filiou ao PCB, passou a desempenhar a atividade de editor, à qual se dedicaria por décadas. Começou editando o efêmero jornal A Luta e, em 1933, traduziu e publicou Teoria do materialismo dialético: manual popular de sociologia marxista (de Bukharin), obra didática com o intuito de difundir o marxismo. Para viabilizar estes projetos e apoiar o partido, ele desviou verba de sua família, além de interceder junto a amizades politicamente progressistas. Em 1933, visitou a União Soviética e, à volta, fez uma conferência no CAM que lotou a rua. Foi sua primeira atuação significativa como formador de opinião, atividade que consideraria como uma das tarefas comunistas essenciais. Ainda neste ano, veio à luz Evolução política do Brasil, sua pioneira obra de impacto, com que dava início a uma produção historiográfica vigorosa. Em 1934, publicou seu segundo livro, URSS: um novo mundo, fruto da popularidade de suas palestras de 1932. A obra, apreendida pela polícia, trouxe ao escritor um inicial reconhecimento nos meios comunistas – aliás, maior do que aquele resultante da sofisticada análise de seu livro anterior (Evolução…). Nela, investiu contra o pacifismo da social-democracia parlamentar, defendendo a ética da insurreição revolucionária: a única, segundo ele, que realizou de fato o lema da “igualdade entre os homens”4. Em meados da década de 1930, com a consolidação do poder de Vargas, a inicial afirmação política do PCB sofreu um refluxo, e a correlação de forças se tornou cada vez mais desfavorável. A partir daí, Caio Prado evitaria discutir se a revolução deveria ou não ser armada, pacífica ou violenta, acentuando que, antes de se pretender saber a “forma” como se dará a “revolução”, cabe arregimentarContinuar lendo “O marxismo de Caio Prado”

O marxismo de Juan B. Justo

Médico, jornalista, político e escritor militante, foi o primeiro tradutor direto do clássico O capital de Marx ao espanhol, fundou o Partido Socialista Argentino e se destacou como defensor do cooperativismo e do movimento operário argentino Por Yodenis Guirola [Tradução: Yuri Martins-Fontes L. e Renato César Ferreira Fernandes] JUSTO, Juan Bautista (argentino; Buenos Aires, 1865 — Los Cardales/Argentina, 1928) 1 – Vida e práxis política Juan Bautista Justo nasceu na capital argentina, filho de pais de classe média que se dedicavam a trabalhos agrícolas. Sua mãe, Aurora Castro, tinha ascendência mestiça, e seu pai, Juan Felipe Justo, era descendente de genoveses. Inicialmente, sua família desfrutava de certo conforto econômico, o que depois se deterioraria. Sua educação inicial se deu em sua cidade natal, primeiro em uma escola particular, e logo, entre 1877 e 1881, no Colegio Nacional. Em 1882 começou seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidad de Buenos Aires, e paralelamente trabalhou como jornalista no diário La Prensa, o que contribuiu para financiar a universidade. A partir do quarto ano do curso de medicina, fez residência no Hospital de Clínicas. Em 1888, formou-se em Medicina, obtendo seu título com honras – sendo seu trabalho de conclusão sobre aneurismas arteriais cirúrgicos. Após graduar-se, viajou para a Europa, onde continuou sua formação clínica em Paris, Berna e Viena. Ao retornar, em 1889, trabalhou no Hospital de Crónicos de Buenos Aires, no qual foi nomeado chefe de cirurgia. Em 1890, como cirurgião, aplicou com sucesso o método da ressecção osteoplástica do crânio, sendo reconhecido e designado como presidente do Círculo Médico Argentino. No âmbito militante, junto com Germán Avé Lallemant (agrimensor e marxista alemão-argentino), convocou a celebração do Primeiro de Maio. Também neste ano, incorporou-se à Unión Cívica de la Juventud, na qual militou brevemente, e atendeu a feridos do Parque de Artillería, no contexto da Revolução de 18901. Em 1892, paralelamente às suas funções como médico, Justo colaborou com o periódico El Obrero, de orientação marxista; e em 1893, meses após a refundação da Agrupación Socialista, Justo aderiu à organização2, tendo desempenhado um papel relevante em seu desenvolvimento. Em agosto deste mesmo ano Justo compareceu a uma reunião em Buenos Aires convocada pelo jornal La Prensa para discutir a formação de uma federação política e a criação de um jornal que defendesse os interesses da classe trabalhadora. A partir desta reunião, comprometeu-se com a elaboração de um órgão de imprensa – um “jornal socialista científico defensor da classe trabalhadora”. Em abril de 1894, com a edição do primeiro número do periódico, foi oficialmente fundado La Vanguardia, no qual Justo publicou um extenso artigo de apresentação, tratando do tema da transformação social na Argentina3. Por estes anos, dedicou-se a ler diversos pensadores, tais como Spencer, Rousseau, Ricardo, Smith e Marx, a fim de conhecer mais dos problemas sociais de seu tempo. Em 1895 viajou para os Estados Unidos e logo Europa, visitando cidades como Paris, Berna e Madri. Entre seus objetivos estava contactar militantes socialistas e conhecer a realidade daqueles países. Como parte disso, escreveu diferentes notas ou breves artigos que foram publicados no periódico La Vanguardia. Durante a viagem pela Europa, começou a planejar a tradução do primeiro tomo de O capital de Marx, que seria publicado três anos mais tarde, em Madri. No início de junho de 1896, sob o pseudônimo de “Cittadino”, Justo enviou ao jornal conservador La Nación, de Buenos Aires, o texto “La mejor confraternidad es la nacionalización”, no qual defendia a incorporação, enquanto cidadãos plenos, dos imigrantes italianos por meio de sua naturalização como argentinos. O artigo foi bem recebido, levando a que Justo fosse convidado a se apresentar na imprensa e a colaborar com o periódico. Assim, entre junho e agosto deste ano, escreveu uma série de textos publicados em forma de coluna em La Nación, nos quais tratava questões de política, economia, livre-comércio, salários, socialismo ou situação da classe operária. Em 28 de junho de 1896, junto com Augusto Kühn, Isidoro Salomó e Esteban Jiménez, Juan Justo fundou o Partido Socialista Argentino (PSA); o periódico La Vanguardia tornou-se o órgão oficial do partido. Neste ano, Justo apresentou-se como candidato a deputado, obtendo apenas 138 votos que, embora insuficientes para conseguir uma cadeira, dariam início a sua relevante carreira parlamentar. Em 29 de agosto de 1897, foi inaugurada a nova sede da Agrupación Socialista em Buenos Aires, em que discursaram, além de Justo: Carlos Мalagarriga (advogado, jornalista e político espanhol) e Alejandro Mantecón (operário encadernador), além de alguns reconhecidos personagens do pensamento latino-americano, como José Ingenieros e Leopoldo Lugones. Nesta nova sede, ficavam os escritórios do jornal La Vanguardia, o Comité Ejecutivo del Partido, a Biblioteca Obrera, a Asociación Obrera de Socorros Mutuos, o Circolo Socialista Italiano e várias sociedades sindicais. Em 1898, publicou em Madri sua tradução, diretamente do alemão para o espanhol, do primeiro tomo de O Capital de Marx (a primeira nesse idioma). A seguir, proferiu no Ateneo de Buenos Aires a conferência intitulada “La teoría científica de la historia y la política argentina”4, publicada no mesmo ano pela livraria Lajouane. No ano seguinte, impulsionou a edição de El Diario del Pueblo, e se casou com Mariana Chertkoff (Odessa, 1876 – Buenos Aires, 1912), com quem teve seis filhos: Andrés, Daniel, Leticia, Aurora, Miguel e Sara. Em 1900, mudou-se para Junín, província a noroeste de Buenos Aires, para trabalhar como médico e, ao mesmo tempo, estudar a situação da agricultura e pecuária na região. Em 1901, proferiu a conferência “El programa socialista en el campo”, em que expôs questões-chave de sua doutrina sobre a questão agrária, reivindicando a relevância do problema rural na Argentina. Nos anos seguintes, faria várias palestras sobre temas políticos, econômicos e sociais, que ganhariam destaque editorial e político. Em 1904, Justo foi nomeado professor titular da cátedra de Cirurgia. E em 1905, fundou a cooperativa El Hogar Obrero, que cinco anos mais tarde seria admitida na Aliança Cooperativa Internacional. Ainda neste ano reassumiu a direção de La Vanguardia e o periódico começou a ser publicado diariamente,Continuar lendo “O marxismo de Juan B. Justo”

O marxismo de C. L. R. James

Historiador, jornalista, ensaísta e militante socialista de Trinidad e Tobago, foi um dos fundadores do movimento independentista Agência Internacional de Serviços Africanos e do pan-africanismo radical, tendo atuado também pelos partidos estadunidenses Socialist Workers Party e Workers Party Por Rita Coitinho e Joana A. Coutinho * James, Cyril Lionel Robert, “C. L. R. James”, “J. R. Johnson”, “J. Mayer” (trinitário; Tunapuma/Trinidad e Tobago, 1901 – Londres/Inglaterra, 1989). 1 – Vida e práxis política Nascido em Trinidad, então colônia inglesa, Cyril Lionel Robert James cresceu num ambiente familiar de classe média e afeito aos livros, sendo seu pai professor e sua mãe uma leitora ávida. Estimulado pelos pais, cedo desenvolveu o gosto pela literatura, história e música, além do esporte e artes em geral – interesses que se revelariam, posteriormente, como temas importantes de seus estudos e reflexões filosóficas. Entre os nove e os dezessete anos frequentou, com bolsas de estudos, o Queen’s Royal College, em Porto de Espanha, escola de elite das mais antigas da ilha que recebia professores diretamente da Inglaterra. Aí se destacou como atleta de salto em altura e treinou críquete (modalidade em que foi reconhecido como promissor)1. Na década de 1920, após a conclusão de seus estudos, trabalhou como professor do ensino secundário de Inglês e História (tendo como aluno o futuro primeiro-ministro marxista Eric Williams). Por esses anos, ainda em seu país natal, escreveu dois romances: La divina pastora (1927) e Triumph (1929). Com o tempo seus interesses também se voltaram para a política, e desta aproximação inicial nasceu em 1929 a biografia do líder trabalhista de Trinidad, Arthur Cipriani, intitulado Life of captain Cipriani [A vida do capitão Cipriani]. Em 1932, aos 31 anos, migrou para a Inglaterra, país no qual viveu inicialmente em Lancashire – desfrutando do auxílio do amigo e campeão de críquete Learie Constantine. Nesta cidade, trabalhou como repórter esportivo para o jornal Manchester Guardian, enquanto, simultaneamente, mantinha-se articulado aos movimentos de libertação nacional das colônias britânicas no Caribe. É de 1933 a publicação do panfleto The case for West Indian self-government [O caso do autogoverno nas Índias Ocidentais], uma extensão do seu trabalho anteriormente publicado acerca de Arthur Cipriani. Tendo logo se mudado para Londres, deu início a estudos das obras de Marx e Engels, bem como acerca da Revolução Russa e seus principais teóricos. Em 1934, ingressou no Independent Labour Party [Partido Trabalhista Independente], atuando na comunicação interna e ajudando a formar o Marxist Group [Grupo Marxista]. No ano seguinte, com Yomo Kenyatta e Amy Ashwood-Garvey, fundou a International African Friends of Abyssinia (IAFA) [Internacional dos Amigos Africanos da Abissínia], cuja agitação política intensa provoca preocupação no fascismo italiano, em franca disputa pelo domínio da Etiópia. Em 1937 este coletivo passou a ser dirigido pelo comunista trinitário George Padmore (1903-1959) – intelectual que exerceu forte influência junto a James, de quem ele destacaria a importância na elaboração do termo “negritude” e o fato de ter inspirado os principais movimentos de libertação no continente africano. Juntos, fundam o International African Service Bureau (IASB) [Agência Internacional de Serviços Africanos], celeiro dos movimentos de independência das colônias britânicas após a II Guerra Mundial – ficando James responsável pela imprensa2. Em 1938, James foi convidado por James Cannon – secretário do Socialist Workers Party (SWP) [Partido Socialista dos Trabalhadores] dos Estados Unidos – para atuar como especialista da IV Internacional em questões africanas, afro-americanas e coloniais. Estabeleceu uma longa relação com Leon Trótski, com quem chegou a se encontrar em 1939, em Coyoacán (México), para conversar sobre temas como as perspectivas de uma política voltada aos negros e sua relação com o projeto revolucionário. Por volta de 1941, junto com a marxista eslava radicada nos Estados Unidos, Raya Dunayevskaya, começou a formar a tendência Johnson-Forest, reunindo trotskistas estadunidenses3. Em 1947 este grupo se associou ao Workers Party (WP) [Partido dos Trabalhadores]. Contudo, já em 1950 James rompeu com esta tendência – e com o trotskismo. No ano seguinte, formou o Correspondence Publishing Committee [Comitê Editorial de Correspondência], que passaria a publicar um jornal operário – o Correspondence [Correspondência]. Por meio deste comitê, manteve conexões internacionais com projetos semelhantes, como o Socialisme ou Barbarie [Socialismo ou Bárbarie] da França. James permaneceu nos Estados Unidos até 1952, militando na clandestinidade, até ser preso por “atividades antiestadunidenses”. Saiu do país antes de ser deportado4. Após deixar os EUA, James manteria ainda intensa troca de correspondência com os integrantes do Correspondence, com vistas a orientá-los, principalmente depois que Raya Dunayeskaya deixou o grupo, em 1955. Destas cartas surgiram as bases teóricas que dariam origem à Ligue of Revolutionary Black Workers [Liga Revolucionária dos Trabalhadores Negros], criada nos EUA em 1969. Em 1955, James se casou com Selma Deitch, uma militante do grupo que, junto com Maria Rosa Dalla Costa, lançou a campanha internacional a favor de estabelecer um salário para o trabalho doméstico. Em certa medida, as posições que James expressou nessa época anteciparam as da chamada New Left (o movimento Nova Esquerda), que surgiria décadas depois. Ao longo dos anos 1950 e 1960 James esteve algumas vezes no continente africano e, em 1958, viveu no Caribe. É deste ano seu texto “Facing reality” [“Encarando a realidade”], no qual revela sua desilusão com os partidos comunistas e com o trotskismo. Durante os anos em que esteve de volta a sua terra natal, trabalhou na biografia de George Padmore, descrito por ele como o espírito orientador do African Bureau [Diretório Africano] e o pai da “emancipação africana”. Em 1963, publicou Beyond a boundary [Para além da fronteira] obra em que analisa questões vinculadas à estética e à educação vitoriana desde uma perspectiva do habitante das “índias ocidentais”. No final dos anos 1960, a convite de socialistas e expoentes do movimento negro estadunidense, James regressou aos EUA, e ao longo da década de 1970 deu palestras e aulas em universidades como professor convidado. São deste tempo obras como Radical America (1970) e a biografia de Kwame Nkrumah (1960-1966) – Nkrumah and the Ghana Revolution [Nkrumah e a RevoluçãoContinuar lendo “O marxismo de C. L. R. James”

O marxismo de Blas Roca

Autodidata, foi dirigente do primeiro e do atual Partido Comunista de Cuba, destacando-se como educador e divulgador do marxismo – pensamento que concebia como um guia a ser aplicado criativamente, e que buscou unir com as ideias de José Martí Por Lucilo Batlle Reyes* [Tradução de Yuri Martins-Fontes e Felipe Deveza] [PDF] BLAS ROCA; Wilfredo Calderío, Francisco (cubano; Manzanillo/Cuba, 1908 – Havana,  1987) 1 – Vida e práxis política Francisco Wilfredo Calderío López, conhecido como Blas Roca Calderío, nasceu em uma família de trabalhadores pobres e com tradição na luta pela independência cubana, sendo o mais velho de nove irmãos. Levou o sobrenome de sua mãe devido às normas da época. Na escola fundamental, mal alcançou a quarta série; ainda criança, teve que trabalhar em uma grande variedade de atividades para ajudar a sustentar sua casa. Sofreu forte opressão da sociedade burguesa-latifundiária e dependente de sua época, pois era pobre e mestiço – o que contribuiu para forjar seu espírito de rebelião contra a injustiça e a opressão. Com a ajuda de seu professor Ernesto Ramis, ainda bem moço, Wilfredo Calderío fez um curso de magistério, habilitando-se para lecionar na educação infantil; embora gostasse da profissão – que exerceu por dois anos (1924-1926) –, foi forçado a deixá-la, por não se submeter a manobras políticas. Assim, seguindo a tradição familiar, tornou-se sapateiro, e foi a partir daí que se ligaria para sempre às lutas da classe trabalhadora, unindo-se ao movimento sindical e travando contato com a literatura marxista. Em 1929, entrou no pioneiro Partido Comunista de Cuba (PCC), passando a dirigir o Sindicato dos Sapateiros de sua cidade; no ano seguinte, assumiu o cargo de secretário-geral da Federación Obrera de Manzanillo (FOM) e, ao mesmo tempo, secretário-local do partido. Nesta época sofreu sua primeira prisão política, no Castillo del Príncipe, em Havana, durante três meses. Em 1931, foi eleito membro do Comitê Central do PCC e, em 1932, preso pela segunda vez. Ao sair da prisão, no ano seguinte, preparou a greve geral em Manzanillo – contribuindo à mobilização que pôs fim à ditadura de Gerardo Machado. Já em 1933, participou do V Plenário do Comitê Central do PCC; neste evento, usou o pseudônimo Julio Martínez, mas logo, a pedido de Rubén Martínez Villena, adotou o pseudônimo Blas Roca – o qual, em 1939, quando foram convocadas as eleições para a Assembleia Constituinte, oficializou como seu verdadeiro nome. Ao retornar a Manzanillo, fundou o soviete de Mabay, o primeiro de Cuba. Pouco tempo depois, o partido o transferiu para Havana, incorporando-o como membro da Executiva Política (Birô) do Comitê Central. No fim de 1933, foi provisoriamente nomeado secretário-geral, cargo ratificado em 1934 (no II Congresso do Partido), no qual permaneceu até 1961, quando o Partido Socialista Popular (nome que o PCC passara a adotar em 1944) decidiu se dissolver para formar, juntamente com o Movimiento 26 de Julio e o Directorio Revolucionario 13 de Marzo, uma organização única dos revolucionários cubanos: as Organizaciones Revolucionarias Integradas (sob a liderança de Fidel Castro). Em agosto de 1934, Blas Roca fez sua primeira viagem à União Soviética para participar da reunião preparatória do VII Congresso da Internacional Comunista; um ano depois, chefiou a delegação do PCC em Moscou, sendo eleito membro de seu Comitê Executivo para a América Latina. Como tal, deu valiosa colaboração aos partidos operários e comunistas latino-americanos: caso de sua visita ao Brasil, durante a qual pôde encontrar Luiz Carlos Prestes na prisão, conversar com ele e ajudar a romper o isolamento em que fora mantido; e ainda, da atenção que deu ao Partido Comunista Mexicano, quando este atravessava uma crise de sua direção. Em 1940, presidiu a delegação do Partido Unión Revolucionaria Comunista (PURC), na Assembleia Constituinte. Desde então, até o golpe de Estado de Fulgência Batista, em 1952, foi membro da Câmara dos Deputados. Blas Roca forjou sua sólida cultura de maneira autodidata; lia de tudo. Em sua infância, entrou em contato com variadas obras, desde as de história cubana, às da literatura universal – como Os Miseráveis, Dom Quixote, entre outras disponíveis na biblioteca familiar. Isto alimentou seu pensamento com ideais democráticos e de justiça social, cujo núcleo foi o pensamento de José Martí. Mais tarde, quando começou a participar das lutas proletárias, entrou em contato com a literatura marxista. Leu então O ABC do Comunismo de Bukharin, O Estado e a Revolução de Lenin e A Crítica da Economia Política de Marx, que foram seguidos pelo Manifesto do Partido Comunista e pelo Capital, dentre outras obras clássicas do marxismo (à medida que chegavam em Cuba). Foi, enfim, uma síntese do intelectual revolucionário orgânico cubano do século XX, que articulou a cubanidade, a ética, o latino-americanismo e o anti-imperialismo de Martí, com a universalidade do marxismo-leninismo. A chegada de Blas Roca à alta direção do primeiro partido dos comunistas cubanos marca uma etapa qualitativamente superior no processo de amadurecimento marxista-leninista desta agremiação – enquanto instrumento político de vanguarda da revolução cubana. A experiência organizacional do marxista – nascida de sua militância de base, de estudos teóricos permanentes e de seu trabalho para unificar o partido –, juntamente com seu esforço e dedicação, o convenceu da necessidade de repensar a estratégia e as táticas do partido: como uma ciência da liderança da luta de classes dos trabalhadores, nas condições específicas dos países coloniais e dependentes. Assim, se iniciaria uma radical mudança tático-estratégica na ação partidária – centrada na luta pela legalidade, aliança com setores progressistas sem perda dos princípios de classe, propaganda revolucionária e busca por hegemonia. Após a vitória revolucionária de janeiro de 1959, na primeira plenária do PSP (fevereiro de 1959), Roca orientou o trabalho de seu partido no sentido de “defender a Revolução e fazê-la avançar”. Mais tarde, presidiu a comissão responsável por elaborar o projeto de Constituição da República – aprovada por referendo popular em 1976. Foi membro do Comitê Central do novo PCC desde sua fundação (1965), até falecer (1987), sendo enterrado com honras de general morto em guerra. “Deixou de existirContinuar lendo “O marxismo de Blas Roca”

Veias Abertas nº1 | 2019

Apresentação Entre a saúde concreta e a saúde abstrata, por Rogério Vincent Perito “Quatro dias pra filmar e quatro anos pra montar e sincronizar”, por Paulo Yasha Fonseca José Carlos Mariátegui e o fascismo, por John Kennedy Ferreira José Honório Rodrigues e a formação da historiografia crítica, por Paulo Alves Júnior Dimensões da educação e do marxismo na Rússia, por Wanderson Fábio de Melo Ensaios e debates Crise capitalista, baixo nível cultural e a ignorância como ideologia, por Yuri Martins-Fontes A formação da personalidade em camponeses que fazem o uso comum da terra, por Solange Struwka Memória de Memórias, por Yan Victor Leal da Silva Uma sociedade em guerra contra a política, por Argus Romero Abreu de Morais A guerra no “longo século XIX”, por Maurício Orestes Parisi Créditos Editores Yuri Martins-Fontes L., Paulo Alves Junior, Solange Struwka. Conselho Editorial Eduardo Januário, Felipe Santos Deveza, Joana Aparecida Coutinho, Paulo Alves Junior, Pedro Rocha Fleury Curado, Solange Struwka, Yuri Martins-Fontes L. Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Yuri Martins-Fontes e Manuela Sanchez (@contextos_criticos). Conselho Consultivo Ândrea Francine Batista, Argus Romero Abreu de Morais, Carlos Alberto Borba, Givanildo Manuel da Silva, Gustavo Koszeniewski Rolim, Gustavo Velloso, ​​Jean-Ganesh Faria Leblanc, John Kennedy Ferreira, Marcos Vinícius Pansardi, Mateus Fiorentini, Maurício Orestes Parisi, Natalia Tahara, Paulo Iannone, Paulo Yasha da Fonseca, Renato Cesar Fernandes, Rita Matos Coitinho, Roberto Pasquale, Rogério Vincent Perito, Wanderson Fabio de Melo, Yodenis Guirola.

Veias Abertas nº1 | 2019 – Apresentação

Veias Abertas é um espaço crítico aberto à diversidade de ideias e lutas que se faz presente no debate teórico socialista. Editada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo, e tendo seu nome inspirado na obra clássica de Eduardo Galeano, a publicação periódica abarca variados temas da vasta gama de conhecimentos das ciências históricas (historiografia, educação, economia etc) e das disciplinas filosóficas.