ECOLOGIA DE VIOLÊNCIAS NAS PERIFERIAS URBANAS EM TEMPOS DE EMERGÊNCIAS DE SAÚDE MULTIESPÉCIE

A violência é um problema de saúde e um determinante das emergências de saúde, com dimensões estruturais que vão além das agressões físicas interpessoais. Neste texto, esboçamos a noção de ecologia de violências e a relacionamos com vivências da pandemia de Covid-19 numa favela paulistana, a partir de uma perspectiva de saúde multiespécie. Mostramos como marginalização, precariedade imposta, exploração, perseguição, expulsões territoriais, práticas de encarceramento e agressões no ambiente domiciliar violentam seres periféricos, humanos e outros-que-humanos, encontrando nas emergências de saúde a possibilidade de se elevarem à condição de sindemia de violências. Isso aconteceu na pandemia de Covid-19, em epidemias anteriores e provavelmente acontecerá nas próximas emergências de saúde. Por meio da ecologia de violências, damos mais visibilidade à imbricação que frustra tentativas de prevenção e proteção frente a emergências de saúde – imbricação entre dispositivos marginalizantes, modalidades de violência e emergências de saúde, materializada em coletivos multiespécies.

O MODELO ECONÔMICO BRASILEIRO E OS IMPACTOS DA COVID-19: REFLEXÃO PARA GERAR AÇÃO

Ainda que o Brasil seja a sétima economia do mundo é um dos países mais desiguais, com salários abaixo do custo real de sobrevivência. O presente artigo analisa os impactos da pandemia de covid-19 para a classe trabalhadora no Brasil, em especial a que se encontra na situação da informalidade ou trabalho intermitente, e que em sua grande maioria, é negra. A quarentena desvelou um modelo neocolonial de sociedade, onde o Estado é acionado a salvar o sistema capitalista e os “gastos” com a população, inclusive com a saúde, são fatalmente regulados para manter o superávite primário. A crise mundial de 2007, que com maior profundidade atingiu o país a partir de 2015, arrastou um grande contingente de pobres para situação ainda mais precarizada de vida. E, mediante o contexto pandêmico, o auxílio emergencial de R$ 200,00 para trabalhadores em meio ao aumento de preço de produtos essenciais para frear o contágio, desvela em essência elementos de um pensamento escravista