Veias Abertas nº2 | 2022

Apresentação As internacionais e a questão agrária, por Ândrea Francine Batista Natureza e artificialidade no projeto socialista de nação de José Carlos Mariátegui, por Jean Ganesh Faria Leblanc O discurso político da extrema-direita brasileira na atualidade, por Argus Romero Abreu de Morais El anarquismo peruano y el nacimiento del “comunismo inca”, por Alfredo Gómez-Muller Ensaios e debates Créditos Editores Yuri Martins-Fontes L., Paulo Alves Junior, Joana A. Coutinho Conselho Editorial Ândrea Francine Batista, Eduardo Januário, Felipe Santos Deveza, Joana Aparecida Coutinho, Paulo Alves Junior, Pedro Rocha Fleury Curado, Solange Struwka, Yuri Martins-Fontes L. Diagramação e editoração digital: Yuri Martins-Fontes L., Manuela Venâncio, Jean-Ganesh Faria Leblanc Revisão: Oficina Uspiana de Textos Conselho Consultivo Argus Romero Abreu de Morais, Athos Vieira, Carlos Alberto Borba, Givanildo Manuel da Silva, Gláucia Lelis Alves, Gustavo Koszeniewski Rolim, Gustavo Velloso, Itzel Ibargoyen Bidart, ​​Jean-Ganesh Faria Leblanc, John Kennedy Ferreira, Marcos Vinícius Pansardi, Mateus Fiorentini, Maurício Orestes Parisi, Natalia Tahara, Paulo Iannone, Paulo Yasha da Fonseca, Renato Cesar Fernandes, Rita Matos Coitinho, Roberto Pasquale, Rogério Vincent Perito, Thiago Mendes, Wanderson Fabio de Melo, Yodenis Guirola Arte e projeto gráfico: Manuela Venâncio (@contextos_criticos)

A GUERRA NO “LONGO SÉCULO XIX”: TEORIAS DA GUERRA E ANÁLISE HISTÓRICA

Em 1789, explode a Revolução Francesa como resultado das contradições próprias do Antigo Regime francês. Em dez longos e violentos anos, o processo revolucionário porá abaixo o edifício do absolutismo monárquico francês e criará condições propícias ao desenvolvimento sem peias do capitalismo. Vivenciada como uma vitória dos princípios da Ilustração e da Modernidade a Revolução extravasou as fronteiras da história francesa e tornou-se um evento de caráter europeu e mundial. A Queda da Bastilha e a execução de Luís XVI tornaram-se senhas para os interessados em substituir a Velha Ordem, substituindo absolutismos por monarquias constitucionais ou repúblicas. De qualquer modo, emerge o novo soberano, o povo. Princípios de fundo iluminista guiarão a entrada dos europeus na Modernidade (quer no sentido weberiano como marxista). Nesta perspectiva, a Revolução é o marco de uma nova era histórica.

UMA SOCIEDADE EM GUERRA CONTRA A POLÍTICA: A CRIMINALIDADE E O PROFANO

A dinâmica política brasileira vem sendo caracterizada por certos analistas como polarizada, o que se manifestaria no confronto entre “nós” e “eles”. Este artigo argumenta que essa estrutura dual, típica da polêmica, é essencial ao discurso político democrático. Não obstante, a despeito de a polarização servir como estratégia discursiva capaz de aumentar a coesão grupal e ser necessária ao posicionamento coletivo sobre os temas em discussão na coletividade, no limite, ela pode alimentar o medo e o ódio em relação ao outro, levando à radicalização e à violência, como ocorre no discurso da extrema-direita brasileira. Por fim, sustentamos que a persuasividade deste discurso decorre da forte desconfiança da sociedade brasileira nas instituições, assim como da crise da segurança pública e da mudança nos valores ético-morais religiosos dos grupos menos favorecidos ao longo das últimas décadas.

A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE EM CAMPONESES QUE FAZEM O USO COMUM DA TERRA: UMA APRESENTAÇÃO

O ensaio apresenta uma reflexão introdutória à tese sobre a formação da personalidade de camponeses faxinalenses que vivem sob o regime de uso comum da terra. A autora parte de sua própria trajetória para situar o estudo na luta histórica dos povos do campo contra a mercantilização da natureza e a hegemonia do capital. O objetivo é compreender como essas comunidades constroem práticas coletivas de apropriação da terra, resistência política e reprodução da vida, e como tais experiências constituem subjetividades e modos de ser. Baseada na Psicologia Histórico-Cultural, a pesquisa investiga os processos educativos, a transmissão cultural, a consciência e o desenvolvimento da personalidade em sujeitos que aprendem a se reconhecer como parte de um coletivo. A autora defende que esses grupos oferecem indícios reais de outras formas possíveis de organização social, pautadas pela solidariedade, pelo bem-viver e pela centralidade do “nós” sobre o individualismo capitalista.

CRISE CAPITALISTA, BAIXO NÍVEL CULTURAL E A IGNORÂNCIA COMO IDEOLOGIA: OS CASOS DE ESTADOS UNIDOS E BRASIL

Este ensaio tem como objetivo discutir sobre a desinformação midiática e a deficiência educacional enquanto instrumentos políticos promotores da ideologia dominante e da manutenção do poder, para então melhor compreender uma consequência central dessa “ignorância” planejada: a conjuntura de nova ascensão da extrema-direita no mundo. Como bases para tal análise – sustentada em pesquisas recentes e focada nos casos estadunidense e brasileiro – investiga-se: i) o baixo nível educacional como projeto das classes dominantes, situação que vem se deteriorando; ii) a extrema concentração da imprensa, manipulada globalmente por corporações que produzem a quase totalidade das informações difundidas no planeta, reduzindo a liberdade de opinião em nome de uma suposta “liberdade de imprensa”; iii) e por conseguinte, mediante o conceito de “periferização do mundo”, o processo pelo qual o agravamento da crise estrutural capitalista desde 2008, com consequente aumento da desigualdade e fome, tem levado a uma crescente insatisfação e tensão social – evidenciando com isto certo esgotamento de projetos políticos centristas (como se vê nos casos de EUA e Brasil, aqui investigados).

DIMENSÕES DA EDUCAÇÃO E DO MARXISMO NA RÚSSIA: REVOLUÇÃO E CONTRARREVOLUÇÃO NA ESCOLA

O tema do presente trabalho é o percurso da educação na Rússia da época do czarismo ao período de Stálin. Discute-se a educação no czarismo; a práxis educacional socialista; e as mudanças educacionais no período de Stálin. As fontes estão compostas pelos dados publicados acerca da educação na Rússia, os escritos dos revolucionários como N. Krupskaya, V. Lênin, A. Lunatcharsky, M. Pistrak, V. Shulgin e L. Trótski, bem como os materiais publicados na União Soviética e divulgados em língua portuguesa e espanhola relativos à questão educacional.

JOSÉ HONÓRIO RODRIGUES E A FORMAÇÃO DA HISTORIOGRAFIA CRÍTICA

O artigo apresenta José Honório Rodrigues como um dos mais importantes historiadores e intérpretes do Brasil, destacando sua contribuição para a construção de uma historiografia crítica. Sua obra identifica três eixos estruturantes da formação histórica brasileira: as “legítimas aspirações nacionais”, a prática política de “conciliação pelo alto” e a permanência de uma “história cruenta”, marcada pela repressão às demandas populares. Rodrigues enfatiza que a elite brasileira, ao longo do processo histórico, manteve o povo afastado das decisões políticas e impediu rupturas sociais profundas, preservando uma ordem agrária e conservadora mesmo após a Independência, a Abolição e a República. Seus livros Aspirações Nacionais e Conciliação e Reforma no Brasil constituem interpretações decisivas para compreender os entraves estruturais do país, denunciando o papel antidemocrático das elites e a ausência de um liberalismo efetivamente popular. A partir de uma posição de radicalismo liberal e influências americanistas, Rodrigues propõe um projeto nacional que integre o povo e rompa com o atraso histórico, consolidando-o como fundador de uma tradição historiográfica crítica no Brasil.

JOSÉ CARLOS MARIÁTEGUI E O FASCISMO

José Carlos Mariátegui viveu um período de três anos na Europa entre 1919 a 1923, na maioria do tempo na Itália. Pode acompanhar a grande mobilização social que aconteceu na Europa e particularmente na Itália no fim da Grande Guerra e também a ascensão do Fascismo e a sua chegada ao poder. Mariátegui, buscou compreender esse fenômeno político-social através de um conjunto de artigos publicados em jornais peruanos. Este artigo analisa como as análises de Mariátegui sobre a política italiana e o fascismo fazem parte de seu amadurecimento enquanto pensador e político marxista.

Veias Abertas nº1 | 2019 – Apresentação

Veias Abertas é um espaço crítico aberto à diversidade de ideias e lutas que se faz presente no debate teórico socialista. Editada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo, e tendo seu nome inspirado na obra clássica de Eduardo Galeano, a publicação periódica abarca variados temas da vasta gama de conhecimentos das ciências históricas (historiografia, educação, economia etc) e das disciplinas filosóficas.

“QUATRO DIAS PRA FILMAR E QUATRO ANOS PRA MONTAR E SINCRONIZAR”

O filme Câncer de Glauber Rocha foi filmado em agosto de 1968 e montado e sincronizado em maio de 1972. Ao incorporar o tempo de sua realização na forma, esta obra, por meio dos dois últimos estágios de sua realização, efetua uma crítica ao movimento cultural e político de 1968, época da captação de suas cenas. A partir da defesa da experimentação na arte, bandeira tropicalista, o diretor Glauber Rocha efetua uma inflexão formal, a fim de expressar a mudança política e cultural após o Ato Institucional número 5 (AI-5) – que agravou a repressão da ditadura militar no Brasil.

ENTRE A SAÚDE CONCRETA E A SAÚDE ABSTRATA

O texto discute a necessidade de reposicionar a teoria marxista no campo da saúde, diferenciando entre um “Marx exotérico” (público, mais conhecido), vinculado à modernização capitalista, e um “Marx esotérico” (menos conhecido), cuja crítica ultrapassa os limites da civilização capitalista. Argumenta que, no modo de produção capitalista, a saúde torna-se mercadoria e adquire um duplo caráter: saúde concreta (dimensão humana e biológica) e saúde abstrata (saúde funcional ao valor e à produtividade do trabalho). A crítica a Dejours evidencia que, embora seu conceito de saúde envolva autonomia e bem-estar, ele mantém uma ontologia do trabalho que não problematiza sua forma capitalista. Assim, a realização plena da saúde é inviabilizada pela lógica do valor, da mercantilização e da organização do trabalho, que submete o corpo ao tempo abstrato e à extração de mais-valor. Conclui que uma política de saúde realmente emancipatória só pode existir para além da forma mercadoria.