A terceira edição da Revista Veias Abertas reafirma seu compromisso em criar um espaço permanente para reflexão crítica, debate teórico e intervenção intelectual à luz da tradição do materialismo histórico. Contra a contemporaneidade social cada vez mais desigual, o ataque contínuo do capital financeiro, a vulnerabilidade das vidas e condições de trabalho, e a proliferação de formas ressurgentes de autoritarismo e irracionalismo político, torna-se premente a ampliação de espaços editoriais dedicados à crítica radical da sociedade contemporânea.
Após suas primeiras edições – de 2019 e de 2022 –, centradas nos debates que vinham sendo desenvolvidos pelos pesquisadores militantes do Núcleo Práxis-USP, a revista passou um período de três anos sem ser publicada, hiato que se deveu ao início das publicações de outro grande projeto editorial do coletivo: o Dicionário Marxismo na América. Coordenado pelo Núcleo Práxis, trata-se de um trabalho periódico de viés historiográfico, político e pedagógico, que tem por objetivo preservar e difundir a memória dos pensadores de diversas tradições marxistas americanas que militaram e pensaram com base no materialismo histórico conceitos e problemas de suas realidades nacionais, desde o final do século XIX. Com vistas a democratizar o acesso ao conhecimento histórico e fomentar processos de formação política popular, o Dicionário teve seus trabalhos de pesquisa, seminário e debates iniciados em 2018, e somente em 2023 – após um tempo de maturação tanto das investigações quanto do modelo que conformaria os verbetes – a obra começou a ser publicada na rede: no portal do Núcleo Práxis e em portais parceiros do Brasil e do exterior (contando hoje inclusive com traduções em espanhol, francês e russo). Este foi um passo prévio a sua futura edição em formato livro, cujo primeiro volume está previsto para 2028, quando o projeto completa uma década.
Agora, estando os trabalhos do primeiro volume do Dicionário já encaminhados, a Revista Veias Abertas, a partir desta edição, passa a seguir um cronograma regular, no rumo de consolidar seu projeto editorial pautado na disseminação do pensamento crítico marxista e das várias tradições intelectuais que lidam com a crítica da sociabilidade capitalista. Esta rotina não se restringe aos desenvolvimentos organizacionais e acadêmicos, mas também ao reforço da produção de conhecimento coletivo, em tempos de instabilidades sociais, políticas, econômicas e ambientais que afetam o mundo atual.
Veias Abertas compreende o marxismo não como um corpo estático, dogmático ou introspectivo, mas como uma tradição intelectual viva e plural, continuamente rejuvenescida pelas lutas sociais. É um referencial teórico que articula ramos do conhecimento – como filosofia, historiografia, economia política, sociologia, geopolítica e literatura – com a práxis revolucionária, com vistas a compreender as contradições constitutivas das lutas de classe e a história de exploração, dominação e resistência que é a história da modernidade capitalista.
Nesse sentido, o materialismo histórico continua a ser uma das ferramentas mais poderosas para a interpretação crítica, permitindo uma compreensão mais ampla da totalidade social a partir de suas mediações econômicas, políticas, culturais e ideológicas.
Ao mesmo tempo, a revista reconhece que a tradição marxista foi baseada em um amplo processo histórico de circulação de conhecimentos, experiências e formas de resistência geradas em suas várias temporalidades e territórios sociais. A crítica ao capitalismo e ao colonialismo não pode ser desvinculada das contribuições intelectuais da África, América, Ásia e da multiplicidade de experiências históricas de povos subalternizados. Em um contexto ainda fortemente influenciado pelo eurocentrismo, pela colonialidade do poder e pelas desigualdades globais, torna-se fundamental expandir o pensamento crítico e encontrar maneiras de ampliação do espaço para interpretações periféricas, considerando as particularidades históricas das diversas formações sociais.
Além de seu foco acadêmico, Veias Abertas almeja ser um meio de unir produção intelectual, formação política e experiência social tangível. Quando a crítica marxista é reduzida a restrições institucionais ou removida das contradições reais vividas e experimentadas pelas classes trabalhadoras, movimentos sociais ou figuras históricas que enfrentam a exploração e opressão atuais, é preciso lutar para que ela volte a ter como objetivo a vida concreta em sua totalidade. Para tanto, procuramos promover o diálogo entre pesquisa, ativismo, educação popular e produção cultural – em um processo que entende a teoria e a prática como relacionadas a um projeto de transformação do mundo.
Esta terceira edição é, assim, simbólica não apenas da continuidade regular de mais um trabalho editorial do coletivo, mas também da renovação do impulso político e intelectual para construir o pensamento crítico em sua forma rigorosa e historicamente contextualizada, como um instrumento de compromisso social. Neste momento de crise estrutural do capitalismo e luta acirrada, em que tanto se tem debatido sobre o que é ou não democracia, história e emancipação humana, a criação de espaços coletivos militantes que convidem à reflexão crítica é uma necessidade que define as lutas que enfrentamos hoje e as possibilidades do futuro.
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