NEOFASCISMO, FORMA POLÍTICA DO CAPITALISMO EM CRISE: ANTINACIONALISTA, NEOLIBERAL, RACISTA


Por Yuri Martins-Fontes*

Resumo

O fascismo é uma forma política do regime capitalista, posta em prática quando as classes dominantes veem ameaçado seu controle sobre o processo político-eleitoral; é assim abandonado o discurso liberalista-formal, com que em tempos de “estabilidade” do capitalismo, adornam de “democrático” seu sistema autoritário. Com o aprofundamento da crise estrutural capitalista – fenômeno que se explicita há décadas, resultando em frequentes crises econômicas, sociais, ambientais –, uma retirada brusca de direitos sociais torna-se crucial para a manutenção dos lucros do capital. Na América Latina, este processo, direta ou indiretamente impulsionado pelos EUA e UE, interrompe cerca de dez anos de governos reformistas. Por outro lado, é importante atentar a uma peculiaridade: ao contrário do que ocorreu no “fascismo clássico”, e em algum grau dá-se ainda no centro do sistema, em periferias do capitalismo nas quais não se desenvolveu uma burguesia nacional, caso das nações latino-americanas, os fascistas (como as classes altas de modo geral) não se identificam com a nação onde habitam, não sendo “nacionalistas” nem mesmo em um restrito sentido elitista. Ademais, o racismo, historicamente relacionado ao fascismo, em nossa América mestiça ganha enorme centralidade.

Palavras-chave: Fascismo; Neoliberalismo; Antinacionalismo; Racismo; Crise estrutural capitalista.

O fascismo é uma forma política do regime capitalista, surgida em sua fase imperialista, posta em prática em tempos nos quais as classes dominantes perdem o controle que de praxe detêm sobre o processo político-eleitoral. Ao perceber em risco seus propósitos de acumulação de capital, os setores mais reacionários das elites, apoiados por significativas parcelas conservadoras das classes médias, abandonam o discurso liberalista-formal com que em tempos de “estabilidade” do capitalismo adornam com tons “democráticos” seu sistema autoritário. Em uma época como a nossa, na qual a crise estrutural do sistema capitalista se evidencia já há décadas, resultando em crises econômicas, sociais e ambientais cada vez mais graves e frequentes (como sobretudo a de 2008 e a de agora), uma retirada mais brutal de direitos sociais torna-se ponto chave para a manutenção dos lucros do capital. Os capitalistas apelam pois ao fascismo.

Peculiaridades do neofascismo na América Latina: racista e antinacional

Na América Latina, o processo de escalada autoritária para retirada de direitos, direta ou indiretamente impulsionado pelos EUA e seus aliados subalternos europeus, interrompe cerca de dez anos de projetos reformistas: de governos que, ainda que não tenham tido forças para mudanças mais sólidas ou “estruturais”, implementavam políticas públicas social-desenvolvimentistas de extrema urgência (dado o nível explosivo da desigualdade social e miséria).

Por outro lado, é importante aqui atentar a uma peculiaridade: ao contrário do que ocorreu em países do centro do sistema capitalista, em certas nações periféricas, de formação histórica colonizada, caso das latino-americanas, não se formou uma burguesia nacional, com valores e interesses “nacionalistas”, mas somente uma burguesia interna, sempre sócia minoritária do capital estrangeiro – conforme o mostra Caio Prado Júnior (1966). Como consequência, da mesma forma que a elite de modo geral, os fascistas latino-americanos não se identificam com a nação onde habitam, com seu povo – não têm nenhum projeto, empatia ou sentimento “nacionalista”, nem mesmo de cunho conservador, elitista, restrito a privilegiados, como no caso do “fascismo clássico”.

Ademais, o racismo, em nossa América maiormente mestiça, de formação escravista e sem uma burguesia nacional, é um fator que ganha enorme centralidade na composição da ideologia fascista. Como já bem estudado e documentado pela historiografia, o discurso racista é historicamente relacionado ao fascismo para justificar a perseguição e criminalização do outro, a xenofobia, as regalias das classes rentistas – pretensamente pertencentes a uma “raça pura” (“ariana”), que seria “superior” –, como se deu na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini, com suas “leis raciais”. Neste mesmo caminho torto, a elite latino-americana – e a classe média conservadora que nela se espelha almejando status –, sendo uma burguesia que, como colocado, não se reconhece como semelhante a seu povo, desenvolveu um acentuado racismo. Identificando-se com o colonizador europeu, crente de que ela mesma é europeia e “branca” – mesmo nos tantos casos em que é mestiça, como mostra Mariátegui (1980) –, as camadas dominantes se utilizam política e psicologicamente desta ilusão de superioridade.

Em nossas nações, esse racismo – de viés eurocêntrico, exaltando como valor uma suposta “branquitude” – atinge a maior parte das camadas populares (pois que formadas sobretudo por negros, indígenas e mestiços), servindo para que a burguesia “moralmente” justifique, a si mesma e aos seus, os disparatados privilégios que busca manter à força.

Já no caso da classe média, a este fator peculiar, é muito presente um outro fator “clássico”: o medo de que as classes mais baixas possam com ela disputar espaços e benesses sociais. Este temor, no contexto brasileiro, cresceu exacerbadamente nos últimos anos, disseminando-se como sadismo e ódio (o que por vezes é publicizado, sem receio, por justiceiros em gestos covardes); isto se deve à ascensão social das massas, impulsionada por governos progressistas, o que incomoda certa camada mediana, já que por exemplo não podem mais ter à sua disposição um ou uma serviçal doméstica para lhe limpar as sujeiras íntimas (ao menos não da forma semiescravizada como ocorria, com salários de fome, sem sequer os mais mínimos direitos trabalhistas).

Analisemos então mais de perto as causas socioeconômicas do fascismo que ora ascende.

Crise estrutural capitalista: do neoliberalismo ao neofascismo

Ao final dos anos 1970 e durante os 1980, o neoliberalismo se apresentou como a roupagem nova do velho lobo capitalista em crise, em nome da manutenção da taxa de lucros do capital – que declinava, e segue declinando, pois que se trata de um problema relativo a sua própria lógica interna (MARTINS-FONTES, 2019).

Com a derrota econômico-política da União Soviética na Guerra Fria, no início dos anos 1990, restando os Estados Unidos como única superpotência, esta seria a “década neoliberal” por excelência: o ápice de sua hegemonia. Tal regime, com sua austera violência social, seria assim adotado por mais de década pelos países servis de grande parte da periferia do sistema, como o Brasil ou a Argentina. Estes povos, esgotados por anos da violência crua, “direta”, exercida por sanguinárias ditaduras militares, acabaram por aceitar o “novo regime” – propagandeado intensivamente pela grande mídia antinacionalista, porta-voz dos interesses do “mercado”, como sendo um projeto de “modernização” do país1.

Pouco tempo depois, porém, já em fins dos 1990, o cenário começaria a mudar: a população já dava mostras evidentes de descontentamento, espremida em suas condições mínimas de sobrevivência: no campo dilacerado e na caótica cidade da “austeridade” neoliberal. Deste esgotamento humano resultaram crises sociais e econômicas que abalaram a governabilidade reacionária: a crise do México (cujo efeito Tequila contamina a economia global); a quebra do real brasileiro (com impactante desvalorização monetária, inflação e aumento da miséria); por fim, o ponto simbolicamente mais alto – a dissolução das instituições argentinas, que derruba quatro presidentes em sequência, abrindo espaço à ascensão de Néstor Kirchner. O jovem neoliberalismo já estava cansado de velho, o que daria espaço para que, no início do novo século, se erguessem projetos reformistas (Chávez, Lula, Kirchner, Correa, etc) por grande parte da América, bem como em outras regiões do planeta.

Todavia, foi breve o período em que nossos povos respiraram o ar fresco de certa dignidade: já em 2008 estoura uma devastadora (nova) crise econômica mundial – a primeira desde a Quebra de 1929, começada no seio do centro capitalista (o sistema de finanças dos EUA). Não se tratava de uma marola, mas de uma tempestade gestada por décadas: a “crise estrutural do capitalismo”, já prevista analiticamente por Marx um século antes de se agravar em ferida exposta. Uma crise que não é mais cíclica apenas, mas que faz parte da própria “lógica interna” capitalista, e que fora afinal disparada, evidenciada, pela situação instável e socialmente declinante de um sistema cada vez mais automatizado – e que, portanto, precisa de cada vez menos humanos trabalhando para si, o que faz com que os capitalistas tenham, por conseguinte, menos possibilidade de lucros. Uma crise irreversível, ao menos nos padrões deste regime. Resultado: desemprego em massa, exclusão social como fenômeno não mais “cíclico” (periódico, reversível), mas “estrutural”, pois, conforme cresce a incontornável “automatização”, dá-se em paralelo a exclusão em massa de trabalhadores do sistema produtivo (o “desemprego estrutural”). Um processo, enfim, que não tem solução dentro desse modelo produtivo exploratório, autoritário, alienante.

Na nossa América social-desenvolvimentista dos anos 2000, que se reerguia após duas décadas socioeconomicamente perdidas (1980 e 1990), os efeitos da crise capitalista tardariam alguns anos para nos afetar; mas por volta do início da segunda década começam a chegar com fúria. Com a depressão da economia e a sociedade novamente em polvorosa, chegam também os golpes conservadores, apoiados por uma inteligência bélica imperial renovada. Esta nova prática de guerra “suave”, diferente daquela que com navios de guerra intimidou a resistência brasileira em 1964, é dita também “guerra híbrida”; vem sendo praticada nos “quintais” do planeta por instituições governamentais dos EUA e UE, e por ricas organizações particulares (com patrocínio destes estados fortes, em nada “mínimos”); e opera mediante: propaganda, patrocínio de milícias para desestabilização de governos2, sanções econômicas e, quando preciso, introdução ou mesmo uso direto de armas.

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Após dez anos de trégua, a nova crise desgastou rapidamente o equilíbrio ainda tênue de nossas sociedades, no momento em que se começava a concretizar uma grande parceria estratégica entre as maiores nações semiperiféricas e periféricas do planeta: os BRICS, união geopolítica e comercial formada por Brasil, Rússia, Índia, China e depois África do Sul. Tal agrupamento, nos últimos anos, foi de fato desmobilizado, devido a golpes implementados pelo “Ocidente” nas nações mais frágeis do bloco; mas ainda assim acabou por se consolidar em outro formato, que embora reduzido econômica, cultural e demograficamente, manteve grandemente o poderio geopolítico e bélico: a aliança eurasiática sino-russa que na atualidade enfrenta os interesses da OTAN (a Rússia em armas, a China quase), mediante parceria jamais ocorrida na história.

A reação dos donos do mundo frente à organização dos subalternos chegaria cedo ou tarde, com mais ou menos do costumeiro “discurso democrático” com que preparam o terreno da opinião pública antes dos ataques mais hediondos. Decerto que no jogo viciado do poder global – até então completamente dominado pelos EUA e seus sócios menores europeus-ocidentais –, não se iria tolerar um novo ator geopolítico com tanto poder, com tanta população, com tantos recursos naturais, com tanta capacidade de difusão de sua perspectiva ideológica e cultural. A aliança imperial do eixo norte-atlântico, que perdura há três quartos de século (desde que os EUA dominam a Europa Ocidental, em 1945), mostraria novamente suas garras, agindo tanto na concretude do poder de destruição direta (física) da OTAN, como também através de ações indiretas socioeconômicas, culturais (mais discretas e com surpreendente efetividade) – sempre impulsionadas pelo caixa aberto do bilionário Grupo dos Sete (G7)3.

A partir deste movimento conservador, vem o aprofundamento da crise latino-americana (mais uma) – que, de econômica, torna-se política e social. A mídia corporativa internacional (representante da banca global que a sustenta), com o apoio de institutos de persuasão estratégicos (“think tanks”), além da prática da perseguição judicial (“lawfare”) e de outros meios da moderna guerra híbrida, passa cotidiana e paulatinamente a degradar os governos reformistas de centro-esquerda, então no poder, difamando-os, emitindo noticiários parciais ou incompletos (nos quais a parte “esquecida” é fundamental, quando não a mais importante). Deste modo, com o artifício da publicidade e da deseducação massiva veiculadas universalmente, com meias-mentiras despejadas a todo momento nos desempregados aparelhos televisores e rádios e redes sociais do país (já abalado pela crise econômica global), o descontentamento popular toma conta das ruas, do sentimento nacional.

A burguesia latino-americana aproveita a oportunidade. Unidos em torno de projetos pessoais e antinacionais, os conspiradores da alta-roda – os grandes industriais e latifundiários, as castas superprivilegiadas dos juízes e parlamentares fisiológicos, os generais entreguistas do alto-comando4 – concluem enfim seus renovados golpes: coloridos de “democráticos”, ou não (veja-se Honduras), mas em todo caso, sempre com explícitos objetivos neoliberais.

Neste processo de reimplementação do neoliberalismo a fórceps, nalguns casos em que a fragilidade eleitoral do conservadorismo nacional o exigiu, necessitou-se apelar para formas políticas mais duras: caso do fascista brasileiro eleito presidente no movimento final do golpe de estado de 2016, elemento semi-incapaz que, se não teve força para impor ao país o fascismo enquanto regime (dada sua dificuldade de planejamento e raciocínio), vem dando espaço aos mais aberrantes e irracionais comportamentos antissociais, às mais sórdidas práticas públicas e políticas.

Novo fascismo neoliberal: globalização e nação diminuída

No caso brasileiro, a classificação do bolsonarismo como fascista tem sido motivo de debates. A professora Marilena Chaui, em recente artigo sobre o novo movimento ultrarreacionário, “Neoliberalismo: a nova face do totalitarismo” (CHAUI, 2019), afirma que esta extrema-direita neoliberal não deve ser denominada “fascista”, mas “totalitária”, pois que pratica o enfraquecimento do estado (conforme receita do Consenso de Washington), o entreguismo do patrimônio nacional, e não o “nacionalismo” (como teria se dado no fascismo clássico ítalo-germânico, da primeira metade do século XX). Contudo, nesse quesito – secundário para o cerne de seu artigo –, parece-me que a engajada filósofa e mestra, cuja obra muito aprecio, se equivoca.

É certo que há autoritarismos que não são propriamente “fascistas” – caso da ditadura militar brasileira –, posto que não trabalham com o populismo fundado na irracionalidade, na subjetividade tolhida, mas em seu intuito de controlar das massas utilizam sobretudo a violência objetiva das armas, da força bruta. Entretanto, há no fascismo elementos “universais”, que nos permitem observá-lo em outros contextos, em outras formas que não estritamente aquelas “clássicas”, da Itália e Alemanha na primeira metade do século XX.

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A forma fascista da política capitalista surge na fase imperialista do capitalismo, sendo usada nos períodos em que a prática controlada “eleitoral” – réstia de discurso minimamente “ético” com que se tenta sustentar o termo “democracia liberal” – sai do controle, não mais servindo para os propósitos de lucro do capital.

Como afirma Leandro Konder, em sua Introdução ao fascismo, trata-se de um “movimento político de conteúdo social conservador”, sob uma aparência “modernizadora”, com que o sistema enfrenta suas crises sociopolíticas, “servindo-se de mitos irracionalistas”, bem como de “procedimentos racionalistas-formais de tipo manipulatório”, no sentido de implementar seu projeto “antidemocrático” e “antissocialista”. Mas “nem todo movimento reacionário é fascista” – alguns são meramente despóticos (KONDER, 2009).

O fascismo, propriamente dito, nos momentos de crise da “forma” liberal, apela para o populismo; vale-se para tanto da irracionalidade humana, das frustrações sociais, das repressões sexuais desde cedo impostas à sociedade: a começar pela criança, reprimida de início pela família, depois pela igreja, a educação autoritária, a mídia – sempre no sentido de “domesticá-la”, em um processo que a torna insegura, obediente – como bem expõe o psicólogo marxista Wilhelm Reich, em sua obra Psicologia de massas do fascismo (cuja primeira edição é de 1933). A partir dos instintos reprimidos da população em geral, o discurso fascista opera seus símbolos, oferecendo ao humano, diminuído em sua plenitude, satisfações substitutas, que ajudem a dar vazão à ansiedade, à raiva, aos afetos explosivos guardados dentro de si: frutos podres de desejos não realizados. Assim, a repressão de si mesmo (reiterada pela ação midiática corporativa, pela religião fundamentalista) se transforma em ódio ao outro, em violência xenófobo-racial e de gênero, em culpabilização de tudo o que é diferente ou que propõe algo distinto do quadro lastimável que está posto. Para catalisar este movimento, há a figura de um líder carismático, um “homem de sucesso”, poderoso, seguro, “potente” – símbolo que religa o ser humano “castrado” a tudo aquilo que ele não pôde nem pode ser (REICH, 1974). Com isto, a política de forma fascista, operada pelo capital, alcança se fortalecer: obtendo um maior controle social da população (ou, mais especificamente, dos trabalhadores).

Não obstante, se nos anos 1930 as potências capitalistas estavam em conflito, e o capital ainda tinha certa “nacionalidade”, dando espaço para uma aparente e pontual característica “nacionalista” do fascismo, agora a situação é outra. A nova gestão neoliberal do capital é “global”, e já não permite tais desavenças internas. O acirramento de disputas internacionais, neste momento de crise estrutural do capitalismo (o que afeta inclusive o mundo “não-capitalista”) poderia ter como consequência uma prolongada recessão. Este problema, aliás, já foi colocado pelo conflito comercial entre as duas atuais maiores potências geopolíticas, Estados Unidos e China – além da Rússia, especialmente após a atual guerra deflagrada contra a OTAN em território ucraniano, que vem desestabilizando ainda mais a economia mundial. Vale aqui observar que, embora se possa e deva objetar que a China não é capitalista, mas uma espécie de socialismo em estágio inicial5, no entanto, em se tratando do comércio exterior, o governo chinês atua no mercado internacional respeitando ou se submetendo às regras impostas pelo capitalismo hegemônico; isto porque ainda não tem forças para se impor frente ao império capitalista unido que dirige a economia global: o bloco gerido pelos EUA, e que tem como vassalos estratégicos as subpotências europeias e alguns estados satélites (e cujo braço militar é a nuclear e intrusiva OTAN)6.

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Em seus fundamentos centrais, o fascismo (que chegou a ser sofisticamente nomeado, na Alemanha, de “nacional-socialismo”) não é nem propriamente “nacional”, nem muito menos “socialista”. Tais nomes foram usados obviamente com propósitos populistas (assim como suas cores), para se aproximar das massas; mas jamais passaram de um discurso de fachada, cujo intuito foi ocultar um projeto elitista e antipopular. A identificação maior entre os doentes do espírito – seus adeptos – dá-se sobretudo em torno de um falso discurso “patriótico”, com vistas a consolidar projetos capitalistas das classes dominantes (burguesias que podem ser nacionais ou não). Tais projetos, amparados em narrativas sobre supostos “valores pátrios”, sustentam-se a partir de uma moral conservadora, repressiva, autoritária, sempre com o apoio de elementos irracionais, símbolos vazios relacionados ao vigor, à força, à potência da masculinidade: a tudo, enfim, que inconscientemente lhes falta aos fascistas7.

Recordemos: o fascismo é um instrumento do capitalismo para tempos de crise. Decerto, no passado, o chamado “fascismo clássico” teve, em certas nações consolidadas (o que não é o caso do Brasil), uma face parcialmente“nacional” – ou seja, restrita àquilo que favorecesse as elites “nacionais” –, pois, então, a empresa capitalista não tinha ainda sua administração unificada, havendo interesses nacionais na disputa pela liderança. Porém, esta afirmação do poder da “nação” foi e é uma prerrogativa somente de potências. Em estados periféricos que não desenvolveram burguesias nacionais, caso das nações latino-americanas, como mencionado, jamais se pôde desenvolver um efetivo “nacionalismo”. Há quando muito patriotadas abstratas que, em se observando com atenção, apontam também para valores e interesses de fora (antes o colonizador europeu, hoje, seu sucessor ianque), como demonstrou Caio Prado, entre outros grandes marxistas do século XX (MARTINS-FONTES, 2018). Além disso, como mostrado, no caso do Brasil e parte da periferia do sistema, os fascistas não se identificam com a nação onde vivem, de maneira que o anticientífico discurso “racial” – tão verdadeiro quanto a “planitude” do nosso planeta Terra, ou a imparcialidade jornalística da imprensa corporativa – ganha perigoso protagonismo.

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Cabe contudo destacar que, na atualidade, mesmo em se tratando de potências, o tal “nacionalismo elitista” que caracterizou (ainda que de modo restrito) o fascismo de outrora já não tem a mesma presença que antes. Isto porque, no capitalismo neoliberal contemporâneo, com regras e finanças praticamente unificadas em âmbito mundial, o grande capital é todo ele sócio entre si. Não à toa os grandes bancos e empresas-chave de nações centrais do capitalismo (EUA, Europa, Japão) não quebram – pois sua falência abalaria o andar encadeado, a máquina conjunta do sistema-mercado.

Ainda assim, nas nações dominantes – as que dirigem a “globalização” no sentido das vantagens competitivas de suas próprias corporações –, é possível encontrar, mesmo hoje, em seu neofascismo, elementos que podem ser tidos como pretenso “nacionalismo”. Vide D. Trump e suas tentativas – em grande medida bravatas fracassadas, pois que contrárias ao capital estadunidense – de protecionismo das “nacionais” corporações transnacionais (o que não significa a proteção do povo, ou da “nação estadunidense”).

Já no caso de boa parte da periferia do capitalismo, o velho novo fascismo – esta forma autoritária e irracional de governo neoliberal, vale repetir não tem em absoluto um caráter “nacionalista”. Veja-se como exemplo os trâmites explicitamente antinacionais com que o juiz-parcial S. Moro, a serviço do capital internacional, derrubou não só a privada Odebrecht, mas a própria Petrobras.

Efetivamente, é nítido que na periferia capitalista o fascismo mostra mais sua cara. Como já alertou o genial pensador Florestan Fernandes, é na crueza das esquinas do capitalismo onde se pode, antes e com mais nitidez, observar as consequências desastrosas do atual sistema. Os chamados “progressos do capitalismo”, afirma ele, redundam em um “aumento geométrico da barbárie” (FERNANDES, 1995). Mas esta realidade tem sido subestimada desde nossa perspectiva ainda tão “eurocêntrica” – que até hoje ainda influencia até mesmo socialistas íntegros (como se vê no eurocentrismo da posição anti-russa e pró-OTAN de tantos críticos “marxistas”, na atual guerra entre superpotências que se desenvolve na Ucrânia).

Do mesmo modo, o fascismo, face grave do desastre moderno-burguês, pode também por aqui, na periferia do sistema, ter melhor verificados seus fundamentos. Em uma nação com um processo de independência tão incompleto como o Brasil (estenda-se à América Latina como um todo), a prática fascista tem de ser – e é – necessariamente diferente. Por estas bandas, a revolução de independência nunca avançou o aspecto da “política formal”, legando ao país uma posição profundamente dependente e subalterna nos âmbitos econômico, militar, geopolítico, judiciário, científico. Que é hoje o Brasil do futuro, senão uma nação piada-pronta em que as próprias elites do sistema estatal – os altos funcionários judiciários, militares, e os parlamentares – em conluio com patrões externos e agências de espionagem estatais estrangeiras sacrificam nosso patrimônio e “nossas” mais estratégicas empresas (de capital majoritário nacional) em troca de míseras propinas e premiações-vergonha no vistoso palco exterior? Nossos capos da máfia capitalista interna – associados menores do capital internacional – não têm o mínimo interesse em projetos “nacionalistas”; inclusive porque, introjetando historicamente seus papéis de vassalos, vivem das esmolas de sua prática entreguista. De “pátrio” mesmo, basta a camisa verde-amarela, o “cristianismo” reduzido à proibição do direito de aborto, a narrativa anticomunista, antissocialista e até mesmo antirreformista8.

Considerações finais: fascismo, enfermidade do capitalismo

O fascismo deve ser analisado em sua complexidade de caracteres, como uma enfermidade social – material e do espírito – que, fundada em desatinados misticismos, conduz a atitudes irracionais, violentas, bestiais, desonestas, anticientíficas. E isto, tanto no plano individual como no social: um modo de comportamento patologicamente covarde que, por temer exageradamente o outro, a força do outro(que em sua limitação intelectual o fascista praticamente desconhece), o agride por trás.

Individualmente, é um estado de espírito raso, pueril, medroso, desvio psíquico que por vezes degenera para uma perversa situação social envolvendo sadismo, violência, ódio descontrolado. Em casos de crises sociais agudas, torna-se uma prática econômica e de poder político extremamente autoritária, segundo a qual se submete a “totalidade” da sociedade. Trata-se portanto de uma das espécies de regime totalitário, assim como é totalitário o novo regime capitalista dito neoliberal – o que Marilena Chaui afirma já no título de seu mencionado artigo (e isto, com ou sem o tal teatro eleitoral).

Como apresentado, o objetivo essencial da “forma fascista” da política comandada pelo capital é a defesa das estruturas cambaleantes do capitalismo em crise, ainda que nesta escalada (que passa necessariamente por elementos irracionais, presentes no imaginário popular e usados para estimular seus afetos mais primitivos) o projeto fascista costume fugir ao controle “racional” de seus acionistas ligados ao mercado, causando prejuízos ao próprio capital que o promoveu.

São estes “prejuízos”, aliás, que ora se observam no Brasil, após alguns anos da “aposta” das classes dominantes no projeto bolsonarista. Como resultado deste evidente revés, a burguesia começa a mudar sua tática: o que se verifica na pragmáticadiminuição das políticas persecutórias contra o Partido dos Trabalhadores, permitindo-se assim a retomada do projeto político reformista, o que incluiu a libertação do líder petista Luiz Inácio Lula da Silva, após mais de ano no cárcere, condenado sem provas9.

Um exemplo da caótica fuga de controle – típica do fascismo, posto que projeto em ampla medida “irracional” – é o que presenciamos agora na Amazônia, mais e mais dilacerada a cada estupidez do “Nero vira-lata” que ocupa o posto jogral no governo. Como hoje é público e bem-sabido, o ultradireitista – fascista – brasileiro foi “eleito” mediante um prolongado golpe de estado, trama complexa que em sua frente midiática contou, desde o princípio, com o apoio da imensa máquina de propaganda das transnacionais de comunicação (com destaque para as corporaçõeseuropeias ligadas aos membros do G7 e OTAN: BBC, EFE, Reuters, AFP, Figaro, El País). Tais empresas, patrocinadas ou pertencentes às potências da União Europeia e EUA (governos que vêm questionando a “capacidade brasileira de gerir a Amazônia”), atuam, cada vez mais íntimas, junto às opiniões públicas de territórios nacionais periféricos (todas já com edições, senão em português, ao menos em castelhano).

Curiosamente, desde o começo do golpe, estas corporações apoiaram abertamente a “primavera latino-americana”, armação focada na nossa espetaculosa “luta contra a corrupção” – em verdade, uma sabotagem da ascensão do reformismo nacionalista que se gestava por aqui. Seus editoriais durante vários anos saíram sempre na franca defesa do enfraquecimento de nossos Estados nacionais (e em prol do fortalecimento de seus próprios Estados fortes). Assim, de arautos da liberdade contra a “ditadura” de Chávez (eleito e reeleito), esses conglomerados europeus passaram então à crítica severa do “populismo” (eleito e reeleito) dos Kirchner, até chegarem, quando sentiram espaço para isso, à desaprovação dos “desvios pessoais” do (eleito e reeleito) lulismo. Em suma: promoveram passo a passo um interesseiro manifesto midiático (que com o tempo ganhou ares de “verdade absoluta”) contra o poder eleitoral desta tendência nacionalista e reformista que crescia na América: não subalterna aos desígnios da OTAN e voltada à Eurásia, desejosa de se ver livre dos EUA, e à revelia da Europa Ocidental enfraquecida.

Com efeito, a aliança dos BRICS fez tremer a UE e os EUA, ao encarnar o poder desse projeto por maior autonomia nacional (por uma real independência) e pelo enfrentamento do G7 (em benefício da multipolaridade geopolítica).

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A lenda fascista da “raça superior” (presente também em tantas religiões que vêm sendo esquecidas pelos deuses), decerto continua a existir como parte central deste dogma perverso: doutrina pautada não só pela ausência de alteridade, mas por cultuado ódio ao outro, pela culpabilização daquele que é diferente, a quem se culpa pelos próprios fracassos “pessoais” – induzidos pelo sistema.

Entretanto, no Brasil, e em tantas nações inconclusas como a nossa, cuja independência nunca passou de mera formalidade política, esses “escolhidos” do sistema nada têm de “nacionalistas”, posto que nossa classe dominante – o seio em que procriam tais hipócritas – é apátrida: brasileira somente de nascença, por acaso, por “azar”, e quem sabe pela “seleção de futebol”, mas sempre que possível em busca de uma segunda nacionalidade que a alije ainda mais do povo, mestiço, negro, indígena, a que despreza e com o qual nunca se identificou, espelhando-se sempre no fenótipo e cultura europeus, como já o mostraram pensadores como Mariátegui e Caio Prado.

Deste modo, a pretensa “superioridade vital” do fascista, o messias momentaneamente eleito da “religião” do capital, é um dogma que se mantém. Porém, no Brasil, e nas demais semi-nações periféricas – Estados incompletos, tolhidos no processo de sua emancipação nacional –, esta “irmandade” que identifica os fascistas não se dá com relação à “nação”, mas com aqueles que lhes parecem “mais brancos” do que ele, ou seja, com os que vêm de fora, da “gringa”, como se diz no jargão popular. Jamais com o “povo” brasileiro.

Bibliografia

CHAUI, Marilena. “Neoliberalismo: a nova forma do totalitarismo”. Em: A Terra é Redonda, 06 out. 2019. Disp. em: aterraeredonda.com.br. Acesso: 16 out. 2019.

KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

MARIÁTEGUI, José Carlos. “Punto de vista antiimperialista” [1929]. Em: Löwy, M. (org.). El marxismo en América Latina. Cidade do México: Era, 1980.

MARTINS-FONTES L., Yuri. Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui. São Paulo: Alameda/Fapesp, 2018.

______. “Crise da modernidade em perspectiva histórica: da experiência empobrecida à expectativa decrescente do novo tempo”. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 12, n. 31, 2019. Disp.: www.historiadahistoriografia.com.br. Acesso: 25 abr. 2022.

PRADO JÚNIOR, Caio. A Revolução Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1966.

REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. Porto: Publicações Escorpião, 1974.

FERNANDES, Florestan. “Significado atual de José Carlos Mariátegui”. Coleção Princípios, n. 35, 1994-1995. Disp.: grabois.org.br. Acesso: 7 dez. 2013.

Notas

* Yuri Martins-Fontes L. é ensaísta, professor, escritor e editor da Práxis Literária. Bacharel em Filosofia e doutor em História Econômica (USP), com pós-doutorados em Ética e Filosofia Política (FFLCH-USP), e em História, Cultura e Trabalho (PUC-SP). É membro da coordenação-geral do Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da USP e do Laboratório de Economia Política e História Econômica (FFLCH-USP). Autor, entre outros livros, de: Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui (Alameda/Fapesp, 2018); e Cantos dos infernos (Anita Garibaldi/Práxis Literária, 2025).
Versão atualizada de ensaio publicado em 2021.

1 O novo regime foi vendido como “mal-menor”, com ares de verdade científica e “progresso” certo por uma gama de poderosos patifes antinacionalistas, sob o manto de “intelectuais” ou “estadistas” – caso do vendilhão de templos Fernando Henrique Cardoso, ser mutante que ainda em sua quase-vida escreveu o próprio epitáfio: “esqueçam o que escrevi”.

2 Veja-se as “revoluções coloridas” que levaram fascistas ao poder em países como a Ucrânia.

3 O G7 é controlado pelos EUA e conformado pelas potências nucleares França e Reino Unido, pelo vizinho “apêndice” Canadá, e pelos ricos “submetidos” pós-II Guerra, Itália, Alemanha e o ocidentalizado Japão).

4 O alto-comando militar na América Latina de modo geral se caracteriza por ser antinacionalista, subalterno aos governos dos EUA, entreguista; no caso brasileiro, é “resto de farda” que sobrou após a extirpação ético-ideológica que a ditadura impôs a partir de 1964 nas Forças Armadas, expulsando e assassinando oficiais socialistas, reformistas e até mesmo os apenas nacionalistas.

5 Veja-se sua distribuição planejada da riqueza interna, ainda que desde sempre sob fortes ataques do “Ocidente” capitalista.

6 É ainda digno de nota que o governo chinês atua no comércio internacional com mais destreza e organização que os próprios países “internamente” capitalistas, dada sua capacidade de planejamento social e regulação da moeda. Por este motivo, aliás, os chefões do “centro do sistema” (dirigido desde Washington, com subsedes na Europa-Ocidental) querem agora mudar as regras.

7 É bastante simbólico o escândalo de compra de remédios para impotência sexual (Viagra), pelas Forças Armadas bolsonaristas.

8 Caso do golpe de 2016 contra uma presidenta reformista branda, que sequer ousou ir além de reformas básicas pré-estabelecidas em acordo com as classes dominantes.

9 É importante pontuar que: o PT é o único partido não alinhado com o capital que tem possibilidades de alcançar a importante parcela de poder que é a presidênciada República; a condenação de Lula foi feita sem fundamentos (havendo inclusive motivações particulares do juiz envolvido, depois declarado “parcial”), julgamento que seria mais tarde admitido como injusto e revertido pelo Supremo Tribunal Federal (órgão que, no entanto, participou do golpe de estado de 2016, mas que, após a verificação de seu fracasso socioeconômico e político, retrocedeu na sustentação do projeto golpista).