CAMINHOS DA REVOLUÇÃO: RODNEY ARISMENDI E AS EXPERIÊNCIAS LATINO-AMERICANAS


Por Mateus Fiorentini* e Maria Cristina Cacciamali**

Resumo

Este artigo é parte do processo de pesquisa desenvolvido junto ao mestrado do Programa de Pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM/USP). Consiste em analisar as interpretações e elaborações de Rodney Arismendi acerca do que chamava de caminho uruguaio ao socialismo. O referido autor fora Secretário-Geral do Partido Comunista do Uruguai (PCU) e editor da Revista Estudios, periódico teórico da agremiação, entre 1955 e 1989. O trabalho traz ainda reflexões acerca das experiências cubana e chilena a partir do triunfo de Fidel e Allende, respectivamente. Faz-se estas duas referências graças ao peso que ambas tiveram nas leituras de Rodney Arismendi, assim como na esquerda latino-americana. Por fim, trataremos do caso uruguaio e a experiência da Frente Ampla inserida no contexto da tática defendida por Arismendi.

Palavras-chave: Frente Ampla; Pensamento latino-americano; Uruguai.

Introdução

A inserção das sociedades latino-americanas no quadro dos países capitalistas marcou de maneira singular a região. O referido processo produzira um novo contexto histórico determinado por contradições distintas àquelas que predominavam nestas sociedades durante o século XIX. É possível afirmar que este conjunto de transformações consolidou-se em meados do século XX e constituiu novas perspectivas e visões de mundo. Assim, o sentido da formação e o destino dos povos da América Latina influenciaram os debates e boa parte das transformações que ocorreram neste período.

Ainda que em condição de semiperiferia, as décadas de 1950 e 1960 são marcadas pela consolidação da entrada das sociedades latino-americanas no contexto dos países industrializados e capitalistas modernos. Segundo Celso Furtado,

No correr dos últimos dois decênios, a economia dos países da América Latina, considerados em conjunto, conheceu uma expansão considerável e transformações estruturais de real significado. Medido a preços de 1960, o produto bruto da região, que apenas superava os 40 bilhões de dólares em 1950, elevou-se a cerca de 135 bilhões em 1970. (FURTADO, 2007)

Essas mudanças, que reconfiguraram as sociedades latino-americanas, renovaram conflitos e atores, aprofundando as relações de tipo capitalista em boa parte dos países da região. O caráter periférico do referido processo de industrialização, a herança colonial, aliada a postura subalterna das classes dominantes diante das grandes potências, entre outros elementos definiram um caminho singular aos países da América Latina. Pode-se dizer, que a transformação das sociedades latino-americanas em capitalistas apresentam traços comuns que permitem apontar uma identidade regional nesses processos.

Ainda assim, não se pode desconsiderar que os mesmos estiveram marcados pelos aspectos peculiares de cada cultura. Essas mudanças produziram impacto sob o movimento comunista e revolucionário, da mesma forma que o próprio pensamento político latino-americano. Assim, as análises acerca do caminho a ser percorrido para chegar ao socialismo foram influenciadas por essa conjuntura. As experiências, soviética, chinesa, vietnamita, cubana, chilena, entre outras exerceram forte impacto neste contexto.

No que diz respeito ao marxismo e ao movimento comunista as leituras do processo histórico regional, incidiram sobre a expectativa do sentido da formação social e o caráter da revolução socialista no Continente. Arismendi é um ator destacado nesse cenário e produz importantes contribuições para essas discussões. Ao analisar as transformações nas sociedades latino-americanas e a formação histórica do Uruguai, buscou fugir de fórmulas pré-estabelecidas. Dialogou com Mariátegui e Gramsci, interpretou o que chamou-se de via chilena ao socialismo e a Revolução Cubana. Daí foi possível extrair elementos universais e singulares que o levaram a apropriar-se dos primeiros e rechaçar modelos. A compreensão acerca do caráter criativo do marxismo fizeram com que Arismendi produzira uma profunda leitura acerca do processo histórico e da formação da sociedade uruguaia, assim como suas dinâmicas. Como dirigente comunista, incidiu de maneira contundente nos debates a nível regional e internacional. Foi um importante protagonista dos debates sobre o que entendia-se como vias de aproximação ao socialismo, estratégias e ferramentas de luta. Da mesma forma, contribuiu de maneira significativa para a aproximação entre Cuba e URSS, assim como em suas polêmicas com os dirigentes italianos e o que chamou-se de Eurocomunismo. A nível nacional jogou papel proeminente na renovação do Partido Comunista do Uruguai, fazendo com que esta organização deixasse de ser um partido pequeno e sectário em 1955 para converter-se na principal força da esquerda do país em 1971. Partindo da sua compreensão acerca da importância da construção da unidade dos setores populares foi figura central na unificação do movimento operário do país em 1966 com a criação da Convenção Nacional dos Trabalhadores (CNT). Dessa mesma maneira, jogou papel central na fundação da Frente Ampla em fevereiro de 1971 enquanto força aglutinadora e unitária das lutas da maioria da população uruguaia. Sua figura está marcada na história do Uruguai, tendo dirigido o PCU entre 1955 e 1989, até hoje é o recordistas em mandatos parlamentares a nível nacional. Durante as comemorações dos 45 anos da Frente Ampla do Uruguai, o congresso da organização fora dedicado ao dirigente comunista devido ao seu peso no processo de construção da unidade da esquerda daquele país.

Neste artigo, abordamos as impressões de Arismendi acerca da perspectiva do foco guerrilheiro, a partir das suas interpretações acerca da Revolução Cubana e a experiência dos Tupamaros. Como consequência de suas leituras acerca da eleição de Salvador Allende e o triunfo eleitoral da Unidade Popular no Chile apresentamos sua visão quanto ao papel do movimento de massas naquela conjuntura e a chegada ao governo por meio da democracia burguesa. Ainda, situaremos a estratégia que defendia a revolução em duas etapas e suas visões quanto a classe dominante local. Finalmente, apresentamos a Frente Ampla do Uruguai, inserida nos debates acerca dos caminhos para chegar ao socialismo que haviam na América Latina e relativa síntese das reflexões promovidas por Arismendi.

Com isso, compreende-se que o estudo das análises de Rodney Arismendi permite ampliar o conhecimento acerca dos debates políticos e teóricos que caracterizam este período, tanto em nível nacional quanto continental. Da mesma forma, alargar o espectro de pontos de vista com os quais pode-se contar para conhecer as peculiaridades deste país sul-americano, bem como da região. Mais ainda, agregar o autor uruguaio ao conjunto de intelectuais- que incidiram sobre o debate em relação à interpretação e o sentido das sociedades latino-americanas.

O caminho se faz ao caminhar

Para examinar as interpretações de Arismendi é preciso considerar sua condição de dirigente político, deputado comunista e intelectual marxista. Almeja-se, então, dialogar com algumas perspectivas que, entende-se, buscam estabelecer uma visão ampla e arejada, apoiadas no materialismo histórico para observar toda a complexidade dos fenômenos sociais.

Assim sendo, no que diz respeito às classes sociais, parte-se do entendimento de Marx expresso em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, a partir do contexto da França do século XIX:

Na medida em que milhões de famílias vivem em condições econômicas de existência que as separam pelo seu modo de viver, pelos seus interesses e pela cultura dos das outras classes e as opõem a estas de um modo hostil, aquelas formam uma classe. Na medida em que subsiste entre os camponeses detentores de parcelas uma conexão apenas local e a identidade dos seus interesses não gera entre eles nenhuma comunidade, nenhuma união nacional e nenhuma organização política, não forma uma classe. São, portanto, incapazes de fazer valer o seu interesse de classe em seu próprio nome, quer por meio de um parlamento quer por meio de uma Convenção. (Marx, 1982)

Em sintonia com a afirmação de Marx, o historiador inglês, Edward P. Thompson, identifica que a classe “acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas) sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros cujos interesses divergem e se opõem” (THOMPSON, 2004). Dessa maneira, é possível identificar que, não sendo homogêneas, as classes estão compostas por uma gama dialeticamente complexa de interesses. Por isso, admite-se a “existência de estratificações correspondentes a fases diversas do desenvolvimento histórico da civilização e com antíteses nos grupos que correspondem a um mesmo nível histórico” (LACORTE, 2017).

Nesse sentido, destaca-se o peso das experiências concretas dos trabalhadores na formação das visões de mundo construídas pelos mesmos. Mais que uma perspectiva subjetivista, Emília Viotti da Costa entende que a “experiência deles não pode ser entendida simplesmente em termos da sua própria subjetividade e testemunho, não pode ser apreendida de forma isolada da história do capital e das lutas entre capital e trabalho” (DA COSTA, 1990).

Compreende-se, então, que a constituição da unidade dos interesses e a identificação entre os membros de uma determinada classe não obedece a receitas pré-determinadas. Conforme diz Rocco Lacorte no Dicionário Gramsciano de 2017, “se a consciência não é separável dos homens e de sua história, ela não pode ser uma entidade estática e nem única. Existem, antes ‘diversas consciências’ e contraditórias de acordo com a diversidade e a contraditoriedade das relações sociais”; assim, adotamos a perspectiva gramsciana de que a consciência é um processo, onde o fazer-se da classe se dá “através de uma luta de hegemonias políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real” (LACORTE, 2017).

Entende-se que absorver estas contribuições não contradiz ou negligencia as perspectivas relativas a essencialidade da vanguarda ou partido. Ao contrário, entende-se apenas que tanto um quanto o outro, conformam-se do interior da própria classe. Para chegar a essa conclusão, Arismendi, como os demais autores citados, parte da premissa de que a classe não deve ser concebida como uniforme, identificando frações, segmentos e camadas cujos interesses não são coesos e muitas vezes contraditórios.

Vias de aproximação ao socialismo: um debate latino-americano

Para Arismendi os anos 1950 e 1960 são marcados pela ampliação de caminhos ao socialismo, sobretudo após o triunfo da Revolução Cubana e a eleição de Allende no Chile. Esses dois fatos mudaram o cenário latino-americano da segunda metade do século XX.

O caso cubano configura-se como resultado do percurso da luta independentista na ilha. Reivindicando princípios martianos, Fidel afirmou, em 1968, que “en Cuba solo ha habido una revolución: la que comenzó Carlos Manuel de Céspedes el 10 de Octubre de 1868. Y que nuestro pueblo lleva adelante en estos instantes” (CASTRO, 1968). Para o intelectual cubano, Fernando Martinez Heredia durante a luta pela independência de Cuba conformou-se na ilha o que definiu como “patriotismo de justiça social” (HEREDIA, 2016).

Este, segundo o ensaísta caribenho, fora a expressão da união entre os projetos anti-imperialista de soberania nacional e emancipação social, liderados por José Martí e Antonio Maceo, respectivamente. Heredia identificou que o processo conduzido por Fidel, pós 1959, traduz-se na materialização do projeto martiano e definiu-o como “socialismo de libertação nacional” (HEREDIA, 2016). Na visão do professor esses elementos constituem o caminho percorrido pelo povo cubano até a sua libertação. Além disso, não é possível desconsiderar o papel da guerra de guerrilhas e o fortalecimento da perspectiva da via armada ao socialismo em todo o continente Latino-americano a partir da experiência cubana.

Arismendi e o foco guerrilheiro: os Tupamaros

Inspirados no modelo cubano, durante os anos 1960 do século passado surgiram um conjunto de movimentos guerrilheiros em toda a América Latina. Um dos mais importantes foi o Movimento de Libertação Nacional (MLN), mais conhecido como Tupamaros, no Uruguai. Consistiu em um movimento de inspiração guevarista centrado, portanto, no foco guerrilheiro e tiveram um papel de destaque na sociedade uruguaia nas décadas do período. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Enrique Padrós define assim a perspectiva dos Tupamaros:

Partidários das teses foquistas, os tupamaros viam-se irradiando, como onda contagiante, a consciência revolucionária ao conjunto da sociedade. Entendiam a luta armada como resultado do “esgotamento” e da “ineficiência” das formas tradicionais da política legal. O impacto da Revolução Cubana, a influência de Che Guevara e o insucesso eleitoral da esquerda uruguaia, em 1962, pareciam reforçar essa opção. A Conferência da Olas, em 1967, inseria essa opção dentro de um marco de insurreição continental. (PADRÓS; FERNANDES, 2009)

Ainda que identificasse nesses movimentos causas legítimas e princípios valorosos, para Arismendi estavam marcados por um forte caráter voluntarista. Segundo ele, faziam uma leitura limitada da realidade na medida em que tais organizações apontavam apenas a guerrilha e negligenciavam o movimento de massas assim como a direção política do processo revolucionário. Diante disso, afirmou:

Nosso Partido situou-se perante o fenómeno guerrilheiro em atitude compreensiva da extracção de classe, do seu caráter de réplica à violência imperialista e tirânica. E assumiu as obrigações que a solidariedade impõe inclusivamente para com revolucionários equivocados. Mas assinalávamos sempre os erros de concepção insurreccional até de oportunidade política – de conjuntura – de muitos desses movimentos. Em última instância, o seu pensamento revolucionário era vitalmente voluntarista. (ARISMENDI, 1977)1

Tais interpretações consistem, no entendimento do dirigente, em visões limitadas do processo cubano ou da tática do foquismo, ao reduzi-lo à estratégia militar do movimento 26 de Julho. Para Che Guevara, importante expoente dessa perspectiva, devido às condições históricas e conjunturais constituídas na América Latina, não existem muitas possibilidades para que o trânsito ao socialismo ocorresse de modo pacífico na região. No entanto, sua estratégia não pode ser resumida ao seu aspecto militar. O mesmo, apontava para a impossibilidade subestimar as distintas esferas e dimensões da luta política exercida pelo povo por meio de “todas las vias posibles” (GUEVARA, 1970). Sobre esse tema afirmou:

Sería un error imperdonable desestimar el proyecto que puede obtener el programa revolucionario de un proceso electoral dado; del mismo modo que sería imperdonable limitarse tan sólo a lo electoral y no ver los otros medios de lucha, incluso la lucha armada. (GUEVARA, 1961)

Assim, ainda que defendesse o foco guerrilheiro como principal alternativa para chegar ao socialismo na América Latina, chamou a atenção para a necessidade de se esgotar “hasta el último minuto la posibilidad de la lucha legal dentro de las condiciones burguesas” (GUEVARA, 1962). E, que não há caminho único para chegar ao socialismo.

Arismendi, nesse contexto, compreendia que o foco armado, a partir de Cuba, fora introduzido na antessala dos instrumentos para a passagem ao socialismo. Sua crítica, porém, dirige-se ao papel atribuído à questão militar por boa parte das organizações que adotaram esse método de luta, Tupamaros incluídos, sem dúvidas. Segundo o uruguaio, em grande medida estes movimentos transformaram em “doutrina” o que deveria ser entendido como uma ferramenta.

A via chilena e a ampliação de caminhos

A vitória da Unidade Popular no Chile representou, para Arismendi, o “principal revés da estratégia latino-americana de Washington, depois da Baía dos Porcos.” (ARISMENDI, 1977). O ineditismo do que se convencionou chamar de via chilena consistiu exatamente na primeira experiência de vitória eleitoral de um bloco social e político aglutinado em torno a um projeto de caráter socialista. O programa da Unidade Popular, refletia uma rota de lutas e experiências impulsionadas pelo movimento operário e popular do Chile. Arismendi o interpreta da seguinte forma:

Os princípios inalienáveis do marxismo-leninismo não obrigam a um modelo universal rígido; exigem a concretização dessas leis dentro de um quadro nacional e social objectivamente predeterminado pela História de um país ou de vários e pelas condições de acesso ao Poder da classe operária e do povo. As particularidades do processo chileno, incluída a subida ao Governo por via de eleições, que se destacam na singularidade da sua história política, das suas tradições e instituições democrático-burguesas, não tem antecedentes nos anais do movimento operário internacional. Podem achar-se situações comparáveis, embora não similares. (ARISMENDI, 1977)

Embora utilizem métodos distintos, o fundador da Frente Ampla enxerga em ambos processos (cubano e chileno) componentes que lhes outorgam um destino comum. Naquele contexto afirmou que a vitória da Unidade Popular evidenciou “a validade da luta política combinada com a ação múltipla das massas e o integral aproveitamento das possibilidades legais, como Cuba, no seu caso, mostrou a virtualidade da guerrilha, em condições adequadas, para chegar ao Governo.” (ARISMENDI, 1977).

Partindo deste ponto de vista, o comunista oriental diz que “a diametral diferença de formas dos processos revolucionários no Chile e de Cuba – que esmaga todo o culto da receita e do dogmatismo – e a aguda singularidade nacional e de vias entre um e outro passam a segundo plano ante o similar conteúdo histórico.” (ARISMENDI, 1977). Contudo, adverte que “a experiência chilena é de muita transcendência. E devemos estudá-la com toda a seriedade. Embora convenha estar prevenido contra os que se apressam a universalizá-la no que se refere a linhas e a vias […]” (ARISMENDI, 1977). O uruguaio identificava, dessa maneira, o processo cubano e o chileno no cenário da ampliação das vias de acesso ao socialismo, não como modelos. Menos ainda como únicos caminhos. Compreendia que as rotas deveriam ser traçadas por cada povo a partir da sua formação histórica, tradições e experiências de luta.

Burguesia nacional e etapismo.

A perspectiva de que a revolução, sobretudo em países colonizados e da periferia do sistema capitalista, transitaria entre uma etapa de caráter democrático-burguesa e outra socialista possuía certa força nesse período. Tal perspectiva está sustentada em uma interpretação das características que distinguem o capitalismo que originou-se na América Latina do europeu ou norte-americano. Segundo Arismendi, por exemplo,

O desenvolvimento capitalista do Uruguai e na América Latina é, todavia, um desenvolvimento disforme: manteve de pé a propriedade latifundiária, o domínio do imperialismo e formou monopólios em países subdesenvolvidos, uma oligarquia financeira, banqueira e latifundiária que tomou forma na década de 60 em quase toda a América Latina. (ARISMENDI, 1977)

Essa característica, associada à condição colonial imposta por largo período ao continente levou muitos autores a entenderem que as sociedades latino-americanas não completaram suas Revoluções Burguesas. Outros, ainda, entendiam que na América Latina originou-se um capitalismo atrasado e dependente devido ao seu vínculo com o capital internacional em condição subalterna. Dessa maneira, foi forte a ideia de que era preciso impulsionar o desenvolvimento capitalista no sentido de superar a condição colonial e completar o processo de consolidação da condição burguesa destas sociedades. Essa perspectiva influenciou, também, grande parte da esquerda da época. Defendiam, assim, que era necessária uma etapa de desenvolvimento e consolidação do poder burguês nessas sociedades, para passar à etapa de construção do socialismo.

De maneira telegráfica, pode-se dizer que, no âmbito dos Partidos Comunistas, a questão está vinculada basicamente à duas questões: os debates em torno das leituras estabelecidas sobre a Revolução de 1917 e a influência do campo soviético sob os PC’s. Efetivamente, a Revolução Russa produzira um impacto substancial no movimento revolucionário e nas lutas dos povos de todo o mundo. Em primeiro lugar, pelo triunfo de um projeto insurrecional dos trabalhadores já lhe é possível conferir ineditismo. Antes da experiência soviética a maior referência de um Estado dos trabalhadores fora a Comuna de Paris, cuja duração não ultrapassou poucos meses. Em segundo, por ocorrer na periferia do sistema, contrariando a compreensão hegemônica que havia do pensamento de Marx à época.

Conhecia-se a tese defendida pelo teórico que afirmava que a superação do capitalismo ocorreria primordialmente nos países cujo desenvolvimento das forças produtivas estivesse mais avançado. Nesse sentido, os olhos dos revolucionários miravam aos países europeus centrais. Daí advém a afirmação de Gramsci que identificara que a Revolução Russa ocorrera contra “O Capital”, uma vez que contrariava os preceitos estabelecidos pelo alemão. Por um lado, o levante bolchevique permitiu considerar a possibilidade de que a revolução ocorresse na periferia do sistema e deu vida às lutas anticoloniais. Por outro, produziu-se o entendimento de que o desenvolvimento disforme das sociedades que foram colonizadas tornava necessário a passagem por um período de impulso capitalista. Assim, entendia-se como necessário desenvolver as forças produtivas, ou completar as revoluções burguesas nos países coloniais antes de passar à etapa socialista.

Nesse contexto, a tática que se convencionou chamar de etapismo exercia influência sobre o movimento comunista internacional. Nessa perspectiva todas as sociedades deveriam cumprir um curso natural em sua evolução. Tal processo iniciaria no comunismo primitivo, passando pelo escravismo, feudalismo, capitalismo e, enfim, o socialismo. Esse momento foi considerado por muitos intelectuais e dirigentes pelo engessamento do marxismo. Suprimiram-se elaborações determinantes de Marx, entre elas as obras onde desenvolve o conceito de Modo de Produção Asiático conferindo uma perspectiva linear, estática e evolucionista ao pensamento de Marx, algo essencialmente anti-marxista. Tal contexto, levou historiadores de alto calibre a produzirem verdadeiras ginásticas teóricas para enquadrar a história dos países ao roteiro dos cinco tipos básicos de relações de produção.

Dito isso, conforme destacou-se anteriormente, durante meados do século XX, em um conjunto de países latino-americanos instalou-se uma ideologia e produziram-se processos de impulso do desenvolvimento capitalista de feição nacional centrado na transformação estrutural pelo desenvolvimento da indústria. Estes países, inseridos de maneira periférica ou semiperiférica no contexto global, foram marcados por forte processo de industrialização induzido pelo Estado, acompanhado de subsídios ao capital e da garantia de direitos laborais com incentivo à organização sindical.

Assim, fortaleceram-se correntes, identificadas por Arismendi como “nacional-reformismo” (ARISMENDI, 1977), ou por seu projeto de “colaboração de classe”, conforme Emilia Viotti da Costa (1990). A historiadora entende que os setores que conduziram estes processos acabam subordinando os “interesses dos trabalhadores aos da nação” (DA COSTA, 1990). Sobre a interpretação de Daniel James acerca do peronismo afirmou:

A mensagem de Perón era ambígua. Sua ênfase na colaboração de classes beneficiava o capitalismo, mas, ao garantir os direitos dos trabalhadores na sociedade e nos locais de trabalho, o peronismo estabeleceu limites à exploração dos trabalhadores e criou novos motivos de luta. A resistência dos trabalhadores, no entanto, não se traduziu em uma ideologia revolucionária classista sem ambiguidades. A ideologia da classe trabalhadora argentina continha fortes elementos que promoviam integração e cooptação. (DA COSTA, 1990)

A menção feita por Emilia Viotti da Costa está inserida no debate que marcou a época. Nesse cenário, parcela significativa da esquerda passou a enxergar nesses fenômenos, a existência de uma suposta burguesia nacional. Ou, reconhecer em seus setores democráticos e patrióticos, o papel de conduzir a revolução na sua etapa democrático-burguesa. Para Anita Prestes, essa era a posição do PCB em relação ao momento vivido pelo Brasil durante a metade do século XX. Tais preceitos expressos nas teses para discussão do V Congresso do partido, bem como na Declaração de 1958, distinguiam dois setores entre a burguesia brasileira:

[…] “um genuinamente nacional e outro que tem seus negócios ligados num grau maior ou menor ao capital imperialista”. Sendo que “o primeiro constitui a imensa maioria da burguesia brasileira”. Dizia-se ainda: “a burguesia tomada no seu conjunto apresenta duplo caráter. Pertencendo a um país economicamente explorado pelo imperialismo, é uma força revolucionária. Mas seu revolucionarismo é limitado, como o de toda classe exploradora”. Da mesma maneira que na Declaração de Março, concluía-se que a suposta burguesia nacional deveria ser incluída entre as forças que participariam da etapa nacional e democrática da revolução brasileira, segundo a visão do PCB. (PRESTES, 2015)

Sobre o papel da burguesia nacional, Arismendi admitia que em algumas fases do processo de acumulação de forças era possível que a direção do processo estivesse sob condução da Burguesia, ou frações dela. Considerava isso por entender a existência de uma contradição entre as classes dominantes dos países periféricos e suas homólogas dos países imperialistas. A relação de subjugação imposta a estas pelo imperialismo o fez enxergar que algum tipo de nacionalismo pode atingir setores dominantes. Contudo, não lhes atribui condições para levar adiante um projeto onde as sociedades latino-americanas se realizassem enquanto nação, uma vez que, estas não possuem o propósito de superar as relações capitalistas.

O intelectual platino, entendia a questão reivindicando Lênin dizendo que: “não menosprezamos o nacionalismo da nação oprimida em toda a sua projeção democrática” (ARISMENDI, 1977). Considerava que o nacionalista do país subjugado era “aliado natural do comunista na luta patriótica e socialmente avançada” (ARISMENDI, 1977). Mas também, entendia que colocam em segundo plano o confronto entre capital e trabalho (concordando com Emilia Viotti da Costa, conforme mencionado anteriormente), e “[…] procuram pôr ao seu serviço a vontade libertadora nacional de todo o povo, inclusive aproveitar o ímpeto revolucionário” (ARISMENDI, 1977). Por isso, compreendendo que a revolução uruguaia era de caráter anti-imperialista, do seu ponto de vista, apenas o socialismo era capaz de promover uma efetiva independência nacional.

A Frente Ampla e o caminho uruguaio

Em alguns países desenvolveram-se experiências de construção de frentes, coligações e blocos de partidos de esquerda. Algumas dessas experiências beberam nas perspectivas de Frente Popular, impulsionadas na França e Espanha no período entre-guerras e propostas por Dimitrov, por parte da Internacional Comunista. Outras, talvez, mais influenciadas pela identidade frente a um projeto nacional ou patriótico. Na América Latina, entre as experiências do período podemos listar: ENA (Argentina), Força Patriótica (Venezuela), Frente Ampla (Uruguai), além de movimentos similares haverem surgido na Colômbia e Costa Rica.

Para compreender de maneira mais ampla e profunda a complexidade dessas experiências partiremos da análise de Arismendi do caso uruguaio onde desenvolveu-se a Frente Ampla, uma das mais destacadas organizações de esquerda do continente. Esta, por sua vez, deve ser entendida como resultado de um longo percurso de fluxos e refluxos, conflitos e discussões entre as distintas classes e segmentos da sociedade uruguaia que uniram setores democráticos, patrióticos, de esquerda e revolucionários em uma mesma organização a inícios da década de 1970. Arismendi, importante protagonista desse processo, entendia que e a Frente Ampla representava, “la vía real, autentíca, de aproximación a la revolución” (ARISMENDI, 1971).

Entendia esse fenômeno como parte do contexto latino-americano marcado, segundo Arismendi, pelo alargamento das alternativas de passagem ao socialismo. Apoiava-se, dessa forma, na compreensão de que cada povo “segue o seu curso peculiar”. Nesse sentido, identificava que a trajetória rumo ao socialismo no Uruguai seria

[…] determinada por su historia política, por las características de su proceso, por el nivel de su desarrollo capitalista, por el peso y ioplas características de las conformaciones institucionales democráticas, por el hecho de que nuestro pueblo, a diferencia de otros pueblos de América Latina, ha transitado largos períodos en el seno de la democracia burguesa y no ha estado como otros países de América Latina (valga la frase del Marx juvenil referida a la Alemania de su tiempo) junto a la libertad sólo el día de su entierro. (ARISMENDI, 1971)

Apontou, dessa maneira, que

El desarrollo capitalista, el predominio por largo período de sectores democráticos de la burguesía, la ruta particular que prácticamente separó el Uruguay del frecuente gorilismo, de la guerra civil, engendraron una mentalidad nacional-reformista, democrática, liberal avanzada, laica, civilista (ARISMENDI, 1971).

Porém, conforme já mencionado, Arismendi não creditava à classe dominante caráter nacional ou compromisso patriótico. Em sua crítica ao que via como visões esquemáticas da tática das duas etapas ou idealizações do papel da Burguesia latino-americana disse:

Do fato de a revolução conter elementos de caráter democráticos deduzem, como conclusão ‘natural’, que ela pode ser encabeçada pela burguesia dita nacional, ou também que há de obrigatoriamente haver um período de predomínio e de direção burguesa da revolução. Consequentemente defende-se que enquanto não se atingirem esses objetivos não começar a revolução socialista. Ou vice-versa: para que tal não suceda há que ‘mudar’, à nossa vontade, o caráter da revolução. (ARISMENDI, 1977)

Assim, esse entendimento representa a crítica do pensador uruguaio as tentativas de transposição mecânica de uma experiência histórica em outra. Assim, o intelectual oriental, atacava visões que idealizavam e universalizavam experiências de outros países como modelos. Para o dirigente uruguaio, o caminho para o socialismo resulta de cada processo histórico particular. A tentativa de aplicação de modelos estranhos à uma determinada realidade despem o marxismo de seu caráter criativo. Afastam-se, portanto, da análise objetiva da realidade concreta e colocam o socialismo como uma fatalidade história inexorável e não enquanto construção criativa dos povos. Rodney critica, assim, estas perspectivas por tentarem enquadrar a realidade no método e não o contrário.

Arismendi, não apenas contrariava essas visões, como afirmava não haver um caminho único ao socialismo. Mais que isso, entendia que em um mesmo processo revolucionário era possível, ou mais provável, o entrelaçamento de vias e fases onde “a primeira transforma-se na segunda, a segunda resolve de passagem os problemas da primeira e só a luta determina até que ponto a segunda consegue ultrapassar a primeira (ARISMENDI, 1977).

A perspectiva desenvolvida por Arismendi revela o caráter contraditório e dialético do processo histórico. Pode-se entender, então, que na visão do pensador uruguaio a história não caminha em linha reta nem se desenvolve a partir de uma sucessão de Modos de Produção estanques e harmoniosos. Essa visão materialista e dialética que pode ser identificada, tanto em Arismendi, quanto em Fidel Castro levou o líder da revolução cubana a afirmar que, em Cuba mais de 30 anos após o triunfo da revolução, coexistiam elementos de socialismo, capitalismo e comunismo.

Por outro lado, compreende-se que a abertura de um novo ciclo histórico provocado por uma ruptura revolucionária dá a largada para novas contradições cujo desenlace só poderá ser determinado pelas condições impostas pela nova conformação assumida pela luta de classes. O argumento de Arismendi aponta para a incapacidade de determinar o resultado dos acontecimentos, nem a inevitabilidade da constituição da nova ordem social. Para ele todos os países chegarão ao socialismo, entretanto não o farão da mesma maneira. Partindo dessa avaliação, o líder oriental, compreendia que a revolução no país platino seria resultado de um processo único, onde “o socialismo é a resposta definitiva às interrogações colocadas no plano social e nacional”; e, ao identificar o imperialismo como o inimigo a ser derrotado enxergou que a “revolução latino-americana coincide com a revolução socialista” (ARISMENDI, 1977).

Arismendi considerava que a jornada a ser percorrida rumo ao socialismo no Uruguai resulta de um largo processo de acumulação de forças em que opõe-se Povo e Oligarquia em luta pelo futuro da nação. Para ele: o povo “inclui todos aqueles que pelos seus interesses se opõem ao imperialismo e a la rosca2” (1977).

Ou seja, todos os setores que aderem ou se aliam por seus interesses econômicos e sociais ou políticos, ao projeto dos setores populares. Estes, por sua vez, tendo como centro dinâmico e condutor, as grandes massas trabalhadoras “dirigidas”, em última instância, pela classe operária. Esse embate foi, para o dirigente uruguaio, a marca que caracterizou o quadro nacional nesse período. No desenrolar dessa rota, o desafio consistiria em buscar a construção de um bloco de alianças entre classes, frações destas, camadas e segmentos da sociedade sob condução de um programa unificador dirigido pelos trabalhadores.

A implementação do que Arismendi chama de “Programa Democrático Avanzado”; significaria a expressão das reivindicações e necessidades da grande maioria da população, dos setores democráticos, patrióticos e populares unidos através da Frente Ampla. Assim sendo, constituía-se como a rota a ser trilhada pelo povo uruguaio no caminho da abertura de um processo de transição que permitiria rupturas mais profundas na sociedade. Ou seja:

[…] el Frente Amplio nace como un movimiento democrático avanzado, antimperialista. Su declaración lo define como un movimiento de vastas capas del pueblo contra el gran capital, el latifundio y el imperialismo. Sus objetivos programáticos plantean la solución de tareas esenciales (política exterior independiente, nacionalización de la banca, de los frigoríficos, del comercio exterior, reforma agraria, etc.), es decir, objetivos democráticos radicales que sumados el proceso uruguayo implican la posibilidad de cambios profundos. (ARISMENDI, 1971)

A ascensão do bloco histórico integrado pela grande maioria da população uruguaia, conduzido pelos trabalhadores e o programa unificador deveriam plasmar-se na chegada da Frente Ampla ao governo. O comunista do Uruguai não atribuia a Frente um caráter socialista. Antes, contudo, considerava que a construção de um programa unificador permitiria iniciar um processo de transformações profundas, de caráter intermediário e transitório. A implementação desse programa abriria caminho para a instauração de um “Poder Democrático Avançado”, transição para abrir caminho rumo ao socialismo.

Considerações finais

O processo que resultou na formação da Frente Ampla no Uruguai e a leitura e pensamento produzidos por Rodney Arismendi permitem ampliar o conhecimento acerca do conjunto de alternativas e os debates acerca dos caminhos para a transformação social na região. Buscou-se apresentar a perspectiva de Arismendi a partir do debate sobre o que o intelectual platino chamava de vias de aproximação para a revolução socialista. Assim, pretendeu-se alimentar os estudos acerca das interpretações sobre a formação das sociedades latino-americanas a partir da visão de um ator importante no âmbito do marxismo e do movimento comunista na América Latina.

Ainda, entende-se que ao apresentar as reflexões do marxista platino, recorre-se a uma leitura que busca fugir de “fórmulas de sabedoria presunçosa” (ARISMENDI, 1977). O deputado advogava que “[…] para o dogmático a revolução deve ser a repetição sucessiva do mesmo modelo, o decalque em vez da criação heroica, para repetir a frase de um conhecido teórico.” (ARISMENDI, 1977).

Nesse contexto, defendia um caminho próprio para seu país, a partir de um processo de acumulação de forças, como resultado das peculiaridades da trajetória histórica seguida pelo povo uruguaio. Arismendi entendia que uma das singularidades do Uruguai consistia na formação de uma consciência laica e republicana que o fez recusar o caminho armado como perspectiva para o país, pelo menos na fase de acumulação de forças. Ao mesmo tempo, rejeitava aquelas tendências que idealizam caminhos para o socialismo através das instituições burguesas ou mesmo o papel da classe dominante local na emancipação da nação. Sobre a via parlamentar disse:

[…] esses exemplos (experiências de passagem pacífica ao socialismo no leste europeu) são adulterados e perdem validade para a generalização teórica se se ocultam ou simplesmente não se destacam certos fatores determinantes de tal possibilidade. […] a conjunção dos levantamentos populares democráticos e nacionais e a presença libertadora dos exércitos socialistas soviéticos. (ARISMENDI, 1977)

Para ele a tese que vislumbrava alcançar o socialismo por esse meio, “[…] em poucotempo adquiriu uma amplitude exagerada primeiro, perigosa depois. Nalguns países declararam-se caducos os postulados metodológicos de que partem Marx e Lenine para se pronunciarem sobre as ‘vias’, ou são postos à margem pura e simplesmente.” (ARISMENDI, 1977).

Por conseguinte, afirmou que a considerada via parlamentar “é de uma comprovada social-democracia. É classicamente revisionista.” (ARISMENDI, 1977). Mais ainda, cabe destacar que para o platino, o período é marcado pela “diversidade de vias específicas em que se desenvolve a revolução” (ARISMENDI, 1977). Afirmava que “não defendemos esta via (armada) como se fosse alternativa obrigatória. Preferimos por razões de princípio e de táctica o caminho da unidade do povo, incluídos os militares, como a melhor via de passagem para transformações revolucionárias.” Entretanto, estabelecia uma distinção entre as vias de aproximação da revolução e a transição ao socialismo.

Assim, afirmava que, devido às condições históricas produzidas na América Latina, “provavelmente esta passara pela via da insurreição armada, seja qual for a via de aproximação.” (ARISMENDI, 1977). Assim, não atribuía à Frente Ampla um caráter socialista, mas sim, a missão de implementar um programa transitório que aproximasse a sociedade uruguaia da passagem ao socialismo. No entanto, rechaçava as visões que identificavam na Frente um simples caráter eleitoral, para ele esta deveria ser entendida,

[…] enquanto força do povo e não apenas coligação de partidos, tem por eixo a mobilização, experiência coletiva e educação política e ideológica através da luta das grandes massas operárias e populares. É essa experiência colectiva que se consolida em organização, que faz amadurecer novas etapas da consciência. (ARISMENDI, 1977)

Na perspectiva do autor, no curso das experiências concretas as massas trabalhadoras vão encontrando seu caminho de libertação. Quando compara os processos cubano e chileno, Arismendi identifica seus elementos peculiares, em virtude dos instrumentos adotados, que os distanciava. Mas, logo os aproximava novamente devido ao que atribuía ser o seu conteúdo histórico comum centrado na unidade do povo pela sua emancipação e contra o imperialismo. Unifica ambos pela perspectiva de que “a revolução fazem-na os povos e isso é produto do processo e da experiência combativa das massas” (ARISMENDI, 1977) para afirmar a construção de um caminho próprio do Uruguai rumo ao socialismo.

Assim, Arismendi dialogava com aqueles elementos que o faziam afirmar o caráter continental da revolução socialista na América Latina. A partir das experiências cubana e chilena e suas interpretações do pensamento de Lênin, Gramsci e Mariátegui, tal qual o pensamento nacional uruguaio, o autor apontou que não havia caminho que não passasse pela unidade do povo. Por outro lado, sua interpretação da sociedade uruguaia levou-o a identificar que essa rota se desenvolveria através de um processo de acumulação de forças e construção de hegemonia junto à sociedade e do movimento de massas. Para tanto, exigia, no entendimento de Arismendi, a formação de um bloco histórico e social que compreendia à imensa maioria da população uruguaia, diversa e heterogênea. Dessa forma, sua unidade seria fruto de um processo de disputa de hegemonias entre os principais segmentos que compunham o que o autor entendia como o povo uruguaio. Sua interpretação, entretanto, é de um ator proeminente das transformações políticas e sociais do país. Sua elaboração evolui à medida que a própria história do Uruguai e o processo que culminou na Frente Ampla se desenvolve. Arismendi, extrai sua elaboração a partir do concreto, constrói, portanto, seus conceitos e categorias no curso das lutas concretas que surgiram na sociedade uruguaia ao longo desse período. Assim, ainda que em um princípio esteja inspirada ou inserida nos debates sobre as frentes populares, a Frente Ampla surge como outra coisa. Tem mais de Allende e Fidel que Dimitrov na sua compreensão, embora não se configura como tarefa fácil estabelecer essa distinção. Não se trata, então, de blocos de partidos políticos em resistência aos setores mais conservadores e “fascistas” da sociedade. Mas de um amplo movimento social e político que acumula forças para transformações mais profundas. Seria, nesse sentido a expressão da unidade do povo em âmbito social, político e eleitoral em luta de hegemonias inserida na tradição da sociedade uruguaia. Ao compreender a distinção que o autor fazia entre caminho, via de aproximação e passagem ao socialismo é possível afirmar que o primeiro diz respeito aos aspectos macro, de caráter histórico. Possui, nesse sentido, raízes profundas na história do país e produz a narrativa que atribui sentido ao processo. Já o segundo, corresponde aos aspectos conjunturais da tática adotada, quer dizer, a rota a ser trilhada rumo a unidade do povo, a formação da força social da revolução, o bloco social e político das mudanças cujo objetivo se materializaria na constituição deste enquanto opção de poder. Tendo em vista a cultura laica, civilista e republicana originada ao longo da história do país, este processo se daria a partir do movimento de massa, da luta social unitária e da ação institucional junto ao legislativo e ao executivo. A Frente Ampla do Uruguai deve ser compreendida como consequência desse processo. Já a passagem ao socialismo corresponderia a outra fase do desenvolvimento da sociedade uruguaia cujas determinações seriam dadas pelo próprio processo histórico.

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Notas

* Professor de História da rede de ensino do Rio Grande do Sul e docente substituto do IFRS; graduado em História (PUC-SP), mestre em Integração da América Latina (USP), e doutorando em História (UPF). É pesquisador-membro do Núcleo Práxis-USP e autor de, entre outras obras: Caminho uruguaio ao socialismo: o pensamento de Rodney Arismendi e a unidade da esquerda [1955-1971] (PROLAM-USP, 2019).

** Professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP (PROLAM).

1 A obra citada, A Revolução Latino-Americana, única publicação em português de Rodney Arismendi encontrada até o momento, fora publicada pela editora Avante, de Portugal, no ano de 1977. No trecho mencionado manteve-se o texto original.

2 La rosca: expressão que define a aliança em torno do setor financeiro.