O marxismo de Manuel Mora Valverde

Grande orador, advogado e fundador do Partido Comunista Costarricense – pelo qual foi deputado –, compreende a revolução como um processo de transformações institucionais a serem conduzidas com base na realidade dos trabalhadores Por Abel Cassol * MORA Valverde, Manuel (costarriquenho; São José, 1909 – São José, 1994) 1 – Vida e práxis política Manuel Mora Valverde é um dos principais lutadores sociais e pensadores políticos costarriquenhos do século XX. Foi uma referência para a formação política comunista caribenha e um destacado advogado. Nascido em uma família de classe média – ilustrada e empobrecida –, e primogênito de doze irmãos, recebeu desde cedo a influência do pai – o mestre-de-obras e dirigente operário José Rafael Mora Zuñiga –, tendo contato com atividades políticas e lutas sociais dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, herdou da mãe, Lydia Valverde, o espírito acadêmico e o interesse pelo conhecimento do mundo e das pessoas, ambos traços marcantes de sua personalidade ao longo da vida.  Ainda criança teve que enfrentar, acompanhado da família, o exílio de seu pai na Nicarágua, após a casa em que residia ser alvo de um atentado; naquela época, a Costa Rica era governada por Alfredo Gonzáles Flores (1914-1917), um amigo do pai, que acabou sendo deposto por um golpe militar. No exílio, Manuel vê o progenitor organizar operários em grupos armados, de resistência e combate, contra o regime ditatorial imposto. Outro fato marcante do período é a morte de duas de suas irmãs, em virtude da falta de recursos familiares para tratamento médico. Esses eventos despertarão no jovem Mora um senso de justiça e igualdade que perdurará por toda sua trajetória política, acadêmica e intelectual. Fez seus estudos primários na Escola Juan Rudín, e os secundários no Liceu de Costa Rica, ambiente que fomentou personalidades – como Mario Echandi Jiménez (futuro presidente entre 1958 e 1962), de quem foi colega. Obteve tanto êxito na formação secundária que, após finalizá-la, o Ministério da Educação lhe ofereceu uma bolsa para que estudasse Matemática na França, convite por ele recusado. Iniciou sua atividade política com apenas 15 anos, quando começou a participar de reuniões da Liga Anti-Imperialista da Costa Rica, vinculada à Internacional Comunista e braço local da Liga Anti-Imperialista das Américas, coletivo formado à época por destacados intelectuais e ativistas nacionais, tais como Carmen Lyra, Carlos Luís Sáenz, Rómulo Betancourt e outros. Tais influências fizeram com que o jovem Mora participasse de associações antifascistas e de coletivos progressistas, tais como a Associação Revolucionária de Cultura Operária (ARCO), na qual ingressa em 1929. Esse processo de formação política e de luta social na juventude culminará com sua relevante participação na fundação, junto a um grupo de operários e estudantes, do Partido Comunista Costarricense (PCC), em 1931. Por este tempo, ingressa na Escola Nacional de Direito, instituição na qual obtém o título de bacharel, em 1940, iniciando sua carreira profissional como advogado. Em 1934, o recém-criado Partido Comunista organizou e mobilizou cerca de 10 mil trabalhadores rurais da região atlântica do país em torno da luta por melhores condições de trabalho na produção bananeira. Esse episódio, historicamente conhecido como Huelga bananera [Greve bananeira], é considerado a primeira ação coletiva proletária, na Costa Rica, contra uma empresa estadunidense – a famosa United Fruit. Nas eleições desse mesmo ano, Mora, ainda estudante de Direito e com só 25 anos, foi eleito um dos primeiros deputados comunistas do país, cargo para o qual será reeleito até 1948, quando eclode a Guerra Civil (que duraria de março a abril deste ano). Nesse período, ele sobressaiu como um excepcional orador, sempre pautando seus discursos e ações pela defesa dos trabalhadores, em especial os desempregados e pobres, e denunciando os privilégios da elite agrária nacional e suas relações com o imperialismo. Foi também responsável pela organização de quatro periódicos revolucionários nacionais, voltados ao fortalecimento da educação popular, à difusão dos ideais comunistas e à mobilização social das massas: La Revolución (1929-1931), Trabajo (1931-1948), Adelante (1953-1961), e Libertad (1961-1993). Em 1940, com o avanço do nazismo na Europa, Mora foi a principal figura da estratégia de ampliação de alianças, desenvolvida pelo Partido Comunista, com vistas a garantir a defesa das liberdades democráticas e dos interesses nacionais frente ao imperialismo. No plano local, a pressão por reformas sociais e econômicas – exercida por movimentos organizados pelos comunistas, tais como o Comité Sindical de Enlace e a Unión Nacional Campesina – também repercutirá na consolidação de tais alianças. Esse processo envolverá um acordo entre comunistas, setores progressistas da Igreja Católica e o governo de Calderón Guardia (1940-1944), resultando na modernização da institucionalidade estatal e na democratização das leis nacionais; uma espécie de “revolução jurídica sem sangue”, que promoverá a incorporação de garantias sociais na Carta Magna, a promulgação do Código de Trabalho Nacional, e criará a Caixa Nacional de Seguro Social. Um dos aspectos mais destacados dessas alianças foi a mudança de nome do Partido Comunista, que passa a se chamar Vanguarda Popular, com o objetivo de incorporar aos seus quadros cidadãos e políticos vinculados à Igreja Católica – os quais rejeitavam a denominação “comunista”, ainda que partilhassem de muitas de suas ideias. Em 1948, o não reconhecimento das eleições nacionais, por parte das elites tradicionais costarriquenhas, resultará no conflito referido – a Guerra Civil do país –, o que provocará o exílio de Mora no México (até 1950). Todavia, mesmo exilado, o marxista terá papel central no armistício (acordado ainda em 1948), sendo um dos negociadores do Pacto de Ochomogo, assinado em território costarriquenho (17 de abril), pelo próprio Mora e José Figueres Ferrer (líder do conservador Ejército de Liberación Nacional), sob o testemunho do padre Benjamin Nuñez Vargas. Apesar de tal acordo ter representado a manutenção das conquistas sociais alcançadas, ele não será cumprido pela junta de governo estabelecida, dominada pelas classes dominantes; assim, na Constituição de 1949, o Partido Comunista será posto na ilegalidade – gesto que resultará em perseguições, prisões e assassinatos de líderes socialistas, operários e camponeses. Somente em 1975, o PCC voltará à legalidade. Nos anos 1980, ManuelContinuar lendo “O marxismo de Manuel Mora Valverde”

O marxismo de Blas Roca

Autodidata, foi dirigente do primeiro e do atual Partido Comunista de Cuba, destacando-se como educador e divulgador do marxismo – pensamento que concebia como um guia a ser aplicado criativamente, e que buscou unir com as ideias de José Martí Por Lucilo Batlle Reyes* [Tradução de Yuri Martins-Fontes e Felipe Deveza] [PDF] BLAS ROCA; Wilfredo Calderío, Francisco (cubano; Manzanillo/Cuba, 1908 – Havana,  1987) 1 – Vida e práxis política Francisco Wilfredo Calderío López, conhecido como Blas Roca Calderío, nasceu em uma família de trabalhadores pobres e com tradição na luta pela independência cubana, sendo o mais velho de nove irmãos. Levou o sobrenome de sua mãe devido às normas da época. Na escola fundamental, mal alcançou a quarta série; ainda criança, teve que trabalhar em uma grande variedade de atividades para ajudar a sustentar sua casa. Sofreu forte opressão da sociedade burguesa-latifundiária e dependente de sua época, pois era pobre e mestiço – o que contribuiu para forjar seu espírito de rebelião contra a injustiça e a opressão. Com a ajuda de seu professor Ernesto Ramis, ainda bem moço, Wilfredo Calderío fez um curso de magistério, habilitando-se para lecionar na educação infantil; embora gostasse da profissão – que exerceu por dois anos (1924-1926) –, foi forçado a deixá-la, por não se submeter a manobras políticas. Assim, seguindo a tradição familiar, tornou-se sapateiro, e foi a partir daí que se ligaria para sempre às lutas da classe trabalhadora, unindo-se ao movimento sindical e travando contato com a literatura marxista. Em 1929, entrou no pioneiro Partido Comunista de Cuba (PCC), passando a dirigir o Sindicato dos Sapateiros de sua cidade; no ano seguinte, assumiu o cargo de secretário-geral da Federación Obrera de Manzanillo (FOM) e, ao mesmo tempo, secretário-local do partido. Nesta época sofreu sua primeira prisão política, no Castillo del Príncipe, em Havana, durante três meses. Em 1931, foi eleito membro do Comitê Central do PCC e, em 1932, preso pela segunda vez. Ao sair da prisão, no ano seguinte, preparou a greve geral em Manzanillo – contribuindo à mobilização que pôs fim à ditadura de Gerardo Machado. Já em 1933, participou do V Plenário do Comitê Central do PCC; neste evento, usou o pseudônimo Julio Martínez, mas logo, a pedido de Rubén Martínez Villena, adotou o pseudônimo Blas Roca – o qual, em 1939, quando foram convocadas as eleições para a Assembleia Constituinte, oficializou como seu verdadeiro nome. Ao retornar a Manzanillo, fundou o soviete de Mabay, o primeiro de Cuba. Pouco tempo depois, o partido o transferiu para Havana, incorporando-o como membro da Executiva Política (Birô) do Comitê Central. No fim de 1933, foi provisoriamente nomeado secretário-geral, cargo ratificado em 1934 (no II Congresso do Partido), no qual permaneceu até 1961, quando o Partido Socialista Popular (nome que o PCC passara a adotar em 1944) decidiu se dissolver para formar, juntamente com o Movimiento 26 de Julio e o Directorio Revolucionario 13 de Marzo, uma organização única dos revolucionários cubanos: as Organizaciones Revolucionarias Integradas (sob a liderança de Fidel Castro). Em agosto de 1934, Blas Roca fez sua primeira viagem à União Soviética para participar da reunião preparatória do VII Congresso da Internacional Comunista; um ano depois, chefiou a delegação do PCC em Moscou, sendo eleito membro de seu Comitê Executivo para a América Latina. Como tal, deu valiosa colaboração aos partidos operários e comunistas latino-americanos: caso de sua visita ao Brasil, durante a qual pôde encontrar Luiz Carlos Prestes na prisão, conversar com ele e ajudar a romper o isolamento em que fora mantido; e ainda, da atenção que deu ao Partido Comunista Mexicano, quando este atravessava uma crise de sua direção. Em 1940, presidiu a delegação do Partido Unión Revolucionaria Comunista (PURC), na Assembleia Constituinte. Desde então, até o golpe de Estado de Fulgência Batista, em 1952, foi membro da Câmara dos Deputados. Blas Roca forjou sua sólida cultura de maneira autodidata; lia de tudo. Em sua infância, entrou em contato com variadas obras, desde as de história cubana, às da literatura universal – como Os Miseráveis, Dom Quixote, entre outras disponíveis na biblioteca familiar. Isto alimentou seu pensamento com ideais democráticos e de justiça social, cujo núcleo foi o pensamento de José Martí. Mais tarde, quando começou a participar das lutas proletárias, entrou em contato com a literatura marxista. Leu então O ABC do Comunismo de Bukharin, O Estado e a Revolução de Lenin e A Crítica da Economia Política de Marx, que foram seguidos pelo Manifesto do Partido Comunista e pelo Capital, dentre outras obras clássicas do marxismo (à medida que chegavam em Cuba). Foi, enfim, uma síntese do intelectual revolucionário orgânico cubano do século XX, que articulou a cubanidade, a ética, o latino-americanismo e o anti-imperialismo de Martí, com a universalidade do marxismo-leninismo. A chegada de Blas Roca à alta direção do primeiro partido dos comunistas cubanos marca uma etapa qualitativamente superior no processo de amadurecimento marxista-leninista desta agremiação – enquanto instrumento político de vanguarda da revolução cubana. A experiência organizacional do marxista – nascida de sua militância de base, de estudos teóricos permanentes e de seu trabalho para unificar o partido –, juntamente com seu esforço e dedicação, o convenceu da necessidade de repensar a estratégia e as táticas do partido: como uma ciência da liderança da luta de classes dos trabalhadores, nas condições específicas dos países coloniais e dependentes. Assim, se iniciaria uma radical mudança tático-estratégica na ação partidária – centrada na luta pela legalidade, aliança com setores progressistas sem perda dos princípios de classe, propaganda revolucionária e busca por hegemonia. Após a vitória revolucionária de janeiro de 1959, na primeira plenária do PSP (fevereiro de 1959), Roca orientou o trabalho de seu partido no sentido de “defender a Revolução e fazê-la avançar”. Mais tarde, presidiu a comissão responsável por elaborar o projeto de Constituição da República – aprovada por referendo popular em 1976. Foi membro do Comitê Central do novo PCC desde sua fundação (1965), até falecer (1987), sendo enterrado com honras de general morto em guerra. “Deixou de existirContinuar lendo “O marxismo de Blas Roca”

O marxismo de José Antonio Arze

Sociólogo, educador, deputado, foi autor de um dos primeiros ensaios de interpretação marxista da realidade boliviana, e fundador do Partido de la Izquierda Revolucionaria (comunista) Por Marcos Vinicius Pansardi * [PDF]   ARZE, José Antonio (boliviano; Cochabamba, 1904 – Cochabamba, 1955) 1 – Vida e práxis política José Antonio Arze y Arze nasceu no início do século XX, filho de José Tristán Arze, pequeno empresário e arrendatário de terras, em uma família de classe média sem fortuna. Estudou direito e ciências políticas na Universidad Mayor de San Simón (UMSS, Cochabamba), graduando-se em 1926. Foi diretor da biblioteca e professor de Direito Público nesta universidade; e, mais tarde, professor de Sociologia e de Direito Indianista na Universidad Mayor de San Andrés (UMSA, La Paz). Ainda bem moço, em 1921, fundou o Instituto Superior de Artesanos (ou Inst. Municipal Nocturno de Obreros), um estabelecimento educativo destinado a levar a cultura e as ideias socialistas ao proletariado. Ainda neste ano, ascendeu à diretoria da revista Arte y Trabajo, importante periódico fundado por Cesáreo Capriles, figura do nascente movimento radical boliviano. Esta revista, na qual Arze escrevia sob o pseudônimo de León Martel, teve um papel central ao dar publicidade a estudantes que viriam a ter relevante participação na política boliviana. Logo começou a editar sua própria revista literária, El Paladín, que teve três números. Em 1923, Arze viajou para Argentina, Uruguai e Chile, a cargo do Conselho Municipal de Cochabamba, para estudar os institutos de formação profissional para trabalhadores. Na Argentina, teve a oportunidade de vivenciar o clima da Reforma Universitária de 1918, tema pelo qual vai se interessar ao longo de toda a sua vida. Ainda neste ano, liderou um grupo de alunos da Faculdade de Direito, chegando a controlar a federação estudantil (seu grupo era conhecido como os “sovietistas”). Em 1928, durante o I Congreso Nacional de Estudiantes Universitarios, foi criada a Federación Universitaria Boliviana (FUB), que tinha por missão impulsionar a reforma universitária. Naquela ocasião, Arze e Ricardo Anaya assinaram juntos um documento considerado o primeiro ensaio de interpretação marxista da realidade boliviana. Por volta de 1928, tentou-se pela primeira vez fundar um partido comunista na Bolívia. Nessa empreitada estavam dois outros personagens fundamentais da futura história boliviana: José Aguirre Gainsborg e Walter Guevara Arze. Este partido ficou conhecido na historiografia com o nome de Partido Comunista clandestino (de sigla PCc). Porém, os delegados da Internacional Comunista (IC) rejeitaram esta organização, dissolveram o PCc e lhe impuseram o formato de Agrupación Comunista (alterando seu estatuto para o de um grupo, em vez de um partido). Em junho de 1929, Arze esteve em Buenos Aires participando da I Conferência dos Partidos Comunistas Latino-Americanos, que se realizou quase imediatamente após a fundação da Confederação Sindical Latino-Americana (CSLA) e do VI Congresso da Internacional Comunista. A chegada ao poder de Hernando Siles (1925-1930) carregou consigo a esperança do avanço de pautas reformadoras. Na composição do governo, Siles tratou de incluir jovens radicais universitários. Arze foi um dos que aceitaram o convite, sendo alocado na Comissão para a Reforma Universitária e no Ministério do Fomento (1929-1930). Esta seria a primeira de suas várias aproximações com setores governistas. À época, havia pessimismo quanto à possibilidade de os trabalhadores das cidades e do campo se organizarem autonomamente. Para o autor, a classe trabalhadora boliviana ainda estava em processo de formação e, portanto, não estaria pronta para se tornar um ator político relevante. Tal percepção da realidade nacional não se alterou com o passar dos anos, o que serviu para dotar seus projetos de organização política de um caráter policlassista. Nesta linha, algumas realizações foram alcançadas. A Revolução de 1930, na qual os dirigentes da FUB participaram até militarmente, instituiu a autonomia universitária, bandeira levantada por Arze. Ainda em 1931, o autor tentou criar uma organização política singular: a Confederación de Repúblicas Obreras del Pacífico (CROP) – algo como um partido comunista trinacional, incorporando organizações da Bolívia, Chile e Peru, o que idealizava como um núcleo propagador do internacionalismo proletário para todo o continente. Mas a proposta não chegaria a ganhar corpo. Em outubro de 1931, Arze viajou para Montevidéu para visitar o Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista, tentando viabilizar a transformação da CROP em uma seção boliviana da IC. Esta tentativa não teve sucesso, pois a IC via nesta organização a tentativa de se fundar uma nova Alianza Popular Revolucionaria Latinoamericana (APRA, partido criado pelo peruano Haya de la Torre), isto é, um projeto reformista de viés pequeno-burguês. Em dezembro de 1931 os cropistas cederam às críticas do Secretariado, dissolveram o grupo e renovaram suas atenções para a criação do PC Boliviano. Com o apoio da CSLA, chegaram a criar um Comitê Central Provisório – para compor um Partido Comunista no país. Contudo, assim como as tentativas anteriores, esta também virou letra morta. Os intentos de Arze esbarravam sempre na IC, ainda que ele tenha se esforçado muito para ser aceito pela organização; por várias vezes tentou criar um Partido Comunista em seu país, chegando mesmo a viajar para Moscou, mas em vão – foi sempre tratado como um intelectual pequeno-burguês e sua participação no movimento comunista nunca foi bem aceita. A negativa da IC em reconhecer e legitimar os esforços de Arze, a figura mais importante do movimento comunista boliviano do entreguerras, foi uma das principais causas pelas quais não se logrou criar um Partido Comunista na Bolívia antes da década de 1950. A despeito disto, ele se manteve fiel às linhas de atuação programática (e teórica) determinadas pela IC, mesmo sem jamais ter sido um quadro oficial desta organização. O fato de ter muitas vezes privilegiado os interesses da União Soviética – em detrimento de posições dos trabalhadores locais – lhe custaria o posterior ostracismo dentro do movimento trabalhista de seu país. Os biógrafos tendem a classificar Arze como um “stalinista”, mas isto deve ser relativizado. Certamente, ele demonstrou ter um fascínio pela URSS, e mesmo por Stálin, como ficou expresso no obituário deste líder soviético, escrito pelo boliviano em 1953, no qualContinuar lendo “O marxismo de José Antonio Arze”

O marxismo de Mário Pedrosa

Jornalista, crítico de arte e sobretudo um militante revolucionário internacionalista, defendeu a necessidade da revolução socialista brasileira, sob a liderança dos trabalhadores — organizados em partido próprio Por Everaldo de Oliveira Andrade * [PDF] PEDROSA, Mário (brasileiro; Timbaúba/Pernambuco, 1900 – Rio de Janeiro, 1981) 1 – Vida e práxis política Mário Xavier de Andrade Pedrosa nasceu na Zona da Mata pernambucana. Foi desde a juventude um filho desgarrado. Sua família era originária de senhores de engenho do Nordeste, que se voltaram depois para a administração pública; seu pai, Pedro da Cunha Pedrosa, foi senador e ministro do Tribunal de Contas. Mário Pedrosa foi enviado pela família, em 1913, para estudar na Europa, e lá ficou até 1916. Entre 1920 e 1923, na Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, tomou contato com as ideias socialistas e o marxismo, despertando para a vida política e intelectual a serviço da classe trabalhadora, luta de que jamais se separaria; formou-se em 1923, mas sua vida tomaria outros caminhos. Ele fez parte da primeira geração de militantes comunistas do Brasil que aderiam à luta revolucionária no momento seguinte à Revolução Russa (1917). Em 1925, se aproxima do PCB através do jornal A Classe Operária. No ano seguinte, filiou-se ao partido, e em março de 1927 começou a trabalhar em João Pessoa (PB) como agente fiscal, mas logo desistiu da profissão. Em São Paulo, assumiu o trabalho de organização do Socorro Vermelho (que apoiava prisioneiros políticos comunistas). Na mesma época, passou a escrever regularmente para a revista teórica do partido, e trabalhou como jornalista no jornal Folha da Manhã. No final de 1927 foi indicado pela direção do PCB para frequentar a Escola Leninista em Moscou, curso de formação de militantes da III Internacional. Em novembro de 1927, já em Berlim, aprofundam-se as crises políticas no interior do PCUS, na URSS. Ele ficaria na Europa até 1929, e aí aderiu às propostas da Oposição de Esquerda russa (dirigida então por Trótski, Kamenev e Zinoviev), que se contrapunha ao poder de Stálin. Mário voltou ao país em 1929, disposto a construir um núcleo da Oposição de Esquerda no PCB, e encontrou uma polêmica no partido – sobre alianças políticas –, que opunha Rodolpho Coutinho à maioria da direção. Iniciou então a organização do Grupo Comunista Lênin (GCL), lançado oficialmente em 1930, com a publicação do jornal Luta de Classes. Em 1933, junto a outros militantes, fundou a Editora Unitas, que passaria a publicar textos e livros revolucionários. Com a formação, em 1931, da Oposição Internacional de Esquerda, o grupo liderado por Pedrosa muda de nome para Liga Comunista do Brasil (LCB). Atuam com o objetivo de combater, dentro da III Internacional (IC), o stalinismo, visto como uma orientação que se afastava das bandeiras democráticas e revolucionárias. Nesse período, a IC se inclinava a uma política antifascista, de colaboração de classes com setores das burguesias. Ademais, agravava-se a pressão contra adversários do stalinismo, com muitas expulsões por divergências com a direção – ocasião em que sofreram perseguições inclusive antigos bolcheviques, que tinham sido companheiros de Lênin. No Brasil, Mário Pedrosa liderou a resistência, em particular a defesa da unidade da classe trabalhadora no combate ao fascismo – que se erguia. Em São Paulo, é formada a FUA (Frente Única Antifascista), agrupando muitas organizações socialistas e anarquistas, que passa a editar o jornal O Homem Livre (no qual Pedrosa publicou vários textos). Em 1934, a FUA decidiu impedir o desfile dos fascistas integralistas em São Paulo; ocorreu um confronto armado na Praça da Sé, e Pedrosa foi um dos atingidos por tiros. Nos anos seguintes, há novos choques políticos. Os comunistas brasileiros alinhados com Moscou, orientados pela IC a buscarem uma aliança com a burguesia, criam a ANL (Aliança Nacional Libertadora) – em uma tentativa de frente democrática ampla. Contudo, a aventura militar comunista de 1935 serviria como pretexto para a repressão ao conjunto das organizações dos trabalhadores, facilitando o caminho para a ditadura de Vargas. Pedrosa criticava a ANL, por ter nascido de um acordo entre dirigentes do Partido Comunista e alguns militares e políticos pequeno-burgueses. Sua ação ganhou praticamente toda a seção paulista do PCB, liderada por Hermínio Sachetta, num momento de crescentes perseguições (ditadura do Estado Novo). Pedrosa exilou-se na França, em 1937, fugindo da polícia varguista, e logo se integrou às tarefas políticas do movimento pela IV Internacional, um desdobramento da Oposição Internacional de Esquerda. Em 1938, em conferência realizada em Paris, foi delegado, representando as seções latino-americanas; ao final foi eleito representante da América Latina e membro do I Comitê Executivo da IV Internacional. No ano seguinte, mudou-se para Nova Iorque com toda a direção da IV Internacional, recém-eleita, e dois anos depois se afastou da organização, por discordar da proposta de defesa incondicional da URSS. Com o fim da guerra em 1945 e sua volta ao Brasil, Pedrosa dirige a publicação do jornal Vanguarda Socialista no Rio de Janeiro, agrupando antigos simpatizantes. O grupo em torno do jornal aproximou-se de outros grupos socialistas contrários ao stalinismo, e daria origem à chamada “Esquerda Democrática”, que teve seu manifesto de fundação aprovado em agosto de 1945; já em agosto de 1947, adota o nome de Partido Socialista Brasileiro (PSB), que duraria até 1965. Em 1956 o coletivo liderado por Pedrosa e Raquel de Queiroz se afasta e forma a Ação Democrática. Ao mesmo tempo que exercia ativamente sua militância política, Mário Pedrosa  desenvolveu a atividade profissional de crítico de arte – sempre baseando sua análise no marxismo –, por meio de que buscou libertar a arte brasileira do seu isolamento nacional, provinciano. Defendeu para arte brasileira a necessidade da renovação da experiência, do espírito ventilado e internacionalista, valorizando ao mesmo tempo a identidade local. Tratava-se de um posicionamento político e libertário em relação à produção e criação artística, que se chocava de um lado com o nacionalismo conservador, mas também com o realismo socialista e panfletário dos artistas ligados ao PCB ou em sua esfera de influência. Esteve presente nos grandes eventosContinuar lendo “O marxismo de Mário Pedrosa”

O marxismo de Liborio Justo

Político, escritor, viajante, foi um dos introdutores do trotskismo na Argentina, aderiu ao movimento reformista, criticou a estrutura latifundiária e defendeu a luta dos povos originários e a integração continental Por Cristina Mateu * [Tradução de Yuri Martins-Fontes e Carlos Serrano] [PDF] JUSTO, Liborio; “Quebracho”; “Lobodón Garra” (argentino; Buenos Aires, 1902 – Buenos Aires, 2003) 1 – Vida e práxis política Liborio Justo nasceu no seio da oligarquia argentina, na virada do século XX. Em precoce autobiografia (Prontuario, 1940), apresenta as raízes, os enredos e vínculos políticos que marcaram sua vida, descrevendo como gerações de sua família estiveram ligadas a processos e a personagens da história nacional. Um de seus bisavós chegou à Argentina em 1829, nos tempos da guerra entre Unitários e Federais (entre 1820 e 1853), tornando-se proprietário de terras. Seu avô paterno, natural de Corrientes, foi deputado, poeta, historiador, maçom, autor do primeiro Código Rural correntino e, brevemente, governador desta província (1871). Seu avô materno, filho de espanhóis, integrou o Corpo de Caçadores, como encarregado da luta contra os indígenas araucanos na fronteira Sul, tendo posteriormente participado da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, em 1865. Seus pais pertenciam a antigas famílias de proprietários de terras “decadentes”, mas orgulhosas de sua posição social e desejosas de recuperá-la. Seu pai era capitão do exército, motivo pelo qual a família veio a se instalar nas proximidades de Campo de Mayo (zona militar próxima à capital federal) – período que ele recordaria como anos de isolamento social. O jovem Justo viveu ainda sob excessivos cuidados de familiares e empregados, em uma atmosfera de forte sentimento religioso, que o sufocava. Em 1911, entrou no colégio La Salle, em Buenos Aires – tendo detestado tanto a escola como a cidade. Seu interesse pela literatura e suas atitudes extravagantes foram sua resposta a uma educação que considerava “livresca e indigesta”, afrontando os privilégios sociais de um ambiente aristocrático e religioso que rejeitava. Suas preocupações recaíam sobre a origem da vida, do mundo, o destino do homem e seu próprio destino, as expressões americanistas que descobria – rejeitando as inclinações europeístas de sua família. Nessa época, dedicou-se com seriedade à leitura de autores russos, como Dostoiévski, e de latino-americanos, como Horacio Quiroga, além de participar de competições esportivas. O conhecimento escasso e confuso do jovem Justo sobre a situação mundial, na época de início da I Guerra Mundial, o levou a admirar a força da Alemanha e a desconhecer os acontecimentos sociais que abalavam a Rússia czarista. Em 1918, ingressou na faculdade de Medicina, impelido pela família. Estes foram os tempos da luta estudantil pela Reforma Universitária, com a ocupação da Universidad Nacional de Córdoba, e da intensificação das lutas operárias que explodiriam na greve insurrecional conhecida como Semana Trágica. A agitação universitária e a confraternização com jovens de diferentes setores sociais abriram nova perspectiva para suas preocupações e buscas. Foi candidato a delegado, o que lhe permitiu estreitar laços com estudantes de direita e de esquerda. Durante este tempo, dedicou-se à fotografia e escreveu seus primeiros artigos – sobre questões universitárias. Avançou nos estudos de Medicina, continuando com sua militância junto ao centro acadêmico; tornou-se assistente de vacinação e ajudante de laboratório. A agitação universitária da Reforma, que propunha a destruição da velha universidade e a construção de um mundo novo, o aproximou da chamada Nueva Generación – que questionou a I Guerra e saudou a Revolução Socialista na Rússia. Em meio ao movimento estudantil, viajou com seu pai ao Chile, aproximando-se das pegadas indígenas do Caminho Inca e se comovendo com a imponente paisagem montanhosa do Aconcágua e da Patagônia. Esta foi uma das vezes em que se afastou da Faculdade, pela qual não se interessava. Apesar da abertura a novos horizontes políticos e sociais, entre 1921 e 1924 ele permaneceu preso a um ambiente social que desprezava. Os sentimentos contraditórios gerados por sua condição de intelectual burguês o faziam agir de maneira frívola, embora suas reflexões se fortalecessem por meio da leitura de escritores como Jack London, Kipling, Joseph Conrad (interessando-se pela cultura anglo-saxônica e pela arte renascentista italiana). O retorno ao curso de Medicina o colocou novamente em contato com a Nueva Generación e o movimento reformista – em cujos debates se denunciava a expansão imperialista dos Estados Unidos sobre o México e a América Central. Isto o levaria a estudar a história da América do Sul e começar a considerar a possibilidade de uma revolução continental como solução para os problemas sociais. A nomeação de seu pai como ministro da guerra, em 1922, fez com que este jovem rebelde se retraísse. Seu refúgio foi o estudo da história da Argentina e da América Latina, cujos países estavam submetidos aos interesses expansionistas dos EUA e de sua Doutrina Monroe. Em 1924, por ocasião do centenário da Batalha de Ayacucho, viajou com seu pai ao Peru, junto à delegação oficial, participando de opulentas celebrações. Neste país, constatou a miséria e a opressão das massas indígenas e mestiças, comprovando a má condição imposta pelo domínio colonial e imperialista a esses territórios – que haviam sido o centro do grande Império Inca e onde ainda permaneciam vestígios dos antigos ayllus originários (forma de organização social comunitária). Em 1925, zarpou do porto de La Plata para a Terra do Fogo, percorrendo as províncias de Santa Cruz e Chubut, visitando o campo petrolífero da empresa estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales. Partiu novamente para o Norte da Argentina, cruzando Entre Ríos, Corrientes e Misiones. Neste novo itinerário, escutou a língua guarani e descobriu a natureza exuberante da selva. Seguindo pelo Alto Paraná até as cataratas do Iguaçu, conheceu os mensús – trabalhadores contratados para serviços em moinhos e plantações de erva-mate, tratados como “verdadeiro gado humano” –, ouvindo relatos de exploração e escravidão. No trajeto, cruzou com os tenentistas brasileiros rebelados, vindos da Revolta Paulista de 1924, por meio de quem tomou conhecimento do general Isidoro Dias Lopes e da Coluna de Luiz Carlos Prestes. Sem recursos para prosseguir com suas aventuras, inscreveu-se como eletricistaContinuar lendo “O marxismo de Liborio Justo”

O marxismo de Luiz Carlos Prestes

Líder revolucionário e dirigente do Partido Comunista Brasileiro, protagonizou eventos históricos (Tenentismo, Aliança Nacional Libertadora), legando importantes contribuições para a compreensão da Revolução Brasileira Por Anita Leocadia Prestes * [PDF]   PRESTES, Luiz Carlos; “Cavaleiro da Esperança” (brasileiro; Porto Alegre, 1898 – Rio de Janeiro, 1990) 1 – Vida e práxis política Nascido em Porto Alegre (RS), filho de Antônio Pereira Prestes, oficial do Exército que participou do movimento republicano de 1889, e Leocadia Felizardo Prestes, o jovem Prestes acompanhou os pais e as irmãs para viver no Rio de Janeiro em busca de tratamento para o pai, acometido de grave enfermidade. Em 1908, com o falecimento do pai, a família atravessa grandes dificuldades financeiras, enfrentadas com coragem por Leocadia na educação do filho e das suas quatro irmãs. Órfão de oficial do Exército, o jovem Prestes, gozando da gratuidade do ensino, ingressa no Colégio Militar, dando início aos onze anos à carreira militar. Aluno brilhante, em 1916, matricula-se na Escola Militar de Realengo (RJ), continuando sua formação como engenheiro militar, concluída em 1919, passando a servir na Companhia Ferroviária em Deodoro (RJ). Promovido a primeiro-tenente, Prestes participa da conspiração tenentista iniciada em 1921 e da preparação do levante de 5 de julho de 1922 na capital da República, do qual, acometido de tifo, não pôde participar. Derrotado em poucas horas, o movimento tornou-se conhecido com o Levante do Forte de Copacabana ou “Os 18 do Forte”. Sob a suspeita de conspirar contra o governo, o então capitão Prestes é transferido para o Rio Grande do Sul com a missão de fiscalizar a construção de quartéis. Suas denúncias da corrupção nessas unidades levaram as autoridades a transferi-lo para o comando de uma companhia do Primeiro Batalhão Ferroviário (1ºBF) de Santo Ângelo. A conspiração tenentista prosseguiu com os objetivos de: depor o presidente Artur Bernardes, passando o poder a um político que cumprisse a Constituição de 1891 então desrespeitada; e de introduzir o voto secreto, eliminando a fraude eleitoral e estabelecendo uma justiça independente que respeitasse os preceitos liberais consagrados pelo regime republicano. O programa era limitado, já que as questões sociais não eram contempladas e sua execução caberia aos militares. Os “tenentes” não pretendiam mobilizar o povo. Em 1924, teve lugar o “Segundo Cinco de Julho” – o levante tenentista em São Paulo, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes e do major da Força Pública desse estado Miguel Costa. Violentamente reprimidos pelo governo federal, os rebeldes se deslocaram para o Sul do país, estabelecendo-se na região de Foz do Iguaçu. Prestes participava da conspiração tenentista no Rio Grande do Sul e, ao mesmo tempo, preparava os soldados do 1ºBF para atuarem organizadamente no levante projetado. Na cidade de Santo Ângelo, onde instalou nova iluminação elétrica, gozava de grande prestígio. Em setembro de 1924, pediu demissão do Exército para melhor conduzir a conspiração no estado. O levante rio-grandense teve início na noite de 28 de outubro. Inicialmente contou com a adesão de poucas unidades militares e de alguns caudilhos simpáticos aos “tenentes” liderados por Assis Brasil, chefe civil dos “tenentes”. Os rebeldes em sua maioria foram logo desbaratados pelas tropas inimigas. Apenas o batalhão sob o comando de Prestes e do tenente Mário Portela Fagundes, com a adesão total dos seus soldados, deslocou-se para São Luiz Gonzaga. Nessa região, Prestes e Portela organizaram cerca de 1500 combatentes, mal armados, mas resistindo ao cerco de 14.000 homens mobilizados pelo governador Borges de Medeiros, com o apoio do presidente Bernardes. Devido à inferioridade numérica e de armamento dos rebeldes, Prestes executou um outro tipo de tática, conhecida como “guerra de movimento”: deslocar-se com grande rapidez, mantendo contato com o inimigo para assim conhecer seus movimentos e persegui-lo com eficácia. As “potreadas” – pequenos grupos de soldados que se afastavam da tropa rebelde para obter informações levadas aos comandantes – cumpriam essa missão. Mobilidade e surpresa, dois aspectos importantes da “guerra de movimento”, garantiram aos rebeldes o rompimento do cerco de S. L. Gonzaga, a formação da Coluna Prestes e a marcha exitosa rumo ao Paraná, ao encontro dos companheiros remanescentes do levante de São Paulo. Em abril de 1925, reunido em Foz do Iguaçu, com oficiais das tropas paulistas que, derrotados pelo general Cândido Rondon, pretendiam em sua maioria abandonar a luta, Prestes, em nome da vitoriosa Coluna gaúcha, afirma a decisão de dar prosseguimento ao movimento rebelde, propondo a marcha pelo interior do Brasil, atraindo as tropas governistas e propiciando levantes tenentistas nas capitais litorâneas. Parte da oficialidade paulista aceita a proposta e as tropas sob seu comando são incorporadas à Coluna Prestes, como seria conhecida. Seus combatentes formam quatro destacamentos, Miguel Costa torna-se o comandante, e Prestes o chefe do Estado-Maior da Coluna reorganizada. Contando com menos de 1.500 combatentes, inclusive 50 mulheres, a Coluna percorreu 25.000 km, atravessando o Brasil de Sul a Norte, de Leste a Oeste, tendo passado por 13 estados e participado de 53 combates, sem sofrer derrotas e vencendo 18 generais governistas. Desmentindo a propaganda do governo, a Coluna procurou fazer justiça por onde passou, atraindo a simpatia da população com que teve contato. Devido à precariedade do seu contingente numérico e do armamento disponível, os rebeldes não puderam atingir seus objetivos políticos iniciais, migrando militarmente invictos para a Bolívia. O contato com a população do interior do Brasil, durante o périplo da Coluna, contribuiu para que Prestes – sob o impacto do quadro de miséria que observou e que o surpreendeu – decidisse dedicar-se ao estudo das suas causas, passando a defender o encerramento da marcha. A partir de fevereiro de 1927, na Bolívia, inicia a leitura de obras marxistas, levadas por jornalistas brasileiros e por Astrojildo Pereira, então secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), que faz o primeiro contato desse partido com o “Cavaleiro da Esperança” (denominação então lançada pelo jornal carioca A Esquerda). Na Argentina, desde 1928, Prestes sobrevive do comércio, enfrentando dificuldades, e trabalha como engenheiro civil. Lê O Capital de Marx, O Estado e a Revolução deContinuar lendo “O marxismo de Luiz Carlos Prestes”

Dicionário marxismo na América: um resgate histórico de memórias combatentes

Após meia década de trabalhos coletivos, vem a público obra que registra vida, pensamento e práxis política dos primeiros marxistas das nações americanas Por Yuri Martins-Fontes, Joana Coutinho, Pedro Rocha Curado, Felipe Deveza, Paulo Alves Jr. e Solange Struwka * O Dicionário marxismo na América é uma obra de resgate histórico da memória dos primeiros pensadores e militantes que, a partir do referencial teórico do materialismo histórico, se dispuseram a refletir e enfrentar os problemas sociais, políticos e econômicos próprios das novas nações americanas, dando início ao desenvolvimento do pensamento-luta marxista no continente. Trabalho educacional e crítico de características inéditas, sobretudo em língua portuguesa, o projeto é coordenado pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo – organização que se dedica a atividades políticas e de educação popular – e envolve atualmente quase uma centena de pesquisadores voluntários, de diversos países, nessa operação de investigação arqueológica das origens do marxismo nas Américas. Os primeiros tomos, previstos para mais de mil páginas, trazem verbetes que abarcam biografias e ensaios sobre as ideias e práxis política de cerca de 150 marxistas que viveram, escreveram e atuaram nos países americanos – em um período que abrange desde o século XIX (formação do marxismo no continente), até os anos 1970 (quando se agrava a crise estrutural capitalista e se multiplicam os marxismos). Por ora, após meia década de esforços coletivos, o dicionário marxista começa a vir a público de modo gradual: seus verbetes poderão ser lidos livremente na rede, no formato de “artigos”, disponíveis periodicamente no portal do Núcleo Práxis-USP e republicados por destacados portais parceiros. Esta degustação prévia – do primeiro volume, relativo ao período de formação do marxismo na América – se estenderá ao longo dos próximos anos, visando tanto a popularização da obra (cujo objetivo é não só teórico, mas educacional), como dar espaço a leituras críticas e eventuais aprimoramentos dos textos, antes de vir a público em formato livro. Aguardada para breve, a publicação completa está a cargo das Edições Práxis em coedição com a Editora Expressão Popular, e contará com duas edições: uma impressa (a preços populares) e outra digital (gratuita). Primórdios da obra Nos idos de 2015, os fundadores do Núcleo Práxis-USP, entre encontros políticos e debates do Grupo de Estudos sobre o Marxismo (um de seus primeiros projetos), começam a cogitar expandir as atividades do coletivo no sentido da educação popular. Era uma época difícil, em que se gestava no Brasil um golpe de Estado – concretizado no ano seguinte. Em meio a este contexto, dois novos projetos são pensados: um fórum de discussão sobre direitos sociais (que pouco mais tarde foi constituído, em parceria com associações e comunidades da capital paulista); e uma antologia, em um só tempo crítica e didática – que reunisse ensaios sobre destacados marxistas latino-americanos, de modo a oferecer a estudantes e trabalhadores um panorama das teorias e práticas marxistas desenvolvidas em nossa América. Nesse processo, o coordenador-geral do Núcleo Práxis, Yuri Martins-Fontes, em reunião no Laboratório de Economia Política e História Econômica da USP, expôs a ideia ao professor Wilson do Nascimento Barbosa, que dirigia as pesquisas da entidade. Em uma tarde de diálogo, a ideia se lapidou e expandiu. Ao invés de mais uma antologia, com complexos artigos, que tenderia a se restringir ao território da academia – ponderou-se: por que não reunir mais esforços e produzir uma obra maior, uma publicação educativa, de referência, com textos mais breves mas que dessem conta de apresentar a grande diversidade de problemas e correntes do marxismo desenvolvidas por mais de um século ao longo do continente – um livro que pudesse servir não só aos estudos secundários e universitários, mas à formação política de jovens socialistas? A semente estava plantada. O projeto chegou a ser redigido e apresentado a uma prestigiada editora, que requereu um verbete, como exemplo. O coordenador respondeu a solicitação, elaborando um primeiro texto sobre Mariátegui, baseado no modelo que recentemente desenvolvera em sua tese sobre o marxismo latino-americano (depois publicada como Marx na América). A editorial aprovou a publicação, embora ressaltando que naquela conjuntura não poderia se engajar na produção do projeto. A realidade nacional – econômica, social, cultural – que não era favorável, logo se deteriorou. O Núcleo Práxis-USP contava então com pouco mais de uma dezena de membros, dentre os quais poucos se dispuseram à aventura. Sem apoio material ou ao menos estrutural, o plano foi engavetado. O renascimento No ano de 2018, o Núcleo Práxis vive um período de crescimento, como resultado da movimentação em torno de seus projetos – em especial o Grupo de Estudos (que então lia O capital, de Marx), a tradução coletiva Historia y Filosofía (seleção de Caio Prado Júnior, publicada em 2020, na Argentina), e o Fórum de Formação Política de Lideranças Populares (cujas conversas regulares reuniam educadores e lideranças comunitárias). Muitos militantes – pesquisadores de diferentes áreas, universidades e países – aderem ao coletivo. Com este movimento de expansão, a organização ganha ânimo e braços para considerar novas ações. Reuniões sobre possíveis rumos se sucedem, até que é aprovado o plano de se construir uma publicação periódica: uma revista política de viés popular, que oferecesse a estudantes e trabalhadores alguma voz dissonante naquele ambiente fascista que reverberava no país – época de crescente irracionalidade, senão apoiada, consentida pela grande mídia e demais forças neoliberais, irritadiças com as reformas sociais (básicas) dos governos populares. Nossa experiência com periódicos era pequena – limitando-se à de poucos membros, que na década de 2000, haviam editado por alguns anos o tabloide A Palavra Latina. Por outro lado, o bom momento do coletivo se mostrava na própria intenção, manifesta por vários dos participantes, de se embrenhar em um projeto periódico – de fôlego. Há um vai-e-vem de propostas, debates, até que o plano Dicionário é retirado da gaveta. Parcialmente reelaborado, é apresentado a interessados, em reunião que tem lugar em teatro do Centro de São Paulo, reunindo membros do Núcleo Práxis que orbitavam a ideia da publicação, além deContinuar lendo “Dicionário marxismo na América: um resgate histórico de memórias combatentes”

O DIA EM QUE CAIO PRADO APORTOU EM BUENOS AIRES: RESENHA DO LIVRO HISTORIA Y FILOSOFÍA

Antologia com textos inéditos de Caio Prado Júnior publicada na Argentina, organizada e traduzida ao espanhol por pesquisadores-militantes do Núcleo Práxis da Universidade de São Paulo, amplia o acesso do público às várias faces da trajetória do historiador e filósofo marxista, que desenvolveu conceitos centrais para se compreender a formação social, econômica e política do Brasil e da América Latina.

APUNTES SOBRE LAS GUERRAS Y EL PACIFISMO SUPERFICIAL

Breve decálogo sobre as guerras, em uma época de escalada bélica e pacifismo superficial, se não demagógico; uma reflexão sobre a categoria marxista de totalidade, que é muito mais do que a soma de suas partes (pois tem movimento, relação); e algumas sugestões de palavras de ordem menos etéreas.

EL ANARQUISMO PERUANO Y EL NACIMIENTO DEL “COMUNISMO INCA”

O artigo argumenta que a concepção universalista do marxismo e do anarquismo, tendo por propósito a emancipação humana de modo geral, deve levar em consideração a diversidade cultural para não cair no erro do etnocentrismo. Para tanto, é exposta a ideia do “socialismo inca”, debatida por pensadores como Mariátegui, entre outros.

Veias Abertas nº1 | 2019 – Apresentação

Veias Abertas é um espaço crítico aberto à diversidade de ideias e lutas que se faz presente no debate teórico socialista. Editada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo, e tendo seu nome inspirado na obra clássica de Eduardo Galeano, a publicação periódica abarca variados temas da vasta gama de conhecimentos das ciências históricas (historiografia, educação, economia etc) e das disciplinas filosóficas.