O marxismo de Luiz Carlos Prestes

Líder revolucionário, protagonizou eventos históricos como o Tenentismo, foi dirigente do Partido Comunista e presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora, legando importantes contribuições para a compreensão da Revolução Brasileira Por Anita Leocadia Prestes * [PDF] PRESTES, Luiz Carlos; “Cavaleiro da Esperança” (brasileiro; Porto Alegre, 1898 – Rio de Janeiro, 1990) 1 – Vida e práxis política Nascido em Porto Alegre (RS), filho de Antônio Pereira Prestes, oficial do Exército que participou do movimento republicano de 1889, e Leocadia Felizardo Prestes, o jovem Prestes acompanhou os pais e as irmãs para viver no Rio de Janeiro em busca de tratamento para o pai, acometido de grave enfermidade. Em 1908, com o falecimento do pai, a família atravessa grandes dificuldades financeiras, enfrentadas com coragem por Leocadia na educação do filho e das suas quatro irmãs. Órfão de oficial do Exército, o jovem Prestes, gozando da gratuidade do ensino, ingressa no Colégio Militar, dando início aos onze anos à carreira militar. Aluno brilhante, em 1916, matricula-se na Escola Militar de Realengo (RJ), continuando sua formação como engenheiro militar, concluída em 1919, passando a servir na Companhia Ferroviária em Deodoro (RJ). Promovido a primeiro-tenente, Prestes participa da conspiração tenentista iniciada em 1921 e da preparação do levante de 5 de julho de 1922 na capital da República, do qual, acometido de tifo, não pôde participar. Derrotado em poucas horas, o movimento tornou-se conhecido com o Levante do Forte de Copacabana ou “Os 18 do Forte”. Sob a suspeita de conspirar contra o governo, o então capitão Prestes é transferido para o Rio Grande do Sul com a missão de fiscalizar a construção de quartéis. Suas denúncias da corrupção nessas unidades levaram as autoridades a transferi-lo para o comando de uma companhia do Primeiro Batalhão Ferroviário (1ºBF) de Santo Ângelo. A conspiração tenentista prosseguiu com os objetivos de: depor o presidente Artur Bernardes, passando o poder a um político que cumprisse a Constituição de 1891 então desrespeitada; e de introduzir o voto secreto, eliminando a fraude eleitoral e estabelecendo uma justiça independente que respeitasse os preceitos liberais consagrados pelo regime republicano. O programa era limitado, já que as questões sociais não eram contempladas e sua execução caberia aos militares. Os “tenentes” não pretendiam mobilizar o povo.i Em 1924, teve lugar o “Segundo Cinco de Julho” – o levante tenentista em São Paulo, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes e do major da Força Pública desse estado Miguel Costa. Violentamente reprimidos pelo governo federal, os rebeldes se deslocaram para o Sul do país, estabelecendo-se na região de Foz do Iguaçu. Prestes participava da conspiração tenentista no Rio Grande do Sul e, ao mesmo tempo, preparava os soldados do 1ºBF para atuarem organizadamente no levante projetado. Na cidade de Santo Ângelo, onde instalou nova iluminação elétrica, gozava de grande prestígio. Em setembro de 1924, pediu demissão do Exército para melhor conduzir a conspiração no estado. O levante rio-grandense teve início na noite de 28 de outubro. Inicialmente contou com a adesão de poucas unidades militares e de alguns caudilhos simpáticos aos “tenentes” liderados por Assis Brasil, chefe civil dos “tenentes”. Os rebeldes em sua maioria foram logo desbaratados pelas tropas inimigas. Apenas o batalhão sob o comando de Prestes e do tenente Mário Portela Fagundes, com a adesão total dos seus soldados, deslocou-se para São Luiz Gonzaga. Nessa região, Prestes e Portela organizaram cerca de 1500 combatentes, mal armados, mas resistindo ao cerco de 14.000 homens mobilizados pelo governador Borges de Medeiros, com o apoio do presidente Bernardes. Devido à inferioridade numérica e de armamento dos rebeldes, Prestes executou um outro tipo de tática, conhecida como “guerra de movimento”: deslocar-se com grande rapidez, mantendo contato com o inimigo para assim conhecer seus movimentos e persegui-lo com eficácia. As “potreadas” – pequenos grupos de soldados que se afastavam da tropa rebelde para obter informações levadas aos comandantes – cumpriam essa missão. Mobilidade e surpresa, dois aspectos importantes da “guerra de movimento”, garantiram aos rebeldes o rompimento do cerco de S. L. Gonzaga, a formação da Coluna Prestes e a marcha exitosa rumo ao Paraná, ao encontro dos companheiros remanescentes do levante de São Paulo.ii Em abril de 1925, reunido em Foz do Iguaçu, com oficiais das tropas paulistas que, derrotados pelo general Cândido Rondon, pretendiam em sua maioria abandonar a luta, Prestes, em nome da vitoriosa Coluna gaúcha, afirma a decisão de dar prosseguimento ao movimento rebelde, propondo a marcha pelo interior do Brasil, atraindo as tropas governistas e propiciando levantes tenentistas nas capitais litorâneas. Parte da oficialidade paulista aceita a proposta e as tropas sob seu comando são incorporadas à Coluna Prestes, como seria conhecida. Seus combatentes formam quatro destacamentos, Miguel Costa torna-se o comandante, e Prestes o chefe do Estado-Maior da Coluna reorganizada. Contando com menos de 1.500 combatentes, inclusive 50 mulheres, a Coluna percorreu 25.000 km, atravessando o Brasil de Sul a Norte, de Leste a Oeste, tendo passado por 13 estados e participado de 53 combates, sem sofrer derrotas e vencendo 18 generais governistas. Desmentindo a propaganda do governo, a Coluna procurou fazer justiça por onde passou, atraindo a simpatia da população com que teve contato. Devido à precariedade do seu contingente numérico e do armamento disponível, os rebeldes não puderam atingir seus objetivos políticos iniciais, migrando militarmente invictos para a Bolívia.iii O contato com a população do interior do Brasil, durante o périplo da Coluna, contribuiu para que Prestes – sob o impacto do quadro de miséria que observou e que o surpreendeu – decidisse dedicar-se ao estudo das suas causas, passando a defender o encerramento da marcha. A partir de fevereiro de 1927, na Bolívia, inicia a leitura de obras marxistas, levadas por jornalistas brasileiros e por Astrojildo Pereira, então secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), que faz o primeiro contato desse partido com o “Cavaleiro da Esperança” (denominação então lançada pelo jornal carioca A Esquerda). Na Argentina, desde 1928, Prestes sobrevive do comércio, enfrentando dificuldades, e trabalha como engenheiro civil. Lê O Capital de Marx, OContinuar lendo “O marxismo de Luiz Carlos Prestes”

Dicionário marxismo na América: um resgate histórico de memórias combatentes

Após meia década de trabalhos coletivos, vem a público obra que registra vida, pensamento e práxis política dos primeiros marxistas das nações americanas Por Yuri Martins-Fontes, Joana Coutinho, Pedro Rocha Curado, Felipe Deveza, Paulo Alves Jr. e Solange Struwka * O Dicionário marxismo na América é uma obra de resgate histórico da memória dos primeiros pensadores e militantes que, a partir do referencial teórico do materialismo histórico, se dispuseram a refletir e enfrentar os problemas sociais, políticos e econômicos próprios das novas nações americanas, dando início ao desenvolvimento do pensamento-luta marxista no continente. Trabalho educacional e crítico de características inéditas, sobretudo em língua portuguesa, o projeto é coordenado pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo – organização que se dedica a atividades políticas e de educação popular – e envolve atualmente quase uma centena de pesquisadores voluntários, de diversos países, nessa operação de investigação arqueológica das origens do marxismo nas Américas. Os primeiros tomos, previstos para mais de mil páginas, trazem verbetes que abarcam biografias e ensaios sobre as ideias e práxis política de cerca de 150 marxistas que viveram, escreveram e atuaram nos países americanos – em um período que abrange desde o século XIX (formação do marxismo no continente), até os anos 1970 (quando se agrava a crise estrutural capitalista e se multiplicam os marxismos). Por ora, após meia década de esforços coletivos, o dicionário marxista começa a vir a público de modo gradual: seus verbetes poderão ser lidos livremente na rede, no formato de “artigos”, disponíveis periodicamente no portal do Núcleo Práxis-USP e republicados por destacados portais parceiros. Esta degustação prévia – do primeiro volume, relativo ao período de formação do marxismo na América – se estenderá ao longo dos próximos anos, visando tanto a popularização da obra (cujo objetivo é não só teórico, mas educacional), como dar espaço a leituras críticas e eventuais aprimoramentos dos textos, antes de vir a público em formato livro. Aguardada para breve, a publicação completa está a cargo das Edições Práxis em coedição com a Editora Expressão Popular, e contará com duas edições: uma impressa (a preços populares) e outra digital (gratuita). Primórdios da obra Nos idos de 2015, os fundadores do Núcleo Práxis-USP, entre encontros políticos e debates do Grupo de Estudos sobre o Marxismo (um de seus primeiros projetos), começam a cogitar expandir as atividades do coletivo no sentido da educação popular. Era uma época difícil, em que se gestava no Brasil um golpe de Estado – concretizado no ano seguinte. Em meio a este contexto, dois novos projetos são pensados: um fórum de discussão sobre direitos sociais (que pouco mais tarde foi constituído, em parceria com associações e comunidades da capital paulista); e uma antologia, em um só tempo crítica e didática – que reunisse ensaios sobre destacados marxistas latino-americanos, de modo a oferecer a estudantes e trabalhadores um panorama das teorias e práticas marxistas desenvolvidas em nossa América. Nesse processo, o coordenador-geral do Núcleo Práxis, Yuri Martins-Fontes, em reunião no Laboratório de Economia Política e História Econômica da USP, expôs a ideia ao professor Wilson do Nascimento Barbosa, que dirigia as pesquisas da entidade. Em uma tarde de diálogo, a ideia se lapidou e expandiu. Ao invés de mais uma antologia, com complexos artigos, que tenderia a se restringir ao território da academia – ponderou-se: por que não reunir mais esforços e produzir uma obra maior, uma publicação educativa, de referência, com textos mais breves mas que dessem conta de apresentar a grande diversidade de problemas e correntes do marxismo desenvolvidas por mais de um século ao longo do continente – um livro que pudesse servir não só aos estudos secundários e universitários, mas à formação política de jovens socialistas? A semente estava plantada. O projeto chegou a ser redigido e apresentado a uma prestigiada editora, que requereu um verbete, como exemplo. O coordenador respondeu a solicitação, elaborando um primeiro texto sobre Mariátegui, baseado no modelo que recentemente desenvolvera em sua tese sobre o marxismo latino-americano (depois publicada como Marx na América). A editorial aprovou a publicação, embora ressaltando que naquela conjuntura não poderia se engajar na produção do projeto. A realidade nacional – econômica, social, cultural – que não era favorável, logo se deteriorou. O Núcleo Práxis-USP contava então com pouco mais de uma dezena de membros, dentre os quais poucos se dispuseram à aventura. Sem apoio material ou ao menos estrutural, o plano foi engavetado. O renascimento No ano de 2018, o Núcleo Práxis vive um período de crescimento, como resultado da movimentação em torno de seus projetos – em especial o Grupo de Estudos (que então lia O capital, de Marx), a tradução coletiva Historia y Filosofía (seleção de Caio Prado Júnior, publicada em 2020, na Argentina), e o Fórum de Formação Política de Lideranças Populares (cujas conversas regulares reuniam educadores e lideranças comunitárias). Muitos militantes – pesquisadores de diferentes áreas, universidades e países – aderem ao coletivo. Com este movimento de expansão, a organização ganha ânimo e braços para considerar novas ações. Reuniões sobre possíveis rumos se sucedem, até que é aprovado o plano de se construir uma publicação periódica: uma revista política de viés popular, que oferecesse a estudantes e trabalhadores alguma voz dissonante naquele ambiente fascista que reverberava no país – época de crescente irracionalidade, senão apoiada, consentida pela grande mídia e demais forças neoliberais, irritadiças com as reformas sociais (básicas) dos governos populares. Nossa experiência com periódicos era pequena – limitando-se à de poucos membros, que na década de 2000, haviam editado por alguns anos o tabloide A Palavra Latina. Por outro lado, o bom momento do coletivo se mostrava na própria intenção, manifesta por vários dos participantes, de se embrenhar em um projeto periódico – de fôlego. Há um vai-e-vem de propostas, debates, até que o plano Dicionário é retirado da gaveta. Parcialmente reelaborado, é apresentado a interessados, em reunião que tem lugar em teatro do Centro de São Paulo, reunindo membros do Núcleo Práxis que orbitavam a ideia da publicação, além deContinuar lendo “Dicionário marxismo na América: um resgate histórico de memórias combatentes”

O DIA EM QUE CAIO PRADO APORTOU EM BUENOS AIRES: RESENHA DO LIVRO HISTORIA Y FILOSOFÍA

Antologia com textos inéditos de Caio Prado Júnior publicada na Argentina, organizada e traduzida ao espanhol por pesquisadores-militantes do Núcleo Práxis da Universidade de São Paulo, amplia o acesso do público às várias faces da trajetória do historiador e filósofo marxista, que desenvolveu conceitos centrais para se compreender a formação social, econômica e política do Brasil e da América Latina.

APUNTES SOBRE LAS GUERRAS Y EL PACIFISMO SUPERFICIAL

Breve decálogo sobre as guerras, em uma época de escalada bélica e pacifismo superficial, se não demagógico; uma reflexão sobre a categoria marxista de totalidade, que é muito mais do que a soma de suas partes (pois tem movimento, relação); e algumas sugestões de palavras de ordem menos etéreas.

TAIGUARA, HOMENAGEM AOS 75 ANOS DE SEU NASCIMENTO: “EU GRITO SIM… MEU GRITO VAI SANAR MINHAS FERIDAS”

Em 1985, em comício das Diretas Já, Beth Carvalho chama Taiguara Chalar da Silva ao palco. Curvado sobre o microfone, braços projetados para frente, fala de uma vez só, em alto tom: “Depois de proibido pela ditadura durante dez anos, que eu digo pra vocês: – Eu resisto”. Um uruguaio brasileiro, um negro indígena que visitou e se encantou pela África Revolucionária, e que à volta acolheu o comunismo, em 2020, prestes a completar 75 anos, Taiguara não têm ainda sua obra sedimentada na mentalidade musical brasileira.

ACERCA DE MARCELO FREIXO: DO PSOL AO PSB

Partindo da máxima de Marx de que “o moralismo é a impotência posta em ação”, reflete-se neste texto sobre as circunstâncias que levaram o deputado federal Marcelo Freixo a deixar o PSOL, transferindo-se ao PSB.

NO SETE DE SETEMBRO (2021), UMA VITÓRIA DE BOLSONARO

O texto comenta que, em meados de 2021, enquanto as forças de direita dão demonstrações de força política e coesão (lideradas por Bolsonaro), as forças democráticas têm se mostrado frágeis e sem liderança. Defende-se então que, contra a ameaça fascista, é preciso se organizar uma Frente Ampla em defesa da democracia.

PRECISAMOS FALAR SOBRE PAGU

Reflexão sobre a questão de gêneros no Brasil e a necessidade de leis que assegurem os direitos das mulheres, diante de um cenário histórico de falta de equidade social. Neste sentido, destaca-se algumas das ideias da militante comunista Pagu – “A mulher do povo”.

A TRIBO, O ESTADO E A GUERRILHA NO AFEGANISTÃO

Este artigo desenvolve argumentos acerca da relação entre a queda do governo afegão aliado aos EUA, o sistema tribal afegão, a guerrilha talibã e a fragilidade do programa nacional aplicado à periferia global. A tentativa de projetar no Estado afegão a imagem dos Estados nacionais ocidentais, com uma instituição centralizada de poder, não correspondeu com a base autônoma de governança local, as quais possuem recursos financeiros e militares próprios. A distribuição de uma população majoritariamente rural em distintos territórios geográficos se desenvolveu sob a fragmentação política, a partir de um sistema tribal, onde algumas autoridades políticas despontam no cenário político nacional – uma forma de organização política adaptada à topografia e flexível no que se refere às mudanças no ambiente cultural. A resistência Talibã se configurou como uma forma de poder alternativo ao governo afegão e se deu graças a uma organização centralizada e hierarquizada, a um poder militarizado, ao apoio internacional extraoficial, às fontes de financiamento e à implantação de formas governamentais em territórios sob domínio da guerrilha.

MUDANÇA DE CENÁRIO: DA UNIPOLARIDADE À MULTIPOLARIDADE GEOPOLÍTICA

O relatório Inserção Internacional Brasileira: temas de política externa (2010) do IPEA mostra vários fatores que têm impulsionado uma mudança na relação de forças geopolíticas, tais como o aumento do poderio econômico e militar de grandes nações semiperiféricas, a iniciativa de afirmação da União Europeia por meio de políticas de planejamento estratégico mais independentes e a intensa difusão de tecnologia bélica, além da fragilização da própria economia dos EUA. O estudo aponta também que alguns eventos geopolíticos ocorridos em 2008 foram os desencadeadores desse processo de transformação que levou o mundo da recente unipolaridade à nova multipolaridade, tais como: a crise financeira internacional, o fracasso da Rodada de Doha da OMC e o conflito russo-georgiano pela Ossétia do Sul (em que a Rússia demonstraria ao mundo que ainda tem muito poder bélico).

O DISCURSO POLÍTICO DA EXTREMA-DIREITA BRASILEIRA NA ATUALIDADE

Este estudo investiga a organização interdiscursiva, argumentativa e metafórica do discurso político da extrema-direita brasileira na atualidade. Para tanto, analisa-se o voto do então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) na Câmara dos Deputados, no dia 17/04/2016, e três enunciados publicados em seu perfil de rede social. Nesse intuito, na primeira seção, define-se o que entendemos por discurso político da extrema-direita brasileira; na segunda, caracteriza-se tal discurso na interface entre interação discordante e discurso intolerante; na terceira, discorre-se sobre a categoria de metáforas emergentes distribuídas; por fim, na quarta, analisaremos o corpus selecionado.

NATUREZA E ARTIFICIALIDADE NO PROJETO SOCIALISTA DE NAÇÃO DE JOSÉ CARLOS MARIÁTEGUI

A obra do marxista peruano José Carlos Mariátegui persegue um objetivo central: criar as condições práticas, políticas, teóricas e sociais para uma sociedade peruana socialista livre da opressão e da exploração. Esse artigo analisa como Mariátegui recorre ao binômio naturalidade-artificialidade para revelar, por um lado, a função parasitária da classe dominante e, por outro, os pontos que unem os hábitos coletivistas pré-capitalistas das comunidades indígenas e a teoria socialista moderna. Para isso, o marxista andino opera uma releitura crítica da história peruana, opondo a conquista espanhola e o período colonial ao Império Inca, como figuras respectivamente da artificialidade e da naturalidade. Esta chave heurística abre possibilidades críticas para um estudo tanto da inserção do Peru no capitalismo quanto da natureza predatória do modelo social e econômico do período republicano. Finalmente, discute-se a interpretação historicista e dialética da modernidade desenvolvida por Mariátegui, apresentando sua ideia de um “Peru integral” como nação socialista não essencialista, na qual elementos pré-modernos e modernos se juntam em prol de um projeto revolucionário. A natureza e o artifício aparecem em Mariátegui como duas figuras centrais na formação social peruana e, portanto, como uma das faces da luta de classes.

AS INTERNACIONAIS E A QUESTÃO AGRÁRIA

A organização internacional da classe trabalhadora passou por diversos momentos históricos, e em cada um deles teve desafios e impasses que em grande medida não foram resolvidos, estendendo-se ao longo dos anos e se manifestando em diferentes expressões. Entre eles pode-se citar: a estratégia da luta pela emancipação humana, a questão agrária, e a questão do sujeito revolucionário. Em toda a trajetória da organização internacional dos trabalhadores, os camponeses e a questão da propriedade da terra foram temas de intenso debate. Mais recentemente a organização de um movimento camponês internacional – a Via Campesina –, emergente num contexto de lutas antiglobalização neoliberal, carrega novos desafios, não somente de sua classe em particular, a camponesa, mas parte dos desafios da classe trabalhadora como um todo. Entre estes, a consolidação de uma aliança proletário-camponesa em dimensão internacional que seja capaz de incidir na transformação social em plena crise estrutural do capitalismo.

Veias Abertas nº2 | 2022 – Apresentação

A revista Veias Abertas é uma publicação teórica crítica fundamentada no pensamento materialista histórico. É editada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo, organização tanto política como acadêmica criada no âmbito da FFLCH em meados dos anos 2010 – e que reúne intelectuais-militantes socialistas de várias áreas e atuações, como historiadores, filósofos, sociólogos, escritores, críticos literários, professores, ensaístas e jornalistas.

Veias Abertas nº2 | 2022

Apresentação As internacionais e a questão agrária, por Ândrea Francine Batista Natureza e artificialidade no projeto socialista de nação de José Carlos Mariátegui, por Jean Ganesh Faria Leblanc O discurso político da extrema-direita brasileira na atualidade, por Argus Romero Abreu de Morais El anarquismo peruano y el nacimiento del “comunismo inca”, por Alfredo Gómez-Muller Ensaios e debates Mudança de cenário: da unipolaridade à multipolaridade geopolítica, por Yuri Martins-Fontes L. O modelo econômico brasileiro e o impacto da Covid-19: Reflexão para gerar ação, por Eduardo Januário A Tribo, o Estado e a Guerrilha no Afeganistão, por Pedro Curado Precisamos falar sobre Pagu, Paulo Alves Júnior No Sete de Setembro (2021), uma vitória de Bolsonaro, por John Kennedy Ferreira e Joana A. Coutinho Acerca de Marcelo Freixo : do PSOL ao PSB, por Wanderson Fábio de Melo Taiguara, homenagem aos 75 anos de seu nascimento: “Eu grito sim… Meu grito vai sanar minhas feridas”, por Gustavo K. Rolim Apuntes sobre las guerras y el pacifismo superficial, por Yuri Martins-Fontes L. Resenhas O dia em que Caio Prado aportou em Buenos Aires: Resenha do livro Historia y Filosofia, por Joanna A. Coutinho Créditos Editores Yuri Martins-Fontes L., Paulo Alves Junior, Joana A. Coutinho Conselho Editorial Ândrea Francine Batista, Eduardo Januário, Felipe Santos Deveza, Joana Aparecida Coutinho, Paulo Alves Junior, Pedro Rocha Fleury Curado, Solange Struwka, Yuri Martins-Fontes L. Diagramação e editoração digital: Yuri Martins-Fontes L., Manuela Venâncio, Jean-Ganesh Faria Leblanc Revisão: Oficina Uspiana de Textos Conselho Consultivo Argus Romero Abreu de Morais, Athos Vieira, Carlos Alberto Borba, Givanildo Manuel da Silva, Gláucia Lelis Alves, Gustavo Koszeniewski Rolim, Gustavo Velloso, Itzel Ibargoyen Bidart, ​​Jean-Ganesh Faria Leblanc, John Kennedy Ferreira, Marcos Vinícius Pansardi, Mateus Fiorentini, Maurício Orestes Parisi, Natalia Tahara, Paulo Iannone, Paulo Yasha da Fonseca, Renato Cesar Fernandes, Rita Matos Coitinho, Roberto Pasquale, Rogério Vincent Perito, Thiago Mendes, Wanderson Fabio de Melo, Yodenis Guirola Arte e projeto gráfico: Manuela Venâncio (@contextos_criticos)

O MODELO ECONÔMICO BRASILEIRO E OS IMPACTOS DA COVID-19: REFLEXÃO PARA GERAR AÇÃO

Ainda que o Brasil seja a sétima economia do mundo é um dos países mais desiguais, com salários abaixo do custo real de sobrevivência. O presente artigo analisa os impactos da pandemia de covid-19 para a classe trabalhadora no Brasil, em especial a que se encontra na situação da informalidade ou trabalho intermitente, e que em sua grande maioria, é negra. A quarentena desvelou um modelo neocolonial de sociedade, onde o Estado é acionado a salvar o sistema capitalista e os “gastos” com a população, inclusive com a saúde, são fatalmente regulados para manter o superávite primário. A crise mundial de 2007, que com maior profundidade atingiu o país a partir de 2015, arrastou um grande contingente de pobres para situação ainda mais precarizada de vida. E, mediante o contexto pandêmico, o auxílio emergencial de R$ 200,00 para trabalhadores em meio ao aumento de preço de produtos essenciais para frear o contágio, desvela em essência elementos de um pensamento escravista

EL ANARQUISMO PERUANO Y EL NACIMIENTO DEL “COMUNISMO INCA”

O artigo argumenta que a concepção universalista do marxismo e do anarquismo, tendo por propósito a emancipação humana de modo geral, deve levar em consideração a diversidade cultural para não cair no erro do etnocentrismo. Para tanto, é exposta a ideia do “socialismo inca”, debatida por pensadores como Mariátegui, entre outros.

Veias Abertas nº1 | 2019 – Apresentação

Veias Abertas é um espaço crítico aberto à diversidade de ideias e lutas que se faz presente no debate teórico socialista. Editada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo, e tendo seu nome inspirado na obra clássica de Eduardo Galeano, a publicação periódica abarca variados temas da vasta gama de conhecimentos das ciências históricas (historiografia, educação, economia etc) e das disciplinas filosóficas.