Historiador, filósofo, editor e político, foi militante do Partido Comunista Brasileiro durante toda a vida, sendo pioneiro de uma interpretação marxista autêntica da realidade brasileira Por Yuri Martins-Fontes * PRADO Júnior, Caio (brasileiro; São Paulo, 1907 – São Paulo, 1990) 1 – Vida e práxis política Caio da Silva Prado Júnior nasceu na primeira década do século XX, no seio de uma abastada família de cafeicultores e industriais. Frequentou boas escolas; teve professores particulares. Ainda moço assistiu à Semana de Arte Moderna de 1922. Logo depois entrou na Faculdade de Direito de São Paulo (a Faculdade de Filosofia ainda não existia), formando-se em 1928. Devido à precariedade do meio universitário brasileiro da época, sua origem de classe foi um fator significativo para que pudesse ter acesso a uma formação intelectual “refinada e sólida”1. Neste período, anterior à Revolução de 1930, a política brasileira era dominada por oligarquias regionais, não havendo partidos de dimensão nacional. Entretanto, no estado de São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP) dominava a cena com um poder que ressoava no restante do país. A partir de 1922, com o movimento tenentista, se fortaleceu a oposição – por parte das classes médias e certa dissidência oligárquica – ao clientelismo2 deste partido. A pauta política progressista da época era a de promover um Estado nacional forte que se contrapusesse às elites paulistas. Em 1926, foi fundado o Partido Democrático de São Paulo (PD), com a bandeira da “renovação dos costumes políticos”; no entanto, a agremiação tinha como lideranças latifundiários, que mais tarde se negariam a abrir mão de seus privilégios. Por este tempo, o jovem Caio escreveu o artigo “A crise da democracia brasileira” (1927), no qual acusava a fraude eleitoral operada pelo Partido Republicano Paulista (representante da oligarquia cafeeira) e esboçava uma análise de classes da sociedade nacional. Depois, em 1929, imerso nesse panorama político restrito, Caio Prado se filiou ao PD. Embora breve, esta sua primeira experiência partidária foi intensa: o começo do que seria uma vida de engajamento político. Militante enérgico, impulsionou a penetração do partido em bairros da capital e interior, através de tarefas de organização e comícios para arregimentar correligionários. O objetivo do PD era promover a Campanha Liberal, apoiando a candidatura de Getúlio Vargas contra o oficialista conservador Júlio Prestes. Em meio a essa tensão, Caio gritou saudação a Vargas, em cerimônia da candidatura de seu oponente, sendo preso pela primeira vez.3 Em 1930, J. Prestes, candidato da enfraquecida elite paulista, foi eleito – em um processo fraudulento. Diante disto, as forças opositoras, sobretudo facções da oligarquia gaúcha e os tenentes, se aliaram, fortalecendo-se. Neste processo, Caio Prado atuou em favor dos rebeldes, participando de ações conspiratórias, promovendo a comunicação entre líderes e apoiando a logística de operação de sabotagem. Contudo, com a vitória dos revoltosos e a consequente chegada de Getúlio ao poder, o PD teve expostas suas contradições e falta de programa. Foi assim que Caio Prado, decepcionado com as limitações de sua fração burguesa “radical” no enfrentamento das oligarquias, superaria as barreiras conservadoras de sua classe social, em uma inflexão que o levou a subverter os valores no qual estava imerso e a efetivamente se radicalizar. Em 1931, se casou com Hermínia Cerquilho e teve seu primeiro filho. Neste mesmo ano, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (antigo nome do PCB, hoje Partido Comunista Brasileiro), força política não numerosa, mas que tinha então um programa consistente, apontando para a raiz social e econômica do problema nacional. Membro ativo, Caio Prado entregou-se à organização dos trabalhadores, atuando em organizações de base. O começo da década de 1930 foi conturbado no Brasil – assim como no mundo. A sociedade brasileira, ansiosa por uma nova ideologia que refletisse o tempo de crise do entreguerras, se dividia entre socialistas e integralistas. Em São Paulo, um centro das disputas nacionais, uma crise política culmina na mal denominada “Revolução Constitucionalista” de 1932 – em realidade, um golpe de estado das antigas oligarquias locais para restabelecer a ordem anterior. Caio Prado se colocou contrário a este movimento sedicioso (que chegou até mesmo a atrair artistas da vanguarda modernista). Nesse período passou a militar pelo Socorro Vermelho e pela Cooperativa Internacional dos Trabalhadores, além de participar da fundação do Clube dos Artistas Modernos (CAM) – que abrigou parcela mais politizada da elite cultural modernista. Inclinado à formação de opinião, tão logo se filiou ao PCB, passou a desempenhar a atividade de editor, à qual se dedicaria por décadas. Começou editando o efêmero jornal A Luta e, em 1933, traduziu e publicou Teoria do materialismo dialético: manual popular de sociologia marxista (de Bukharin), obra didática com o intuito de difundir o marxismo. Para viabilizar estes projetos e apoiar o partido, ele desviou verba de sua família, além de interceder junto a amizades politicamente progressistas. Em 1933, visitou a União Soviética e, à volta, fez uma conferência no CAM que lotou a rua. Foi sua primeira atuação significativa como formador de opinião, atividade que consideraria como uma das tarefas comunistas essenciais. Ainda neste ano, veio à luz Evolução política do Brasil, sua pioneira obra de impacto, com que dava início a uma produção historiográfica vigorosa. Em 1934, publicou seu segundo livro, URSS: um novo mundo, fruto da popularidade de suas palestras de 1932. A obra, apreendida pela polícia, trouxe ao escritor um inicial reconhecimento nos meios comunistas – aliás, maior do que aquele resultante da sofisticada análise de seu livro anterior (Evolução…). Nela, investiu contra o pacifismo da social-democracia parlamentar, defendendo a ética da insurreição revolucionária: a única, segundo ele, que realizou de fato o lema da “igualdade entre os homens”4. Em meados da década de 1930, com a consolidação do poder de Vargas, a inicial afirmação política do PCB sofreu um refluxo, e a correlação de forças se tornou cada vez mais desfavorável. A partir daí, Caio Prado evitaria discutir se a revolução deveria ou não ser armada, pacífica ou violenta, acentuando que, antes de se pretender saber a “forma” como se dará a “revolução”, cabe arregimentarContinuar lendo “O marxismo de Caio Prado”
O marxismo de Caio Prado